EntreContos

Literatura que desafia.

A Menina na Cadeira de Balanço (Jowilton Amaral)

Nota do Autor: Esta é uma história verídica. Advirto, porém, que alguns fatos narrados podem não corresponder com a realidade palpável que conhecemos.

 

                                                   ***

 

O automóvel movia-se velozmente sobre a estrada caraquenta e sinuosa da rodovia. O som do pen-drive tocando no último volume fazia com que meus demônios adormecessem. “Quase acreditei na sua promessa, e o que vejo é fome e destruição, perdi a minha sela e a minha espada, perdi o meu castelo e a minha princesa…”. Metal Contra as Nuvens. Borracha contra o asfalto. Os pneus melodiavam a cada curva.

A saudade enforcava meu peito. Dois anos sem ver minha filha, dois anos fora de casa.

“Voltar para casa? Você quer voltar para casa? Que casa, Pedro? Minha casa não é mais sua. Você nos abandonou. Você não passa de um covarde fracassado! ”.

A vontade de fumar me cercava como uma hiena faminta; traiçoeira.  Esperando um descuido para me abocanhar. Sempre trazia cigarros comigo, embora não os acendesse há mais de seis meses. O meu olhar voltava-se para o porta-luvas reiteradamente, eles, os cigarros, estavam lá. Os dedos intencionavam segurá-los, a garganta ansiava pela quentura, pelo sabor…. De súbito, surgiu diante do automóvel um vulto encardido. Freei e girei o volante para o lado esquerdo. Foi inútil. A pancada estrondou do lado dianteiro direito, projetando vibrações por todo o meu corpo. Perdi a direção do veículo, que dançou um balé desengonçado antes de girar cento e oitenta graus e parar na mão contrária com o motor desligado. Agradeci aos céus a estrada sem movimento e respirei aliviado. Liguei o carro e o estacionei no acostamento.  O estrago não fora compatível com a trombada e o susto. Apenas um pequeno amassado no capô, farol e lanterna quebrados e um pneu furado. Amaldiçoei o proprietário do jegue morto.

Arrastei com muito esforço o animal, um potro ainda, para fora da estrada. Retirei do porta-malas o macaco, a chave de roda…, “Mas, cadê o estepe? ”.  No veículo alugado pelos olhos da cara não havia estepe.

— VAI TOMAR NO CU, CARALHO!

Corria um bafejo gelado, típico da região naquele mês. Eu estava desacostumado com o clima local. Dias quentes, noites frias. Sombras retorcidas da vegetação pareciam me olhar desconfiadas, avaliando-me, censurando-me por minha boca suja…

“Papai, o senhor fala muito nome feio! “.

A aridez do lugar era atenuada pela penumbra da noite, transformando uma imagem que seria completamente desbotada, seca e espinhosa, num horizonte negro e macio. O silêncio absoluto era quebrado de quando em quando pelo leve silvo dos galhos ninados pelo vento. Olhei o relógio. Duas e quinze da manhã.

Depois de uma espera frustrada de quase meia-hora, na expectativa que algum veículo passasse para me ajudar, resolvi dirigir o carro até as luzes que eu avistava a minha frente. Não parecia ser muito distante. O risco de movimentar o veículo com o pneu danificado e só com um farol funcionando era muito menor que ficar ali sozinho à mercê de todos os tipos de possibilidades. Além do mais, o atropelamento acontecera quando a estrada circundava uma pequena serra, o frio me incomodava e uma estranha névoa subia fantasmagoricamente pelo asfalto, formando uma espécie de persiana flutuante, arrancando-me arrepios.

Rodei cerca de dez minutos, lentamente, até decifrar o que era a claridade para onde eu me encaminhava. Imaginei que seria uma fazenda ou um sítio, estava enganado, era um posto de gasolina. O GPS não informava nada sobre ele. O lugar parecia esquecido pelo tempo e por seus usuários, contudo, a iluminação era intensa.

Fui tomado por uma profunda melancolia.

“Papai você vai abandonar a gente? ”. “Não, filha, nunca faria isso.”. “Vai sim, mamãe falou.”.  Meus demônios despertaram sedentos.

Parei o carro ao lado de uma carcaça de trator. Ao levantar do veículo, pude perceber o quanto meu corpo necessitava de descanso e alimento. Circulei a pé pelas bombas de combustíveis carcomidas. O forte cheiro do óleo impregnando o ar insinuava que o estabelecimento ainda era ativo, apesar da aparência arruinada.

— Boa noite, tem alguém que possa me atender? — Perguntei quase gritando.

Minhas palavras ecoaram sem resposta. Um ranger metálico chamou minha atenção. Então eu vi uma menina numa cadeira de balanço, na entrada do que parecia ser uma loja de conveniência. Ela segurava um animal no colo, que supus ser um gato. A temperatura caia celeremente. Aproximei-me esfregando minhas mãos contra meus braços. Quando cheguei mais perto, percebi que ela amparava um coelho. Ela passava os dedos nos pelos alvíssimos do animal, acarinhando de forma delicada. O bicho parecia hipnotizado com o toque, mantinha os olhos cerrados e emitia um ruído esquisito, parecido com o ranger de dentes, que interpretei como satisfação. A garota aparentava ter uns dez anos de idade. Cabelos finos, compridos e negros. Sua palidez não me passou despercebido. Uma alvura imaculada. Ela vestia uma túnica escarlate. A cadeira se encontrava ao lado de uma porta de madeira circundada por inúmeras miniaturas de carrancas com fisionomia de javalis.

A menina me olhava com curiosidade indisfarçada.

Fiquei pensando que tipo de pai deixaria uma criança acordada até aquela hora da madrugada. “Talvez um tipo de pai como você, que abandonou uma filha de cinco anos”.

— Boa noite.

— Bom dia — ela replicou levantado as sobrancelhas.

— Sim, tem razão, bom dia! — Sorri. Ela continuou séria. — Qual é seu nome, mocinha?

— Juliete.

— Hum, que bonito nome.

— Agradecida. — Respondeu empertigada, dando uma leve inclinação no corpo, com ares de fidalguia. E realmente ela transbordava nobreza.

— Estou com um problema no meu carro, será que tem alguém que possa me dar uma mão?

— Meu pai está dentro da loja. Ele pode ajudar o senhor.

— Obrigado — eu disse. Não resisti em perguntar o que me inquietava — já não passou da hora de você estar na cama?

— Hoje é um dia especial — ela respondeu.

Conferi as horas. Duas e quinze da manhã. Entrei na loja.

O vazio avolumava-se dolorosamente dentro de mim a medida que eu avançava pelo corredor que levava ao interior do estabelecimento.

“Papai você volta logo? “. “Volto sim, meu amor. Papai estará de volta em breve. ”. “Promete? ”.

Minhas pernas cambaleavam como se eu estivesse bêbado. Sentia-me muito fraco. O interior do empório era rústico e espaçoso. Toda a sustentação era composta de madeira. Quatro mesas alinhavam-se no canto esquerdo de quem entrava, à direita um balcão e o caixa de pagamento e no meio do pátio três gôndolas repletas dos mais variados produtos, todos vencidos. As paredes estavam decoradas com enormes carrancas de javalis. Puxei o ar com sofreguidão e segui até o caixa.

“ Hein, papai, promete? “. “Sim, eu prometo.”. A culpa me corroía.

Bati no balcão. Apareceu um garoto de uns doze anos, saindo de dentro do depósito da loja.

— Preciso de algo doce, com urgência — eu disse com voz trêmula.

— Nós temos um excelente doce de leite. Pode ser?

— Sim, por favor, rápido! — Um suor frio escorria por minhas costas.

Ataquei a guloseima feito um predador. O menino me olhava com estranheza.

— Não tem adulto neste lugar?

— Os adultos estão nos preparativos para o noivado da princesa.

— Princesa?

— Sim, a princesa. O senhor a conheceu lá fora.

— Juliete?

— Ela mesma, a escolhida do rei.

O rapazinho fez uma reverência pomposa e desapareceu pela porta de onde havia saído. “Mas que merda de posto de gasolina é este. ”. Pensei.

Ao me virar procurando a saída, dei de cara com um homem alto, de barba branca bem aparada, vestido com uma túnica negra.

— Senhor, Pedro?

— Sim, sou eu mesmo — respondi desconfiado, não lembrava de ter dito meu nome a ninguém.

— O pneu do carro já foi trocado. Meu nome é Alfonso, sou o pai de Juliete. O senhor está se sentindo melhor? — Falou e me estendeu a mão.  

— Sim, bem melhor. Estou dirigindo há sete horas sem parar. Acho que minha glicose baixou demais. O doce de leite me animou novamente. Obrigado pelo conserto, quanto eu devo?

— Não se preocupe com isso. Gostou do doce? Ele é feito de leite de gironda.

— Leite de quê?

— Leite da fêmea do javali.

— Vocês criam javalis aqui?

— Há muitos e muitos anos. É uma tradição milenar.

— Nasci aqui na região e nunca vi ou ouvi falar de criação de javalis.

— Eles sempre estiveram por aqui, domesticados ou selvagens. Fazem parte da nossa vida e cultura, são animais sagrados, extraordinários, vindos para nos salvar. E em pouco tempo farão parte da evolução da humanidade.

— Eu devo ter me perdido na estrada, entrado numa rodovia desconhecida, só pode ser. Isso é que dá confiar em GPS.  

— As fronteiras são tão leves e invisíveis quanto o ar, senhor Pedro — Alfonso disse e emendou: — Isso também é estranho para nós, acredite, não costumamos receber visitas. Normalmente, somos nós que visitamos. Contudo, já que o universo o trouxe aqui, acompanhe-me. Junte-se a nós. Venha conhecer o rei — Olhei para o relógio. Duas e quinze da manhã.

Ele colocou o braço sobre meus ombros e me senti fraco novamente. Caminhei com ele ao meu lado como se eu estivesse hipnotizado. Meu corpo todo formigava, sentia que milhares de alfinetes picavam levemente minha pele.

Atravessamos o balcão, adentramos pelo depósito e saímos numa ampla plantação de milho nos fundos do posto de gasolina. Dezenas de pessoas estavam lá, uma ao lado da outra, todas vestidas de túnicas negras, viradas para o milharal. Juliete estava à frente de todos eles, olhando inflamada em direção ao cultivo. Alfonso levou-me para junto dela e permaneceu próximo a mim. Eu parecia vivenciar um sonho.

As folhas da plantação farfalharam no mesmo instante que o grupo se ajoelhava. O pai da princesa forçou-me a fazer o mesmo. Algo estava vindo ao nosso encontro. Os presentes começaram uma ladainha invocando por alguém que eu nunca ouvira falar. Eles invocavam por Jeronte. Minha respiração estava rápida e entrecortada. Fui possuído pelo a maior sensação de medo de minha vida. Mesmo que Alfonso não estivesse ali, forçando-me a contemplar aquela insólita imagem, não conseguiria me afastar, eu me encontrava completamente paralisado. De repente, um homem surgiu das entranhas do milharal, trazendo consigo, puxado por uma coleira, um monstruoso javali. Na outra mão carregava uma enorme maleta. Suas vestes lembravam a de um piloto de avião da primeira guerra mundial. Um sobretudo de couro marrom, toca e óculos de aviação. A figura anacrônica aproximou-se e gritou.

— SAÚDEM O REI!

— VIVA O REI! — Todos gritaram, abaixando suas cabeças até o encontro do chão.  

Juliete, a única que permanecera em pé, andou até o gigantesco animal e tocou os lábios no focinho úmido da fera, que grunhiu excitado. A grande maleta foi aberta e de dentro dela surgiu uma espécie de lápide, onde estava gravado um desenho bizarro de um híbrido de humano e javali. Um dos fanáticos da seita recebeu a folha de pedra e a ergueu acima de sua cabeça. Todos gritaram “VIVA! ”. O aviador e o rei javali deram meia volta e desapareceram embrenhando-se na vegetação.

Eu estava estarrecido e enojado. Alfonso aproximou sua boca de meu ouvido e sussurrou:

— O senhor acaba de presenciar o noivado de minha filha com Jeronte, o rei javali. A princesa Juliete daqui alguns anos será uma rainha fértil e gerará a evolução da nossa raça. Precisaremos de mais meninas como ela, senhor Pedro. Sabemos da sua pequena e desamparada Jasmine. Não se preocupe, a pesquisa genética foi concluída e aprovada. Nossa medicina é superior a qualquer ciência que o senhor conheça. Ela ficaria saudável e o seus problemas financeiros acabariam. Pense nisso. Saiba que nunca mais encontrará este trecho da estrada, isto é certo, entretanto, se aceitar nossa oferta, saberemos onde procurá-lo. Agora vá rever sua filha — disse e retirou seu braço dos meus ombros.

Livre do toque de Alfonso, saí imediatamente do transe. Sem perder tempo, corri desesperadamente para o carro e pisei fundo no acelerador. Alguns quilômetros à frente, conferi as horas. Duas e vinte da manhã.

“O senhor vai me proteger para sempre, não é papai? ”. Acendi um cigarro.

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57 comentários em “A Menina na Cadeira de Balanço (Jowilton Amaral)

  1. Daniel Reis
    23 de junho de 2017

    (Prezado Autor: antes dos comentários, alerto que minha análise deve se restringir aos pontos que, na minha percepção, podem ser mais trabalhados, sem intenção de passar uma crítica literária, mas uma impressão de leitor. Espero que essas observações possam ajudá-lo a se aprimorar, assim com a leitura de seu conto também me ajudou. Um grande abraço).

    A Menina na Cadeira de Balanço (Jeronte)

    ADEQUAÇÃO AO TEMA: sim, na chegada do rei.

    ASPECTOS TÉCNICOS: nota do autor inicial= dispensável. Gostei da maneira como você, autor, manipula a alternância entre o diálogo externo, a descrição e o diálogo interno. Não gostei muito de alguns exageros, a meu ver desnecessários, na escolha lexical tipo “— VAI TOMAR NO CU, CARALHO!”. Dá uma impressão de filme nacional e não contribui efetivamente para descrever a situação.

    EFEITO: até a cena do ritual do rei javali e o casamento, a meu ver, estava causando perplexidade. Depois disso, ficou tão absurdo e maluco que perdi um pouco do interesse. E o final, aberto, só deixa a gente pensando: “e daí?”

  2. Bia Machado
    23 de junho de 2017

    Desenvolvimento: O início do conto tem adjetivos demais para o meu gosto, ainda assim gostei do ritmo que foi dado à maior parte do texto. Um ritmo realmente sufocante! A ação é um tanto arrastada em alguns pontos, mas acho que isso se adequa à atmosfera da história.
    Personagens: Cumprem seu papel de fazer a gente ficar ainda mais dentro da história. E dá certa tristeza pensar no que pode acontecer depois daquele final. =,(

    Emoção: Gostei, no geral, e talvez gostasse ainda mais se houvesse mais espaço para ele. Como disse, foi uma leitura sufocante e foi exatamente isso que eu gostei!

    Tema: Para mim está adequado.
    Gramática: Para mim, nada que atrapalhasse.

    Parabéns!

  3. Wilson Barros
    22 de junho de 2017

    O que dá vida a esse conto é o estilo Stephen king, o terror dinâmico. Quase que podemos ouvir o som arrepiante quando a menina vira o rosto na cadeira, os olhos estranhamente brilhantes. Durante o casamento pode-se ouvir aquelas músicas sinistras, cânticos de multidões, que costumam ser o leitmotiv dos rituais satânicos. “São os meios, o clima que impregna os contos”, dizia Baudelaire sobre os contos de Poe. Aqui o autor conseguiu impregnar seu conto de terror.

  4. Felipe Moreira
    22 de junho de 2017

    Puta merda, adorei esse conto. Pra mim é o melhor suspense do desafio até agora, fácil! A narrativa intimida você a participar, acompanhar cada trecho, cada curva do que tá rolando, é imersivo demais. Gostei muito. Os diálogos possuem um timing adequado, o tema está bem aplicado. Não encontrei qualquer erro que justificasse redução na nota. Está muito bom.

    Bem escrito demais.

  5. Thiago de Melo
    22 de junho de 2017

    Olá Jeronte,
    Parabéns pelo seu texto. Gostei de como você criou a atmosfera de mistério. Gostei inclusive de como você conseguiu compartilhar com o leitor os pensamentos na mente do personagem principal. Ficou muito bom.
    Gostei bastante de como você “parou o tempo” enquanto o cara estava com o carro quebrado, mas achei que três vezes foi um excesso. Quando você citou as horas pela segunda vez eu já levantei as orelhas e pensei: ele já falou das horas, e acho que era essa mesma hora. Será que o tempo parou?” Daí voltei um pouco e confirmei que era o mesmo horário. Então, quando você citou que eram 2h15 pela terceira vez já não havia mais necessidade, pelo menos na minha opinião, claro.
    Achei que você conseguiu criar bastante tensão com a sua história. O leitor está tão perdido quanto o personagem principal, e isso ficou bem legal.
    Só achei que o final ficou um pouco corrido. Não sei nem explicar direito. Achei que eles darem uma “opção” para ele entregar a filha dele ficou meio forçado. Às vezes você poderia ter deixado o cara sem saída. O Alfonso poderia dizer que na próxima vez seria a filha dele e que eles saberiam onde encontrá-la etc etc… Acho que assim ele ficaria mais perdido ainda e com mais medo (e junto com ele o leitor).
    Mas essas são apenas sugestões. Gostei do texto.
    Parabéns!

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Publicado às 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017 e marcado .