EntreContos

Literatura que desafia.

Um recorte sobre bestialidade: mestre, fera e regresso (Babi Ngepet)

Exausto, chegou à entrada do túnel acompanhado de seu servo. Juntos, javali e homem respiraram longamente.

“Floresta inóspita do inferno” – resmungou mentalmente, rabugento.

Nas últimas doze ou treze horas, haviam caminhado juntos por aquela negritude insondável. Lançava constantes olhares furtivos à mala que traziam consigo. O cheiro de sangue o distraía.

O silêncio na mata era total. Os animais não ousavam se aproximar demasiado. Uma tensão mortal pairava sobre a sinistra dupla. Mesmo as árvores e a grama seca pareciam se contorcer à sua passagem.

~

Pisando o limiar desgastado da escadaria de pedra, observou, taciturno, a escuridão que se abria abaixo. Incontáveis degraus, silêncio absoluto. Aquela penosa viagem finalmente valeria a pena. A sinistra mala pingava, deixando um rastro nojento. Poderiam ser seguidos: sangue e terra deixam marcas indeléveis. Gracejou internamente; “quem teria culhões para seguir-nos?”

Ecos de passos secos e aquele bizarro gotejo. Uma aterradora melodia, contrastada pelo silêncio absoluto da gruta.

Trezentos degraus ou mais, decida vagarosa. O homem achava graça: javali descendo escada? Avançavam, conquanto.

Mil degraus. A mala vibrava e gemia, pressentindo o destino.

“CAARNEEE. RASSSSSGARRR.”o chiado maligno, subitamente provindo da imensidão negra abaixo, transpassava, arrepiando. Parecia emanar da própria rocha, cada vez mais estreita.

Seu companheiro de viagem vacilou no ímpeto. O esgar ominoso agora vibrava e silvava, aterrando-o. O coração, taquicardia.

Sem surpresa: o servo sempre fora fraco. Soube disso assim que o viu pela primeira vez. Chegara, tenso, ao seu encontro. Ávido por glória; facilmente manipulável. “Não tens o que é preciso” – não falei, mas leu em meu olhar.

– Posso te surpreender – respondeu à provocação silenciosa, o brado firme disfarçando uma mente titubeante.

~

Aliás, usualmente demonstrava fraqueza. Mesmo quando abateram a primeira vítima, sua atitude fora covarde.

Contorcida em dor, a presa gemia a cada investida. Os colmilhos letais perfuravam repetidamente, impiedosos. Os 250 quilos em ataque, irascível; olhos frios.

“Doravante, apenas uma massa disforme, sangue, dor e grito, gemendo e retorcendo sempiternamente.”

O servo, vacilante, alojou a massa asquerosa no interior da valise. A voracidade do mestre lhe causava arrepios; cumpria a função evitando seu olhar. Nauseava pensar quantas vezes ainda repetiriam o ato.

~

Horas de descida. Exaurido, o homem nota um bailar de chamas. A boca infernal que se abre, engolindo tudo. Chegaram.

– Mestre, aqui estamos, a trilha finda – a voz do homem é apenas um gemido aterrorizado.

Súbito, a valise se escancara, à porta do tártaro.

“Serviu-me, apesar da fraqueza e medo. Ao real propósito a que te destinei, chegou o momento. O trajeto era apenas uma necessidade, tua carne é tua missão” – o pensamento da fera porcina vibra maldosamente.

Olhos arregalados, o homem assiste imóvel à massa cadavérica, que ajudou a criar, expandir-se, transbordar a mala, envolvendo-lhe o corpo e esmagando os ossos. Alquebrado, é consumido lentamente, tornando-se parte do amontoado sangrento.
“O ritual se finda. Descerrai as portas, volto com vidas arruinadas” – olhos brilhando, ardilosos, o suíno adentra os portões de seu domínio.

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26 comentários em “Um recorte sobre bestialidade: mestre, fera e regresso (Babi Ngepet)

  1. Gilson Raimundo
    25 de maio de 2017

    Quem serve ao mal, acaba por ele consumido. Uma pequena jornada que o servo provavelmente não sabia o destino, virou farelo. Além dessa caminhada aos portões do Erebo o texto poderia ter uma carga reflexiva, faltou algo que levasse a um questionamento, sendo um conto em que o autor abriu mão de um maior desenvolvimento optando por um conto curto, condensado as informações fica difícil de apreciar sua criatividade, havia muito espaço e material para uma grande aventura.

  2. Catarina
    24 de maio de 2017

    O INÍCIO dúbio, onde não sabemos quem é o servo, homem ou javali, me interessou muito, no entanto vai perdendo a força com a confusão de sujeitos e técnica, ao meu ver, podendo ser aprimorada. A TRADUÇÃO DA IMAGEM foi forte e interiorizada, o que gostei.
    A revelação final surtiu um EFEITO impactante.

  3. Roselaine Hahn
    23 de maio de 2017

    Olá Babi, o seu conto é muito denso, confesso que não foi uma leitura fácil, li e reli, talvez a estranheza da narrativa tenha prejudicado a fluidez e a emoção de minha parte; tens uma pegada muito boa para o gênero, o texto cumpriu muito bem a proposta do Desafio. Parabéns.

  4. Rubem Cabral
    23 de maio de 2017

    Olá, Babi Ngepet.

    Resolvi adotar um padrão de avaliação. Como sugerido pelo EntreContos. Vamos lá:

    Adequação ao tema:
    Há um javali e um homem e uma mala. Acho que então atende bem à imagem-tema.

    Qualidade da escrita (gramática, pontuação):
    Não encontrei erros a apontar. O conto está bem escrito.

    Desenvolvimento de personagens, qualidade literária (figuras de linguagem, descrições, diálogos):
    O conto é interessante e diferente. O desenvolvimento dos personagens foi satisfatório. A escrita é competente, embora às vezes abuse do uso de sujeito oculto, o que pode dar margem a interpretações distintas em certas frases. É compreensível o uso no início, quando se tentou criar uma cortina de fumaça sobre quem era o mestre e quem era o servo, porém depois não vi necessidade.
    O vocabulário usado, às vezes, ficou um tanto erudito demais.

    Enredo (coerência, criatividade):
    O enredo é bom. Eu nunca tinha ouvido falar de Babi Ngepet, então procurei na Wikipédia. Acho, contudo, que o conto deveria ter entregue melhor a história. Sem que o leitor tenha conhecimento ou curiosidade, tudo parecerá um sacrifício ritual estranho somente.

    Obrigado pela leitura e boa sorte no desafio!

  5. Olisomar Pires
    22 de maio de 2017

    1. Tema: Adequação presente.

    2. Criatividade: Boa. Homem e Javali, servo e mestre, respectivamente, numa missão onde o homem será consumido como combustível em um ritual .

    3. Enredo: Rápido. A trama é bem distribuída, apesar de não haver muitas informações. É algo pronto.

    4. Escrita: Sem erros aparentes (geralmente não noto mesmo, precisam ser gigantescos ou que incomodem muito);

    5. Impacto: médio.

    As pistas sobre a fraqueza do servo e a conversa telepática entregaram a situação e função dos dois elementos. O resto ficou previsível em função do clima de terror criado.

  6. Brian Oliveira Lancaster
    22 de maio de 2017

    EGO (Essência, Gosto, Organização)
    E: Curto e direto ao ponto. A atmosfera soturna é muito bem descrita. O javali, como faltou em alguns textos, é realmente o personagem principal. Entendi que se trata de apenas um recorte de uma história maior. É suficiente, mas gostaria de “sentir” mais a exploração dentro da caverna. A resolução veio muito rápida.
    G: Não é o tipo que gosto, mas isto não influi em suas qualidades. O clima geral é excelente e deixa o leitor interessado em saber o que está acontecendo. No final achava que o javali é que iria pro saco, mas foi uma bela inversão de papeis.
    O: “Os animais não ousavam se aproximar demasiado.” Esse “demasiado” pareceu sobrar. Soou estranho. Mas o restante está bem escrito, competente em transmitir sensações, com aqueles “tiques” de contos do gênero (coisas sinistras, limiar, ardil, portas, etc). Me lembrou uma curta aventura de RPG, antes de serem chamados para o almoço. Alguém perdeu XP.

  7. Antonio Stegues Batista
    22 de maio de 2017

    Um conto de terror muito bem escrito, A descrição do ambiente, a narrativa e o clima tenso, forma uma estrutura construída com cuidado e esmero. A referência sobre a imagem tema é fraca, mas não invalida o conto, o javali como mestre e através da força mental, que ele não fala, domina o homem e dele faz escravo, comandando-o pela telepatia. Foi assim que Eva foi enganada pela Serpente no Jardim do Éden…

  8. Jowilton Amaral da Costa
    22 de maio de 2017

    Bom conto. Deu pra sacar que o mestre era o javali e não o homem, o que me pegou de surpresa foi para onde eles estavam indo. O javali era Hades disfarçado, ao menos foi assim que eu entendi. Gostei da narrativa, achei clássica e envolvente. Boa sorte.

  9. Olá, Babi,
    Tudo bem?
    Seu conto é denso, forte, bem amarrado e utiliza uma linguagem narrativa que, mesmo representando o gênero terror, consegue ser bela, poética até. Um tecido de palavras muito bem tramadas, conduzindo o leitor por seus caminhos, mantendo a tensão e a curiosidade acesos a cada nova frase.
    Sua verve, certamente é a de um autor experiente que sabe o que está fazendo. Não utilizar o limite de palavras do desafio mostra essa segurança na própria precisão ao contar uma história.
    A escolha do pseudônimo mostra sua pesquisa. E o jogo servo x servidor é muito bom. O porco como figura demoníaca remonta a arquétipos ancestrais e foi muito bem utilizado neste conto. Também gostei muitíssimo do título, bem como da descrição sutil dos cenários em meio à ação.
    Parabéns e muito boa sorte no desafio.
    Beijos
    Paula Giannini

  10. Milton Meier Junior
    22 de maio de 2017

    Devo admitir que também fiquei bastante confuso sobre quem era quem, e até sobre o que se tratava a trama. Buscar pelo pseudônimo no Google foi até esclarecedor, mas também acho que uma história tem que ser clara o bastante sem precisar desse tipo de pesquisa. Não obstante, está bem escrito e é bem sucinto.

  11. angst447
    22 de maio de 2017

    Olá, autor, tudo bem?
    O título é quase o resumo da obra. Funciona.
    O tema proposto pelo desafio foi abordado com a “sutileza” de uma pegada de terror.
    Primeira impressão pós leitura: não entendi patavina (tá, entreguei as várias décadas de idade). Parti, então, para uma segunda leitura: a um passo do inferno.
    O texto está bem escrito e só encontrei duas coisas que me incomodaram, embora não sejam erros propriamente ditos:
    (…) haviam caminhado juntos por aquela negritude insondável. Lançava constantes > aqui, o problema é a confusão que o sujeito oculto causa. Na primeira frase, o sujeito era composto e na segunda simples, o que causa uma estranheza momentânea. Talvez, o emprego do pronome pessoal “ele” aliviasse essa sensação.
    “quem teria culhões para seguir-nos?” > a preposição “para” funciona como partícula atrativa do pronome oblíquo > para nos seguir? > mesmo porque, o tom da expressão é bem informal e a ênclise soou inadequada.
    O que adorei mesmo foi o tamanho do conto. Muito bom encontrar uma narrativa tão densa em pouco espaço. Aliás, a densidade exige economia de palavras.
    Boa sorte!

  12. Vitor De Lerbo
    22 de maio de 2017

    Ótimo texto, trabalhado com maestria.

    O enredo me parece propositalmente feito para gerar estranheza e confusão. Uma segunda leitura, já com os “olhos abertos”, elucida tudo.

    Gostei da pista no pseudônimo; com um espaço tão restrito, vale utilizar tudo que estiver ao nosso alcance como elemento narrativo, incluindo o pseudônimo e a imagem.

    Boa sorte!

  13. Evelyn Postali
    21 de maio de 2017

    Oi, Babi Ngepet,
    Gramática – Sem erros. Bem escrito.
    Criatividade – Gostei muito do tom do conto e do tema.
    Adequação ao tema proposto – Está adequado.
    Emoção – O toque sombrio e o suspense vão crescendo e nos devolvendo arrepios.
    Enredo – Começo, meio e fim. Tudo muito bem exposto.
    Parabéns pelo conto!
    Boa sorte no desafio.
    Abraços!

  14. Iris Franco
    21 de maio de 2017

    Faz muito tempo que não leio um conto tão bom de terror.

    Não consegui interpretar de primeira não, confesso.

    Todavia, acredito que se você mudar o estilo estraga. Está perfeito! Muito bom mesmo!

    A história interessante, diferente e conseguiu envolver.

    Parabéns!

  15. juliana calafange da costa ribeiro
    21 de maio de 2017

    Gosto e não gosto ao mesmo tempo. O texto é bem escrito, bem trabalhado, o cuidado esmerado com a escolha das palavras, as frases curtas. O clima sinistro, sombrio, envolve o leitor. Vc até cria o clima de suspense, que é bem denso. Mas talvez, na tentativa de manter a dúvida sobre quem é quem até o fim, vc tenha acabado por deixar o leitor confuso demais. A Anorkinda sacou bem essa pista do pseudônimo. Mas acho q pseudônimo não é pra isso. Se depender de decifrar o pseudônimo pra entender um conto… Enfim, quando eu dei um Google no “Babi Ngepet” tudo ficou mais claro. Mas eu preferia ter entendido sua história apenas lendo o seu texto. É sempre bom acrescentar um novo termo, uma nova palavra ao nosso vocabulário. Mas no seu caso acho q acabou atrapalhando bastante o envolvimento de quem lê com a história. Porque a gente tem q ficar “traduzindo” o tempo todo. Mas a ideia geral do texto, o homem ganancioso e covarde fazendo pacto com o demônio em forma de javali é bastante instigante, uma abordagem diferente da imagem tema. Parabéns!

  16. Lucas F. Maziero (@lfmlucas)
    21 de maio de 2017

    Então. O conto está bem escrito, frases curtas e de efeito. O clima sinistro está mais ou menos pintado, só que… Sinto ficar lhe devendo essa, mas eu não compreendi a sua história.

    Bem, cada um é cada um, e cada leitor é um leitor. Lendo os comentários anteriores, vi que todos compreenderam, menos eu. Portanto, não constitui falha do autor, mas sim desse leitor aqui.

    Vou reler e reler até interpretar corretamente que ritual seria esse e o que saiu de dentro da mala…

    Parabéns!

    • Anorkinda Neide
      21 de maio de 2017

      olha, Lucas.. eu acho q nao tem uma resposta mesmo pra estas questoes q tu apresentou.. rsrs é um clima de misterio. o q era, q aparencia tinha o q ritual q era ao importa tanto um conto curto, mas o impacto q a narrativa exerce… e tb tem a questao do Babi Ngepet q pode dar uma luz as tuas questoes 😉

  17. Neusa Maria Fontolan
    21 de maio de 2017

    A primeira vez que li fiquei um pouco confusa com esse trecho
    “CAARNEEE. RASSSSSGARRR.” – o chiado maligno, subitamente provindo da imensidão negra abaixo, transpassava, arrepiando. Parecia emanar da própria rocha, cada vez mais estreita.
    Eu, na minha santa ignorância, pensei que um monstro esperava por eles no final do túnel, e isso atrapalhou toda minha visão do conto. Não notei que era o chiado do próprio inferno, coisa que só percebi com uma segunda lida, e tudo ficou claro.
    Ótimo conto, meus parabéns.

  18. Matheus Pacheco
    21 de maio de 2017

    Bom, muito bom mesmo, não muito longo e nem muito curto para o que seria contado.
    Eu realmente achei um pouco intimidador certas partes, como o retorcer da carne na mala e o cheiro tranquilizante do sangue.
    Excelente conto e um abração ao escritor.

  19. Anorkinda Neide
    21 de maio de 2017

    Olá! Gostei bastante!
    Um conto de terror, nos leva a crer em várias coisas ao longo do texto q é curto! Isso é habilidade. Tb imaginei de início quem era o servo, mas fiquei na dúvida e esta dúvida foi gostosa 🙂 até chegar à certeza.
    Gostei da frase q explica de forma assustadora: ‘O trajeto era apenas uma necessidade, tua carne é tua missão’. wow!
    O pseudônimo revela ainda outra coisa a mais, como a cereja do bolo!!! Parabéns, um easter egg?(nao sei bem o conceito de easter egg.. rsrs
    Abração e boa sorte

  20. Mariana
    21 de maio de 2017

    O texto está muito bem escrito, apesar de o fator surpresa não funcionar. A ambientação está interessante e o final foi uma cena digna de um bom filme gore. A leitura satisfaz, parabéns

  21. Ana Monteiro
    21 de maio de 2017

    Olá Babi. O seu texto está muito bem e não lhe encontrei falhas de revisão ou gramaticais. Não comete erros. Quanto a mim, ainda assim, penso que seu objetivo era surpreender-nos com o final e aí não foi atingido; percebi desde o início quem era o servo. O pacto, sim, está muito bem retratado, mas não impede que se intua como terminará e quem é quem. No final e considerando os pontos avaliáveis, penso que a escrita está bem conseguida, demonstra criatividade, adequa-se perfeitamente ao tema proposto e tem um bom enredo. Muito bem.Um abraço.

  22. braxit
    20 de maio de 2017

    Excelente conto, com um belo toque de mistério. Bastante interessante.

  23. Priscila Pereira
    20 de maio de 2017

    Oi Babi, então o javali era o proprio capiroto?? Bem sacado…
    Seu texto é bem diferente, sinistro e com um toque de terror. Eu já imaginava que o servo fosse o homem, mas nao que o javali fosse o diabo… kkk Muito bom. Boa sorte!!

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Informação

Publicado em 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017.