EntreContos

Literatura que desafia.

Porcus Erectus (Milton Meier Junior)

No verão de 1916, faltando mais de um ano para o término da Grande Guerra, soldados alemães cercaram um vilarejo na região do Drôme, na França. Suas ordens eram procurar por partisans, mas buscavam mesmo por comida. Graças à truculência e impetuosidade dos soldados, uma situação que poderia ter sido resolvida pacificamente logo se transfigurou em caos. Aldeões foram mortos, casas foram queimadas e propriedades destruídas. Inclusive a pequena fazenda do maior criador de porcos do local. Alguns dos animais foram abatidos no local, para alegria dos soldados, mas uma grande parte da vara escapou.

Sabe-se que porcos domésticos, quando soltos na natureza, sofrem mutações e em pouco tempo se tornam selvagens. Aumentam de tamanho, os pelos crescem, os dentes viram presas, seus cascos fendidos se tornam mais afiados e a testosterona dos machos dispara, tornando-os ferozes e territoriais.

Foi o que aconteceu aos porcos fugidos daquela pequena fazenda. Em poucos meses a natureza desfez o que o homem levou milhares de anos para encadear. Como se toda aquela selvageria fosse uma coisa latente, à flor da pele, esperando apenas por um pequeno descuido. Talvez uma vingança incubada pelo saldo de todos os porcinos abatidos pelos seus algozes humanos.

As rações e o chiqueiro não lhes fez falta. Fizesse frio ou calor dormiam ao relento, impérvios às intempéries. No verão rolavam nos charcos à beira do rio para se refrescarem e no inverno se aconchegavam, como que formando um só corpo aquecido. E comiam de tudo. Desde trufas até as partes macias dos corpos em decomposição dos soldados mortos. Imparciais a serem eles, os soldados, aliados ou não. Sua pelagem escura e seus instintos rasteiros funcionavam como camuflagem. Mantinham-se próximos o bastante do vilarejo para saber que continuava lá, mas longe o suficiente para não serem notados. Antes do alvorecer, algum incauto madrugador poderia perceber sombras se movendo nos limites da floresta, ou ouvir grunhidos à distância que se dissipavam com a névoa. As pessoas da vila sabiam que os porcos estavam lá, e o mesmo se aplicava aos porcos.

A natureza seguiu seu curso e as mutações se acentuaram cada vez mais. Não eram mais suínos, eram porcos selvagens, quase javalis. Alguns tinham presas enormes e perigosas, outros ficaram tão grandes que quebravam os galhos mais baixos das árvores e criavam veredas e valas por onde passavam. Reproduziram-se, e suas crias pareciam ter herdado traços de genealogias ancestrais e não as daquela vara recém liberta. Eram bestiais, ariscos e indomáveis. Alguns tão violentos que trucidavam seus próprios pares de ninhada, almejando se alimentar em mais tetas e com menos concorrência.

Porém, dentre todos os porcos da vara, um deles, o maior dos machos, passou por transfigurações ainda mais extremas. Seus membros traseiros se alongaram e engrossaram, os dedos eivados das patas dianteiras cresceram, seu pescoço diminuiu, acentuando ainda mais a cabeça que se arredondava, o peitoral se alargou, conferindo-lhe uma cintura, o focinho se encolheu cada vez mais, seus minúsculos olhos não aumentaram, mas deixaram de ser tão opostos e se aproximaram em sua fronte, algo parecido com um queixo lhe surgiu sob a boca, que foi diminuindo até quase não caber os próprios dentes. Curiosamente, seu rodopio de rabo não passou por nenhuma mutação e o pelo de tons mais e menos escuros, como manchas provocadas pela luz do sol passando por entre as folhas, também não mudou. Apesar das mudanças, continuou agindo e pensando como um porco. Comia o que lhe aparecesse pela frente, montava em todas as porcas que estivessem no cio ou não, chafurdava na lama e procurava manter seu domínio sobre todos os outros porcos, já que era o maior deles.

Meses se passaram e lentamente as mudanças continuaram. Até o dia que o porco se deu conta de que andar de quatro se tornara penoso. Suas pernas dianteiras mais pareciam braços, com patas de quatro apêndices longos que podiam quase ser confundidos com dedos e mãos, e suas pernas traseiras estavam compridas demais, forçando-o a se movimentar com a fronte cada vez mais perto do chão e com o traseiro cada vez mais elevado e exposto. O porco fez o que lhe parecia ser o mais prático. Ficou de pé. Sobre as duas patas e pernas traseiras. Aquilo lhe pareceu natural. Não teve sequer dificuldade para caminhar ereto, como se o ato fosse uma consequência lógica de algum processo desconhecido, mas inexorável.

A vara não pareceu notar. Talvez ele ainda tivesse o mesmo cheiro, ou talvez os outros porcos ainda o considerassem como sendo um deles.

O porco passou a andar ereto. À sua mudança de postura, somou-se uma mudança de comportamento. Talvez pela visão acima dos outros porcos, talvez porque seu cérebro também estivesse passando por mutações. Não havia julgamento nem condenação de sua parte, apenas um distanciamento. Uma sensação de não mais pertencer a toda aquela selvageria. Não tanto. Ainda sentia as mesmas ânsias de comer, copular, destruir seus adversários, se refestelar na lama e dormir aquecido pelas suas fêmeas, mas sentia existir um fascínio oculto, algo que se enxerga de rabo de olho, e que some quando se fixa o olhar.

Certo dia deixou os porcos fazendo o que eles fazem e foi até a beira da floresta, de onde podia ver o vilarejo. À distância podia ver outras figuras eretas. Homens tosquiando ovelhas e conduzindo carroças puxadas por cavalos, mulheres pendurando roupas nos varais ou buscando água na fonte da praça, crianças gritando e correndo. Casas com chaminés fumegantes, cheiros que ele podia sentir mesmo de tão longe, alguns jardins, várias hortas, um grande campo cultivado. Galinhas por toda parte, um bom número de vacas, cães e até alguns porcos.

Com o passar dos dias foi se aproximando cada vez mais da vila, movido pela curiosidade e pelo estranhamento que cada vez mais sentia pelos porcos da floresta. Tomava cuidado para não ser visto, voltando à sua postura sobre quatro patas, e se precavendo para não deixar o traseiro e o rabo torto à vista. Sentia os odores das pessoas, das refeições sendo preparadas, do sabão nas roupas, das carnes defumadas. Ouvia as vozes, sem entender o que diziam, mas sabendo que se comunicavam melhor do que por grunhidos. Via as poucas lojas. Um açougue, uma mercearia e uma padaria, e como as pessoas trocavam uma peça de carne ou um pedaço de pão por papel. Observou as crianças brincando, sem medo de serem estraçalhadas. Tudo lhe era tão novo e diferente, mas a cada dia que voltava e observava, mais aquilo fazia sentido.

Nos dias em que não espionava o vilarejo, o porco ereto perambulava pela floresta. Com exceção de umas poucas fêmeas que ainda montava, já não tinha muito mais em comum com os outros porcos. Evitava chafurdar na lama, preferindo refrescar-se na água corrente do rio, para não ficar com os pelos incrustados. Deixou bem claro que ainda era o líder, chegando inclusive a aleijar um dos seus opositores, mas que não queria mais conflitos. Não comia mais qualquer coisa. Passou a alimentar-se principalmente de trufas, de preferência, as brancas. Tomou gosto por cogumelos. Alguns dos quais lhe causavam alucinações onde se via confraternizando e bebendo com os aldeões. Alguns tubérculos ainda o apeteciam, mas soldados mortos nem pensar.

Numa de suas perambulações pela floresta, o porco se deparou com um cadáver. De tão seco, o falecido já não fedia, era praticamente uma múmia, quase só osso. O corpo trajava camisa e calça escuras, botas, um cachecol ao redor do pescoço, uns óculos de aviador enormes, um barrete de couro com longas abas laterais e um sobretudo também de couro, aberto como se fosse as asas de um morcego. Poucos metros adiante havia uma mala enorme.

O porco, já não mais tão porcino, ajoelhou-se em frente à mala e a abriu. Dentro havia alguns itens de roupa, um sabonete, uma pistola, uma corrente de aço e uma navalha de barbear. Algumas das coisas que o porco já vira no vilarejo. Após alguns instantes e certa hesitação, o porco fechou a mala e se voltou para o corpo. Lentamente tirou-lhe toda a vestimenta. Amontoou tudo em uma pilha em cima da mala. Vagarosamente, como se estivesse sonhando e tudo acontecesse em horas e não minutos, colocou a cueca, as meias, a calça, a camisa, enrolou o cachecol no pescoço, enfiou as patas nas botas, cobriu as orelhas pontiagudas com o barrete, cobriu os olhos miúdos e separados demais com os óculos de aviador e, por fim, cobriu-se com o sobretudo. Pegou a mala e foi em busca dos outros porcos.

Sabia o que tinha que fazer.

Ao chegar ao descampado onde a vara resolvera pernoitar, foi recebido com alvoroço. Vários machos quiseram enfrentá-lo e as fêmeas saíram correndo com suas proles. Entretanto, após roncar e grunhir o suficiente, e talvez porque o seu cheiro ainda lhes fosse familiar, os porcos se acalmaram e concederam passagem. Aproximou-se de uma das suas fêmeas favoritas, uma das grandes, abriu a mala, despejou todo o seu conteúdo, pegou apenas a corrente e colocou-a em volta do pescoço da porca. Saiu andando, e a porca, sem entender nada, foi atrás.

Por meio de grunhidos o porco ereto, fez a porca entender que queria encontrar trufas, de todos os tipos, mas de preferência brancas, e quanto mais melhor. Ela foi para um lado e ele para outro. Mesmo com todas as transformações que lhe haviam ocorrido, não perdera seu olfato. Em pouco tempo a mala estava repleta de trufas brancas, negras e até de verão.

Com a mala em uma das pseudo mãos e com a outra segurando a porca pela corrente, os dois seguiram em direção ao vilarejo.

O porco calculara precisamente a hora da sua chegada na vila. No momento em que a escuridão não é tão obscura que cause medo, mas nem tão reveladora que evidencie o óbvio.

Havia uma aglomeração na praça, aparentemente todos os habitantes estavam ali festejando alguma coisa. O porco não tinha como saber que a guerra terminara naquela tarde e que a comemoração era por isso. Algumas pessoas se assustaram com aquela aparição inusitada. Houve alguns gritos e alguns dos homens puxaram as suas facas. Mas o porco permaneceu ereto, levantou as pseudo mãos e se aproximou com cautela. As pessoas do vilarejo pensaram que se tratava de um combatente de guerra, provavelmente se recuperando de sérios ferimentos nas mãos e que, por algum motivo, tinha um javali de estimação e carregava uma mala enorme. Guerras enlouquecem qualquer um.

Cuidadosamente as pessoas foram se aproximando, falando em tons tranquilizadores, estendo as mãos e oferecendo comidas e bebidas.

O porco não tinha como entender, não observara a vila tempo o suficiente para aprender sua linguagem, nem a mutação pela qual passara o capacitara a proferir uma palavra sequer. Pelo menos por enquanto.

Por meio de grunhidos, que os aldeões interpretaram como sendo o resultado de um indivíduo muito afetado pela guerra, o porco conseguiu abrir sua mala e oferecer suas maravilhosas trufas. As pessoas se extasiaram e imediatamente todos se puseram a tirar seus dinheiros dos bolsos, das carteiras, de dentro dos sutiãs e das meias. O porco logo se viu cheio de notas nas mãos.

Havia várias fogueiras na praça, com espetos rodando. Uma delas ostentava uma enorme costela de boi, e outras menores rodopiavam frangos, salsichas, e um leitão. Obsequiosamente, os aldeões ofereceram vários cortes de carne ao porco, mas ele os recusou. Enfiou as notas de papel no bolso, sem saber o que faria com elas, e fez menção de partir. Um dos homens da vila se adiantou, estendendo um calhamaço de notas, apontando para a porca e para as fogueiras. Através das lentes de aviador aquelas notas pareciam refletir o fogo, como espelhos de água refletindo o último estertor de um por do sol.

O porco pegou as notas e passou a corrente da porca ao pagador. Grunhiu, deu as costas e sumiu na escuridão.

Ele ainda ignorava o significado da expressão “porco chauvinista”.

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71 comentários em “Porcus Erectus (Milton Meier Junior)

  1. Bia Machado
    23 de junho de 2017

    Que bacana esse texto! Só sinto pena pelo título que, apesar de criativo, entrega um pouco da ideia, o suficiente para que eu ficasse esperando pra ver justamente o desenrolar da forma como aconteceu. E sinto pena também pela última frase. Estragou todo o “clima” que eu tive com o que veio antes. Desnecessária mesmo. Apesar desses dois “poréns”, gostei bastante. Muito criativo, muito audacioso em cumprir a tarefa de uma forma que talvez ninguém mais tenha pensado. Curiosa para saber que é o dono/a dona dessa belezura aqui, rs. De resto, só posso agradecer. Valeu muito a leitura!

  2. Daniel Reis
    23 de junho de 2017

    (Prezado Autor: antes dos comentários, alerto que minha análise deve se restringir aos pontos que, na minha percepção, podem ser mais trabalhados, sem intenção de passar uma crítica literária, mas uma impressão de leitor. Espero que essas observações possam ajudá-lo a se aprimorar, assim com a leitura de seu conto também me ajudou. Um grande abraço).

    Porcus Erectus (Shard)

    ADEQUAÇÃO AO TEMA: sim, de uma maneira bastante criativa.

    ASPECTOS TÉCNICOS: a narrativa exclusiva, sem diálogos, tem como característica de uniformizar a voz narrativa. Gostei bastante não só do tom, mas do ritmo e da condução da história pelo autor. Meu único senão, e aí vai uma questão de estilo, terminaria em ” Com a mala em uma das pseudo mãos e com a outra segurando a porca pela corrente, os dois seguiram em direção ao vilarejo.” E a frase do chauvinista, pelo menos para mim, é totalmente dispensável.

    EFEITO: o absurdo é narrado com muita técnica e domínio da linguagem. Parabéns.

  3. Wilson Barros
    22 de junho de 2017

    Começo muito bom, em grande estilo profissional, no tom de Maupassant. Os porcos domésticos sofrerem mutações, transformando-se em javalis, é ótimo. Na verdade isso deve ter acontecido há cem milhões de anos, a maneira como você falou ficou engraçada, vou colecionar. O conto desencadeou um verdadeiro realismo fantástico, bem ao estilo de J J Veiga. Não consigo inventar algum reparo, e olha que o realismo fantástico não é fácil de conduzir. Claro que poucos gostam do gênero, não é para todo mundo. JJ Veiga, Murilo Rubião e Kafka não são nem mesmo conhecidos por muitos. A não ser, claro, quando se trata de Garcia Márquez, aí muitos consideram obrigação gostar, rsrs.

  4. Felipe Moreira
    22 de junho de 2017

    Logo nos primeiros parágrafos entendemos a escolha do título. O conto tem um perfil bem didático quanto aos acontecimentos, uma explicação biológica que faz sentido dentro do que você precisa contar, no entanto, por vezes ele parece se perder nas explicações achando que está em favor do texto. Até certo ponto sim.

    Está muito bem escrito, é criativo e cuidadoso em passar pelas etapas para que o conto tenha verossimilhança, mas fica um pouco cansativo de ler em alguns instantes.

    De qualquer maneira, valeu a leitura apenas pela corrida em que as mutações ocorrem nos porcos domesticados e como o tempo e o meio ambiente interferem na espécie. Parabéns e boa sorte.

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Informação

Publicado às 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017 e marcado .