EntreContos

Literatura que desafia.

Baedd, meu javali (Javalendo)

Sentia raiva quando observava o Senhor Dolesaux e os ajudantes na montagem da armadilha para os javalis. Naquele verão, em poucas noites, uma área considerável da plantação de batatas fora destruída. Os malditos fuçadores não estariam saciados enquanto houvesse algum tubérculo em minhas terras. Duro demais na negociação só consegui do açougueiro um quinto do que auferisse com a venda da carne dos animais capturados.   

O escuro chegou e a tocaia não durou quase nada. Os amaldiçoados só esperavam a noite para, famintos, voltarem à comilança. Desta vez o banquete estava mais interessante e sortido, com a oferta de espigas de milho e cenouras feitas pelos caçadores. Foram caindo na arapuca do mesmo jeito que as ovelhinhas ingressam no redil, mas a tranquilidade deles se esvaiu em instantes e a bicharada se desesperava nas tentativas de escapulir do cercado. Deixei-os para que procedessem ao último ato.   

Madrugada e lá fui eu para avaliar a situação da lavoura, o grande alçapão ainda montado e o sangue misturado à terra preta. De repente uma rama se mexe mais adiante. À luz da lua assaltado por javalis e sob os raios do sol pelas lebres, refleti. Aproximei-me para espantar o ladrão orelhudo e o pequenino correu. Apanhei-o na certeza de que o javardinho havia escapado por entre as grades da prisão dos pais.   

Imaginei cevá-lo para que o pudéssemos saborear, grande e gordo, pela virada do ano. O sacrifício do filho, pela falta dos pais, tal qual a fábula, refleti. Só precisava guardar sigilo pois certamente que os ouvidos do rabino, sempre atentos aos balidos do rebanho, não necessitavam de uma informação assim. Sabedor do bichinho iria pregar a respeito da situação pecaminosa da família impura se alimentando de porcos imundos. Grave sacrilégio conforme as prescrições da Torá. O negócio era criar o animal meio ocultado no cercado das galinhas.  

O que não contava é que Thierry, Berthe e até Martina, nem bem havia chegado, tinham se afeiçoado ao pequenino. Tina batizou-o Baedd e o filhote passou a, de forma sutil, fazer parte da família. Não dormiu nem aquela primeira noite no cercado das aves. Depois de tomar a última mamadeira do dia minha mulher o enrolou numa manta velha, deixando-o protegido num caixote ao lado do fogão. Dali saltou, em pouquíssimo tempo, para o segundo andar da casa. Mais uns dias e acordei ouvindo, de muito próximo, os grunhidos de barriga vazia do bichinho, então descobri que ele dormia na cama da nossa caçula.  

O que era para ser segredo em pouco tempo se tornara o assunto preferencial da vizinhança, me gerando problemas na sinagoga. Um sábado, quando tomava umas taças de vinho no bar, um conhecido veio me falar do javardo. Sugeriu-me adestrá-lo dizendo que um parente havia visto um porco trabalhando com um artista de rua na Polônia. Rimos daquilo e continuamos a beber, só que não mais conseguia arrancar da cabeça aquela sugestão. Porcos e javalis são primo-irmãos. Havendo um porco amestrado e Baedd, tão dócil, também estaria capacitado ao domínio de, ao menos, alguns comandos básicos.

Melhor ainda, eu poderia me aposentar do arriscado Globo da Morte. O acidente das motocicletas, com a consequente fratura da bacia, me havia tornado inseguro e desconfiado. O piloto audaz e confiante que encantava o público tinha desaparecido. Naqueles sete meses sem atuar se não fora pelo esforço de Martina fabricando conservas, a cara feia da fome teria nos assombrado. Em meio ao tormento da lenta recuperação até mesmo considerei a hipótese de me tornar palhaço, mas devido à falta de jeito e severidade do semblante, constatei que jamais me tornaria um competente profissional do riso. Disto tudo o certo é que Baedd iria ser adestrado, a decisão estava tomada.

Mas precisava mais e foi reparando na idade avançada do afamado mágico da cidade, que vislumbrei o ilusionismo como complemento às mudanças nas atuações artísticas. Procurei-o mas o velho se negou a me ensinar os truques. Não me dei por vencido e com o apoio de livros e da observação por tantos anos desses artistas fui capaz de, em paralelo ao amestramento do jovem animal, penetrar no instigante mundo das mágicas.        

Percebi rápido o quanto as virtudes da paciência e perseverança me iriam ser necessárias para obter sucesso como instrutor de Baedd. Fazê-lo prestar atenção era dificílimo e a sua memória teimava em não ajudar. Nem um dia se passara e aquilo que, a duras penas, lhe fora ensinado estava esquecido. Se com o javali as coisas andavam complicadas, o ilusionismo tinha desenvolvimento acelerado. Tornei-me se não excelente mágico, pelo menos um profissional seguro e capaz de iludir crianças e até mesmo plateias de adultos.

Outra ideia surgiu: Berthe e Thierry seriam interessantes complementos ao novo projeto, aumentando-me a empregabilidade e facilitando o adeus ao Globo da Morte. Nomeei-os apoiadores de tabalado, os responsáveis pela eficaz atuação do nosso bicho. A resistência a ser dobrada vinha de Martina a reclamar que mais que trabalho em circos e bares, os meninos necessitavam era de uma boa escola.

Baedd adulto e minimamente educado por um lado e pelo outro as crianças sabedoras de como me ajudar. Estávamos praticamente prontos. Só que os tempos tinham se tornado estranhos e perigosos. Muito além das quedas do Globo da Morte e hordas de javalis, afligia-nos o crescente antissemitismo. Ataques aos cemitérios e lojas de judeus haviam se tornado comuns não só em nossa cidade como também na França inteira. Rádio e jornais a nos mostrarem que aquilo que sentíamos era só uma pequena parte de algo bem mais amplo. Desde a Alemanha o ódio ao povo hebreu era destilado para o mundo.   

O medo cresceu naquela manhã em que a estrela de Davi amanheceu na nossa porta. Mais uns dias e Thierry chegou sujo e machucado: um grupo de garotos o espancou na volta da escola e aquela não tinha sido só uma briga entre escolares. Ao buscar auxílio junto a um casal passante obteve como resposta sorrisos sarcásticos, os dois a lhe dizerem que os judeus precisavam mesmo tomar umas surras. As amiguinhas francesas de Berthe nem mais escondiam que a evitavam e Tina ganhou nova atividade tendo que lavar, quase que diariamente, a frente da casa por conta das fezes com as quais nos agrediam. Quando meu amigo, o solitário Moshe, teve a loja de antiguidades e apartamento saqueados e destruídos, tivemos a certeza de que o perigo se avizinhara demais.

Vendemos as coisas de valor e com o pouco arrecadado despachei a família para Cardiff, cidade de uns parentes de Martina nas bandas de lá do Canal da Mancha. Resisti idiota e bravamente aos rogos para que também partisse. Permaneci para cobrar de Sigfried, austríaco sovina que me devia por vários trabalhos e porque desejava vender nossa residência e a propriedade rural. Resultado zero, pois que ele jamais me pagou e comprador de casa e terreno judaicos por lá não havia um que fosse. Pior de tudo foi que para me manter acabei gastando o dinheiro reservado para escapar da França.     

Chegara à cidade um circo italiano e me agarrei a ele como náufrago à última tábua no mar. Corri até lá me oferecendo ao dono como atração barata. Não teria que me bancar alimentação e hospedagem e, melhor ainda, aceitava trabalhar por bem menos do que era usual que se pagasse a um artista do meu padrão. Ter como salário o dinheiro da passagem para o País de Gales me era o suficiente.    

Tentei me vender como um mágico diferente de todos que até então ele conhecera. Um ilusionista possuidor de um javali que atuava como assistente de picadeiro. O homem desacreditava de javardos amestrados e não consegui convencê-lo de jeito algum. Contratou-me na função antiga que era o que mais necessitava. Por razões óbvias aceitei mesmo sendo sabedor de que, ainda mais com parceiros desconhecidos, o pavor iria bater pesado ao me deparar com a ameaçadora esfera iluminada. Esperança foi que mudaria de ideia logo que reparasse no meu potencial para a mágica, ainda mais tendo Baedd do meu lado a fazer gracinhas.

Determinado em levar o javali mais a mala carregada com as magias e animado pela boa expectativa de arrumar um jeito de me mostrar ao patrão, escovei meu ajudante e partimos mais cedo para o primeiro dia de função. Sob a lona pude constatar que nada do que mentalmente havia programado ocorreu. Hora de atuar e o pânico me paralisou diante das motocicletas dos dois alemães a me fuzilarem com olhares de ódio. Fui incapaz de dar partida à máquina. O público em silêncio e nada acontecia. Foi então que o mestre de cerimônias anunciou ao microfone: “Distinto público, peço um minuto de paciência. Estamos tendo problemas com o motociclista judeu.” O povo urrou em uníssono. A vaia estrondosa me feriu a alma e desabei de vez.

Demitido e escorraçado, fui apanhar os apetrechos mágicos e Baedd, deixado preso junto ao elefante e cavalos dançarinos. Estava agitadíssimo como jamais o vira, mais um pouco e teria se livrado do toco de madeira. Não era boa ideia retornar com ele daquele jeito, a corrente bem o sabia, seria mero objeto de decoração se resolvesse testar suas forças. Abracei-o dando leves batidas em suas costas para que se acalmasse.

O frio estava intenso e o vento soprava forte. Caminhos vazios prenunciando a primeira nevasca do inverno. Só o meu bichinho não resmungava contra aquele clima hostil e trotava grunhindo de satisfação. Decidi usar os óculos de motociclista para proteger os olhos e assim seguimos buscando cortar distâncias pela mata. Solfejava, bem baixinho, canções infantis que Berthe gostava de cantar para o nosso companheiro. A hora de partir se aproximava e a derradeira tarefa seria a libertação de Baedd no mesmo local onde fora capturado. Seria insanidade absoluta aguardar a mais que previsível chegada do exército nazista.

Mais perto de casa nos deparamos com muita fumaça e gritos. Ao contrário dos lugares pelos quais passáramos, no meu bairro os moradores pareciam não temer frio e vento. Duas quadras antes e pude observar horrorizado as casas judias ardendo. Foi então que me apontaram. Na ânsia de sair dali dei meia volta e então senti um soco me lançando violentamente para frente. Cambaleante deixei cair a mala levando a mão ao peito. O sangue vasava por onde a bala escapara. Meu amigo, inocente, não foi capaz de reparar no perigo deitando-se ao meu lado. Arranquei sua corrente e lhe ordenei que fugisse. Tudo inútil e o que desconhecia é que javalis não conseguem olhar para o céu. Baedd era incapaz de enxergar o fuzil a lhe mirar a testa.

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10 comentários em “Baedd, meu javali (Javalendo)

  1. Jowilton Amaral da Costa
    25 de maio de 2017

    Achei o conto médio. Está bem ambientado e bem escrito, no entanto, a história não me pegou. “…Tudo inútil e o que desconhecia é que javalis não conseguem olhar para o céu. Baedd era incapaz de enxergar o fuzil a lhe mirar a testa. “. Apesar desta frase estar bem bacana, não me impactou o suficiente. Boa sorte.

  2. Vitor De Lerbo
    25 de maio de 2017

    O texto foi bem escrito e a descrição do crescente antissemitismo foi muito bem feita.

    Achei que elementos demais foram inseridos em um espaço muito pequeno: caça, fazenda, religião, preconceito, guerra, javali, globo da morte, mágica; a criatividade foi muito grande, mas, em certos momentos, o leitor acaba ficando com a cabeça muito cheia de informações.

    A cena final é muito bonita.

    Boa sorte!

  3. Evelyn Postali
    24 de maio de 2017

    Oi, Javalendo,
    Gramática – Sinceramente? Não sei se vi erros de grafia ou repetição de ideias porque me envolvi na leitura e simpatizei com o javardinho e sua sina na família judia.
    Criatividade – É um conto diferente. Fala de guerra, fala de circo, fala de crueldade, mas fala também de amizade e lealdade, de acolhimento, de luta por espaço, por um lugar ao sol, ou à sombra, porque também a sombra faz bem. O estranho da coisa é o conto ser narrado por alguém que, no meu entendimento, morreu no final. A fora isso, está tudo ok.
    Adequação ao tema proposto – Eu vi o homem, eu vi a mala, eu vi o javali. Está dentro do tema.
    Emoção – Talvez existam muitos elementos dentro da história, mas consegui vislumbrar lugar para todos eles à medida que lia. O limite de palavras pode ter contribuído para a pressa de tudo.
    Enredo – Começo, meio e fim entrelaçados. Não vi nenhuma incoerência na sua história.
    Boa sorte no desafio!
    Abraços!

  4. Priscila Pereira
    24 de maio de 2017

    Oi Javalendo, seu conto é interessantíssimo, da vontade de continuar lendo para saber do resto da estória. Como muitos já disseram, a trama ficou apertada demais pelo limite, você deveria ter limpado um pouco para o desafio e depois ter escrito tudo que sua criatividade mandasse para finalizá-lo. Gostei bastante! Parabéns e boa sorte!!

  5. Mariana
    23 de maio de 2017

    Esse é um conto que merece muito mais que duas mil palavras. Uma grande quantidade de pontas, algumas que ficaram em aberto (qual foi o destino do restante da família?). O tema do antissemitismo é forte e o final deixa um aperto no coração do leitor, feridas que ainda sangram em todos nós. Realmente, autor, o estenda e traga para nós as próximas versões. Abraço.

  6. Luis Guilherme
    23 de maio de 2017

    Olá, amigo, tudo bem?

    Gostei do conto! A linguagem empregada me agradou, tornou o conto fluente e fácil de ler. Não notei erros gritantes de português, só alguma coisa de pontuação, mas nada que tenha comprometido o todo.

    Gostei bastante do enredo, mas acho que talvez ele merecesse mais espaço. Daria um belo conto de 5 mil palavras, talvez. Isso não é uma crítica, é só uma colocação.

    O ritmo do conto é bom, também, e o desfecho é bem forte e pesado.

    Gosto muito da temática abordada, e quando percebi que se trataria disso, seu conto cresceu em importância, pra mim.

    Enfim, belo trabalho. Parabéns e boa sorte!

  7. Olá, Javalendo,
    Tudo bem?
    Adorei o pseudônimo.
    Vamos ao seu conto.
    Você, sem sombra de dúvida, escreve muito bem. Criou uma história interessantíssima, rica em detalhes e nuances. Uma trama que emociona e que transporta o leitor para o universo criado pelo autor.
    Creio que se há um problema para se apontar em seu texto seria justamente o seu maior aliado. O excesso de criatividade do autor, às vezes também pode atrapalhar. O limite do desafio, talvez, tenha sido o seu maior inimigo. Muita coisa para contar em muito pouco espaço. Nesses momentos, quem escreve precisa olhar para sua criação e pensar. O que aqui faz realmente parte da trama. Os agricultores? O fato de o protagonista ser Judeu? O circo? A mágica? O globo da morte? A dificuldade financeira? A amizade homem javali? A perseguição à dupla na floresta? Decidido isso, é preciso que se corte na carne tudo que é excesso. Sei que essa não é uma tarefa simples. Mal consigo cortar uma palavra ou duas de um texto meu, imagine uma parte da própria trama…
    Seu conto merece uma narrativa mais longa. E digo isso pois gostei muitíssimo do mundo que você criou.
    O final (penúltima frase), ao menos para mim, foi o ponto alto. O fato de o javali não poder olhar para o céu, me enterneceu. Um detalhe de personagem que demostra pesquisa e que havia passado batido para mim. Achei a imagem linda e triste.
    Parabéns por seu trabalho e boa sorte no desafio.
    Beijos
    Paula Giannini

  8. Ana Monteiro
    23 de maio de 2017

    Olá Javalendo. Gostei muito do seu conto. Mas vamos por partes: a nível da gramática e ortografia não tenho nada a apontar. Para um bom desenrolar da ação precisava de mais espaço; 2000, são poucas palavras para a história que quis contar e ao ritmo que pretendeu dar-lhe. Daí que, a meio,por duas ou três vezes, aparecem informações pouco consubstanciadas por um antes. Mas o essencial, creio, ficou lá. Gostei muito da ideia de transformar o javali em animal de estimação (já estou a ficar cansada de os ver tão mal amados em muitos contos de javali). Assim, você deu a ternura e também a tragédia. O seu conto tem muita emoção e bem doseada. Também é criativo. Só lhe achei um senão: foge um pouco ao tema proposto,ou seja,enquanto fui lendo e vendo o filme mentalmente, aquela foto não se me desenhou na imaginação. Mas está muito bom e você domina muito bem o que diz e o como diz e isso é o mais importante de tudo para quem escreve. Parabéns boa sorte!

  9. Milton Meier Junior
    22 de maio de 2017

    Bom conto. Não acho que faltou coerência, o autor apenas seguiu o fio da história que queria contar. Elementos demais? Talvez um pouco, mas não tira o interesse da narrativa. Bem escrito e gostoso de ler. Parabéns!

  10. Anorkinda Neide
    21 de maio de 2017

    Olá!
    Olha.. o texto é bom, os dois primeiros parágrafos super caprichados, vc sabe o que faz.
    mas… (lá vem o mas) achei muita ideia pra pouco conto, achei bem uma mistureba de elementos, judeus, agricultores? porque tinha a plantação de batatas, depois o globo da morte, os planos de ilusionismo e amestrar o javali, os ataques nazistas, a fuga e o fato de nao fugir e entrar no globo da morte, ja uma vez ja houvera quebrado a bacia?! e o final trágico.. sei lá.. pegou pesado, forçou, sabe? acho q vc deveria ter pisado o pé o freio.. o javali como bixim de estimação da casa já tava super fofo, continuasse assim.. rsrs vc colocou coisas demais e acabou perdendo o foco e muitas vezes a coerência.
    Abração e boa sorte

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Informação

Publicado em 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017.