EntreContos

Literatura que desafia.

Cabocla tinhosa (MJ está entre nós)

Em um bar de uma cidadezinha do interior de Goiás, dois homens, um granfino e um caipira, trocam um dedo de prosa, em meio a goles de cachaça. Zé, uma espécie de faz tudo e Cristiano, um candango recém-formado em Agronomia.

– Moço, ainda não tô acreditando na morte do Seu Nonato.

– Foi muito repentino, mesmo.

– O que ocê disse? Numtendi.

– Foi inesperado.

– Ah, neim, moço! Poxa, fala minha língua! Dô conta não de entender o que ocê fala, essas chiquezas da cidade.

– Desculpa, Zé.

Cristiano ajeitou os óculos de sol com o dedo. Ele já estava acostumado  a repetir metade das suas falas. Nem ficava irritado. Dizia para si mesmo que era culpa dos políticos que não estavam interessados em educar a população. Esquecia que ele fez parte dos jovens privilegiados com educação de qualidade da cidade.

Geralmente, no sábado o bar se tornava o ponto de diversão da cidadezinha. Mas, com a morte do Curoné Nonato, as pessoas resolveram adotar o luto. Este que somente foi visto pela última vez quando o Padre Jorge foi se juntar com o Chefe Maior.

– Quem vai administrar a fazenda agora? – Perguntou o candango.

– Moço, fico aguniado só de pensar nisso.

– Por quê?

– A filha mais nova. A Caboclinha.

– Então teremos uma Coronel agora?

– Sim, moço. Mesmo que isso seja contra a ordem da natureza. Onde já se viu, ser mandado por uma muié.

O garoto da cidade tomou um gole de sua cachaça. Aparentemente, ele demoraria tanto para se acostumar com a queimação da bebida quanto para se acostumar com os caipiras e seus ideais. As garotas de Brasília costumavam dizer que Cris era um tesouro entre os homens, já que era um dos poucos que não demonstrava nenhum sinal de acreditar que era superior às mulheres.

Por um momento, ele pensou em rebater alegando que elas estavam conquistando o merecido espaço. Mas o caipira Zé repetiria as velhas idéias, ignorando o tesouro candango.

Para o garoto, restava repetir para si uma frase da música de uma cantora sertaneja:

– Você não vai mudar.

Zé bateu o copo de cachaça, puxou da garganta uma cusparada no chão e soltou o bom e velho “Argh”.

– A mardita bateu com força.

– Ainda não vejo problemas com uma mulher comandando a fazenda.

– Moço, confia em eu. Seu Nonato devia estar tonto das ideia quando deu a fazenda prela. Ou talvez seja um golpe da Caboclinha, aquele tinhoso.

Cristiano esboçou um sorriso. Zé se escandalizou com a reação do garoto da cidade:

– Moço, acredita em eu. Deixaéufalar! Num é possível que depois dessa história ocê não entende eu.

Na cabeça de Cristiano, era muito fácil ser considerado um tesouro perto de alguém como o Zé.

– Menino, ouve eu. Seu Nonato teve duas muiér, com anel e tudo. A primeira era o verdadeiro amor do homí. Mas ela não podia ter filhos. A bixa morreu de tristeza. Foi durmir e nunca mais voltô. Umas boca do mal dizem que o Curoné matô ela. Mas sacomé essa gente, especiarmente essa muierada fofoqueira. São umas chupá-sofrimento, ô disgraça. A segunda era uma furmusura. Seu Nonato se rabichou por aquele pedaço de ruim caminho lá na cidade. Dizem que foi uma noite, mas ocê sacomé, é o que precisa para ficar prenha. O homi ficou tão feliz. Trouxe para a fazenda a muié com a minininha e a cuia atrás. Um ano dipois, mais outra minina. Seu Nonato precisava de um garoto pra mandar na fazenda. A esposa dele não queria ter mais. Dizia que duas era o suficiente. Mais um iria cabá com a furmusura dela. O Curoné deu um jeito de escapar da arapuca. Disse que se ela ficasse barriguda outra vez, pagaria uns troço lá pra rebocar ela.

Crisitano riu e disse:

– Você quer dizer cirurgia plástica?

– Isso, moço. Ocê sabe que não entendo essas língua da cidade. Mar isso não é importante. O povo da casa dizia que a muié, como todas azotra, teimou como um burro empacado, bateu o pé e disse não. Már um dia, ela apareceu prenha, depois de uma viagem que fez sozinha pra cidade.

– Quer dizer que o Coronel foi traído.

Mesmo morto, Seu Nonato ainda era uma lembrança forte na cabeça do povo, especialmente na do Zé.

– Ocê é loco?! Falá um troço desse do falecido Curoné? Que Deus o tenha!

– Perdão, seu Zé. – Com uma ironia que o caipira não captou, o granfino perguntou: – Como aconteceu o milagre?

– Milagre? Foi o que o povo pensou. Menos as faladeira interesseira. Elas diziam o mesmo que ocê. Mais tarde, nós vimo, com os próprio zóio que não era milagre não. Seu Nonato fez um pacto com o cabeça-de-morcego.

– Quê?

– O sete-pele, o tinhoso, o chifrudo.

– Ah, sim!

– A minina, quando nasceu, foi a felicidade da casa. Caboclinha era a beleza que o sertão num tem. Acho que todos os homí dessa cidade olhavam para aquele rabo-de-saia. Cabelos pretos que lembram noite de lobisomí. Olhos de mel e os lábios… Moço, só de lembrar, dá aquele fogo que muié formosa causa.

Quem olhava para Zé naquele instante podia acreditar que ele falava da comida que só a mãe de cada um faz e não de mulher. Talvez ele acreditasse que a Caboclinha fosse a personificação da comida da Dona Zefa.

– Quando ela começou a se tornar muié, o tinhoso dentro dela apareceu. Teve um dia, que um pião se engraçou com ela. O infeliz acreditava que ela queria ele. O Curoné ficou possesso. Disse “Ocê tem duas opção; saí agora da minha cidade ou vai levar um tiro na suas bola.”

– Claro que ele foi embora.

– Não foi moço. Ele ficou. Bixo burro! Jurava que a Cabocla disse que ficaria com ele mesmo assim. O coitado deixou de ser homí por causa dela. E não recebeu nenhum um olhar daquele capeta. Morreu de desgosto.

– Ora, seu Zé. Ele estava apaixonado por ela.

– Ele era doido. Isso que ocê quis dizer. – Talvez fosse culpa da bebida, mas o granfino achava graça na história. – Ocê ainda não acredita nimim?  Ó esta história. Ao contrário dazirmã, Caboclinha não queria casar com os homí daqui. Queria ser idependente, num depender de homí. Ela infernizou tanto o Seu Nonato que foi mandada lá para sua cidade. Foi estudar. Dizem que trabalhava com uns homí de terno. Acho que ela é adevogada.

– Advogada. – Cristiano corrigiu.

– Isso memo. Adevogada. O falatório daqui era terrível. Seu Nonato matou um porque falou mal da Caboclinha. Um tiro bem no mei do zóio. Memo sendo doida varrida, o pai amava ela. Eu lembro do dia que ela disse que estava de assanhamento com um gaúcho. Sabe aquele buato que os homens lá de baixo desse Brasil não gosta da mesma coisas que eu e ocê, são invertidos?

– Sei. Tudo brincadeira. – O granfino conhecia muitos gaúchos e se tinha uma coisa que eles não gostavam era das piadinhas sobre a tal da inverteza

– Não, moço. Se dizem, é porque deve ser verdade. A voz do povo é a voz do Bom Deus. Diziam, com tom de brincadeira de már-gosto, que Caboclinha ia se casar com o Gaúcho Macho. Um ano dipois, Seu Nonato recebeu a noticia do casório. O Curoné ficou feliz da conta sô. Tirou da cabeça da fia a ideia de um casamento lá na Capital. Um absurdo. Fia minha tem que casar na minha casa, ele dizia.

– A cidade parou, com certeza.

– Már é claro. Todo mundo foi convidado, exceto os inimigo dele. Curoné abrigou as duas família na casa dele. Os gaúcho parecia tudo igual aquele povo que ganhou de sete do Brasil. Uns falavam pió que ocê. Eu num entendia nada. Diziam que era do interior, como nós. Tinha fazenda também. As coisas iam bem até uns dois dia antes do casório. Moço, eu nunca vou esquecer aquelas noites.

– Parece que foram horas inesquecíveis.

– Foi. Eu lembro que estava na casa principár, junto com as família, trocando um dedo de prosa que nem agora. Bebendo a tal da cerveja atersaná. Troço ruim da porra! Prefiro a cachaça.

– Sim, continue.

– Exceto as criança, todo mundo bebendo. Prosa para lá e para cá. O pai do noivo viu que o fio tinha passado do limite. Normal, estava nervoso. Casar com aquela furmusura era de tirá alguém da casinha. Um amigo dele levou ele para o quarto. Um preto alto, forte. Parecia uma árvore. Eu fiquei jogando baraio com os familiares do noivo. Me roubaram mil vezes. Nunca vi. Mudava a regra todo jogo. Por volta da hora do cantar do galo, todo mundo já tava acordado. Todo mundo viu o negão sair do quarto do noivo tampando com as roupa a grande vergonha dele. Parecia um braço, moço.

A imagem de um braço no lugar do famoso dito cujo fez Cristiano rir.

– Moço, não ri de um troço desse! Seu Nonato queria porque queria meter uns furos no gaúcho. A sorte é que a família estava para sarvár o rapaz. Trair a Caboclinha com um preto no dia do casamento… Ninguém sabia o que fazer. A tinhosa, quando soube, simplesmente se trancou no quarto, quieta. Uns ouvia ela chorando. Outros viam o noivo invertido tentar consertá a história: “Não aconteceu nada, tchê! Sou gaúcho macho!” dizia. Caboclinha não respondia. “Bah, amor acredite em mim!”

– Taquepariu! E o que fizeram do casamento?

– Carma, moço. Tô chegando lá! Nem o Curoné conseguia entrar no quarto da filha. As irmã da Caboclinha, sempre invejosas, cochichavam feliz com os maridos sobre o ocorrido. A cidade já comentava, chacotando: Caboclinha e seu marido invertido. A noiva não havia cancelado o casamento, mas nem sabiam se a Cabocla tava viva. Aposto que tinha gente turcendo para a morte da minina. Na noite seguinte, todos foram durmir achando que num ia ter casório, már sim velório. Talvez dos noivos e do negão. Nessas horas, o preto não escapa da bala.  Mais uma vez, com cantar do galo, o povo acordô. Seu Nonato, acompanhado das filhas, foi no quarto da Caboclinha. As família ficaram em silêncio, esperando e esperando… Até que ninguém mais quis esperar. Moço, a cena até hoje me assombra de madrugada quando tô sozinho.

– Fala logo, seu Zé.

– Seu Nonato tava com a mão na porta, congelado. As filha imitava o pai. E assim todos imitava  as fia que imitava o Curoné. Na cama, Caboclinha durmia carma como um anjo. Már, na verdade, ela era o tinhoso. Nada protegia as vergonha dela. A pele dela era tão bunita. Pele de muié… E do lado dela, tinha uma outra muié, tão nua e tinhosa quanto Caboclinha.

Existe um mistério que, dificilmente, um dia será solucionado. Por que os homens ficam tarados quando imaginam, vêem ou qualquer coisa que envolva duas mulheres?

– Como era a outra? – Cristiano indagou desesperado.

– Parecia um fantasma de tão branca. Loira… Devia ser um fantasma, mesmo. Ou um capeta vestido de deusa.

– E o que aconteceu, depois?

– Cabocla acordô. Como se não fosse nada, ela fechô a porta. Todo mundo desceu, chocado, para a sala. Meia hora depois, a filha do Curoné e a fantasma foram imbora com o carro do noivo…

O granfino entendeu a agonia do caipira. Não culpava ele. Entendia, até certo ponto, as dores do colega de fazenda porque, apesar das diferenças, eram homens. Um da roça e o outro da cidade. Ainda assim, compartilhavam o grande medo da tal mulher tinhosa.

O fato é que a Cabocla era a tal da mulher que sabia o que queria. Fazia o que dava na telha. Se divertia do jeito que bem entendia. Como o Zé falou, queria ser independente.

De fato, Caboclinha era uma tinhosa. E mulher assim assusta até o próprio Tinhoso.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 3.