EntreContos

Literatura que desafia.

O tempero da baiana (Sátira Menipeia)

– Mãe, o que ela era minha?

Flávia franziu a testa. Pelo que entendia de relações de parentesco, a defunta não era nada de seu filho. Optou por uma explicação técnica.

– Filhinho, ela era casada com o irmão da sua avó Quitéria, era tia de consideração do seu pai – explicou,  depois resumiu –  seria uma espécie de tia-avó de consideração sua.

O pequeno André fez cara de que tinha entendido e concentrou a atenção nos três degraus que levavam ao vestíbulo da grande casa amarela.

Estavam em Miraúba, cidade natal do marido – interior da Bahia, região da Chapada – de férias e também para  comemorar o aniversário de Dona Quitéria. A intenção era de que a ocasião  fosse aproveitada para um grande encontro familiar. A morte súbita, desajeitada, de tia Nitinha, uma lástima, os surpreendera assim como ao restante da parentada que lá estava   também a pretexto do aniversário.

A família estendida de Pedro parecia infinita à Flávia. Não dava conta de a quantos primos e tios já fora apresentada desde sua chegada três dias atrás, dias esses preenchidos por almoços e jantares emendados na casa de um e de outro.  

Até se agradara da finada tia Nitinha nos poucos minutos que haviam conversado num desses encontros comensais. Tinha uma aparência calma e discreta, assim como a sogra, a fala mansa, as feições arredondadas, tão diferente do estilo de sua própria mãe e as amigas cariocas, sempre ansiosas e com muitos adereços.  

Quem sabe não fora uma indigestão dessas comilanças que a matara, pensou Flávia ao entrar na sala, que, embora grande e arejada, estava quente, cheirando flores e gente amontoada, ambiente desagradável, como era de se esperar.

A cunhada com  os três filhos,  primos de idades próximas à de André, sentados cabisbaixos em duas cadeiras, estavam acomodados próximo à entrada.

– Que bom você ter chegado, Flávia. Dá uma olhadinha nos meninos enquanto eu vou ver se tem alguma coisa em que eu possa ajudar.

Falou sem pausa para respirar ou para que Flávia retrucasse. Assim era a cunhada, sempre disposta a terceirizar o cuidado dos filhos ao primeiro trouxa que aparecesse.

No outro lado da sala, sobre a mesa grande de jantar jazia o caixão, muitas flores em volta, onde a defunta descansava. A cunhada desapareceu pelo corredor que dava acesso à área interna da casa. Gostava de parecer prestativa. Para Flávia, era apenas uma criatura  enxerida, inconveniente e abusada, que todos os anos passava as férias hospedada na sua casa com a desculpa de aproximar os primos, mas interessada mesmo em aproveitar no zero oitocentos a cidade maravilhosa.  

– André e meninos, fiquem quietinhos aqui enquanto eu vou cumprimentar aquela tia ali – ia dizer ao lado do caixão, mas preferiu apontar  – e já volto.

A tia era uma gordinha lustrosa, filha da falecida, muito loura e rosada, o cabelo fino e oleoso grudado na cabeça. Flávia sentiu um desgosto ao abraçá-la.

– Meus pêsames… Sou a Flávia, esposa do Pedro,  filho da Dona Quitéria– achou prudente se identificar;  assim como  não lembrava o nome da prima era provável que também a prima não se lembrasse do dela.  

– Muito obrigada, minha linda! Estou lembrada de você; Pedro nos apresentou na casa de tio Dindinho. Fique à vontade. Tem refrigerante e salgadinhos naquela mesa – apontou a mesa com a mão que segurava uma espécie de croquete cheio de gordura.  

Os três filhos da gorducha, rosados, louros e roliços como ela, com cara meio chorosa a cercavam. Flávia abaixou-se e beijou os três porquinhos. Cumprimentou rapidamente duas outras primas do marido, cujos nomes também não lembrava, antes de voltar para junto do filho e dos sobrinhos, estranhando a ausência dos homens, os maridos, no ambiente.

André estava com uma cara estranha. Olhos arregalados, boca virada pra baixo, balançando as pernas, agitado.

–Mãe, por que você não canta uma musiquinha pra alegrar a criançada?

Flávia teve que segurar o riso. Era professora de música. Também dava aulas particulares de  canto em casa. Tirou André da cadeira, sentou-se e puxou-o de volta para seu colo.

– Musiquinha não vai dar, filho. Posso  contar uma história daqui a pouco, lá fora.

Os sobrinhos também se inquietavam.

– Tia, a gente pode ir lá no caixão ver a morta? – perguntou o mais velho da cunhada, nem bem ela havia sentado.

“Ai, ai” – pensou Flávia  –  “e agora?”. Impossível proibir. Maldita a hora que deixara  Pedro convencê-la a ir àquele velório.

– Eu acho que não tem necessidade,  mas se vocês querem ver, podem ir.

Os três se levantaram ligeiro. André demorou um pouco mais.

– Também quero, mãe. Nunca vi um defunto.     

Flávia achou  prudente ir atrás. Tipo de situação que devia ser proibida para menores.

Debruçados no caixão, escrutinando a falecida, as crianças bombardearam Flávia de perguntas:

– Tia, se a gente sacudir, ela levanta?

– Se gritar no ouvido dela, ela acorda?

– Se chutar o caixão, ela se mexe?

Logo,  viram os três porquinhos, netos da defunta , chorosos e desaceleraram as perguntas querendo chorar igual.

– Mãe, ela é o que minha, mesmo? – perguntou André já com os olhos úmidos.

– Já te falei, filinho, ela é parente distante.

–  Não é, não, mãe. Você falou que ela era tia…..e  avó, também – disse com a voz tremendo, os outros três também já prestes a cair no choro.

Flávia já havia feito as crianças sentarem de volta, enxugara-lhes as lágrimas e  lhes servira coca-cola com  salgadinhos quando os homens, inclusive o viúvo e os dois filhos homens da falecida, ausentes até então,  adentraram o velório.

– Onde você estava Pedro? Sumiu, me deixou aqui sozinha, nessa roubada desse velório da sua tia agregada… – sentiu-lhe o bafo de cerveja misturado com cachaça – você estava bebendo, Pedro?

– É um costume da família, Flávia, já te falei isso.

– Falou o que, Pedro? Ir pra barzinho beber quando alguém morre? Nunca ouvi isso.

– Já te expliquei que aqui no interior, nessa cidade, na minha família, sei lá, tem esse hábito de celebrar a morte. Não tem nada demais. É um costume comum em sociedades mais primitivas – teorizou. Pedro era sociólogo de formação, funcionário público, burocrata do legislativo estadual, por profissão.

– Quer dizer que vocês foram beber pra comemorar a morte da sua tia? O viúvo também?

– Não é comemorar, Flávia. Ficamos lá lembrando, falando sobre a tia. Tio Carlito ficou contando como ela era boa, elogiando as virtudes dela, essas coisas.

– Eu, hein, Pedro. Nunca vi disso.

– Ainda tem mais…

– O quê?

– Lembra que estava combinado um vatapá na mamãe hoje?  

– Ahan..sim…lembro.

– Pois estão trazendo o vatapá pra comer aqui.

– Não acredito… Vão servir vatapá no velório?

– Não, depois do enterro. Não tem pra todo mudo. É só pra família.

– Tipo uma festa? E o seu tio, o viúvo; sua mãe, a cunhada; aquela gorducha ali, filha; todos de acordo?

– Minha mãe foi contra. Disse que tia Nitinha não gostava disso de fazer furdunço em velório. Falou que não vai vir aqui e ameaçou jogar o vatapá fora. Mas meu pai mandou trazer assim mesmo. Disse que o povo tem que comer,  o vatapá está pronto e se não comer estraga. É uma coisa prática.

– U-hum…entendi. Provavelmente enquanto comem  vão tomar cerveja, contar piada, discutir política, falar de futebol… Se fosse minha mãe, eu não deixava.

– Mas não é sua mãe, meu amor. Fica calma. – afastou-se em direção ao caixão, dando por encerrada a conversa – vou ali ver a tia e já volto.

O viúvo, aos prantos, um terço na mão, tecia loas e promessas de amor eterno à falecida com bafo de pinga e a língua enrolada. Há quem diga, Pedro, por exemplo,  que estava bem perto quando o tio falava,  que o semblante, antes sereno da defunta, ganhou uma ruga de reprovação na testa nessa hora.

As quinze fecharam o caixão, logo em seguida partiu a procissão rumo ao cemitério. Os dois filhos da finada, Pedro e o irmão e mais outros dois primos seguravam as alças. Na comitiva,  gente da cidade, funcionários da fazenda e da grande casa amarela e o resto da família. O viúvo seguia amparado,  menos pelo abatimento da perda  do que pela quantidade de cachaça cujo efeito notava-se pelo andar arrastado e trôpego.

A cunhada de Flávia, ainda descuidada dos próprios  filhos, seguia de braço dado com a filha da defunta, a gordinha lustrosa. Os três porquinhos iam atrás de mãos dadas com uma mucama da finada Nitinha, essa sim, muito chorosa e sentida.

Mais tarde, quando voltavam do cemitério, uma das primas de Pedro comentou com Flávia, ao pé do ouvido, que a cunhada, havia cuscuvilhado os armários de dona  Nitinha e descoberto além das joias, roupas de cama sem uso, cristais trazidos de viagens, louças finas de boa marca e que certamente os agrados que fazia à filha da falecida eram para faturar alguma parte desse legado.

De volta à casa amarela, a mesa onde antes estivera pousado o caixão com o corpo da finada já estava forrada com uma toalha estampada de branco e encarnado. A louça também branca, os talheres e os copos estavam sendo espalhados pelas duas empregadas despachadas antes do final do enterro, de forma muito pragmática, pela gordinha ensebada.

Flavia assombrou-se mesmo foi com o reuso para enfeitar a mesa de algumas flores que antes ornavam o caixão, talvez o cadáver. Sentiu uma tontura de enjoo e avisou ao marido que ia embora.  

– Vou com o André e os meninos pra casa da sua mãe. Não quero participar dessa orgia de  comer sobre a mesa onde minutos atrás havia um cadáver deitado – falou,  dramática – Avise à vaca da sua cunhada que levei os filhos dela comigo.

Passou o fim de tarde e a noite na companhia da sogra, também ela desgostosa com a falta de respeito, quase uma barbárie, de se reunir para comer estando o cadáver da falecida ainda tão fresco.  O certo era que cada um fosse para sua casa, foi o que a sogra disse.

Defronte a um bule de chá de capim cidreira recolhido do quintal, Dona Quitéria contou-lhe  longas  histórias da finada Nitinha, de quando eram crianças, depois mocinhas e já mulheres feitas. Além de cunhadas eram também primas, tinham uma bisavó em comum, e haviam crescido praticamente juntas. Flávia, que não tinha por parte de pai ou mãe tios e tampouco primos,  enterneceu-se  com o relato do carinho entra as primas e,  vendo André  distraído com os filhos da cunhada na sala, pensou que talvez valesse a pena aturar-lhe a  chatice para legar ao filho aquele tipo de amizade misturado com parentesco.

Lá pela s tantas, bêbadas ambas de tomar chá e conversar, Dona Quitéria confessou à Flávia a travessura tremenda que havia feito.  Misturara laxante no vatapá. Uma quantidade tal que certamente todo mundo passaria três dias no banheiro.

– Quem sabe eles aprendem e não repetem essa palhaçada no dia que eu partir dessa pra outra.

Deu uma gargalhada sonora e as duas foram dormir.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 3.