EntreContos

Literatura que desafia.

Meu Deus (Príncipe Judas)

co.mé.di.a (latim comoedia, -ae) substantivo feminino. 1. Peça de teatro cujo assunto é tirado de fatos ridículos e jocosos da vida social. 2. Gênero desta composição. 3. [Figurado] Impostura; fingimento. 4. Fato, sucesso ridículo e irrisório.

”As cortinas se abriram. Uma onda de aplausos invadiu todo o templo. Os sorrisos estampados nas faces dos presentes condiziam com aquela atmosfera cheia de gozo.

– Esses aplausos são para o Nosso Pai. Amém irmãos? – perguntei de forma irônica/provocativa lá do alto do púlpito. Já esperando aquela velha resposta.

– Amém! – em um uníssono que preencheu os poucos vazios que restavam.

– Vejo aqui muitos ungidos na paz do Senhor.

– Amém! – mais uma vez, num som de arrepiar.

– Quero ver essa animação durante toda a palavra. Abram sua bíblias em primeira Samuel, capítulo cinco e versículo seis – esperei 20 segundos e prossegui – Todos acharam? Muito bem. A palavra do Senhor nos diz o seguindo: “Porém, a mão do SENHOR se agravou sobre os de Asdode, e os assolou; e os feriu com hemorróidas…” – ouço algumas risadinhas em meio ao silêncio solene. É minha hora de descontrair – Eu sei irmãos, vocês nunca esperavam encontrar essa palavra nas divinas escrituras. – risadas generalizadas dessa vez, risadas sem medo – mas então irmãos, onde paramos? Pois bem, nesse trecho….

Duas horas abençoadas de palavra transcorrem. Muitas risadas e “améns” são emitidos nesse período. No final do culto sempre tem toda aquela sessão de apertos de mãos, tapinhas nas costas, elogios e sorriso falsos. Após tudo isso me retirei para meu quarto. Passando por debaixo de uma faixa enorme na entrada do templo com a as seguintes palavras estampadas: “18º RETIRO DA SALVAÇÃO”. Ao chegar em meus aposentos, encontrei a mulher da minha vida me esperando.

– Como foi o culto meu varão?

– Muito bom. No final sacrificamos uma ovelha e bebemos seu sangue.

– Misericórdia! repreendo em nome de Jesus. É sério, não diga esse tipo de coisa. Como foi?

– Pessoas chorando, falando em línguas, pedindo perdão pelos pecados. O mesmo de sempre.

– O que aconteceu meu bem? Tá tão desanimado.

– Eu não sei. Toda semana é a mesma coisa. As mesmas pessoas. As mesmas palavras. As mesmas lágrimas. Os mesmos filhos de Deus pedindo perdão pelos mesmos pecados. Chega um momento em que você começa a se questionar. Será que o Pai realmente toca a vida das pessoas?

– Não diga uma coisa dessas! Você sabe que sim, por quais outras razões você manteria uma igreja se não acredita que Deus pode mudar a vida das pessoas?

Não sabia como falar isso. Meu estômago estava embrulhado. Parecia que eu esperava aquele momento por anos. Tomei coragem e respondi da melhor maneira que encontrei:

– Honestamente? Dinheiro.

– O que?!? COMO VOCÊ PODE DIZER UMA COISA…. puta merda. Você não acredita mais mesmo?

Balancei a cabeça negativamente em movimentos lentos. Sabia que tudo podia acontecer.

– Então acho que não temos mais o que discutir. Por favor, não quero que você durma aqui hoje.

– Entendo, vou procurar outro quarto, até amanhã, te amo.

– …

– Tá bom, estou saindo.

– …

– Tchaaaau.

Passei pela porta e a fechei. Abri em seguida.

– Disse alguma coisa?

– SAAAÍ!

Um sapato social de couro preto tamanho 41 voou em minha direção. Meu susto foi tão grande que bati a porta com toda a força que o desespero me permitia. Fiquei torcendo para ninguém acordar com o barulho e ir ver o que havia causado aquele estrondo. Esperei alguns minutos na soleira da porta. Não tinha como voltar.

– “Todos os quartos estão ocupados, vendemos todas as entradas para esse evento. Não vou conseguir dormir nessa merda mesmo. Vou para o lago… pensar.”

————————————————————————-

Comecei a ir em direção ao pequeno lamaçal sem vida que é nominado de lago. Quando eu comprei aquela propriedade aquilo realmente era um lago. Sob a luz da Lua cheia via-se  toda aquela propriedade. Senti uma pontada de satisfação. Feliz por vencer na vida. E  fiquei ligeiramente, apenas ligeiramente, orgulhoso. Por não abaixar a cabeça diante daqueles que não acreditavam em mim. Afastei esses pensamentos. Deus sabe o que penso. E eu sei que o orgulho é o pior dos pecados.

Passando pelos pavilhões em que os fiéis descansavam após um dia de muito louvor e adoração. Penso em quão frágeis são suas mentes. Fracas por sucumbirem aos erros do mundo tão facilmente. Depois de vinte anos ministrando a palavra do bom Deus. Todos os momentos difíceis que passei por conta de uma vida dedicada primeiramente para com Deus, colocando minha esposa em segundo plano. Os dias de pobreza que se seguiram após largar meu emprego para atender o chamado divino. Teria sido tudo em vão?

Cheguei na pequena porção de água lamacenta, meu coração disparou quando notei um indivíduo na beira.

– “Os pavilhões de descanso ficam trancados de noite. Quem pode ser” – pensei. Chegando mais perto percebi que o homem era completamente careca, estava agachado, passando a mão no barro aquoso que refletia a pálida luz lunar em tons marrons. Um sentimento estranho me fazia crer que ele me aguardava. Foi então que ele se virou lentamente. Pude ver seu rosto. Claro como o dia. Um rosto duro. Olhos inteligentes e penetrantes. O único elemento que quebrou meus temores e me deixou curioso foi seu sorriso, envolto em um cavanhaque, era sarcástico, sarcástico como só o Diabo pode ser. Foi então que ele me disse:

– Você não acredita mais.

Estava petrificado. Quando finalmente abri a boca soltei um estúpido:

– O quê?

– Você entendeu seu imbecil! Eu vi você naquele altar de alienação. Olho no olho agora. Você ainda acredita nesse Deus judaico-cristão? – Perguntou, com olhos esbugalhados, aquela estranha figura humana.

– Quem é você? – Não sabia mais o que estava acontecendo.

– Meu nome é o nome do mais puro mal. Meu nome é o nome da mentira, do ódio e da decadência. Tenho muitos nomes. Mas o que está na minha identidade é Anton LaVey.

Aquele nome. Já tinha o ouvido antes. Não lembrava quando nem onde. Explorava minha memória como um contador procura um livro de contas em um arquivo. Foi aí que a lembrança veio tão forte quanto um trem desgovernado. Uma matéria da BBC. Lá em meados dos anos 60. Que era sobre uma cerimônia realizada nos Estados Unidos. Um ritual profano. Jorrando heresia por tudo aquilo que eu pregava. Um batismo satânico. Então reconheci aquele homem das filmagens do evento. Muito mais novo. Ele vestia um capuz com chifres, ao lado de uma mulher nua. Consagrando sua pequena filha ao Cão. Fiquei horrorizado,tamanho foi o choque que dei dois passos para atrás. Pensei em girar meu corpo e fugir.

– Não corra.

Por alguma razão. A autoridade em sua voz me fez ficar ali. Imóvel.

– Eu apenas queria lhe agradecer pela maravilhosa pregação de hoje, ou ontem, afinal, já passou da meia-noite – ele sorriu gentilmente.

– Obrigado – disse secamente.

– Você fala com muita convicção. Gostaria de dizer paixão. Mas vejo que isso já se foi faz tempo.

– Como ousa questionar minha fé? – até hoje não sei como tomei coragem para proferir tais palavras.

Ele ficou parado ali. Por alguma razão. Imaginei que ele iria gritar e me espancar. Mas tudo que ele fez foi me olhar com um olhar de sensibilidade. Como um adulto olha para uma criança que não tem noção de sua própria imbecilidade.

– Eu já vi homens do seu tipo a minha vida toda. Tem um futuro brilhante te esperando. Venha ver o que estou fazendo do outro lado do Pacífico. – Ele tirou do bolso de seu casaco preto um cartão e me entregou.

Era um cartão de visitas preto, tinha um pentagrama invertido com uma cabeça de bode no meio. Embaixo, em letras góticas “Anton LaVey – Músico, fotógrafo forense, domador de feras de circo, ocultista e fundador da Igreja de Satã.”

Eu, como homem de Deus. Pastor. Que dedicou grande parte da sua vida à missão de propagar o cristianismo deveria fazer o que com aquela peça gráfica diabólica? Rasgar aquele cartão de apresentação, literalmente, satânico. Poderia ter queimado, mergulhado em água benta ou jogado no cesto de objetos blasfemos do culto de quarta-feira. Mas não. A única atitude que tomei foi pegar minha carteira e colocar aquele retângulo preto dentro.

– Meu número está na parte de trás. Me ligue se mudar de ideia. – me encarou e apenas disse – você vai ter tudo aquilo que quiser se desacreditar – ele passou por mim e foi caminhando até eu o perder de vista. Não olhou para trás em momento algum.

————————————————————————-

Voltei para o meu quarto. Pedi perdão para minha esposa. Nos conciliamos e oramos juntos pedindo para Deus abençoar nosso casamento e nosso retiro. Três dias depois eu liguei para ele. Combinei de visitar a sede da sua organização na América do Norte. Falei para minha amada que tinha sido convidado para ministrar em um congresso de pastores internacional. Chegando nos EUA eu fui direto para o endereço que me foi dado. Fiquei assombrado e maravilhado. Aquela ordem pseudoreligiosa abriu meus olhos e me mostrou a maneira certa de se viver. Anton era a pessoa mais sábia do universo. Descobri que ele recrutava vários outros como eu mundo afora, pobres coitados que perderam a fé. Claro que depois descobri que seu nome verdadeiro era Howard Stanton Levey. E que ele nunca tinha sido domador de animais de circo. Mas eram boas mentiras. Como se leva a sério alguém chamado Howard? Enfim, larguei minha esposa e a minha igreja. Larguei o “plano de Deus”.

Virei amigo íntimo de Lavey. Tanto que, em 1988, ele me pediu para escrever uma biografia dele. Ele sempre dizia que eu escrevia muito bem. Que saberia honrar a vida dele com belas palavras. Dois anos depois foi lançada, intitulada como: “A Vida Secreta de um Satanista”. Foi creditada como sendo da autoria de sua secretária (Com a qual alguns anos depois ele teve um filho). Mas isso não me ofendeu, era o jeito LaVey de ser. Sua morte foi muito sentida por mim. Ele deve estar em paz no inferno.

Estou ficando emotivo demais. Já contei mais do que deveria. Pois bem, foi assim que virei satanista. Sou um discípulo do inferno já fazem 16 anos. Um pouco de verdade sobre as “trevas” que são a Igreja de Satã e o Satanismo LaVey para vocês do New York Times. De nada.

Barney BlackHolloway

Sacerdote da Igreja de Satã.”

Cliquei em “enviar”. Estava orgulhoso de mim mesmo. Como é bom sentir orgulho sem nem um pouco de culpa. A campainha toca. Vou ver quem está no meu portão. Um jovem funcionário da FedEx.

– Boa tarde Senhor… BlackHolloway?

– Eu mesmo.

– É uma encomenda para o Senhor. Preciso da sua assinatura.

Assinei e peguei o pacote. Na verdade era um envelope. Abri e encontrei uma pequena carta em que estava escrito:

“Eu escolhi você para escrever minha biografia pois, colocar um homem que perdeu anos de sua vida devoto numa crença morta, que converti ao satanismo, batizei para Belzebu, para moldar a história do maior satanista da história é simplesmente o maiior escárnio já feito.

PS: É estranho pensar que, se você está lendo isso, eu morri.

PPS: Te vejo no inferno.

PPPS: Muahahahaha.

Com muito ódio e amor,

Howard Stanton Levey.”

Fiz o que qualquer pessoa em minha posição faria. Gargalhei até doer o estômago e comecei a escrever sobre isso.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 2.