EntreContos

Literatura que desafia.

Cruz de Ferro (Antonio Peres)

Certo dia, percebeu que era seguido por um animal. Os rastros eram evidentes. Não se tratava de um cão, naturalmente. Mas era um animal grande, por certo. Talvez fosse outro sobrevivente, afortunado pelo trágico destino de se encontrar só. Como ele próprio. Dele aproximou-se aos poucos, atraído por raízes ou tubérculos, qualquer alimento colhido pelo caminho. Também lhe construía abrigos contra intempéries, coberturas feitas de folhas entrelaçadas. Queria companhia, permitindo-se pensar que o animal desejava o mesmo.

Há tempos perdera a noção dos dias, dos meses… Às vezes tinha a impressão de encontrar-se prisioneiro de um sonho sem fim, assaltado por recordações que talvez fossem reais, mas que poderiam ser apenas desvarios. Um avião pousando no deserto, o motor avariado, ou falta de combustível. Era um biplano, sim, disso tinha certeza. Vermelho, possivelmente? Não, isso não, era uma cor chamativa demais. Provavelmente era verde. Isso, verde escuro, com uma cruz pintada na fuselagem. A Cruz de Ferro. Igual à que trazia pendurada no pescoço. Sim, verde, agora não havia dúvidas. Isso porque lembrou-se do contraste com o tom amarelado do horizonte, o mesmo de sua jaqueta comprida. Ah, o deserto… Não sentia falta daquela imensidão opressora, o vazio onde um grito se evaporava, morto desde a garganta. Nenhuma pessoa ou animal, nem mesmo escorpiões ou escaravelhos. Há quanto tempo isso se dera? O pouso, o trem de aterragem se partindo, a aeronave rodopiando. Tempo… O tempo é o maior dos covardes. Jamais conduz à certeza. Ao contrário, embota os sentidos, faz do passado algo imaginário, ainda que real.

Tinha a impressão de estar na floresta há anos quando, enfim, o porco-do-mato surgiu diante de si. Era menor do que havia suposto. Arfando, o animal aproximou-se a passos lentos, atraído por um punhado de frutas silvestres. Comeram juntos pela primeira vez, o homem sorrindo, satisfeito.

***

Entre as árvores, a brisa fornecia alento. Mantinha-se uniformizado, com o animal preso a uma corrente. Não que receasse sua fuga, mas porque era isso que previam os manuais. Ou assim se recordava. Em todo caso, sabia que a disciplina se revelava nos detalhes, na maneira cuidadosa de proceder. E disciplina, era certo, significava liberdade, ou pelo menos a chave para não sucumbir de vez aos transtornos.

Havia uma missão a cumprir. Quando isso acontecesse, poderia voltar à aeronave. Certamente levaria o animal consigo. Então, bastaria consertar o motor, ou o trem de pouso, e retornar aos seus, embora estivesse incerto quanto ao rumo a tomar quando decolasse. Os mapas o ajudariam. Exatamente, os mapas. Estavam guardados no compartimento abaixo dos instrumentos. Não, não… Era no espaço vazado, do lado direito da carlinga, roçando os cabos do leme de profundidade. Sim, os mapas indicariam para onde regressar. Uma pena não tê-los trazido agora.

Com dificuldade puxava uma mala retangular, que lembrava uma grande caixa. O manifesto de carga no bolso indicava que nela havia livros. Talvez por isso fosse tão pesada. Por vezes sentia ganas de abri-la, de absorver aquele conhecimento. Com sorte, teria explicadas as dúvidas que o assombravam. Sim, os livros… Com eles, poderia discernir realidade de devaneios, poderia reencontrar-se.

No entanto via-se impedido de violar o cadeado. Porque era um mensageiro, não só um piloto. Os livros deveriam ser entregues ao destinatário, incólumes. Era essa a missão que lhe fora atribuída. Lembrou-se das coordenadas, dos números guardados em sua memória que revelavam a localização exata de seu destino, o ponto em que latitude e longitude se encontravam enfim, para libertá-lo. Quando se sentia provocado a errar, voltava-se para a bússola e conferia o azimute. Em frente, marche, resignava-se.

***

Certa noite sentou-se sobre a mala e fez uma fogueira. A madeira estalava lançando faíscas a esmo, como pequenas estrelas cadentes. Deixou-se hipnotizar por um momento, o brilho fantasmagórico das chamas beijando-lhe o semblante. Percebeu quando o porco deitou-se próximo do fogo, observando-o, a expressão pesada refletindo seu próprio torpor.

“É todo o conhecimento que resta no mundo”, disse ao animal, repetindo o que ouvira há muito tempo. Lembrou-se do homem alto e magro, que ostentava uma barba rala, cujos fiapos soltos conferiam-lhe o aspecto de um cavaleiro medieval. “’Tudo foi destruído, queimado… Resta pouco. Precisamos escondê-los, entregá-los a quem puder proteger esse tesouro… Você entende a importância disso? Entende? Ah, ótimo, imaginei que compreenderia. Tome aqui as coordenadas. Siga nesse rumo. Cuidado, sim? Ótimo, ótimo…

Em meio às labaredas, discerniu a mala. Sim, ele a entregaria. Era um piloto. Afagou o animal, o pelo denso da cabeça envolvendo-lhe os dedos. Era uma boa companhia, isso era. Uma companhia de verdade, real.

***

Chegaram a um caminho de ferro, certamente inutilizado em algum ponto. Por ali. Esse era o sentido. Deitou a mala sobre os trilhos enegrecidos e com uma corda amarrou-a às costas, como um arado. Fazia calor e em certo ponto despiu-se do casaco, embrulhando-o sobre a carga.

“Não vai demorar”, disse ao porco-do-mato. Diante do olhar enfadonho do animal, reforçou que desta vez isso era certo. A bússola era precisa.

“Não sente calor, velho amigo?”, perguntou-lhe, arrependendo-se em seguida pela obviedade da indagação.

Achou melhor trocar de assunto.

“Já voou alguma vez? Numa aeronave, num balão? Não? Bem, eu tenho um biplano nos esperando. Conhece? É um avião muito bonito, ágil, fácil de manobrar, a coisa mais linda deste mundo…”

O porco grunhiu, sacudindo a cabeça.

“Sabe por que fui o escolhido? O cavaleiro… Ele me disse que habilidade não me faltava e que de todo modo não havia muitos pilotos remanescentes… Também disse que eu não tinha nada a perder… Mas no fim ele falou que confiava em mim, que eu era especial, único, alguém que levaria o conhecimento a um local seguro, não importando o quão difícil fosse.”

“’Você não tem nada a perder’, foi o que ele me disse. Foi o que me convenceu. Eu respondi a ele: sim, senhor, não tenho nada a perder. Já perdi tudo.”

***

Colunas enegrecidas se projetavam na direção dos céus, borrando o horizonte com as matizes do ódio. O fogo antiaéreo explodia próximo das asas, criando violentas ondas de choque. E a metralha? O rugido dos projéteis era terrível. Maldita artilharia. Certamente o inferno é habitado por artilheiros, por seus canhões e obuses ensurdecedores, por sua empáfia que nos humilha e nos reduz à condição de ratos medrosos. Como controlar o avião em um teatro de horrores, com o céu se precipitando, com o firmamento em colapso, se desfazendo sobre nossas cabeças?

“Já foi à guerra, meu amigo?”, perguntou ao porco-do-mato, enquanto se alimentavam de frutas. “Creio que já estive lá… Não sei ao certo.” Olhou para as próprias mãos, repletas de calos e ferimentos, com bolhas nas palmas. “Uma coisa é certa. Chegaremos ao nosso destino em breve e então daremos risadas disso tudo.

O porco aninhou-se a seus pés e cerrou os olhos. Tinha a expressão serena.

“’Você não deve violar a mala, entendeu?’, foi o que o cavaleiro me disse”, prosseguiu o homem. “Eu fiz que sim, sério como quem assiste a um funeral e ele completou ‘Arrisco a dizer que não há mais livros no mundo, a não ser estes. Todas as bibliotecas foram dizimadas. O conhecimento permanece na mente de alguns, mas para as gerações futuras… Bem, elas precisarão de livros, de algo que as inspire.’ Eu entendi que era importante. Que deveria entregá-los. Até porque, como eu disse, não tinha nada mais a perder.”

A essa altura, o porco-do-mato dormia. Ao menos tinha os olhos cerrados.

“Tive vontade de perguntar ao cavaleiro se de fato haveria gerações futuras… Como ele podia ter certeza? Haveria, afinal, alguém que pudesse absorver o conhecimento, alguém que pudesse aprender? Mas, ele, o cavaleiro – ah, ele era esperto –, como se adivinhasse o que eu estava pensando, esclareceu: ‘Não permita que as dúvidas comprometam sua missão, piloto. Apenas faça a entrega. Precisamos disso, desesperadamente.’ Então eu vim.”

***

Examinou a bússola e conferiu as coordenadas. Era ali. Sorriu na direção do animal, quase satisfeito. Sim, era ali. Em breve alguém apareceria e eles estariam livres para voltar. “Meu amigo, você não perde por esperar. Tenho um espaço reservado para você na minha casa. Tenho um filho… Eu… Acho que tenho…”

Notou as flores, o horto florido que se dispersava ao acaso, em todas as direções. Viu-se cativo, em transe, capturado pelas cores e pelo céu azul. Veio à mente um jardim, um menino correndo, os braços abertos de alegria, o rosto pequeno em seguida se contorcendo em tristeza por uma partida inevitável. Volta logo, papai? Um homem montava a cavalo e respondia sim, eu volto.

Observou a mala. Por um instante imaginou-se rompendo o cadeado, revirando os livros. Sim, os livros poderiam esclarecer tudo. Dissipariam a névoa de suas memórias, lembraria de si, de quem era, do que havia deixado. Havia sido um covarde? Tinha se refugiado num mundo que ao fim se revelara atroz e insuportável? Ou era ele mesmo a criança, alguém que fora abandonado?

Algum tempo mais tarde, sem que soubesse precisar quanto, ouviu o farfalhar dos arbustos e das árvores próximas. Um grupo de três homens surgiu aos poucos. Vestiam-se como ele: pesados casacos de cor ocre e gorros sobre a cabeça. Aviadores.

“Estávamos esperando”, disse o mais alto, que exibia um bigode retorcido nas pontas, a imagem de um barão dos tempos imperiais.

“Vim o mais rápido que pude. O avião…”

“Estamos contentes com a sua chegada”, disse outro, interrompendo-o com uma voz profunda como o mar. Estava sorrindo.

“A mala está intacta?”, perguntou o terceiro, com uma nota de preocupação na voz. Era consideravelmente mais baixo que os demais.

“Sim, eu trouxe. Aqui está”, respondeu o homem, o porco sentado ao lado.

“A mala é sua”, disse o homem de bigode, cofiando as extremidades. “Você a merece”.

Sentiu as mãos frias, o coração acelerado. O conhecimento… Tudo prestes a ser revelado, a expiação dos pecados concluída. Afortunado, dormiria em paz. Conhecedor da vida, regressaria aos seus, fulminando qualquer dúvida ou insegurança sobre o passado, presente ou futuro.

“Seja bem-vindo. Agora é um de nós. Um guardião.”

Levantou a mala do solo, enrolando a corrente na mão, trazendo o porco para perto de si.

“O animal o acompanha?”, perguntou o sujeito mais baixo.

“Sim, é meu amigo”, respondeu de plano. “É tudo o que me resta.”

“Não é possível levá-lo para onde vamos.”

Assaltado pela incerteza, descobriu-se mudo.

“É preciso libertá-lo”, asseverou o barão.

Por uma eternidade permaneceu calado, até que murmúrios lhe escaparam da boca: “Ele é real. É meu amigo… Converso com ele…”

“A escolha é sua. A mala ou o animal.”

Por um momento viu-se feliz, tornando a casa, reencontrando os seus. Mas, se pensasse bem, talvez não houvesse para quem regressar. Oh, Deus, como era difícil discernir. O mundo em chamas… O fogo da metralha, a névoa, a escuridão angustiante das colunas de fumaça, a garganta selada pelos gases, a respiração rascante, a expressão condescendente do cavaleiro, o avião arrasando-se no chão, as asas tombadas… O que era real? A mala… A mala traria a realidade à vista. Teria enfim as certezas que tanto buscava. Seria um guardião.

Abaixou-se e mirou os olhos do porco-do-mato. A imagem refletida revelava seu estado. Um homem demolido era o que via. A boca aberta em espanto, a barba cerrada, o rosto seco. Haveria, enfim, utilidade para todo o conhecimento que restava no mundo? Ou era muito mais valiosa a amizade real de seu amigo, de seu único amigo?

Com os olhos ardendo, divisou a mala, ali próxima e depois voltou-se novamente para o porco. Envolveu a Cruz de Ferro que pendia em seu pescoço, como se buscasse forças.

Por fim, sufocou um soluço e soltou a corrente com um baque surdo, liberando o animal. Engoliu em seco e pôs-se de pé. Virou de costas e marchou na direção dos homens, suspendendo a mala com a mão direita.

Não viu quando o porco-do-mato riscou o solo com uma das patas e, depois de um breve grunhido, tomou o rumo oposto.

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2 comentários em “Cruz de Ferro (Antonio Peres)

  1. Evelyn Postali
    21 de maio de 2017

    Oi, Antonio Peres,
    Gramática – Sem erros. Texto agradável de ler. Não há tropeços.
    Criatividade – Uma mala cheia de livros – os últimos! Sim. Isso é bem diferente, mas desandou no final. Achei o final meio vago. Por que ele receberia a mala? Certo. Ele se tornou um Guardião. Mas deveria ter sido dito o propósito da coisa toda.
    Adequação ao tema proposto – Está dentro do desafio. Não vejo motivos para não estar, apesar de considerar meio forçado essa coisa de passar a corrente no javali, uma vez que ele o considerava amigo.
    Emoção – A escolha final me pareceu inadequada. Não vi motivo de escolha. Assim como ele fica com a mala, poderia ficar com o javali. E a pergunta que não quer calar: para onde ele foi?
    Enredo – Coerente. Começo, meio e fim, embora o fim tenha ficado muito aberto. Não tenho problemas com finais abertos, mas ficaram dúvidas e essas dúvidas me incomodaram.
    Boa sorte no desafio!
    Abraços!

  2. Olisomar Pires
    21 de maio de 2017

    1. Tema: Boa adequação.

    2. Criatividade: Normal. Sujeito em missão num mundo pós-apocalíptico, supõe carregar o último conhecimento impresso do mundo.

    3. Enredo: Bem conduzido, a tensão é bem criada, talvez tenha se demorado um tantinho a mais na colocação da missão recebida, os leitores entenderam rápido que a mala não poderia ser violada e que deveria ser entregue.

    O desenlace é meio vago: nada acontece. O protagonista entrega sua carga e a recebe como prêmio e parte junto a outros para algum lugar desconhecido, todos nominados guardiões.

    Muito aberto.

    4. Escrita: Muito boa, sem erros aparentes, para mim. Um estilo fluido. Como já disse, apenas a repetição da importância de missão ultrapassou um ponto e deixou o texto meio enfadonho durante a ratificação do que já havia sido apresentado.

    5. Impacto: Médio.

    Um bom capítulo de algo maior. Até entendo que o conto pode ser inserido em um texto futuro de grande abrangência, entretanto, o conto deve mostrar um episódio finito em si ou que induza a um fim para o que foi levantado.

    No caso presente temos um mundo em destruição, não se sabe o motivo, temos o mensageiro com sua mala que, apesar da queda do avião, não sofre nenhum transtorno, além de sua confusão própria. E no final temos que se inicia a verdadeira caminhada, porém sem nenhum elemento que a suporte.

    Boa sorte.

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Publicado em 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017.