EntreContos

Literatura que desafia.

O Homem-Porco (Sabrina Dalbello)

Quando acordei, estava tonto e minha cabeça pesava um milhão de quilos.

Eu não conseguia me lembrar de quando fui dormir e nem sabia porquê havia acordado ali.

Senti um gosto amargo na boca e muita dor na barriga e também no coração.

“Eu quero a minha mãe”, foi a primeira coisa que veio à minha cabeça.

Mas nada. Nem mãe, nem pai, nem casa, nem nada conhecido. Eu estava só.

Diante de meus olhos apenas crianças, como eu. Contei outras quatro.

Éramos cinco crianças sujas e vestidas com trapos de mesmas cores, praticamente empoleiradas umas sobre as outras naquele cubículo fétido e escuro.

As que acordaram primeiro choravam. As outras iam acordando com o choro das primeiras.

Estávamos com medo até de nós mesmas, estranhas unidas pelo mesmo cárcere imotivado.

Eu estava apavorado, como nunca. Nem as bombas que caíram do céu perto da minha escola me assustaram tanto.

Olhei para as outras caras assustadas e percebi que eles eram menores do que eu. Acho que os dois mais novos tinham perto de quatro anos. Pensei no meu irmão, Zamir, que tem essa idade e aquele tamanho.

Os pequeninhos, como o meu irmão, eram os que mais choravam – e esses foram levados primeiro.

Olhei para a porta e vi que debaixo dela entrava luz. Levantei-me e fui bater. Sem resposta e, fraco, não insisti.

Perto dali, no chão, notei uns potes cheios de uma goma marrom e alguns copos de chá.

Eu estava com tanta sede que tomei um deles todinho. Aí descobri que não era chá, mas uma água barrenta.

Limpei meu nariz e meus olhos nas mangas dos trapos e sentei ao lado de uma menina loirinha, a menor de todos ali, para ela não morrer de tanto chorar.

Eu a abracei e lhe disse meu nome. Perguntei o dela: Ariela.

Disse-lhe baixinho que nossos pais viriam nos buscar para nos tirar daquele lugar, daquela casa da bruxa. Daí me arrependi de falar em bruxa, porque feitiçaria não é coisa de D’us (*).

Apesar de mencionar uma bobagem, acho que fiz bem porque os outros passaram a prestar atenção no que eu dizia.

“Tomem um pouco d’água. Vamos esperar.” – dirigi-me a eles.

Eu estava dando água para Ariela quando ouvimos um barulho de ferro se arrastando.

A porta se abriu, bem devagar, diante de nós. Todos olhamos para aquela brecha com esperança de sermos libertados.

Estávamos indo ao encontro da abertura quando um som estridente de dentes batendo e um ronco, como de um porco feroz, nos empurrou de volta. Sabia que havia alguma coisa apavorante ali fora.

Eu só consegui ver uma silhueta de um adulto, com roupas grossas e um chapéu esquisito que lhe tapava as orelhas, parado à porta.

O homem olhou-nos um a um, como se nos avaliasse. Sorriu, dava para ver. Mas era um sorriso do mau.

Estávamos nos empurrando contra a parede do fundo e gritando histericamente de pavor.

Era ele o monstro que batia os dentes!

Ele entrou no quarto, pegou Ariela do nosso meio com um só braço e a puxou contra o peito. Todos corremos para o lado, ensandecidos.

A menina se debatia, mas o homem-porco era muito grande e forte. O rugido ficou mais alto.

Ele a arrastou até a porta, abriu uma grande maleta de couro, contorceu Ariela, como uma bonequinha de pano, acomodando-a ali dentro.

Eu me urinei.

Eles se foram e a porta da nossa cova fechou.

A cada dia a partir daquele, o ronco do monstro anunciava a despedida forçada de um de nós, amontoado dentro de uma mala.

A cada dia, também, sentia minha mãe mais distante.

Até que restou apenas eu.

Eu já não chorava, nem tomava água, nem dormia mais. Acho que meu coração não batia também, pelo menos, eu não o sentia no meu peito gelado.

Fechei meus olhos. Vi minha mãe, tão linda, me abraçando. Senti o cheirinho dela me envolver.

Cansado e desorientado, apaguei, mas não sei por quanto tempo.

Senti ser alçado e depois deitado, enquanto ouvia um ruído, longe. Tudo ficou muito escuro e eu fui ficando sem ar.

Quando a luz me acordou do esmaecimento eu me vi ofuscado por ela e não pude enxergar nada.

Uma mão cálida pegou na minha. O medo se foi e eu respirei, sentindo o peito inflar e esvaziar, devagar, aliviado.

“Joshua, mamãe está nos esperando.” Era a voz de Zamir.

Eu estava a salvo.

 

(*) D-us, ou D’us, é uma das formas utilizadas por alguns judeus lusófonos para se referirem a Deus sem citar seu nome completo, em respeito ao terceiro mandamento recebido por Moisés pelo qual Deus teria ordenado que seu nome não fosse invocado em vão. (…) (fonte: wikipedia)

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68 comentários em “O Homem-Porco (Sabrina Dalbello)

  1. Daniel Reis
    23 de junho de 2017

    (Prezado Autor: antes dos comentários, alerto que minha análise deve se restringir aos pontos que, na minha percepção, podem ser mais trabalhados, sem intenção de passar uma crítica literária, mas uma impressão de leitor. Espero que essas observações possam ajudá-lo a se aprimorar, assim com a leitura de seu conto também me ajudou. Um grande abraço).

    O Homem-Porco (Judah)

    ADEQUAÇÃO AO TEMA: sim, a imagem está presente como fator essencial para o clímax da história.

    ASPECTOS TÉCNICOS: o texto, de certa forma, me fez meditar que, na escrita, nem sempre as frases curtas e diretas são totalmente positivas para a história. Nesse caso, o começo da narrativa me pareceu muito “metralhado”, com respiração ofegante. Também o recurso de “acordar” em uma realidade é algo bastante repetido (mesmo aqui, entre os contos deste Desafio).

    EFEITO: um horror que não impactou tanto quanto deveria. Com uma reelaboração, pode até tirar o fôlego.

  2. Felipe Moreira
    22 de junho de 2017

    Oi, Judah.

    O texto levanta um suspense interessante, narrado sob o ponto de vista de uma criança. Em vários momentos isso deu certo, convenceu, mas noutros não. Digo porque não há qualquer verossimilhança quando nos deparamos com uma criança utilizando adjetivos que provavelmente não chegaram até o vocabulário dela ainda.

    No mais o texto é bom, prende nossa atenção, e é narrado ponto a ponto, como um roteiro, marcando o tempo de cada cena com um certo cuidado. Final pareceu um tanto aberto, mas suficiente pra ilustrar a segurança de quem a escreveu.

    Parabéns pelo trabalho, pelo cuidado em explicar o termo “D-us”. Boa sorte no desafio.

  3. Thiago de Melo
    22 de junho de 2017

    Olá, Judah,

    Achei o seu conto bastante intrigante. Vc mudou a perspectiva, então, eu (leitor) fiquei na dúvida se eram mesmo crianças ou se eram porquinhos que se viam como crianças e que viam o cara da mala como um porco (tipo planeta dos macacos, mas com porcos hehehheh).
    Achei que vc usou a foto do desafio como uma fonte de inspiração para o seu texto, foi uma sacada legal.
    O texto está bem escrito e sem erros, mas não foi um texto que me agradou como leitor, mas essa é apenas uma opinião pessoal.
    Boa sorte!

  4. Andreza Araujo
    21 de junho de 2017

    O conto certamente chamou minha atenção, a narrativa prende e é convincente. Entretanto, achei a estrutura muito truncada (frases curtas), então algumas vezes a leitura se mostrou “estranha” aos meus olhos, mesmo apreciando a narrativa em si.

    Outra coisa, se o protagonista também era uma criança, algumas palavras poderiam ser trocadas para maior verossimilhança (exemplo: que criança fala “cubículo” ou “fétido”? rs).

    O final é agradável, apesar de trágico. O terror dele acaba e finalmente pode-se encontrar com sua família. O conto fala de bombas e acredito ser esta a palavra-chave que cria o contexto da sua história. Não sabemos de todos os detalhes, mas o conto é em primeira pessoa e o narrador é uma criança, então acho que o que é mistério para o menino, também deve ser mistério para o leitor. Muito bom!

  5. Lee Rodrigues
    21 de junho de 2017

    Shalom, Judah!

    Quando surgiu a voz do garoto gostei primeiro por motivos estilísticos, depois, por ser uma criança e não ter a medida exata das coisas, o autor não precisava se preocupar tanto com questões morais ou se estender na crueza do holocausto.

    É com essa inocência infantil que o autor trata de uma realidade brutal, a violência do nazismo. Auschwitz atenuada pela incompreensão de uma criança. Onde, o Homem-Porco pode ser um soldado com máscara de gás, ou a associação dos possíveis animais que estavam atrás da porta. Eu, quando criança, morria de medo do Homem-da-Perna-Cabeluda e o Homem-do-saco.

    Achei interessante a obra assumir essa perspectiva infantil e fazer essa mistura entre crueldade e inocência, porque a criança não consegue dar conta da natureza dessa realidade, e a câmara de gás torna-se a mala. E a morte, um reencontro. Quiçá, dentro fé, com Jesus.

    👉 “Estávamos nos empurrando contra a parede do fundo e gritando histericamente de pavor.”

    Isso foi de apertar o coração! 😰

    ✂ Talvez, a supressão do pronome “eu” em algumas sentenças. Digo, apenas, talvez.

    Queria mais!

  6. Pedro Luna
    21 de junho de 2017

    Teria gostado mais se o conto não terminasse tão interpretativo. Realmente não achei que fosse o caso. Digo isso porque estava me parecendo uma cena bem tensa de algum filme de terror, estilo SAW, e envolvendo crianças, mas aí depois não fiquei certo se tudo era real, quem era o Homem Porco e esse final com luz ofuscando a visão e o irmão surgindo me soou confuso. Ele foi salvo ou era uma alucinação?

    Acho que a escolha pelo lado misterioso e surreal prejudicou a visceralidade do texto.

  7. Bia Machado
    19 de junho de 2017

    Ai, meu D’us, por que não fui dormir depois de ler o conto anterior? Bem, lido está e como gostei, apesar desse desespero que bateu quando cheguei ao final e… como assim? Como assim??????? Não reclamando do tamanho do seu conto, você é o autor/autora, sabe até onde deve ir, mas eu queria continuar com aquele menino, sabe… Foi bem a sensação que tive ao ler “O Menino do Pijama Listrado”, em certa parte, no finalzinho… Talvez se tivesse desenvolvido só mais um pouquinho, só pra alimentar nossa tensão um pouquinho mais, também cuidando de fazer parágrafos menos fragmentados, enfim… Cabe uma revisão, mas não houve atrapalho na leitura por causa de nada. Obrigada por ter enviado o conto!

  8. Evandro Furtado
    18 de junho de 2017

    Olá, autor. Sigamos com a avaliação. Trarei três aspectos que considero essenciais para o conto: Elementos de gênero (em que gênero literário o conto de encaixa e como ele trabalha/transgride/satiriza ele), Conteúdo (a história em si e como ela é construída) e Forma (a narrativa, a linguagem utilizada).

    EG: Um survivor horror como uma atmosfera bem macabra, melhor estilo Jogos Mortais. O problema foi que o tema não foi inteiramente inserido. Não houve uma representação suficientemente boa da imagem do desafio.

    C: A história é simples, mas tem uma camada superficial bem interessante quando aprofundada. O homem porco pode ser qualquer representação de um inimigo dos judeus, desde um nazista até um extremista árabe. Infelizmente, o autor não se aprofundou muito nisso e o conto termina de forma abrupta.

    F: A narrativa é segura e faz sentido no olhar de uma criança. Eu confesso que tenho certa resistência a narrativas de primeira pessoa quando o personagem morre no final. Nesse caso não me incomodou tanto.

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Publicado às 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017 e marcado .