EntreContos

Literatura que desafia.

O Oritimbó de Sivuplê (Bragança)

Dos poucos que se propuseram a participar da reunião, uma espécie de assembleia extraordinária da família, todos estavam presentes. Não mais que dois, além do próprio responsável pelo encontro, demonstração duma velha pedra no sapato dos Cântarus: a discórdia. Se alguém do tempo em que a família desembarcou na Terra dos Papagaios (já então rebatizada de Brasil) tivesse testemunhado o fato, talvez se surpreendesse com o abandono que os Cântarus dispensavam a si próprios, visível não somente na ausência de quórum como na grossa poeira dos móveis, quase todos quebrados, bem como no fedor de sujeira. Principalmente, porém, no descolorido brasão da família na parede.

Essa negligência era problema particularmente grave, na avaliação de quem convocara, pois o Sobrado dos Cântarus, outrora residência do suprassumo da aristocracia brasileira, e até na semana anterior à chamada perfeitamente intocado em sua decadência física, estava ocupado por um pessoal exótico. Nem era uma linhagem de sangue azul: várias pessoinhas, uma gentalha que se autoproclamava sem moradia e se identificava Família Nenhures. Uns invasores! Viram o Sobrado aparentemente desocupado, se acharam no direito. E a história fidalga dos Cântarus no Brasil enobrecendo o país, não contava? Por si só não era ocupação de espaço suficiente? Onde estavam as leis desta terra inculta?

Os que compareceram ao encontro eram exatamente os que já estavam lá de há muito, por morarem no pavimento superior: os irmãos Dom, Orlean e Bertrand. Enquanto o primeiro andava para lá e para cá, embravecido, na mão o cetro da família de imperadores e reis, os outros dois permaneciam sentados em cadeiras carcomidas pelos cupins tropicais. Ele se considerava liderança nata, por ser o mais velho e eloquente. Na verdade, era muito chato quando empacava com alguma coisa. Ouvidos e paciência eram necessários para suportar as tolices de Dom Cântarus.

— Ao que parece não virá mais ninguém. Inadmissível! Como tolerar tamanho desrespeito à nossa história? De todo o modo, esmorecimento nunca fez parte de nosso vocabulário: precisamos deliberar.

— Deliberemos, pois —provocou, levemente cínico, Bertrand.

Orlean, alheio à importância de qualquer matéria que porventura estivesse na ordem do dia, e pouco se importando com a presença dos moradores do pavimento inferior, tomou a palavra.

— Vários dos nossos mandaram o mesmo recado, com breves modificações aqui e ali. Disseram, cada qual por meio de seu portador, que lamentavelmente não poderão comparecer a este importantíssimo congresso por causa do… trânsito.

— Quem essa parentela supõe ludibriar? Trânsito! É possível desculpa mais troncha? Se todos nós estamos mortos —inclusive eles, os convocados ausentes—, basta forçar um pouco o pensamento que estarão aqui, de corpo e alma, ora pinoias! —esbravejou Dom, sacudindo o cetro.

— Cuidado com o estresse, não me vá morrer novamente… Organizar velório de espírito é complicado…

— Às favas você e suas piadinhas ordinárias, Orlean!

— Meu irmão, eu protesto. Você até pode estar morto, mas eu estou vivinho da silva, e…

— Da Silva?! Não, Bertrand, não… Isso é sobrenome de gente… digamos…  humilde. Os que estão lá embaixo, por exemplo.

— Abaixe a voz, Dom. Já pensou se alguém ouvir? Você poderá ser vítima de processo judicial por conduta politicamente incorreta.

— Bertrand de Deus… Estamos mortos! Somos improcessáveis.

— Eu não estou morto. Ou melhor: meu corpo sim; meu espírito não. E estou bem esperto para suas palavras sinuosas, meu irmão.

Dom, que sempre adorou exercitar sua verve, esclarecer, pôr em pratos limpos, exemplificar, não poderia perder o ensejo oferecido pelo irmão mais novo.

— Você tem macaquinhos no sótão, mas preste atenção, Bertrand: aceite duma vez por todas que já morreu por completo, antes que enlouqueça. Lembra-se de nossa antiga contraparente, a Dona Maria, piedosa toda a vida? Pois é. Não se admitiu morta por séculos e acabou enlouquecendo. Hoje, ela é um espectro perdido nos caminhos que levam a Petrópolis.

Lá embaixo, a batucada contagiava corpos e corações. A Família Nenhures, um movimento político de ocupação urbana, comemorava a etapa vencida ao se apossar dum imóvel desmesuradamente grande e vazio. Enquanto uns militantes se encarregavam de dividir o espaço interno em pequenos cômodos de maneira a facilitar uma convivência harmônica, os outros cantavam e rodopiavam ao som de grandes sambas brasileiros. Uma improvisada churrasqueira assava a carne de gatos vadios, sob o olhar atento de quem se portava como um supervisor, o Sivuplê.

Ele era um papagaio, encontrado quase sem nenhuma pelagem dentro de um saco de lixo, durante uma passeata. Meses depois, perfeitamente sadio, descobriu-se que em estado normal de consciência falava um francês com sotaque cheio de Brasil e um português afrancesado. A depender do humor, resolvia ora entoar um “gauchês” ora encariocar as palavras da língua brasileira ou da que se fala fazendo biquinho.

Mais que isso, Sivuplê era médium (e dos bons!), embora ele mesmo descresse do espiritismo. Não raro, durante as reuniões preparatórias dos Nenhures, das quais sempre participava com opiniões muito bem fundamentadas que remetiam a grandes pensadores obscuros, ele incorporava um espírito charlatão que se passava por Che Guevara. Nesses momentos, andando para lá e para cá sobre a mesa, um histerismo calculado pelo trapaceiro, o papagaio determinava os caminhos táticos. Depois, para aliviar a seriedade, desincorporado, goles de tequila lhe obrigavam a recitar uns poemas chatíssimos de Mayakovsky. Sempre os mesmos. Poucos gostavam da performance, mas ninguém deixava transparecer. Antes, aplaudiam efusivamente ao fim do recital, diante do que ele agradecia, a voz embargada pela emoção.

Lá em cima, obrigado a ouvir “vejam essa maravilha de cenário / é um episódio relicário… / que o artista num sonho genial / escolheu para este carnaval”, Dom estava semipossesso. Sua estirpe aristocrática não conseguia ser vizinha de tanta falta de chiquê. Música que não causasse elã, que não arrebatasse, merecia lá esse nome!

— Sente-se, Dom. Não foi você quem disse, todo urgente, que precisamos chegar a uma resolução quanto antes? —perguntou a tranquilidade de Orlean.

As palavras do irmão fizeram com que percebesse, subitamente constrangido: estava fazendo papel ridículo diante deles. Raios! Precisava descobrir meios de domesticar sua tendência ao histriônico. E sentou-se, bufando. Touro bravo, criança pirracenta.

— Ao que interessa! Bertrand, faz a ata da reunião! Vamos lá: é sob os auspícios de Deus, Nosso Senhor, que declaramos aberta a décima terceira reunião extraordinária da família Cântarus…

— Para com isso, Dom! Somos apenas três. Formalidades são desnecessárias. Não farei ata nenhuma. Foi-se o tempo de reuniões com dezenas de falecidos preocupados com os destinos da família. Hoje reina o desinteresse, e muitos já reencarnaram.

— Você está irremediavelmente contaminado pelo comportamento chulo brasileiro, Bertand. Logo você, um nome tão francês…   

— Pois o samba que vem de lá não é mau, Dom… —retrucou Bertrand—. Observe a rima em “ário”, por exemplo. Não é das mais comuns, há de concordar. Está bem, há uma irregularidade nas sílabas métricas do primeiro verso em relação aos outros, mas é coisa de somenos. Inclusive…

— Falando em francês, o Sivuplê pode solucionar o seu problema, Dom —interrompeu Orlean com a urgência de quem gostaria de estar longe.

— Do que você fala?

— Do papagaio que trazem com eles. Não se trata duma mascote, apenas: é uma espécie de conselheiro político e espiritual do grupo. O detalhe é que o animal consegue nos enxergar, ao contrário das pessoas lá de baixo. Aliás, como eles não nos veem nem ouvem, Dom, resultará inútil a sua provável ideia de assustá-los para que desocupem. Agora, se você incorporar no Sivuplê…

— Ensandeceu, homem?! Imagina se a minha pessoa, o grande Dom Cântarus, descendente direto de…

Bertrand interrompeu, visivelmente irritado com a postura ranzinza do irmão mais velho. Se não fosse o caçula e não tivesse a fama de pouco inteligente, já teria tentado convencer Orlean a darem um golpe na liderança de Dom, alicerçada apenas na primogenitura. Competência mesmo, pouca. Mas não estava disposto a ser chamado de subversor da tradição dos Cântarus.

— Nós já sabemos de sua descendência, Dom. Mesmo porque, é a nossa. Coisa mais aborrecida essa eterna indignação com todas as coisas! Vá dançar, cantar, divertir-se um pouco. Viva a morte em toda a sua plenitude, antes que venha a reencarnação.

— Continuando… —Orlean retomou o fio perdido da meada— Você, Dom, no corpo do papagaio terá autoridade sobre eles, de modo que será possível convencê-los a desocuparem.

— Abandonemos semelhante ideia. Eu não entrarei no corpo dum pássaro verde e amarelo, que fala feito maritaca…

— Maritaca não fala. A família é a mesma, também é bicho barulhento, mas falar que é bom…

— Cala a boca, Bertrand! Criatura insuportável! —Dom explodiu sua arrogância mal contida— Não vou me fazer ventríloquo dum animal, certamente oriundo de mata selvagem, para recuperar nosso direito secular diante da arraia-miúda —nem é preciso dizer: foi Dom quem disse isso.

— Nem ele falando francês? —provocou Bertrand.   

— Não me diga que…

— Precisamente. E melhor que uns e outros, embora fraqueje no sotaque —completou Orlean—. O problema é que haverá uma disputa renhida pelos espaços físico e político. É que o Che Guevara impedirá qualquer um de nós, legítimos representantes da elite, de ocupar o palanque que ele julga ser exclusivamente dele.

— Esclareça melhor, Orlean —Dom começava a interessar-se pela estratégia.

— O papagaio é “cavalo” do guerrilheiro Che Guevara. E como se trata duma ave poliglota, erudita, é ótimo instrumento para transmissão das ideias dele, para quem, diga-se, a luta sempre continua. Assim sendo, ocupar Sivuplê é expulsar o atual inquilino ou, pelo menos, negociar politicamente com ele.

Após se debaterem num diálogo difícil, pontuado pela ironia nos mais diversos graus, e pela soberba, os três Cântarus conseguiram pactuar alguma coisa. Impensável um acordo diplomático: as ideias de ambos os lados eram excessivamente opostas para isso, segundo avaliação de Dom.

Optaram pelo uso de força moderada. Endurecer sem perder a ternura, digamos. Os três desceriam a larga escadaria, lado a lado, cowboys de western dispostos a resolver a pendência. Enquanto Orlean e Bertrand imobilizariam Che antes de ele se apossar do corpo do papagaio, Dom incorporaria no pássaro, e a partir daí imitaria o modo de falar do “revolucionário”, alertando a Família Nenhures para a necessidade imediata de evacuar o imóvel. Não poderia esquecer-se de, durante os “conselhos”, aos quais batizaria com o majestoso nome “ponte de transição tática”, repetir certas frases de efeito, como “hasta la victoria siempre”.

Dom decretou o término da reunião, muito satisfeito com o caminho encontrado. Ordenou aos irmãos que o aguardassem antes de descerem, pois precisava arrumar-se com a imponência exigida pela ocasião.

No entanto, o roteiro era falho. Apesar de considerar-se intelectualmente superior, um verdadeiro dom, Dom menosprezou o ridículo, erro quase sempre de graves consequências. De modo que, tão logo os irmãos principiaram a descida, Sivuplê desatou uma gargalhada sem freios no poleiro onde até então rebolava, cantava e vigiava a qualidade da carne assando. Se não desabou na churrasqueira foi porque o suposto Che Guevara impediu.

Enxergava os três irmãos, mas não estava de fato entendendo o verdadeiro carro alegórico que era Dom no meio deles. Além do cetro, vestia uma roupa como se fosse imperador, medalhas à mancheia que pesavam o fardalhão, dragonas douradíssimas. “Qu’est-ce que c’est?”, perguntava insistentemente o papagaio, gargalhada vândala, ao seu amigo “revolucionário”. A mesma pergunta os Nenhures se faziam, entreolhando-se, pois nada viam. O falso Che não perdeu tempo diante do perigo que corria: incorporou no papagaio e desandou a tagarelar num espanhol mentiroso.

— Atención máxima, compañeros y compañeras, por causo di que lá das bandas de riba la dominación enreda el contraofensiva! La cabeluda intención es secuestrar eu d’ocês. En la verdad, esses bandoleros filhos de una madre pretenden introducirse en el Sivuplê, compadre de nosotros. ¿Y saben por dónde?

O samba emudeceu.

— ¡No es posible deixar barato! ¡Todos acá urgentemente! Ha que se erguir una muralla para preservar el oritimbó de Sivuplê. Si quieren porradón…

Todos cercaram o papagaio e ficaram em guarda, soldados a perscrutar o vazio, enquanto Dom se perdia no embaraço. Ao antecipar-se a Orlean e Bertrand, o falso Che deixou claro: se dois corpos não ocupam o mesmo lugar ao mesmo tempo, de que modo incorporar em Sivuplê?

— Irmãos Cântarus, meia-volta à assembleia…

Anúncios

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 3, Comédia Finalistas.