EntreContos

Literatura que desafia.

Culpa Infinita (Thiago de Melo)

Quando criança, vi um cachorro atacar meu amigo. Mordeu com todas as forças o pescoço dele, sacudia violentamente para todos os lados. O sangue manchou o focinho, dando-lhe um ar demoníaco. Outros meninos que estavam conosco começaram a gritar, a jogar paus e pedras, pedir ajuda. Não me movi. Covarde. O cachorro parou um instante, bufando, e me olhou fundo nos olhos, o corpo inerte do meu amigo pendia de sua mandíbula assassina. Quase todas as noites sonho com aquela cena. Às vezes, ainda tenho nos olhos a imagem do cão ensanguentado me encarando quando acordo com gosto de sangue na boca, para descobrir que mordi os lábios novamente durante meu pesadelo. Covarde.

Anos mais tarde, homem feito, descobri minha paixão por voar. Fui um dos primeiros pilotos do Correio Aéreo Nacional. Levava mensagens e cargas a todos os cantos do país. Na eterna solidão dos voos, sentia-me transformado em um deus alado, fazia minhas as asas do meu avião e corria pelos céus só meus. Voar pelo azul infinito era o mais próximo que eu jamais chegaria do paraíso.

Eu levava a carga mais preciosa da minha carreira quando uma tempestade decidiu que não havia espaço no céu para falsos deuses. A floresta que cobria aquelas montanhas assistiu impassível à luta que se travava logo acima. Entre rajadas de vento, relâmpagos e trovões, lutei com todas as forças. Esquivei, subi, mergulhei. Levei minhas asas ao limite, mas eu jamais seria páreo para deuses verdadeiros. Tempestades são punhos que golpeiam os aviadores, mostrando que não passam de homens tentando imitar os deuses. Tolos.

Lembro-me de acordar na manhã seguinte. Sobreviver tinha sido o prêmio por meu desempenho contra a tempestade. Um sol pálido encontrava frestas por entre as folhas e riscava o ar da floresta com mil pontos de luz. O suor da luta da noite anterior ainda gotejava nas árvores ao meu redor. Não havia sinal da tempestade. O deus do trovão seguira adiante em busca de outro desafiante à altura. Ao meu redor, eu ouvia uma orquestra de pássaros, insetos e macacos; todos comentavam sobre o falso deus que caíra dos céus. Não muito distante, havia uma cachoeira, emprestando um ruído constante àquela multiplicidade de sons. A algazarra da floresta lembrava uma avenida de cidade grande, todos os sons engarrafados no mesmo lugar.

Meu avião jamais voaria novamente, o motor estava destruído, óleo e combustível se espalhavam em volta dos destroços, mas minha carga estava intacta, outra bênção dos deuses. Eu ainda analisava meu equipamento, buscando uma forma de sair daquele deserto verde e fazer minha entrega, quando ouvi uma voz de criança: “Anauê” – e a floresta se petrificou em total silêncio.

Olhei ao redor, tentando identificar de onde teria surgido aquela voz. Ninguém. “Quem está aí?” – perguntei, rasurando aquele silêncio unânime. O vazio de sons era palpável, como mergulhar a cabeça num lago tranquilo, sentindo a linha d’água envolvendo o rosto, calando o mundo. Virei-me mais uma vez, olhei para os lados. Ninguém, apenas o eco do nada. Quando me virava pela terceira vez, a poucos metros do meu avião, eu o vi.

Era apenas um menino, um menino ruivo. A pele parecia suja, meio fuligem, meio esverdeada, como se o musgo das árvores tivesse decidido recobrir também aquela criança. “Como não pude vê-lo antes? Ele estava bem na minha frente”, pensei. Olhei em volta novamente para saber se havia mais alguém com ele. Ninguém. Com certeza não era índio. “O que um menino estaria fazendo sozinho no coração da floresta? Por que os animais, o vento e as águas haviam se calado?”. As dúvidas se multiplicavam na minha mente quando ele falou de novo: “ndê zanikó nikarê aicó?”. Pela entonação, pareceu uma pergunta.

Ele tinha os olhos vermelhos e brilhantes, como as brasas de uma fogueira à noite, e me estudava intrigado. Inclinou a cabeça para o lado e ouvi novamente a pergunta: “ndê zanikó nikarê aicó, anhan’guera?”, mas os lábios do menino não se moveram. De algum modo, eu o ouvia na minha mente, mas o que mais me espantou foi que comecei a compreendê-lo.

“Caçador? Não, não sou caçador” – disse em voz alta, sem saber se ele entenderia.

“Verdade?” – respondeu devagar e seus olhos flamejaram diabólicos. Um imenso porco do mato surgiu não sei de onde, bufando e babando, vindo em minha direção, presas compridas como baionetas.

“Sim! Sim! É verdade. Sou apenas um mensageiro. Preciso ir para a junção dos rios Urucu e Coari” – respondi, apontando para minha carga, uma grande mala de couro, e dando alguns passos atrás.

“Eu não acreditaaaarrrrr” – abriu a boca pela primeira vez, e a voz de trovão do menino demônio rasgou a floresta silenciosa como um raio. Naquele instante, o imenso porco do mato avançou sobre mim. Diante dos meus olhos ele cresceu, e cresceu. Transformou-se na figura fantasmagórica do cachorro assassino que me assombrava desde criança. A fileira de dentes me sorria ainda manchada de sangue, como se tivesse acabado de destroçar o corpo do meu amigo, e agora quisesse também o meu pescoço.

Corri. Minhas pernas vacilavam enquanto tentava chegar ao avião. O cachorro avançava feroz. Pulei para detrás dos destroços. Em meu desespero, num relance, vi que o menino de cabelos de fogo sorria; e o reconheci; era meu amigo de infância, morto por aquele mesmo cachorro. Fixei o olhar por uma fração de segundo – “Pedro?” – pensei.

Pulei para dentro da fuselagem, buscando algo com o que me defender. A grande cabeça do animal se enfiou pela janela do avião e abocanhou minha perna esquerda. Arrancou um grande naco de carne. Gritei de dor, e o menino do lado de fora soltou uma gargalhada metálica.

Arrastei-me para o fundo do avião. Enquanto me afastava de costas, ia jogando no cachorro tudo que achava pelo caminho. Encontrei um sinalizador de emergência e mirei. Se errasse, poderia incendiar o óleo e o combustível em volta do avião e transformar aquela fuselagem retorcida em minha própria pira funerária. A dor na perna reverberava pelo meu corpo, fazendo minhas mãos tremerem erráticas. Em minha dor, emoldurada de medo e sangue, senti a visão falhar.

De repente, estava de volta à rua em que cresci. Calças curtas. Ao meu redor, as crianças desesperadas jogavam coisas no cachorro louco que matava nosso amigo, num show macabro de força e morte apenas para os nossos olhos. Olhos. Os olhos do cachorro me encaravam, uma breve pausa naquele assassinato. “Agora ele vai vir me matar” – a frase se repetia na minha mente. “Covarde” – dizia a voz. Naquele breve momento em que o cachorro parou me olhando, meu amigo moveu de leve os braços. “Ele tá vivo!” – pensei, arregalando os olhos. O movimento chamou a atenção do cachorro, que recomeçaria a sacudir-se para terminar seu trabalho. “Ele vai acabar de matar o Pedro!!”.

– NÃÃÃO!!!!! – gritei com toda a força da alma e corri para aquela cena funesta. Rompi a linha das crianças que, a distância, tentava expulsar o animal assassino. Elas pararam de gritar, assustadas com a loucura que eu fazia. Ao ver que eu me aproximava enfurecido, o cachorro soltou meu amigo para se defender do meu ataque. O corpo caiu no chão ensanguentado. A besta retesou os músculos e abriu a boca tingida de morte. Ele viu o ódio nos meus olhos. Agora, quem o encarava diabólico era eu. Minha fúria me fazia grande diante daquele covarde. Medo. Por um breve momento, ele teve medo de mim. Hesitou. Atropelei-o com todo o meu corpo num estrondo, meu joelho bateu com força em seu lado e ele ganiu alto. Rolamos rua abaixo e, quando paramos, o cachorro fugiu assustado. Covarde. Permaneci imóvel, desacordado.

 

Abri os olhos dentro do avião, ainda com o cinto de segurança, no meu assento de piloto. Senti um forte gosto de sangue na boca. Uma dor navalhar pulsava na minha perna, o corte era muito profundo . “Cachorro? Porco? Aquilo foi real? Pedro… eu salvei mesmo ele?”. Minhas memórias se embaralhavam. A imaginação pode moldar a realidade. Não havia sinal de cachorro ou de porco ou mesmo de meninos verdes da floresta. Fiz um torniquete na perna e manquei para fora do avião.

A floresta tinha vida novamente – “ou era a primeira vez que ouvia aquela floresta?”. A algazarra de insetos, pássaros e macacos preenchia todos os espaços. Olhei a minha volta. Um pouco afastado do local da queda vi um porco do mato. “Seria o mesmo?”. Ao menos agora parecia tranquilo. Esfreguei os olhos e, montado sobre o porco, vi o menino dos cabelos de fogo sorrindo. Já não tinha mais o rosto de Pedro.

“Você não caçador” – ele disse.

“Por que seu porco me atacou? Aquilo aconteceu mesmo? Eu salvei o Pedro? Quem é você?” – vomitei minhas dúvidas de uma vez sobre ele, perdido.

“Você bravo guerreiro!” – limitou-se a responder em tom sério.

Olhei de volta para o avião. A grande mala de couro estava intacta. Precisei de um momento para organizar os pensamentos. A dor me atrapalhava a entender o que acontecia. “As vacinas” – lembrei.

“Suma daqui!” – rosnei para o menino – “Preciso entregar minha carga. É muito importante. Não tenho tempo para seus folguedos”.

“Pássaro seu morto” – falou, apontando com o queixo para o meu avião – “Eu levar você”, e bateu no peito, puxando para si a responsabilidade. Olhei de novo para o avião destruído e para minha perna ensanguentada.

Sopesei minhas alternativas, mas, dadas as circunstâncias, não havia mesmo muitas opções a considerar. Peguei a grande mala e comecei a seguir um menino verde, montado num porco do mato. Até aquele momento, eu ainda não havia me dado conta do quão insólita era aquela situação. Foi quando percebi quem era meu guia.

Aquela criança de cabelos rubros tinha os pés ao contrário, os calcanhares virados para a frente. “Curupira” – pensei. Instantaneamente ele me olhou sério, o dedo enriste em frente aos lábios verdes: “Ssshhhhh!” – fez, e sorriu matreiro, como se nunca tivesse tentado me matar com seu porco.

 

Estava em todos os jornais do país. Uma grande epidemia dizimava o alto amazonas: mulheres, crianças, brancos, índios, centenas de famílias morrendo, os corpos tomados por erupções cutâneas se amontoavam, a marca da morte.

Quando parti de Porto Velho, levava no meu avião um lote de vacinas recém-chegadas do Rio de Janeiro, a última esperança da vida contra a morte, a entrega mais importante da minha carreira.  Quando meu avião estava caindo, pensei que comigo caíam as vidas de todas as pessoas que dependiam daquelas vacinas. Seria o maior desastre aéreo da curta história da aviação brasileira: apenas um pequeno monomotor, centenas de mortos.

 

Depois de três dias mancando pela floresta, finalmente cheguei ao meu destino. Enquanto me aproximava do vilarejo, um jornalista que cobria a história da epidemia tirou uma fotografia daquela estranha aparição: um aviador, surgindo no meio da mata, carregando uma mala cheia de vacinas e sendo guiado por um enorme porco do mato. Aparecemos em todos os jornais. Infelizmente, a lente da máquina não foi capaz de captar também a imagem do meu novo amigo Curupira.

Nunca mais sonhei com o cachorro que tentou matar meu amigo. “Tentou?” – ainda me pergunto. Jamais retornei à cidade em que cresci. A vontade de rever meu amigo era menor que meu medo de encontrar uma lápide com seu nome. Nas minhas memórias, embaralhadas pelo Curupira, Pedro se recuperou e cresceu, forte e feliz. Mesmo as centenas de pessoas que salvei naquela ocasião não apagam a sombra de culpa que ainda carrego comigo. Uma vida não vale por centenas, e as centenas de vidas que salvei jamais valerão pela única que deixei de salvar. “Deixei?”. Não voltar foi a maneira que encontrei de manter meu amigo vivo, ao menos em memórias.

Hoje, muitos anos depois, ainda guardo os recortes de jornal daquela e de outras aventuras que vivi nos céus e na terra. Enquanto revia aquela antiga foto, por um breve momento, vi o Curupira sobre seu porco peludo, só para vê-lo sumir em seguida.

“Anauê, velho amigo!”.

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64 comentários em “Culpa Infinita (Thiago de Melo)

  1. Bia Machado
    23 de junho de 2017

    Ah, me esqueci: sobre a imagem, que linda! Dá vontade de pegar o primeiro avião com destino à felicidade! 😉 E também faltou dizer: meus parabéns!

E Então? O que achou?

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Publicado às 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017 e marcado .