EntreContos

Literatura que desafia.

Amor concreto (Sabrina)

Confesso que foi uma surpresa descobrir a profissão dela.

Martina havia desviado o olhar de mim. Não sei se por vergonha, ou se ela já estava com tudo planejado mesmo, desde o início. Mas, o fato é que foi realmente espantoso vê-la pela primeira vez misturando — com tamanha maestria — o cimento com a areia e a água, vestindo um singular macacão cor-de-rosa.

De mesma cor eram o capacete, os óculos e os demais materiais de proteção que, por lei, estava obrigada a utilizar no trabalho. Ela e todos os outros empregados daquela pequena firma do ramo da construção civil.

Sim, Martina era pedreira. Isso mesmo: pe-drei-ra; com “a” no final. Carregava sacos de cimento, massa corrida, pedras, areia, tijolos… Tudo em seu carrinho de mão personalizado — repleto de corações pintados sobre o ferro da carcaça — e sem deixar nada a dever a qualquer homem.

Claro que ela não conseguia carregar, de uma vez só, o mesmo peso que seus colegas de trabalho, todos do sexo masculino. Mas, guardadas as devidas proporções corporais, poder-se-ia dizer que Martina, toda miudinha e delicada, era até mais eficiente do que seus companheiros profissionais; pois era rápida e, no quesito “acabamento” não havia nenhum outro que a superasse.

Ninguém levantava uma parede como Martina. Desde a fundação e reboco, até a finalização com a pintura e os rejuntes. E olha que eu nem quero me prender muito agora falando sobre as inovações que ela trouxe para a profissão, pois assim não corro o risco de estragar o final desta história…

Mas, vamos ao básico. Martina desenvolvia combinações e criava acabamentos que apenas a sensibilidade feminina poderia ser capaz de produzir. Diluía perfume na água de preparo do cimento, misturava purpurina na massa corrida, preenchia com papel couché colorido os espaços ocos dos tijolos de vidro… Fazia a festa!

Isso lhe rendera certa fama na área e o apelido, entre os colegas e até mesmo seus chefes, de “Mãos de Anjo”. E, quando lhe perguntavam — inclusive em algumas matérias de revistas e jornais, que já tinham lhe entrevistado — sobre qual seria seu ‘segredo’ para tanto sucesso, ela sempre respondia, de pronto, que era só trabalhar com o coração.

O mais intrigante é que Martina não era lá muito chegada a demonstrações de afeto e sentimentalismos que, normalmente, são vinculados à imagem das mulheres. Quando a conheci, por exemplo, ela estava me contando — o que só depois fui descobrir ser mentira — a situação em que estava o corpo de um colega, chamado Paulo, que fora vítima de um violento, e fatal, acidente de trabalho.

Eu havia acabado de ser contratado pela empresa e, já em meu primeiro dia na obra, ao chegar no pátio, dei de cara com a multidão que cercava uma enorme poça de sangue, onde um cobertor descansava esticado por cima de um monte que nem de longe lembrava uma silhueta humana.

Martina estava lá em cima do prédio em construção, inabalável, misturando o cimento com tamanha perfeição que até hoje não sei se reparei primeiro nisso ou nos contornos, igualmente perfeitos, que preenchiam aquele macacão cor-de-rosa.

Me apresentei, gaguejando de certo, e nossa primeira conversa girou em torno do que sobrara do corpo do coitado do Paulo, flagrado por ela ao chegar no serviço; que ficou estendido — ou melhor descrevendo: amontoado — ainda por horas lá embaixo, até ser por fim removido após uma longa perícia.

Eu nunca havia ouvido falar da Martina, nem nunca tinha trabalhado como ajudante de pedreir‘a’ até aquela data. Na verdade, eu nem imaginava que isso pudesse existir. Que ela pudesse existir…

Martina não era apenas uma pedreira mulher. Ela era, para meu martírio, a mulher mais perfeita que eu já tinha visto. Visto, revisto, entrevisto… E eu, por mais que tentasse, não era capaz de parar de olhar para ela! Uma mulher maravilhosa, estonteante.

Eu não conseguia acreditar naquilo!

E, depois de conhecê-la, foi exatamente “naquilo” que eu não consegui mais deixar de pensar. Olhava para Martina e pensava… Falava com ela, e pensava… Ela falava comigo, eu ouvia aquela voz rouca, via aqueles lábios carnudos mexendo… E pensava. Pensava e pensava…

Não conseguia evitar! Cada gesto, cada frase, cada virada de rosto, de corpo; a forma com que ela segurava a pazinha, no cabo daquela pazinha, enquanto alisava a parede recém-levantada… “Mãos de Anjo”! Martina era a encarnação da luxúria que eu sequer supunha possuir dentro de mim!

Hmm, possuir…

Possuí-la! Sim, era o que eu mais desejava. E, com o passar do tempo, esse delirante impulso tomou conta de todo o meu ser, respaldando um comportamento que a cada oportunidade, natural ou produzida, me fazia avançar rumo à insensatez.

Foram semanas de tentativas, de vãs investidas. Martina não me dava brecha. Nenhuma… Seu profissionalismo era contumaz e, quanto mais difícil se mostrava aquela desafiadora situação, mais tentadora e audaz tornava-se minha próxima ação.

De início, foram apenas palavras. Palavras repletas de paixão, sobrepujando o enojado repúdio recebido em troca. Uma troca unilateral de desejo, de avanço descarado, de sofreguidão…

Baixo calão.

Então, veio a grande chance. Uma oportunidade imperdível e irresistível… Finalmente, o destino havia decidido me ajudar naquela já inverossímil conquista. Meu coração batia disparado, retumbante, com uma crescente certeza oriunda de um presságio arrebatador e que, irrefragável, conclamaria a sorte como parceira.

Martina, enfim, cedera aos tão destemidos esforços empreendidos por mim. Após tamanha persistência, chegava o momento de colher os suculentos frutos de uma libidinosa árvore, plantada com extremo cuidado. Regada dia após dia em seus ouvidos, com os mais sujos e germináveis sussurros.

O solo fértil onde toda essa paixão iria afinal desabrochar seria, como em uma antologia poética, o mesmo no qual a vira pela primeira vez. O local em que pousara meu olhar sobre um atrativo roseiral, onde sentira o desejo incontrolável de colhê-la, de sorvê-la; onde fora inebriado por seu mel.

O andar interditado da obra.

E foi ali, diante daquela ainda inacabada parede de tijolos, que meu espírito saltou de meu peito rumo às mãos de anjo de Martina. O Anjo da Morte, da minha morte.

Vítima indefesa de um amor inusitadamente concretizado, meu coração por fim foi — e pelo tempo que durar aquele prédio assim permanecerá — eternizado dentro de uma colorida e perfumada parede.

Bem ao lado do coração do Paulo.

Anúncios

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 3.