EntreContos

Literatura que desafia.

O Retorno dos Deuses (M Saints)

Olhei para baixo, e com uma exclamação de sobressalto, vi que tinha acontecido de novo: meus pés estavam enormes, deformados e com poucos dedos. Consternado, notei também que minha altura tinha diminuído para meros noventa centímetros.

Dezenas de seres-libélulas aproximavam-se, com seus zumbidos agourentos.

– Tai-Pana! – Gritei, sem resposta. Os deuses eram outros. As libélulas agora estavam tão próximas que sentia o roçar de suas asas no rosto. Preparei-me para ser devorado, lenta e dolorosamente.

Ouviu-se um rugido soturno, quando as árvores se abriram e o porco emergiu do matagal. Equilibrando-se agilmente no animal, o homem alto pressionava repetidamente o gatilho de um AL-203, desferindo projéteis precisos nas libélulas. Em pouco tempo todos os seres esvoaçantes jaziam no chão.

O homem alto aproximou-se, sempre de pé sobre sua fiel montaria. Olhei para ele e perguntei.

– Ela vive novamente? – Ele não respondeu.

– Ela vive, filho-de-uma-Deusa? – Tornei a perguntar, ansioso. O Homem alto virou-se e desapareceu no silêncio da mata.

“Os deuses estão mortos”. Pensei ter ouvido um sussurro.

 

– Qual o maior rio da terra que ainda tem água? – Ritinha Canastra perguntou-me.

No terceiro andar do Colégio Batista Jerônimo de Albuquerque, eu tentava dar mais uma aula de Geografia. Ainda atordoado, não atinava com a resposta.

– Professor Rafael Curupira! – A diretora chamou-me, no pátio, as mãos em concha ao redor dos lábios pintados demais. Não havia como recusar. Convoquei um bedel que dormitava no corredor e mandei que ficasse na sala com os alunos, o que ele fez com toda má vontade de que foi capaz. Desci correndo as escadas.

O pátio estava deserto, a não ser por três cachorros vadios, que provavelmente por um descuido do guarda e caça gazeteiros Romualdo Galinha, tinham conseguido entrar na escola.

– Professor Rafael Curupira! – A diretora tinha subido as escadas e gritava por mim, no terceiro andar. Quanta idiotice, meu Deus.

“Os últimos deuses estão mortos”, pensei.

O filho-de-uma-Deusa me vigiava, ao longe. Gritei:

– Kaapow!

Ele não respondeu. A professora chamou-me novamente e olhei. Quando virei-me, Kaapow, filho-de-uma-Deusa, tinha sumido.

– Qual o rio, professor? – Ritinha Canastra insistia.

– Os deuses são outros agora, Ritinha – respondi, deixando-a perplexa.

A diretora entrou na sala. Uma grande caixa foi largada no chão por dois carregadores, com um estrondo.

– Professor Rafael Curupira, o senhor conhece essa caixa?

Olhei com atenção. Então percebi, com um arrepio.

– Não abra! – Gritei.

– A caixa está vazia, professor – a diretora sorria.

– Não abra, dona Iara!

A diretora fez um sinal para os carregadores. Antes que eu pudesse intervir, os dois deslocaram as duas trancas laterais da caixa. Precipitei-me em sua direção, mas não consegui impedir que levantassem a tampa.

Como se tivessem aberto as comportas do inferno, os seres-libélula jorravam sem parar da caixa, tapando o sol. Em breve, a sala estava escura como um beco sórdido.

– A caixa estava vazia ou não, professor? – Dona Iara mantinha um sorriso enigmático nos lábios.

“Afinal, quem é o deus aqui?” – Pensei.

 

Lobo-de-um-homem, o barman, serviu a terceira vodka em um copo cor de laranja.

– No seu mundo, os deuses correm em cima de porcos, empunhando um fuzil AL-203? – Lobo perguntou, displicente.

– E carregam caixas cheias de libélulas – completei.

Lobo sacudiu a cabeça, com um gesto de enfado, e encerrou a conversa:

– Melhor que voar com um martelo e uma toalha no pescoço.

Concordei, com um aceno silencioso.

Virei-me para a porta do “saloon”. Ele estava lá:

– Filho-de-uma-Deusa! – exclamei, surpreso. Ele saiu e eu o segui.

Lá fora, havia homens com capuzes e tochas acesas. E uma enorme cruz.

– Assassinos! – gritei. Mas eles galoparam velozmente para longe. Pensei em segui-los, mas já se fora o tempo em que eu corria mais veloz que o vento.

Então olhei para os meus pés. Com um grito de horror e triunfo vi que eles estavam enormes novamente.

– Ninguém alcança um curupira! – Desabalei-me atrás daqueles fanáticos.

“Cabelinho vermelho”, pareceu-me ouvir um sussurro.

Na clareira, ela estava pregada em uma enorme cruz. Os demônios encapuzados rodeavam-na, do alto dos seus cavalos, ameaçando-a com tochas.

– Tai-Pana! – Gritei. Vi quando seus lábios murmuraram meu nome.

Os cavaleiros galoparam furiosamente em minha direção.

– Professor Rafael Curupira – dona Iara gritava.

 

– Rafael Portenho – corrigiu Lobo-de-um-homem, o barman mais preguiçoso do mundo.

Já que eu estava em um bar, pedi mais um drinque.

– E então, como vão seus deuses?  – Lobo perguntou-me.

– Os deuses estão mortos – respondi grosseiramente.

Lobo não se perturbou.

– Isso parece nome de novela da TV – disse, e foi cuidar de seus afazeres.

 

– Professor, qual o nome da deusa do amor? – Ritinha Canastra perguntou-me.

– Tai-Pana – respondi.

Dona Iara entrou na sala, o sorriso falso nos lábios sujos de batom barato, a voz-que-nenhum-resiste. Balançou o dedo em riste para mim.

– Professor, o senhor não está sendo diligente com seus alunos. O nome da deusa do amor não é Tai-Pana.

– Só há uma Deusa sobre todas as coisas – eu disse. – Seu nome é Tai-Pana. E Kaapow seu único filho.

Dona Iara parou de sacudir o dedo repreensor:

– E o senhor, quem é então?

– O emissário, o-que-abre-picadas. O mensageiro-do-seu-poder. O Kurpirrr-das-colinas.

Ritinha Canastra aproximou-se:

– E eu quem sou, professor Rafael?

– Ora, você é…

Finalmente a reconheci, horrorizado:

– Você é a que abre a caixa dos males! Das visagens-que-andam-nos-quintais! – disse, fazendo um jogo-da-velha com os dedos.

Ela sorriu:

– Sabia que você ia se lembrar de mim, querido…

 

Não havia tempo a perder.  Tai-Pana estava presa na cruz, cercada por aqueles entes doentios, acenando com tochas e caniços.  Gritei:

– Voltem para as trevas, feiticeiros!

Todos se viraram e correram em minha direção.

Ergui os dois braços. O filho-de-uma-Deusa vinha a todo galope, sobre o irmão porco.

– Maaaaapiiiiiinguaryyyyyyyyyyyyyyy! – Lancei, na escuridão.

Bastou pronunciar o nome da besta. O céu explodiu em uma bola de fogo, seu rosto começava a aparecer. Os deuses reviviam.

 

A criança estava sentada no imenso campo, brincando. Quando me viu, perguntou, sorrindo:

– Onde você esteve?

– Na outra floresta, menina-flor.

– Como é do outro lado?

– Igual a esse em que você mora só que lá às vezes faz frio, às vezes faz calor.

Ela pareceu pensativa.

– Não sei se vou gostar. Não estou acostumada com frio ou calor.

– Você não precisa ir lá, menina-flor.

– Preciso. Meu pai disse.

– Você não irá. Se seu pai quiser, ele que vá.

– Ele não pode, tem que ser eu. – A menina-flor completou, com sua voz cantante: – O pai-dos-tempos não quer e não sabe como morrer.

 

– Professoooooooorrr – Dona Iara entrou na sala, meneando os quadris e vestindo uma saia curtíssima -, vamos almoçar juntos hoje. Temos Boto ao molho de morango.

Ela dançava e cantava um samba indecente:

 

Gosto quanto tu me olhas

Assim, assim, assim, assim,

Gosto quando tu me tocas

Com tua boca carmesim.

 

Ela ficava tão esquisita se requebrando, estalando os joelhos, que não pude deixar de gargalhar. Dona Iara interpretou meu riso como aquiescência e tomou minha mão, sacudindo-a:

– Venha, professor Curupira, dance também.

Ao contato dos seus dedos retirei minha mão, enojado. Ela olhou-me nos olhos, sorrindo maldosamente.

– Sua vez ainda vai chegar, professor. O rio não perdoa.

 

Lobo-de-um-homem perguntou:

– Onde estão seus deuses agora?

– Soltei a besta – respondi.

– Você ficou louco? Soltou o…

– Não diga esse nome – interrompi rapidamente.

– Sem seus deuses – completei, após uma pausa – os homens são sombras errantes, na alameda dos sonhos.

Nisso, o bar foi invadido por três mulheres-dos-sonhos. Então os deuses voltavam… Todos os olhares voltaram-se para as huris diáfanas.

– Vou ver o que essas pisadeiras querem – Lobo-de-um-homem empurrou a garrafa em minha direção e deu a volta no balcão.

Logo, três homens-príncipes entraram no bar, seguidos por duas mulheres-rainhas e dois homens-chicote. Eu estava encolhido no balcão, esperava que ninguém me visse… Uma das mulheres-dos-sonhos sentiu minha presença e apontou-me para as outras.

– Olha quem está ali…

Foi como um sinal. Todos no bar se voltaram na minha direção e eu saí para a rua, com todos atrás.

Uma multidão descia a encosta, em desabalada carreira. Meninas-flor e seus pais-do-tempo, folhas-régias, botos-príncipes, homens-sem-pernas. Vinham cantando, sorridentes, renascidos. Finalmente os quase-deuses voltavam.

No sopé da colina, todos pararam. Eu também sentia uma presença rumorosa no ar. Levantamos os olhos para o horizonte. Quisera eu não ter levantado.

A besta estava lá e vinha em nossa direção. Todos gritaram, em uníssono:

– Maaaaapiiiiinguaryyyyyyyyyy!

Estavam todos assustados demais para correr. Ajoelharam-se, os olhos baixos e prepararam-se para morrer novamente. Mas antes disso ouvimos o seu grito:

– Kaapow!

O filho-de-uma-deusa equilibrava-se sobre a besta, uma das mãos segurando os longos cabelos do Mapinguary e a outra empunhando o AL-203. Montada na besta vinha também Tai-Pana, a única deusa sobre dois mundos. Todos curvamo-nos perante ela.

Os homens podiam viver agora no mundo completo.

 

Depois daquele dia, retiramo-nos para a terra dos sonhos, e não mais trilhamos os caminhos dos mortais. Junto com suas mulheres, os homens voltaram, um a um, como flocos de nuvens. Em breve habitariam cabanas e replantariam suas ervas de sementeira.

Voltei a correr pelas picadas, sempre na contramão, como dizem que faço. Mais veloz que o vento, que ninguém alcança um curupira. Esse é meu destino, viver irresponsavelmente, por viver. Claro, até precisarem novamente de cabelinho-vermelho.

Não é que outro dia escutei um barulho estranho, no meio da noite, no meio da mata? Tratei de desvendar um caminho e fui parar na clareira semivirgem.  Tocos de árvores, galhos espalhados, um rio que ainda corria.

– Professor Rafael Curupira!

No meio das águas de um azul traiçoeiro, o corpo nu da Iara refletia Yacy-Lua, em suas escamas de prata.

– Venha, professor! – Ela meneava a cauda, fascinando – Venha!

Fui.

Não se desafia um Curupira.

T

c

 h

  i

  Bum!.

 

Dedicado:

a Almir Suruí, “Herói da Floresta”, Grande Chefe da tribo Paiter Suruí,

à tribo Paiter Suruí,

e a Phillipe Echaroux, que conseguiu retratá-los.

(Manaus, 10/05/2017)

Anúncios

2 comentários em “O Retorno dos Deuses (M Saints)

  1. Olisomar Pires
    21 de maio de 2017

    1. Tema: adequação inexistente;

    2. Criatividade: Muito boa. Uma mistura de seres folclóricos meio perdidos no mundo real ou não.

    3. Enredo: Dialogação muito boa, ágil, eficiente, nomes e personagens muito bem explorados, apesar da imensa quantidade para um texto pequeno.

    4. Escrita: Sem erros dignos de nota ou que tenha visto.

    5. Impacto: médio.

    Muitas e tão diferentes informações, apesar de bem escritas, turvaram o conto.

    Disse que não houve adequação porque não consigo imaginar a imagem-tema em nenhum lugar do conto.

  2. Anorkinda Neide
    20 de maio de 2017

    Olá!
    Outro autor q ficou com o folclore entranhado na imaginação 🙂
    Gostei do texto, achei ágil e divertido.nao sei se entendi bem, acho q estou com sono..rsrs voltarei a ler quando for dar a nota.
    A princípio, gostei bastante, os personagens todos são uma graça.
    Abraçao

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017.