EntreContos

Literatura que desafia.

Já! (Jorge Santos)

Henrique vivia naquela pequena cidade do sul de Itália há 22 anos, o que é o mesmo que dizer que ali passara toda a sua existência. Era um rapaz calmo, tão calmo que quase ninguém dava pela sua presença. Vivia sozinho com a mãe desde que Alfredo, o irmão mais velho, tinha morrido na guerra. Como triste recompensa, Henrique herdara os seus óculos e o fato de aviador. Usava-os todos os dias, indiferente aos que o acusavam de louco por ter essa mania – para ele não passava de uma forma de homenagear Alfredo.

Era sonhador. Queria partir para Roma, tornar-se actor de cinema desde que vira o primeiro filme no largo da cidade. Maravilhara-se com as imagens em movimento, com as pessoas transformadas em gigantes no lençol usado como tela improvisada. Ficara por receio, por respeito a sua mãe. Havia outro motivo que o levara a ficar. Um motivo inconfessável, uma paixão a roçar o doentio pela filha de Don Gennaro, o homem mais poderoso da cidade. De noite e de dia, Henrique só via os belíssimos olhos verdes de Sophia à sua frente. Mas, que podia esperar um ajudante de padeiro? Só lhe restava sonhar com ela. No domínio dos sonhos poderia ser feliz – ali não havia ricos nem pobres, Sophia era dele e ele era o homem mais feliz do mundo. Na realidade, porém, havia um muro entre eles. Apenas nos filmes o rapaz pobre pode realizar os seus sonhos, pensava Henrique.

Mas o destino provaria que ele estava errado, mais precisamente naquele preciso instante, estava ele a atender os clientes na padaria. Entra Sophia, glamorosa e simples. Dir-se-ia uma deusa, pensa Henrique, sem perceber, perdido como estava no mundo dos sonhos, que Sophia exigia a sua atenção com um sorriso aberto nos lábios.

– Queria comprar um bolo, para oferecer à minha mãe – disse Sophia. Para Henrique, mais parecia ouvir música, perdido que estava no seu olhar verde.

– E que tipo de bolo prefere a senhora sua mãe?

– Ela gosta de coisas diferentes. Saboroso.

– Só gosta do melhor, presumo. Só assim se justifica ter conseguido pôr no mundo uma princesa. A mais bela das princesas.

Sophia riu. Para Henrique, o tempo parou. Estagnou naquele instante. Gravou na memória a imagem e registou o som do riso para posterior deleite.

– Eu? Está a falar de mim como se eu fosse a mulher mais bonita do mundo. Mas eu sou feia e gorda. E já viu bem os meus dentes? Não têm arranjo possível, senhor padeiro galanteador. Se a minha mãe quer um bolo tão bom como eu, bem que vamos partir os dentes amanhã.

Henrique reconheceu, em segredo, que ela tinha alguma razão. Mas era um homem apaixonado que não conseguia ver os defeitos da mulher amada. Nos dias seguintes, Sophia regressaria. Primeiro, para vir buscar o bolo. Depois, vinha regularmente buscar o pão. Como se não tivesse vinte criadas disponíveis para essa função. Sempre à mesma hora, Sophia entrava pela padaria e esperava que Henrique despachasse eventuais clientes até conseguirem estar a sós na padaria.

Aos Domingos, depois da missa, Henrique arranjava sempre forma de estar com ela e acompanhá-la a casa, longe dos olhares dos pais e irmãos. Ao fim do segundo mês de encontros regulares e beijos roubados no caminho para casa dela, ganhou coragem para falar com Don Gennaro.

– Don Gennaro, venho pedir autorização para namorar a sua filha – disse Henrique. As pernas tremiam, o estômago andava às voltas. Sentia-se pequeno à frente daquele homem obeso, enorme como um gigante, de olhar vivo que parecia ver o interior do padeiro. Não era difícil adivinhar o estado de espírito de Henrique: notava-se na voz trémula e no gaguejar constante.

– Tu és o Henrique, filho de Helena. O padeiro.

Henrique assentiu. Não disse palavra, porque não conseguia falar.

– E o que tens a oferecer à minha filha, ou esperas que ela também suje as mãos com a farinha?

– Eu sou um bom trabalhador. Nunca lhe faltará nada.

Don Gennaro olhou-o de alto a baixo. Henrique sentiu-se uma formiga em frente a um gigante.

– Diz-me, Henrique. Gostas de jogar?

Henrique abanou a cabeça.

– Não é meu hábito, Don Gennaro.

– Compreendo. Um homem íntegro. Isso tem mais valor que o dinheiro. Mas se o Henrique não gosta de jogar, eu gosto. Para ser franco, é uma falha no meu carácter. Mas os homens podem falhar. Não há ninguém, no mundo, que não tenha nenhuma falha. Só temos de as reconhecer. Todo o homem é cheio de pecado. E todo o homem se pode exceder a ele próprio, não concorda?

Henrique acenou com a cabeça, como se tivesse compreendido. Na realidade, estava extremamente confuso.

– Pois se concorda, meu caro Henrique, proponho um jogo. O Henrique tem seis meses para trazer um presente à minha filha. Algo de diferente, que nunca ninguém tenha visto. Se o fizer, ainda vou além do que pediu: dou-lhe a mão dela em casamento e será meu sócio. Farei de si o homem mais rico das redondezas. O que lhe parece?

O padeiro coçou a cabeça. Ao princípio, não quis acreditar, mas o olhar sério do Don Gennaro não dava lugar a dúvidas. Selaram o pacto com o melhor vinho do pai de Sophia e Henrique chegou a cambalear a casa. No dia seguinte explicou à mãe o que se tinha passado. Pediu-lhe uma opinião sobre o que haveria de tão único na cidade que o fizesse ganhar o jogo. Ela olhou para ele com a forma calma com que sempre fizera, mesmo quando o mundo à sua volta parecia desabar.

– Sabes, meu filho, estou a olhar para a coisa mais importante na minha vida, que és tu. Mas Don Gennaro não te vê da mesma forma. Para ele tu vais ser sempre um padeiro, filho de uma vendedora de fruta. Não é aqui que vais encontrar algo que o impressione. Não nesta casa a cair de velha, não nesta cidade pequena, de gente simples. Tens de ir mais longe. Sempre soube que esse era o teu destino. Eu fico bem. Chegou o momento de procurares o teu destino.

Henrique pensou durante algum tempo. Sabia que a mãe tinha razão, mas isso obrigava-o a romper com a promessa que tinha feito a si próprio, a de não deixar a mãe sozinha. Depois olhou em volta, para a miséria em que viviam. Se ganhasse a aposta, seria um homem rico. Não passariam mais necessidades. Por último, lembrou-se do olhar doce de Sophia. Só isso seria recompensa suficiente e, sem pensar duas vezes, despediu-se do patrão, beijou a mãe e fez-se à estrada com o seu fato de aviador e alguma roupa numa mala de cartão. Regressaria seis meses depois, com algo único para mostrar.

Mas, como é que se encontra algo único? Henrique nunca tinha saído da sua terra e tudo o que via era único para ele. Não encontrava nada que pudesse entusiasmar um homem mais vivido como Don Gennaro. Passou por várias terras, conheceu gente, trabalhou duro, de sol a sol, para sustentar a sua viagem. Viu coisas maravilhosas, mas não conseguia ver algo único. Sentia saudades de tudo, da mãe, da terra, da padaria, de Sophia. Estava quase a desistir quando, ao passar por uma terra muito pequena, vê várias pessoas a aplaudir. Aproximou-se e o que viu deixou-o assombrado: um velho fazia truques com dois javalis. Eles equilibravam bolas em cima do focinho, e andavam atrás do homem como se fossem cães, davam voltas e dançavam enquanto o velho tocava sanfona. Henrique deixou-se ficar até ao final do espectáculo, batendo palmas e rindo até não poder mais.

Apresentou-se a Emílio, um homem de sorriso aberto, de pele queimada pelo sol. Fizera parte de um circo que falira há alguns anos, pelo que ele ficara com os javalis e percorria as terras a fazer espectáculos. Em troca, conseguia apenas o suficiente para todos comerem.

Henrique explicou-lhe o motivo da sua busca. Confessou a Emílio que já tinha desistido, mas que o espectáculo dele lhe tinha feito renascer a esperança. Emílio sorriu.

– Acredita no destino, Henrique? – perguntou Emílio.

Henrique respondeu afirmativamente. Sim, começava a acreditar no destino. Emílio confidenciou-lhe então que se sentia cansado e que já não tinha forças para tratar de dois animais, pelo que cederia de bom grado um a Henrique, e que lhe ensinaria os truques, desde que o acompanhasse durante algum tempo na estrada. E assim fizeram. Até completar os seis meses da aposta, Henrique andou na estrada com Emílio e dois javalis fêmea, a Vali e a Já. Combinaram que a Já seria de Henrique, dado que tinham uma maior ligação. Já a Vali não deixava que Henrique se aproximasse demasiado.

Chegou o dia da despedida. Henrique abraçou Emílio e levou a Já pela trela. Na outra mão levava a sua mala, agora mais pesada com os presentes que comprara para a mãe e para Sophia. Chegou à cidade, cumprimentou a mãe e depois dirigiu-se à casa de Don Gennaro. Este, assim que viu o que Henrique trazia com ele, chamou a esposa e a filha. E Henrique fez o seu espectáculo com a Já. O melhor de sempre, para um público especial. Estava ali a mulher da sua vida, uma vida que prometia ser boa em todos os sentidos. Don Gennaro faria dele um homem rico.

No final, Don Gennaro bateu palmas. Sophia não conseguia manter o riso. Depois, a sós, Don Gennaro confidenciou-lhe que podiam marcar o casamento. Sophia sentira a falta de Henrique e isso para o pai dela era prova suficiente. O facto de que rapaz tinha passado 6 meses fora era outra prova de que ele tinha o carácter que procurava no homem que viria a ser seu genro.

Feliz, depois de deixar a Já com o seu novo dono (Henrique só acedeu depois de Don Gennaro lhe ter prometido que iria tratar bem o animal), Henrique regressa a casa para dormir na sua cama pela primeira vez em 6 longos e extenuantes meses.

Chegado ao jantar de noivado, Henrique repara na falta da Já, mas as atenções constantes de Sophia não lhe possibilitaram saber o que se tinha passado. Era um dos dias mais importantes da sua vida. Já não seria o padeiro, seria o noivo de Sophia. Estava quase toda a família dela sentada à mesa, havia músicos a tocar no salão. A bebida e a comida eram abundantes. Até a mãe parecia outra, orgulhosa do filho. Henrique lembrar-se-ia para sempre daquele momento. O momento em que, sentado ao lado de Sophia, percebe que a carne saborosa que saboreava era de javali.

Sophia percebe imediatamente a revolta de Henrique.

– Foi o meu pai. Ele queria oferecer algo de único aos convidados. Eu fui contra, mas…

Henrique levanta-se, fala rapidamente ao ouvido da mãe, que se apressa a levantar-se também. Depois, aproxima-se de Don Gennaro, que observa com um ar espantado e ao mesmo tempo divertido.

– Don Gennaro, por mais que ame desesperadamente a sua filha, não me vendo, muito menos quero pertencer a uma família onde a palavra nada vale.

Saem os dois da casa de Don Gennaro, uma casa subitamente silenciosa. Decidem abandonar também a cidade. Sophia casará, anos mais tarde, com um homem rude que a atraiçoará. Don Gennaro morrerá de um ataque cardíaco fulminante no meio da vinha, servindo de inspiração para o filme de Coppola. Quanto a Henrique, dizem que alguém muito parecido apareceu um dia num dos últimos filmes de Fellini.

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56 comentários em “Já! (Jorge Santos)

  1. Victor Finkler Lachowski
    23 de junho de 2017

    Achei o conto mediano.
    Ficou muito resumido em vários trechos, como a jornada de Henrique, vários trechos poderiam ter sido retirados para agregar mais a essa parte.
    O desenvolvimento de personagens é um ponto alto, bem feito, apesar do tamanho do conto.
    A adequação com a foto foi bem feita, mesmo com a explicação vaga da homenagem ao irmão.
    Gostei da narrativa, me prendeu (apesar dos problemas).
    Boa sorte no desafio e nos presenteie com mais obras,
    Abraços.

  2. Daniel Reis
    23 de junho de 2017

    (Prezado Autor: antes dos comentários, alerto que minha análise deve se restringir aos pontos que, na minha percepção, podem ser mais trabalhados, sem intenção de passar uma crítica literária, mas uma impressão de leitor. Espero que essas observações possam ajudá-lo a se aprimorar, assim com a leitura de seu conto também me ajudou. Um grande abraço).

    Já! (Henrique Matheus)

    ADEQUAÇÃO AO TEMA: sim, existe.

    ASPECTOS TÉCNICOS: a escrita, que parece (mas não creio ser) d´álem-mar, em alguns momentos apresenta destaques positivos, como na montagem do drama para o protagonista, seu encontro com a amada; em outros, corre demais, como na parte em que encontram os javalis (e o nome dele, por óbvio demais, não me agradou) e, sobretudo, no final da história, que tem um tom similar à conclusão do poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade:

    “João amava Teresa que amava Raimundo
    que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
    que não amava ninguém.
    João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
    Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
    Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
    que não tinha entrado na história.”

    EFEITO: a história tem elementos da Jornada do Heroi, mas isso não garante que ela tenha o mesmo impacto que as lendas e mitos que originaram esse arquétipo. Um dos textos que mais me fez pensar sobre a construção da história, neste desafio. Obrigado!

  3. Felipe Moreira
    23 de junho de 2017

    Oi, Henrique.

    O seu conto tem elementos interessantes. É conduzido por muitos clichês, mas nada que incomode. Achei raso como você lidou com o princípio da relação do Henrique com a Sophia, até mesmo naquele diálogo, no entanto, acho compreensivo pelo tamanho do conto que você planejou. Não daria tempo ou espaço.
    O texto passou a me interessar quando Gennaro fez o desafio pra Henrique. Ali comecei a me apegar ao texto, procurar nele sinais de emoção que pudessem se aproximar do Henrique e essa jornada. Foi um ciclo interessante e o retorno dele pra fazer o espetáculo e ganhar a mão da amada foi legal. Ainda assim eu esperava uma reviravolta interessante e ela veio no jantar do noivado.

    O último parágrafo me lembrou algumas referências de filmes, a maneira como terminou e traçou o destino das personagens. Vi um filme há poucos meses, “Mulheres do século XX”, que tem um final exatamente assim. Gosto desse recurso.

    No geral, achei o texto bom, até porque eu tenho preferido os contos que estão fugindo da interpretação literal do desafio.

    Parabéns e boa sorte.

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Publicado às 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017 e marcado .