EntreContos

Detox Literário.

História de Taverna (Marco Piscies)

A taverna estava lotada naquela noite. Uma acalorada discussão transcorria entre os sete clientes, todos homens, alguns ouvindo e bebendo, outros proferindo barulhentas bravatas. Entre eles estava Hephew, um jovem de apenas dezesseis anos, que acabara de retornar da sua primeira caçada solitária.

— Não existem javalis nestas terras, garoto. — um dos homens esbravejou.

— Pois eu quase matei um hoje! — insistiu Hephew. — Mas alguém disparou uma escopeta em algum lugar a oeste, e o bicho se assustou. Deve ter sido o velho Graves.

A discussão prosseguiu incessante, até que Leo retirou o cachimbo da boca para falar. Próximo do meio século de vida, o homem pouco discursava, mas suas palavras eram sempre ouvidas com respeito.

— Este javali, que você diz ter visto, estava preso a uma corrente e acompanhado por um homem?

— Javalis não são como cachorros. — respondeu o jovem caçador.

— Esta seria a única forma razoável de você ter avistado um javali por estas bandas, garoto. Nunca ouviu a história do Andarilho?

O tom funesto das suas palavras fez com que todos os olhos se dirigissem a ele. Curiosos, esperavam que prosseguisse. Leo, por sua vez, tocou a ponta do chapéu e meneou a cabeça na direção da figura de roupas negras sentada ao balcão.

— Não olhem para mim. Foi o padre quem me contou.

Padre Gabriel, sentado em uma banqueta ao lado de Hephew, com um copo de vinho em mãos, lançou para Leo um olhar de reprovação. Era homem de poucas palavras, tal qual o amigo fumante.

— Falei para você ficar quieto, Leo. Mas a sua boca de velho não tem rédeas.

— Quer dizer que o padre tem histórias para contar? — disse um dos homens nas mesas, fazendo eco aos pensamentos de todos. Cedendo aos olhares curiosos, Gabriel pôs-se de frente para os bebuns.

— Um padre conhece muitas histórias. A maioria ouvimos nas confissões, mas estas estão seladas por nosso juramento de silêncio. A história que vou contar, porém, não veio de confissão nenhuma. Eu mesmo presenciei tudo.

Silêncio. Todos os olhos no homem de batina. Para esquentar o corpo e ganhar coragem, o padre sorveu um pouco mais do vinho.

— Aconteceu na minha mocidade, há dezessete anos, quando ainda servia na igreja de Yorguenville. Naquela época surgiu a história de um Andarilho que viajava entre as vilas. Trajava roupas estranhas, escondia o rosto atrás de óculos enormes e mantinha os cabelos por debaixo de um capuz. Carregava consigo um javali preso a uma corrente. Juntos, homem e criatura pilhavam as vilas que visitavam, estuprando suas mulheres e guardando troféus dentro de uma enorme mala, que o homem carregava consigo.

— Era apenas folclore, é claro. Mas certa noite, após o fim da missa noturna, um homem esperou que todos os fiéis se retirassem para vir ter comigo. Reconheci-o como Janon, o forasteiro que havia chegado na vila há apenas dois dias. Na época seu nome completo e seus feitos não haviam chegado aos nossos ouvidos, mas isso logo mudaria.

 

Preciso falar com você, padre. ele disse, afoito.

O que te aflige?

O forasteiro falava a contragosto, evitando travar contato visual. Na cintura, carregava um revólver de cano prateado.

Já ouviu falar de homem que não morre? ele prosseguiu.

Todo aquele que viver em justiça herdará a vida eterna.

Falo de antes disso.

Não sei se te acompanho, filho.

Estou falando de levar um tiro na testa e gargalhar, ao invés de cair com os miolos espalhados pelo chão.

Confuso, sentei-me em um dos bancos próximos.

Janon é o seu nome, correto?

O homem assentiu. Tinhas as mãos apoiadas sobre o cinto de couro, e um olhar irritadiço.

O que te traz aqui, Janon, com perguntas desta natureza?

Acho que estou amaldiçoado, padre. A morte me persegue. Por isso ando de vila em vila, tentando escapar.

Você quer dizer que coisas ruins acontecem por onde você passa?

O forasteiro fungou e grunhiu algo indecifrável, com demonstrada impaciência.

Não complique as coisas. Estou falando da morte mesmo. Ela vem em forma de homem. Meu chumbo o derruba, mas a criatura não morre. Então parto para longe, antes que me alcance. – ele andava de um lado para o outro em passos lentos, fitando o chão com uma expressão séria. – Mas as balas estão acabando.

Filho, a morte não é uma entidade. Ela é natural. Uma dádiva de Deus.

Janon interrompeu a impaciente andança, olhou uma vez para a estátua do Salvador crucificado e, por fim, traçou o seu caminho em direção à saída.

Não esperava que soubesse de alguma coisa.

Cansado, senti-me tentado a deixar que a figura se retirasse. Mas lembrei de algo e, movido pela caridade, fiz o forasteiro interromper a caminhada já às portas da igreja.

Ouvi falar de homens que não morreram com chumbo ou aço. falei em voz alta Homens que se levantavam mesmo quando deveriam ter morrido. Não são homens, apesar de habitar um simulacro de carne. São demônios ou espíritos inquietos, que tomam o corpo daqueles com a mente fraca ou pesada demais com o fardo dos próprios arrependimentos.

E como faço pra matar uma coisa dessas? ele perguntou, virando-se para mim.

Andei até ele. Frente a frente com o forasteiro, bem ciente da arma na sua cintura, exprimi a minha preocupação. Confiava que Deus me protegeria, caso a sinceridade fosse demasiada.

Por acaso carrega consigo um pecado que lhe aflige o sono, Janon? O que você fez, para ter tanta certeza da própria danação?

Por um momento, ficamos em silêncio. Ele me encarava com o cenho contraído, como se lutasse contra a vontade de sacar a arma ali mesmo e disparar, maculando o solo sagrado com o meu sangue.

O momento se prolongou. Lá fora, os gritos de uma garota desviaram a nossa atenção.

O Andarilho se aproxima! Ele se aproxima! ela gritava.

Andamos apressados para fora da igreja, a fim de verificar a gritaria. Um grupo de curiosos se aglomerava na praça principal, há poucos metros dali. Ao longe, um homem atravessava o pórtico da vila, sob os olhos assustados dos guardas, que nada fizeram para impedi-lo. Segurava, em uma mão, a corrente que guiava um javali. Na outra, uma grande mala.

Por Jesus! É o Andarilho! Conhece a história, forasteiro?

Quem não conhece?

Para meu espanto, Janon sacou a arma e eu, em reflexo, me distanciei. O homem verificou o tambor e eu pude divisar uma única bala ao lado de cinco outros espaços vazios.

O que pretende fazer com isso? perguntei.

Ele vem me buscar, mas Janon Sem-Alma não cai facilmente.

E caminhou na direção da praça. Eu o segui até a metade da escadaria. Permaneci em solo elevado, onde poderia avistar a ação acima das cabeças dos curiosos. Janon abriu espaço entre as pessoas, encarando o Andarilho de frente.

Vem me buscar novamente, dona morte? ele gritou em tom de escárnio.

O homem que caminhava até ele era sinistro, exatamente como o descrevi. O vento esvoaçava o seu sobretudo descorado, e notei que seus cabelos e barba apresentavam os fios brancos da idade avançada. Não demonstrava nenhuma emoção. Parou de andar a dez metros de Janon, sem dar atenção ao círculo de pessoas ao redor. Então abriu a boca para falar.

Janon… a sua voz espectral soava sobrenatural. Fiz o sinal da cruz naquele momento. Por Deus, faço o sinal da cruz ainda hoje quando lembro daquela voz. …cansou de correr do inevitável?

Jamais! o forasteiro respondeu. Apontou e disparou a pistola em uma fração de segundo. O tiro preciso fez a bala atravessar o coração do Andarilho, que caiu de costas ao chão, inerte. Alguns gritos de espanto vieram dos curiosos ao redor. O javali não fez menção de se mover.

Bala de prata, filho da mãe! Janon gritou, cuspindo ao chão.

O impossível veio em seguida. O Andarilho levantou sem pressa, limpando a poeira da indumentária.

Acredito que, com isto, foi-se a sua última bala.

Derrotado, Janon largou o revólver ao chão e abriu os braços.

O que quer, demônio? Por que me persegue?

O que aconteceu em seguida será difícil descrever. Foi o motivo da minha saída às pressas daquela vila, afinal. O Andarilho removeu o sobretudo, lançando-o ao solo. Em seu corpo espalhavam-se quatro buracos de bala, um deles ainda fresco na altura do coração. Removeu também o capuz, exibindo mais uma cratera no topo da testa. Em seguida, retirou os óculos estranhos, revelando duas órbitas vazias, inspirando suspiros de terror nos que ainda permaneciam ali.

Por fim, o Andarilho sorriu.

Reconhece-me agora, Janon Sem-Alma?

Pela primeira vez, notei as pernas do valente forasteiro vacilarem, dando um tímido passo para trás.

Não pode ser! ele gritou, mas sua voz vacilava.

Você criou histórias terríveis sobre mim. Pensou que, com elas, os vilarejos impediriam o meu avanço. Pensou que, por medo, me caçariam até o fim. Mas, pelo mesmo medo, deixaram-me vagar à sua procura sem saber que o real monstro era você. Janon, o pirata desalmado. Aquele que queima e pilha as vilas costeiras, estupra suas mulheres e arranca os olhos dos seus homens!

O Andarilho então pôs-se sobre um dos joelhos e descansou a grande mala ao chão, iniciando a abertura dos seus trincos.

Venho em nome da minha esposa e da minha filha. Elas buscam vingança… o último trinco foi aberto … e agora a terão.

Da mala fugiu uma névoa que, em sua dança pelo ar, lembrava vagamente duas formas femininas. Soprava como o vento, e o som do mesmo nas vidraças da igreja era como o grito agonizante de mil mulheres em tormento. A névoa acumulou-se ao redor de Janon, formando um turbilhão que carregou consigo folhas e poeira. Em meio a ventania, Janon gritou, e o Andarilho gargalhou. Fui um dos poucos a observar toda a cena. Estático, vi com clareza a alma do pirata fugir do seu corpo e ser sugada até o javali, que o encarava com olhos flamejantes. Nas suas presas, juro ter conseguido divisar um sorriso.

Então, tão repentino como começou, tudo terminou.

Andarilho e pirata caíram ao chão, inertes. A mala, aberta, nada continha no seu interior. O javali, ainda uma presença aterradora, correu para longe. Ninguém o perseguiu.

 

– Dizem que a criatura fugiu em busca de novas almas para devorar. Alimentava-se da vingança e da imundície das almas sujas pelo sangue. Mas são só conjecturas. Profundamente perturbado, porém, parti de Yorguenville três dias depois, para nunca mais voltar. Às vezes, as imagens daquela noite ainda surgem nos meus pesadelos.

Após uma respeitosa pausa, Leo completou:

— É por isso, Hephew, que é bom você ter certeza de que viu um javali por estas terras.

Silêncio. Com um sorriso amarelo, o jovem tentou espantar a atmosfera pesada com uma risada acanhada, que tinha a intenção do deboche.

— Ora vamos, padre. Você conversou com Janon Sem-Alma? Difícil acreditar.

— Há de convir — Leo interviu novamente, baforando o seu cachimbo — que o padre Gabriel servia mesmo em Yorguenville. Eu mesmo fui lá verificar. E que foi lá o local de descanso final do temível pirata.

Engolindo seco, Hephew bebericou a cerveja sem conseguir disfarçar as mãos trêmulas. O único som que podiam ouvir era o vento lá fora, que trouxe consigo o som de passos inesperados. Os olhos se voltaram para porta da taverna, que rangeu ao abrir.

Na soleira, uma figura segurava uma corrente e, na sua ponta, um javali grunhia.

Com um grito, Hephew se levantou, derrubando a caneca ao chão. O homem adentrou o recinto. Era Graves, o velho fazendeiro, carregando consigo um porco comum com uma roupagem peluda, disfarçado de javali. Toda a taverna explodiu em gargalhadas, menos o jovem caçador.

— Ah, meu caro Hephew! Você tinha que ver a sua cara!

O jovem corava de ódio. Graves envolveu o seu pescoço com um braço e pediu uma rodada de cerveja para todos.

Apesar de não ter sido avisado da brincadeira, padre Gabriel também ria. Com todas as atenções voltadas para Hephew, ninguém notou que ele foi, na verdade, a última pessoa a começar a gargalhar.

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55 comentários em “História de Taverna (Marco Piscies)

  1. Bia Machado
    23 de junho de 2017

    Gostei! Não sei se estou enganada, mas histórias desse tipo não são muito comuns aqui no EC. A narrativa fluiu, gostei do tom dos diálogos, que mantém o clima durante o texto todo. Só desgostei do final. Não sei, de alguma forma ele não se encaixa com esse tom do restante da história. Estou falando do último período do texto. Esse negócio das almas achei bem criativo, visualizei a coisa bem assim como foi descrito, então ponto para o autor/a autora. Quanto à gramática, algumas coisas nada de mais, porém certas palavras me dão coisas e uma das que mais me incomodam é “adentrar”, só perde para a expressão “o mesmo/a mesma”. Mas é só um toque. Bom trabalho!

  2. Pedro Luna
    23 de junho de 2017

    Gostei do conto. O clima de taverna, com a turma reunida e conversando, figuras bem diferentes, foi bem feito. A presença de um padre contando a história marcou ainda mais, pois deu um aspecto de realidade macabra e histórica ao relato. E quanto ao próprio relato, ficou bacana ver o temor do pirata quanto ao seu perseguidor e essa história de Homem que Não Morre. Só não gostei mesmo do final, com a peça pregada pelos taverneiros. Não deu nem tempo do leitor acreditar no susto de Hep, e soou meio bobo. No geral, positivo o conto.

  3. Daniel Reis
    23 de junho de 2017

    (Prezado Autor: antes dos comentários, alerto que minha análise deve se restringir aos pontos que, na minha percepção, podem ser mais trabalhados, sem intenção de passar uma crítica literária, mas uma impressão de leitor. Espero que essas observações possam ajudá-lo a se aprimorar, assim com a leitura de seu conto também me ajudou. Um grande abraço).

    História de Taverna (Taverneiro)

    ADEQUAÇÃO AO TEMA: tá lá, na pegadinha do Graves.

    ASPECTOS TÉCNICOS: muitas vezes, onde estava escrito Janon, eu li Jason. E confundia ele com o Andarilho. A escolha do autor em usar a narrativa na taverna, se não original, foi adequado para introduzir a história. A meu ver, a parte mais complicada foram os grandes “discursos” dos diálogos, inserindo informações e deixando a ação de lado.

    EFEITO: trouxe um clima de Piratas do Caribe. Mas sem aventura. E o sustinho no final ficou um efeito meio Scooby Doo.

E Então? O que achou?

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Publicado às 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017 e marcado .