EntreContos

Literatura que desafia.

Um recorte sobre bestialidade: mestre, fera e regresso (Luis Guilherme)

Exausto, chegou à entrada do túnel acompanhado de seu servo. Juntos, javali e homem respiraram longamente.

“Floresta inóspita do inferno” – resmungou mentalmente, rabugento.

Nas últimas doze ou treze horas, haviam caminhado juntos por aquela negritude insondável. Lançava constantes olhares furtivos à mala que traziam consigo. O cheiro de sangue o distraía.

O silêncio na mata era total. Os animais não ousavam se aproximar demasiado. Uma tensão mortal pairava sobre a sinistra dupla. Mesmo as árvores e a grama seca pareciam se contorcer à sua passagem.

~

Pisando o limiar desgastado da escadaria de pedra, observou, taciturno, a escuridão que se abria abaixo. Incontáveis degraus, silêncio absoluto. Aquela penosa viagem finalmente valeria a pena. A sinistra mala pingava, deixando um rastro nojento. Poderiam ser seguidos: sangue e terra deixam marcas indeléveis. Gracejou internamente; “quem teria culhões para seguir-nos?”

Ecos de passos secos e aquele bizarro gotejo. Uma aterradora melodia, contrastada pelo silêncio absoluto da gruta.

Trezentos degraus ou mais, decida vagarosa. O homem achava graça: javali descendo escada? Avançavam, conquanto.

Mil degraus. A mala vibrava e gemia, pressentindo o destino.

“CAARNEEE. RASSSSSGARRR.”o chiado maligno, subitamente provindo da imensidão negra abaixo, transpassava, arrepiando. Parecia emanar da própria rocha, cada vez mais estreita.

Seu companheiro de viagem vacilou no ímpeto. O esgar ominoso agora vibrava e silvava, aterrando-o. O coração, taquicardia.

Sem surpresa: o servo sempre fora fraco. Soube disso assim que o viu pela primeira vez. Chegara, tenso, ao seu encontro. Ávido por glória; facilmente manipulável. “Não tens o que é preciso” – não falei, mas leu em meu olhar.

– Posso te surpreender – respondeu à provocação silenciosa, o brado firme disfarçando uma mente titubeante.

~

Aliás, usualmente demonstrava fraqueza. Mesmo quando abateram a primeira vítima, sua atitude fora covarde.

Contorcida em dor, a presa gemia a cada investida. Os colmilhos letais perfuravam repetidamente, impiedosos. Os 250 quilos em ataque, irascível; olhos frios.

“Doravante, apenas uma massa disforme, sangue, dor e grito, gemendo e retorcendo sempiternamente.”

O servo, vacilante, alojou a massa asquerosa no interior da valise. A voracidade do mestre lhe causava arrepios; cumpria a função evitando seu olhar. Nauseava pensar quantas vezes ainda repetiriam o ato.

~

Horas de descida. Exaurido, o homem nota um bailar de chamas. A boca infernal que se abre, engolindo tudo. Chegaram.

– Mestre, aqui estamos, a trilha finda – a voz do homem é apenas um gemido aterrorizado.

Súbito, a valise se escancara, à porta do tártaro.

“Serviu-me, apesar da fraqueza e medo. Ao real propósito a que te destinei, chegou o momento. O trajeto era apenas uma necessidade, tua carne é tua missão” – o pensamento da fera porcina vibra maldosamente.

Olhos arregalados, o homem assiste imóvel à massa cadavérica, que ajudou a criar, expandir-se, transbordar a mala, envolvendo-lhe o corpo e esmagando os ossos. Alquebrado, é consumido lentamente, tornando-se parte do amontoado sangrento.
“O ritual se finda. Descerrai as portas, volto com vidas arruinadas” – olhos brilhando, ardilosos, o suíno adentra os portões de seu domínio.

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59 comentários em “Um recorte sobre bestialidade: mestre, fera e regresso (Luis Guilherme)

  1. Daniel Reis
    23 de junho de 2017

    Prezado Autor: antes dos comentários, alerto que minha análise deve se restringir aos pontos que, na minha percepção, podem ser mais trabalhados, sem intenção de passar uma crítica literária, mas uma impressão de leitor. Espero que essas observações possam ajudá-lo a se aprimorar, assim com a leitura de seu conto também me ajudou. Um grande abraço).

    Um recorte sobre bestialidade: mestre, fera e regresso (Babi Ngepet)

    ADEQUAÇÃO AO TEMA: sim, absolutamente adequado.

    ASPECTOS TÉCNICOS: um frêmito de horror percorreu meu corpo ao ler seu conto, e encontrar tantas e tão difíceis palavras… acho que uma simplificada, para ajudar na leitura, seria uma boa, saca? Mas o enredo, em si, é ótimo, e a inversão entre os papéis, surpreendente.

    EFEITO: um bom conto de horror, mas que ainda pode ser bastante aprimorado, mediante revisão e reescrita. Parabéns, autor.

  2. Felipe Moreira
    23 de junho de 2017

    Quando li o título “Um recorte sobre a bestialidade”, não achei que o texto fosse de fato esse recorte sobre a bestialidade. Até achei ele bem escrito, mas o recorte em si me pareceu bem confuso. Não encontrei uma unidade harmoniosa no conto, afinal, ele deveria ter uma pra julgarmos como um só trabalho. Não se engane, o texto é bem escrito, cuidadoso nos passos para se criar o suspense, o impacto necessário em que cada personagem, homem ou fera, está passando.

    Achei mediano pra bom. Sobretudo pela escrita.

    Parabéns e boa sorte.

  3. Thiago de Melo
    22 de junho de 2017

    Amig@ Babi,
    Preciso ser bastante sincero e dizer que achei o seu conto um pouco confuso. Foi difícil compreender o que estava acontecendo, mas gostei de como você conseguiu incluir todos os aspectos da imagem do desafio dentro do seu texto. Achei que a surpresa ao final, sobre quem de fato seria o sacrifício, pelo menos para mim, foi bastante inesperada.
    Também gostei bastante da ideia de que um cara que tem um javali como seu “servo” está descendo por um longo túnel até chegar às portas do tártaro. Essa parte achei muito legal. Gosto de literatura porque ela pode me levar a lugares absolutamente inusitados, e o seu conto foi um exemplo disso.
    Parabéns.

  4. Pedro Luna
    21 de junho de 2017

    Bom, fiquei um pouco confuso. Pelo que entendi, o sujeito estava levando uma espécie de sacrifício para uma criatura, com a ajuda do Javali. Curioso que ao ler o Carne, rasgaaar, me veio na cabeça logo uma espécie de cobra gigante esperando no fundo do local, sabe aquela voz de cobra (na ficção)? Kkkkk. Porém, o sujeito acaba sendo levado também na onda do sacrifício, se ferrando. Mas confesso que não sei se é isso mesmo. Apesar da escrita ser boa, o conto não teve impacto sobre mim. Achei meio nebuloso para um conto tão curto.

  5. Andreza Araujo
    21 de junho de 2017

    Num primeiro momento fiquei confusa quanto aos recortes e sobre quem era quem e o que estava na mala. Uma segunda leitura ajudou, mas não sanou por completo minhas dúvidas (no final, a coisa na mala – partes das vítimas? Vítimas humanas? – se transforma no demônio ao se incorporar com o homem… e o javali também é engolido nesse final do conto? Homem, conteúdo da mala e javali se unem?).

    Interessante o que conseguiu criar com poucas palavras, mostrando que não é necessário usar o limite do desafio para o desenvolvimento. No caso deste conto, acho que o tamanho foi eficaz, mesmo que algumas dúvidas persistam na minha cabeça.

    Outra coisa, não entendi exatamente a utilidade do homem para o demônio se o javali quem matava, ou não era ele quem matava? Porque neste trecho: “Os colmilhos letais perfuravam repetidamente, impiedosos. Os 250 quilos em ataque, irascível; olhos frios.” me leva a crer que o javali-mestre trabalhou sozinho, praticamente, ou que não necessitava do homem.

    Tirando esses detalhes, achei que a narrativa cumpriu bem o desafio e o texto é interessante, do tipo que não me incomodou de tentar entender, muito pelo contrário, me deixou curiosa num bom sentido, uma pena que eu não o tenha entendido por completo mesmo o lendo mais de duas vezes, mas o saldo foi bem positivo assim mesmo.

  6. Lee Rodrigues
    21 de junho de 2017

    Caro autor, começo elogiando a sacada em colocar logo no título que se trata de um recorte de algo maior, ficou tipo: ninguém reclame dizendo que parece ser só um pedaço, porque é só um pedaço. E eu até completo que é uma boa fatia, mas como já fui avisada, nem vou reclamar que queria mais.

    “Exausto, chegou à entrada do túnel acompanhado de seu servo. Juntos, javali e homem respiraram longamente.”

    *** Logo em seguida:

    “Nas últimas doze ou treze horas, haviam caminhado juntos por aquela negritude insondável.”

    Não está errado, mas, talvez se suprimisse o segundo “junto”, ficaria melhor na estética e não mudaria o sentindo, já que informação havia sido dada um pouquinho antes dessa.

    No terceiro parágrafo o autor planta uma dúvida – isso foi bom.

    “O cheiro de sangue o distraía.”

    ***Fiquei naquela: Distraia a quem? Homem ou javali? Vem treta aí! E ela veio, e eu gostei.

    No desenvolvimento o autor deixou pistas de quem realmente estava sendo servido, e até acho que abusou um pouco do sujeito oculto na tentativa de guardar essa informação para o final, o que talvez tenha trabalhado contra.
    Quem usou da antecipação leu numa boa e já não adiantava esconder o sujeito, porque Babi já tinha mostrada a cara. Agora, para quem não usou da antecipação, o trem ficou um pouco confuso, e isso dá uma travada na leitura.

    “CAARNEEE. RASSSSSGARRR.” – o chiado maligno, subitamente provindo da imensidão negra abaixo, transpassava, arrepiando.”

    ***Isso fez parecer que havia um terceiro personagem na caverna.

    É um bom conto, merecia uma fatia maior. 😉

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Publicado às 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017 e marcado .