EntreContos

Literatura que desafia.

Vagante (Gilson Raimundo)

Não se pode precisar quanto tempo faz, nem qual versão da história seria a mais fiel. Quando alguém a conta, ela se altera segundo a empolgação do narrador, uns adicionam e outros subtraem, no mais, pode ser apenas delírios de alguns malucos menestréis em busca de trocados nas vilas miseráveis em torno da floresta. Tenho também minha versão, espero registrá-la fielmente como me foi contada e recontada em minha mais doce infância.

Alguns dias eram suficientes para vencer a travessia pelas trilhas da mata até o vale vizinho, em outros tempos seria uma agradável aventura, os viajantes cordiais apoiavam-se uns aos outros e novas amizades eram sacramentadas embaixo das grandes copas das árvores, agora não existia confiança. A pobreza aumentava motivada pela ganância dos senhores locais, revoltas camponesas varriam as terras do leste, os povos do sul enxotavam os degredados maltrapilhos que sem recursos apelavam aos saques ou infestavam as pequenas cidades com suplicas de caridade.

Seu primeiro encontro foi inusitado, algo imponderado como tudo em sua vida. Não escolhemos o que somos, podemos apenas aperfeiçoar aquilo em que nos tornamos. Cada dia, cada aprendizado é uma partícula de areia no grande deserto dos corações solitários, e naquele em particular nada germinava, mesmo as piores coisas não sobreviviam ao se alimentar de tantas amarguras, com o tempo ele mesmo se tornou uma delas, era somente uma alma perdida em meio à desilusão.

A noite fria embalada por ruídos lúgubres ocultava sua dor, apesar de toda aquela escuridão sabia que o ferimento em sua perna possuía gravidade, ao se libertar certamente não iria muito adiante, o cheiro do sangue era um convite para criaturas famintas, serviria de repasto aos cães sarnentos, um fim indigno para quem viverá sempre só e na morte permaneceria assim.

Alguns arbustos próximos se moveram levemente, alertado pelo som tentou descobrir seu algoz. Galhos finos se partiam, a sensação de ser observado eriçavam todos os pelos de sua nuca. Esperava logo o ataque, queria um fim abreviado pois já estava conformado com o fracasso da empreitada. A luta não era necessária, não haveria glória em prolongar o sofrimento, se entregou de alma escancarada.

Brilhante é aquele que no silêncio não precisa palavra alguma para dizer tudo que seja necessário. Um olhar mesmo que turvo pela noite selou a amizade improvável entre dois seres totalmente antagônicos. O cheiro do medo esvaia-se dissipado pela brisa, o sorriso da alma antes seca e improdutiva reascendia a esperança naquele par de corações que já não se permitiam sonhar. Os desajustados acabam se atraindo.

Seguir seu destino solitário não era mais possível, apiedou-se daquela estranha criatura, seus olhos escoriam compaixão. A solidão era muito fria, mesmo que apenas por mais uma noite, quiçá por toda uma jornada.

Achegou-se ao cativo, com um pouco de desconfiança tentou força a armadilha. Um gemido de dor ressoou baixinho, qualquer barulho alertaria os predadores. Com jeito a mola se soltou, sua perna finalmente não sentia a pressão covarde do metal sem vida. Livre daquela armadilha, não sabia que estava entrando numa outra bem mais elaborada, dali em diante estavam presos pelos laços da amizade,unidos por um pacto invisível.

Naquela mata de aura tensa, quando os viajantes perdidos se entregam ao desespero, os vagantes se põem à espreita. Mas esta não é uma história de punição, é um conto de esperança, enquanto houver caráter, o andarilho das sombras não vai desistir, ele conhece todos os caminhos da salvação.

Com a peste brutal fazendo sua filha minguar tossindo e sangrando, tendo as entranhas feridas pela triste dor da fome, Ana muitas vezes preferiu a morte, mas esta não a levou. O marido laborava inútil sem prover o sustento até que um dia encontrou sua bela flor estagnada sobre o leito, nem o consolo da esposa obteve. Perdeu a filha para a miséria e a mulher para demência.

Ana partiu sem rumo distinto, atordoada pela tragédia, queria apenas caminhar, não se preocupava com os espinhos da trilha, andou sentindo as bolhas nos pés, nos seus pensamentos um último sorriso da filha. Cada vez mais alheia ao mundo se jogava nos braços das sombras, caminhava por cantos desconhecidos, mais inóspitos que seu coração ferido.

Sem saber se era dia ou noite devido à penumbra reinante, a mulher cansada sentou, seu pranto insano ecoava por entre as árvores embora vivente algum pudesse ouvir. A cada gota que despencava direto ao solo era uma recordação da menina que injustamente partiu. A dor da ausência rasgava seu peito outrora vibrante, a culpa da covardia açoitava seu espirito cansado. Os dias felizes lentamente insinuavam-se rompendo a dor. Nos manhãs de primavera, banhados pela chuva fina o esposo e a filha corriam pelos campos, não havia penúria capaz de suplantar a cumplicidade dos dois, seus olhos brilhavam por ter sido agraciada com momentos preciosos.

Ela tinha um marido que a filha muito amava, em algum lugar tinha alguém a esperar, provavelmente chorando por sua ausência. Ela tinha um lar ao qual retornar.

Suspirando olhou em torno de si. Era tudo igual. As árvores, as pedras, a escuridão e nenhuma referência, não sabia como seus passos a conduziram àquela estranha vereda. Não chorou, o tempo havia passado. Sua humilde casa estava além da mata cerrada. Decidiu seguir adiante guiada apenas pela saudade.

Quando se faz jus, o milagre sempre acontece.

Um leve tilintar de correntes parecia aumentar cadenciadamente, um vulto disforme emergia da escuridão, ela sentiu medo vendo o bailar sinistro das sombras, diante de si a visão se tornava nítida. Não reagiu, um gosto de cobre inundou sua boca, as pernas criaram raízes na presença do Vagante e sua criatura bizarra.

Não era como nos mitos cantados ao som de alaúdes a troco de ninharias.

O aviador com seu charme sinistro mancava guardado por sua sobrecapa de couro, na testa sobre o capuz que aquecia as orelhas o agora inútil óculos de pilotagem mais parecia o resquício de um par de cornos, algo entre o diabólico e terno, seu rosto cândido ostentava uma rala barba a fazer e um belo olhar sedutor. Na mão direita uma antiga mala de viagem já gasta pelo atrito dos dias escondia seus mistérios ou lembranças de um tempo esquecido, quem sabe seriam seus instrumentos de flagelo junto com as prendas de suas vitimas. Na outra mão pendia uma corrente dourada atada a seu fiel companheiro, um ser ameaçador e cômico, forçando um pouco a visão parecia uma mistura de porco e diabo com suas presas retorcidas fugindo da boca indo ao encontro dos olhos, seu focinho comprido arfava farejando o espaço, o corpo coberto por pelos hirsutos comungava com a rusticidade da mata.

Sem reação, Ana mantinha-se imóvel. As histórias contadas traziam sempre tristeza, ela temia punição, conhecia seu crime e finalmente encarava seu juiz. Num instante de lucidez, de tudo que poderia pensar, ela apenas recordava da paz que desejava alcançar, sabia que algum lugar seria melhor que ali e novamente teria em seus braços aquela a quem tanto amou.

Aos poucos foi se acalmando, os pensamentos fluíam em paz, o arrependimento sincero purificou sua alma, já não temia o carrasco, muito menos seu destino, perto do fim o vento acalentava sua face, ela sentia-se bem.

Sentando-se sobre sua carga, o Vagante não encarrava uma mulher, ele media uma alma. Sabia do passado e estudava o futuro.  Não houve impasse. Ana seria conduzida ao lar se no momento certo concordasse em lhe pagar o soldo cobrado.

Sem saber o valor da excursão ela assentiu sem barganhar. Os três formaram uma estranha comitiva rumando em direção à orla da floresta. Em meio a conversas amenas os passos tornavam se leves, um grande peso ia ficando para traz acobertado pelo silêncio da floresta.

Próximo de casa, a divida deveria ser quitada. Um preço modesto foi colocado. O guia dos desafortunados, o vagante aviador exigiu da mãe aquilo que mais dor a seu coração poderia causar.

Ela mergulhou em seu refugio, minutos solenes se perderam no aguardo, de dentro da cabana trágica surgiu tendo em mãos um pequeno lenço misericordioso que os últimos suspiros da filha abafou.

A mãe filicida mereceu a redenção, aquele pequeno trapo usado para fim hediondo foi cuidadosamente dobrado e guardado num canto perdido da memoria, ao lacrar sua mala os pecados mortais foram eximidos.

Uns contam que o homem guiava a fera, outros que a fera dominava o homem. Uns dizem que ele resgatava os vivos, outros que arrebanhava os mortos, mas agora perdido, esta foi a história que eu quis contar, é nela que devo acreditar.

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53 comentários em “Vagante (Gilson Raimundo)

  1. Bia Machado
    23 de junho de 2017

    Bora lá, rascunhei o comentário no meu trabalho. O conto tem muitas metáforas e o que se pretende com elas é um efeito que infelizmente é prejudicado por conta dos erros gramaticais. Geralmente digo que isso não me atrapalha, mas no caso desse texto o efeito foi prejudicado, sim. Ainda sobre o desenvolvimento, não sei se deixei escapar alguma coisa, mas se fiquei sem entender, peço perdão. A mim me pareceu que era mais de um foco narrativo.
    Sobre as personagens, não chegaram a me envolver, embora tenham certa originalidade. Quanto a Ana, senti que o autor passou bem todo o drama daquela mulher.
    Gostei do conto, em muitos momentos fui levada pelas imagens construídas durante a leitura. Eu gostaria de ver um texto mais bem organizado desse autor/autora.
    O tema está ok, os elementos principais da imagem estão lá, porém par a trama não precisaria que fossem desse jeito. Ficaram meio que dispensáveis, então.

  2. Daniel Reis
    23 de junho de 2017

    (Prezado Autor: antes dos comentários, alerto que minha análise deve se restringir aos pontos que, na minha percepção, podem ser mais trabalhados, sem intenção de passar uma crítica literária, mas uma impressão de leitor. Espero que essas observações possam ajudá-lo a se aprimorar, assim com a leitura de seu conto também me ajudou. Um grande abraço).

    Vagante (Tom Resmo)

    ADEQUAÇÃO AO TEMA: está lá, em “O aviador com seu charme sinistro mancava guardado por sua sobrecapa de couro(…)”. Inclusive, para melhor entendimento, algumas vírgulas seriam obrigatórias, nessa e em outras frases…

    ASPECTOS TÉCNICOS: a introdução me pareceu desnecessária. Incomodaram um pouco, também, os exageros nas figuras de linguagem, como em “partícula de areia no grande deserto dos corações solitários”, ou “A dor da ausência rasgava seu peito outrora vibrante, a culpa da covardia açoitava seu espirito cansado”. A meu ver, tais construções, ao invés de poéticas, soam convencionais, pelo excesso de uso.

    EFEITO: o texto, pelo exposto anteriormente, ficou um pouco cansativo, e o final também ficou aquém da expectativa, e parece ter sido implantado para justificar a abertura. Boa sorte!

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Publicado às 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017 e marcado .