EntreContos

Literatura que desafia.

Couve sorridente (Horinando Numuro)

Transilvânia, 1898

Um homem a cavalo seguia lentamente por uma estrada, nas montanhas dos Cárpatos. O cavaleiro dormitava, tanto quanto a montaria, esta, seguindo o rumo por instinto. Então, eis que, quando de repente, encontraram uma figura estranha na margem do caminho.

O cavalo relinchou, alertando o cavaleiro que ergueu a cabeça, olhando para o homem. Sentado debaixo de uma laranjeira, o sujeito comia uma laranja. Nada de estranho isso, mas sim, a sua vestimenta. Ele usava óculos escuros, luvas e um casacão que o cobria das orelhas até a ponta dos pés.

O viajante saudou-o:

– Bom dia, meu bom senhor! Acho que me perdi pelo caminho. Poderia me dizer se essa estrada me leva ao castelo do conde Drácula?

O sujeito meneou a cabeça e respondeu: – Estou de férias e resolvi não ajudar ninguém.

Estranhando a resposta grosseira do estranho, o cavaleiro fez o cavalo prosseguir.

– Da próxima vez, preste mais atenção nas placas de sinalização, Abraham Van Helsing.

Ao ouvir seu nome, Helsing puxou as rédeas do animal.

– Nós nos conhecemos?

– Conheço você, conheço todo mundo. Sei de tudo e de todos.

– O senhor é vidente? Lê pensamentos?

– Não exatamente como você pensa.

– Mágico? Profeta?

– Muito mais do que isso – respondeu o homem com um leve sorriso.

– Como se chama?

– Zeus.

– Deus?

– Não! Zeus, Abraão trocou o Z pelo D. Zeus, o Abstrato, mas pode me chamar de Ze ou Zé, tanto faz.

Zé tirou uma palha do bolso da camisa, colocou o fumo e enrolou com cuidado, umedecendo a borda com a ponta da língua. Com o cigarro entre os dedos, acendeu-o com um isqueiro. Ele tragou a fumaça como se esperasse algo prazeroso, mas logo se ergueu e começou a tossir como se fosse botar os pulmões pela boca. Acalmando-se, jogou o cigarro no chão e esmagou com a botina.

– Merda! Eu nunca me acostumo com isso!

– O senhor sabe mais alguma coisa sobre a minha vida?

Zé voltou a sentar-se, suspirando.

– É claro! Teu pai se chama Bram Stoker e tua mãe, Florence Helsing. Você não gostava de estudar e teu pai ameaçou te internar num colégio de padres, então, você se esforçou, estudou e resolveu ser médico. Na faculdade se apaixonou por uma moça chamada Lucy Westenra e como não era correspondido, deixou a faculdade de medicina para ser jornalista com a intenção de ser correspondente de guerra no Oriente Médio, com a esperança de lá morrer por uma lança árabe. Por fim, você achou que não valia à pena se suicidar por amor e se tornou um caçador de vampiros, quando soube que Lucy havia sido mordida por uma dessas criaturas da noite. Acertei?

Zé, o Adivinho.

Abraham Van Helsing espichou o lábio inferior e sacudiu a cabeça, concordando.

– O senhor pode me dizer alguma coisa sobre o meu futuro?

– O teu destino é traçado de acordo com alguns eventos aleatórios normal no sistema em que você vive, alguns deles você pode controlar através de decisões corretas, visando um futuro melhor.

– E como vou saber quais são as decisões corretas?

– Siga a Lei de Murphy!

Zé, o Lógico.

– Meu horóscopo diz que…

– Baboseiras! Fico espantado quando me deparo com alguém em pleno século dezenove, ainda acreditando que os planetas dirigem sua vida! Que a Terra é redonda!

Helsing procurou ignorar aquela reprimenda.

– Dizem que mundo vai acabar um dia. Pode me dizer quando isso vai acontecer?

– Precisa uma catástrofe acontecer para depurar a humanidade?

O tom de voz de Zé foi duro e Van Helsing ficou a pensar se aquela pergunta era hipotética ou uma advertência.  Resolveu mudar de assunto.

– Existe vida fora da Terra?

Zé ergueu a cabeça, espichou o braço pegou outra laranja do galho mais baixo e começou a descascá-la com o canivete.

– Você existe, não existe? – respondeu ele.

– Sim, claro! Mas, não entendi! …

– Conhece a piada da minhoca?

– Não.

– Duas minhocas conversavam, disse uma: – Ouvi dizer que existe vida fora da terra. A outra respondeu: – Só pode ser vermes com duas cabeças!

Zé começou a rir, ria tanto que ficou vermelho, parecia que ia explodir.

Abraham não achou nada engraçado, mas riu da mesma forma só para agradá-lo.

Zé se acalmou e passou a comer a laranja.

Enquanto ele comia, Van Helsing ficou a pensar no significado daquela parábola, mas logo desistiu. Resolveu fazer outra pergunta.

– Sempre me preocupei com meus atos aqui na Terra e com meu futuro na eternidade. Quando eu morrer irei para o paraíso?

Zé curvou-se e começou a se sacudir, parecia rir, mas fez gestos estranhos até que Abraham entendeu. Pulou da montaria e com a mão aberta bateu forte nas costas dele. O homem havia se engasgado. Cuspiu o bagaço da laranja, respirou fundo e relaxou, embora o rosto continuasse avermelhado.

Zé, o Imperfeito.

– Estou te dando à oportunidade de fazer perguntas importantes e você me vem com asneiras!  – disse ele de mau humor.

Para não o aborrecer mais, Abraham procurou mudar de assunto. – Bem, vejo que o senhor sabe de tudo, gostaria de saber se têm outros poderes. Poderia fazer alguma coisa sobrenatural?  Fazer aquela vaca no campo voar, por exemplo.

– Como já disse, estou de férias, não farei mágicas nem milagres, e também por questões de extraterritorialidade.

Zé, o submisso.

– Extraterra….extratel…não deu!

– Você já me fez muitas perguntas. Não vou responder a mais nenhuma.

– Isso não é justo! Faz dias que estou viajando. Estou cansado!

– E eu queco?

– Queco?

– E eu quecom isso? -após uma pausa, disse: – Está bem! Vou lhe dar a chance de responder a sua última pergunta se você resolver um enigma. É muito fácil!

– Manda, seja o que Zeus quiser!

– O que é que, de manhã anda com quatro pés, meio dia anda com dois e à tarde com três?

Zé, a Esfinge.

– Essa é muito fácil! É o meu vizinho o doutor Frankenstein, ontem ele saiu de manhã com a carroça, meio dia voltou a pé, porque quebrou uma roda, no caminho machucou o pé e voltou para casa à tarde, de bengala.

Zé olhou-o, admirado por tamanha ignorância. Ergueu-se e disse:

– Faça a sua pergunta, preciso ir.

Abraham não levou muito tempo para pensar.

– Está bem. Como faço para chegar ao castelo do conde Drácula?

Zé apontou com o dedo. – Siga por aquela trilha.

Abraham olhou na direção indicada e quando se voltou, viu apenas os óculos, as luvas e o casacão estirados no chão. Zé havia sumido.                                      Acima da copa das árvores, soou um bater de asas.

                                                  x-x-x

Inglaterra, 1899

Carregando uma maleta, Van Helsing parou em frente ao casarão no alto do morro. O lugar se chamava Wuthering Heights. Quando ele chegou ao castelo de Drácula, na Transilvânia, o vampiro já havia fugido para a Inglaterra. Seguindo a pista dele, descobriu que ele havia alugado aquela casa no Morro dos Ventos Uivantes, em Yorkshire, de propriedade de Emily Brontë.

Era de madrugada, o dia estava para nascer. Van Helsing colocou a maleta no chão, abriu e pegou seus apetrechos, ou por outra, suas armas para enfrentar o vampiro. Àquela hora, Drácula estava se deitando em seu sarcófago para se esconder da luz do dia. Antes de entrar na casa, Van Helsing foi atrás de um arbusto, esvaziar a bexiga (Personagens de ficção também tem suas necessidades fisiológicas, né?).

Aliviado por um lado e tenso por outro, Van Helsing dirigiu-se para a porta da frente e enfiando um arame pelo buraco da fechadura, abriu o trinco. Entrou, procurando não fazer ruído, para não acordar Renfield, o servo de Drácula. Mas, as tábuas rangiam a cada passo que dava. Rec! Rec! Ele tirou os sapatos, um passo, outro, porém, o barulho parecia ter ficado mais alto. Pisou na ponta do pé e o ruído aconteceu da mesma forma. Foi então que ele descobriu que era um papagaio num poleiro, fazendo aqueles rangidos a cada passo que ele dava. Helsing teve que enrolar uma fita adesiva no bico da ave.

Logo depois ele estava no porão. Abriu o caixão de Drácula e enrolou uma fieira de dentes de alho no pescoço dele, depois jogou água benta por cima, cravou três estacas no peito e prendeu-o com correntes. Mesmo assim, Drácula abriu os olhos e ficou indignado.

– Quem se atreve a me acordar a essa hora? Ah! Só podia ser você, Helsing! Pensei que tinha desistido!

– Pois, você se enganou seu morcego fedorento! Se enganou também, quando disse que eu gostava de Lucy, quando na verdade era de Mina Murray, mas ela se casou com Jonathan Harker e me suicidei casando com a filha do doutor Jekill e fui idiota quando pensei em convidar senhor Hide para padrinho.

Drácula riu.- Enganei você fingindo ser o Todo Poderoso.

– Claro que eu sabia que era você, seu tonto! Eu estava tirando sarro da tua cara, pois sabia que, se tentava te pegar, tu irias se transformar em morcego e fugir. Quem mais iria usar capote num dia claro na Transilvânia?  Até o leitor já sabia! Você pensou que me enganava quando apontou para a estrada da esquerda.

– Eu sabia que você iria pensar que eu pensava em te enganar apontando para a esquerda, quando na verdade era para a esquerda mesmo!

– Pois foi por ali que eu fui, seu burro!

– Burro, se eu ficasse no castelo.

– Chega de papo-furado, morre logo!

– Renfield me ajuda!  Renfield, seu inútil, onde você está?

Van Helsing agiu rápido, arrastou o vampiro para fora, prendeu-o no portão de ferro e esperou pelo amanhecer. Não demorou muito tempo o sol nasceu e o vampiro inflamou-se e foi consumido em chamas. Só restou as cinzas e a dentadura postiça dele. Ninguém sabia que ele não tinha mais dentes. De tanto morder pessoas diabéticas, Drácula estragou os dentes e precisou usar dentadura postiça. Satisfeito com o dever cumprido, Van Helsing tomou a carruagem e foi embora.

Quando Renfield acordou, no seu catre no sótão, desceu para comprar uma pizza de formigas e grilos à bolonhesa. Encontrando a dentadura, as cinzas, o alho, as estacas e as correntes, no portão, percebeu logo o que tinha ocorrido. Lamentou-se pela morte do amo e como seu servo fiel e dedicado, recolheu as cinzas num vaso para ser levado para a Transilvânia. Mas, antes de chegar ao porto para pegar o navio, o servo do vampiro mais famoso do mundo, pisou num cocô de cachorro, escorregou, perdeu o equilíbrio, caiu rolando pelo barranco e despencou no convés de um dos navios ancorados no píer. Acordou no Brasil, onde mudou de profissão, de mordomo de vampiro passou a ser deputado federal.  O vaso ficou lá, na beira da estrada. Filomena, uma senhora viúva de 91 anos, passando por ali e encontrando o vaso sem dono, pegou e o levou para casa.  Colocou terra dentro e plantou uma semente que ela tinha guardado pensando ser de girassol.

Dali a alguns dias, em vez de girassol, nasceu uma Dioneia. Filomena não conhecia aquele tipo de flor, mas ficou encantada com os dois dentinhos que ela tinha na boca. Um dia, ao regar a plantinha, a Dioneia picou a mão dela e ficou chupando o sangue. A velhinha achou engraçado aquilo e todas as manhãs, em vez de regar a flor com água, ela passou a dar o dedo para a planta sugar o sangue. Não levou muito tempo, a pobre velhinha acabou morrendo de anemia. Por falta de alimento, a Dioneia também faleceu.

Filomena foi sepultada. O vaso alguém levou e plantou uma semente. Dias depois, nasceu uma couve com dentadura.

 

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 3.