EntreContos

Literatura que desafia.

Aventuras e Desventuras de uma Jovem Democracia (Vencecavalos S.B.)

O Congresso Nacional é e sempre foi um instrumento de importantíssimo valor à democracia da terra sobre a qual vos escrevo, a terrinha. Sempre que questionada a sua funcionalidade, daria um passo à frente um respeitadíssimo deputado ou senador para bater no peito e bradar indignado como se a questão tocada fosse a pureza da própria senhora sua mãe:

─ Quer Vossa Excelência nos retornar aos tempos incivis da tirana monarquia?

Veja bem, talvez meu caro leitor não seja familiarizado ou até tenha, em trágico erro de memória, esquecido o valor da democracia, mas nessa terra ela é um prêmio, o orgulho nacional daqueles que moram nela. Esse território conheceu períodos verdadeiramente obscuros como colônia de algum país europeu, com algum rei designando a terra como “sua Fazenda” e, a bem da civilização e de seu santo dever para com o seu Senhor, promovendo a morte de milhares dos nativos em que a catequese não pôde ser aplicada. Isto é, uns bons noventa por cento da população nativa.

Mas esses tempos terríveis tinham passado, com a impecável musa da democracia nascendo nessas terras a partir do momento em que a monarquia foi colocada abaixo e as tropas militares, encabeçadas por um patriota de alta patente, proclamaram a República! Há más línguas que digam que a motivação do supracitado patriota foi mulher, mas boatos sempre ocorrem e é impossível de não reconhecer o valor do primeiro presidente ao prestigiar o soberano poder pular.

Apesar de que, ao tempo da proclamação, ninguém realmente soube muito bem o que significava e o maior desafio da população foi não engasgar-se com as novas nomenclaturas do estado.

─ Império não, República!

Ou, em casos mais dramáticos:

─ Súditos não! Cidadãos!

Ninguém conhecia muito bem a palavra cidadão, mas ela soava bonita e os jornais encorajavam que esta fosse dita de punho cerrado batido no peito. Mais encorajador do que os jornais foi a própria ação estatal, em singelas conscientizações dos mais resistentes que incluíam um uso sutil de tropas militares e declarações de guerra aos ditos “simpatizantes da ultrapassada monarquia”. Talvez o caso mais famoso tenha sido um ocorrente num interior distante de uma das regiões mais pobres do país, onde um vasto grupo de pobres-diabos uniram trapos em um ponto só e montaram ali uma cidadezinha, encabeçados por um homem barbudo que dizia conhecer os desígnios do Bom Jesus.

─ É aqui que residem os simpatizantes da monarquia? ─ perguntaria o Coronel à frente do exército.

O suposto santo coçaria a barba, olharia para os céus e jejuaria por uns três dias antes de responder. Nesse tempo, tinham morrido centenas de cada lado, mas todos se calavam para ouvi-lo.

─ Da última vez que eu olhei era monarquia sim, não era não?

─ Lá está um monarquista!

Esse processo repetiu-se quatro vezes. Diz-se que ao fim da guerra tinham uns dois mil soldados gritando a palavra “República” para dois rapazes moribundos, um velho e uma criança que, resignados, concordaram:

─ República…

Esse é o constrangimento mais conhecido na construção dessa prodigiosa democracia. Há quem seja besta em apontar as votações fraudulentas, violência dos senhores de terra e vasto esquema de manipulação para garantir que políticos das regiões ricas dali e de cá alternassem na presidência, mas a estes, sempre houve as inquestionáveis palavras de ordem:

─ Está questionando o senhor a legitimidade do voto, de tão árdua luta para sua conquista, pela qual a espada do nosso primeiro presidente foi levantada?

─ Não, não é isso, mas…

─ Põe em dúvida o senhor… a pureza de um processo pelo qual morreram milhares contra os monarquistas fanáticos daquele pobre interior?

─ Não, não, longe de mim, mas…

─ É patente e dever do senhor… desestimar as palavras escritas com tanta responsabilidade em nossa bandeira?

─ Não, não, desculpa…

Já houve casos de mais insistência e a retórica patriótica sempre venceu, mas, aproveitando que foram trazidas à tona as palavras da bandeira, falemos de um dos momentos mais críticos desta jovem, mas digníssima democracia. Foi o momento em que uns bons oitenta e cinco por cento dos parlamentares constavam investigados por corrupção e o próprio Presidente da República apareceu em um vídeo vazado, em que entrega chumaços de dinheiro a outro homem em garantia de que ele mantivesse silêncio sobre os seus negócios. Em contrapartida de dispendioso silenciamento, no mesmo vídeo o Presidente assina a venda de trinta e cinco micos-leão dourados, descarrega ele mesmo, mangas arregaçadas até os cotovelos, alguns quilos de cocaína ─ que, em todos os boatos, não seriam para ele, mas para o silêncio e tranquilidade de um outro senador muito chegado ao pó ─ e, enfim, conversa nervosamente ao telefone na língua inglesa, em uma rouquidão débil que mesmo os mais experientes na língua não puderam decifrar nada mais do que “Trump” e “if you want to fuck me, kiss me first, Mr. President”.

Perante o vazamento do vídeo, o Presidente não silenciou-se, foi a público, deu entrevista. É preciso esclarecer uma outra coisa sobre o referido presidente: o sujeito não se atentou aos últimos dois acordos ortográficos e as suas leituras preferidas são detidas na última constituição e suas emendas e na literatura encerrada pouco antes do século XX ─ período em que o referido presidente estaria entrando na vida pública, no auge de sua juventude ─ algo tão refletido em seu vocabulário que, nos poucos discursos que dá, intérpretes de libras transcrevem o que os intérpretes da TV conseguem, não sem muito esforço, traduzir da fala do Presidente. E, depois do trabalho desses guerreiros da comunicação não reconhecidos, saiu uma tradução simples do que o Presidente quis dizer:

─ Aquele vídeo é mentira, não fiz nada que consta ali e é tudo um mal-entendido!

A linguagem erudita não é a sua única qualidade notável. Afinal, sua gestão foi reformista e, em apenas um mês de governo, o Presidente entrou com reformas na educação, na previdência, nas leis trabalhistas, nas políticas alimentícias, nas questões ambientais, nas leis de trânsito, nas possibilidades envolvidas no próximo filme dos Vingadores e até mesmo, por via de decreto, interferiu no inflamável e secular debate da nação, decidindo que na terrinha não existe bolacha, só biscoito, salvo alguns casos particulares.

Pode até ser redundante chamar atenção para o caso dos biscoitos ter sido tramitado por via de decreto-lei, pois afinal, nenhuma das reformas citadas sequer passou pelo Congresso, todas colocadas em forma de decreto ou de medidas provisórias. Quando questionado a respeito, as palavras do presidente sequenciavam-se no que acabou se tornando seu jargão, dispensando até mesmo as traduções dos intérpretes. Quando aquelas palavras eram proferidas, todo cidadão sabia que se tratava de alguma reforma, que o presidente tinha falado e também podia apontar um meme envolvendo o dizer. Era bem assim:

─ Nesta crise herdada pela gestão anterior, não há tempo para enfrentar burocracia e é meu dever enquanto líder desta democrática nação tomar as atitudes pertinentes o mais rápido possível!

O Presidente nunca mencionava que ele constituía a gestão anterior.

Com um país encabeçado por um homem tão sábio, os jornais não conseguiam compreender como a nação continuava mergulhada na crise. Claro, exibiam os índices de aprovação quase negativos do presidente e diariamente havia um novo parlamentar receptor de propina, porém, as manchetes eram sempre otimistas: Como a nova gestão vai lidar com os novos escândalos de corrupção? Depois de intermediar no antigo conflito entre a bolacha e o biscoito, a nova gestão deve enfrentar crise orçamentária e internacional, também antiga e secular.

Nesse mencionado otimismo que deve estar presente em qualquer nação que se preze por democrática, houve parlamentares verdadeiramente empolgados. Dois deles em particular, o senador chegado ao pó ─ que é suspeito falar, pois este está sempre animado ─ e um que tatuou o nome e rosto do presidente no braço. De acordo com ele, no rol dos homens íntegros Jesus já havia sido muito tatuado e a ideia de tatuar o presidente havia sido só dele. Alegou que foi uma questão de estilo, originalidade e moralidade.

Mas então houve o dia mais crítico da história da nação. O dia em que, pela primeira vez, o presidente não eleito (a história de como o presidente chegou ao cargo é marcada por controvérsias, sucessivos impeachments e escândalos de corrupção que iam das praças públicas à carne comercializada, mas é uma politicagem muito grande para constar nesta sátira) conversou diretamente com um cidadão. Quando questionado sobre a sua baixa popularidade e pelo fato de ele nunca ser visto em uma sala onde pelo menos uma pessoa não esteja de terno, a resposta foi o jargão:

─ Nesta crise herdada pela gestão anterior, não há tempo para medir burocracia e é meu dever enquanto líder desta democrática nação tomar as atitudes pertinentes o mais rápido possível!

Naquele dia… naquele fatídico dia, ninguém soube como, nem mesmo o chefe de segurança do presidente, mas em uma coletiva de imprensa, o presidente se viu frente a frente com um cidadão. Claro, o presidente vinha lidando com nada mais do que cidadãos, mas com lidar, diz-se distribuir alguns milhões. Não era o caso ali. De frente para ele estava um ex-cabeleireiro, que tinha adentrado o país para tomar conta da fazenda de um primo. E o homem tinha uma pergunta. As câmeras observavam, toda a imprensa se calara e, intermitente na troca de olhares entre presidente e fazendeiro, tinham os flashes das câmeras. O homem tinha uma pergunta e todos já tinham o visto. O Presidente teve que responder.

─ Responderei, meu filho. Mas preciso que seja rápido. Nesta crise herdada pela gestão anterior, não há tempo para medir burocracia e é meu dever enquanto líder desta democrática nação tomar as atitudes pertinentes o mais rápido possível!

─ Vou ser rápido, seu presidente… é bem simples, mais curiosidade mesmo… uhm… com quais palavras o senhor substituiria o lema que tem lá na bandeira?

O Presidente piscou, inclinou-se um pouco para frente como se não tivesse ouvido. O homem repetiu, manteve-se o silêncio. Até mesmo os flashes pararam. O Presidente voltou à postura de antes, deu uma breve risadinha, os ombros levantaram e caíram. As mãos sinalizaram e mesmo nesse gesto não houve resposta. Ele encarou o rapaz nos olhos e não viu nenhum desafio, só uma pergunta sincera. A do pior tipo. Pensou. Houve um flash solitário, perfeitamente captado pela gota de suor recém-nascida na testa dele E, enfim, as palavras saíram de sua boca.

─ Puta que pariu, fodeu.

Estava próximo o suficientemente do microfone para poder ser ouvido e, incrivelmente, era uma resposta completamente aceitável, o rapaz agradeceu e, no dia seguinte, o pronunciamento do presidente estava nas manchetes. O presidente não só assunta sobre previdência, educação, meio-ambiente e bolacha e biscoito, também é das reflexões do presidente o verdadeiro espírito patriótico!

Pois coincidiu que dois dias depois os supracitados oitenta e cinco por cento do Congresso foram presos e, sobrando apenas uns dez e para não entravar a administração do país, foi suspendido o quórum mínimo. Saiu do Senado, elaborada pelo agora conhecido senador da tatuagem, um Projeto de Lei para alterar as palavras da bandeira incorporando os sábios dizeres do presidente. Tinham mais uns dez parlamentares que votaram a favor numa forma de protesto, mas ninguém realmente entendeu que se tratava de um protesto e, em uma semana, milhões eram gastos para trocar as bandeiras nas praças públicas, os novos dizeres escritos: Puta que pariu, fodeu.

Foi a única medida do presidente aprovada pela maioria da população e nas entrevistas com os cidadãos predominavam os elogios. O polêmico fazendeiro foi encontrado e pôde responder, sorriso no rosto:

─ Acho que essas palavras realmente captam o espírito da pátria!

Formulada com ajuda de um cidadão, aprovada no Senado e pela população, as novas palavras da bandeira vieram em conforme com o processo democrático!

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 3, Comédia Finalistas.