EntreContos

Literatura que desafia.

O Fenômeno de Gramado (Givago Thimoti)

Por quase dois anos, a turística cidade de Gramado vivia sob o domínio total do medo. Os trinta e quatro mil habitantes da pequena cidade gaúcha jamais haviam presenciado algo como aquilo. Para ser sincero, acho que ninguém viu nada semelhante com aquele psicopata.

Eu cheguei um ano antes do início dos assassinatos. Resolvi sair de São Paulo, querendo novos ares e novas experiências. Com o dinheiro que eu ganhei dos meus pais, abri um restaurante/cafeteria e rapidamente consegui fazer sucesso. Não foi tão fácil quanto parece. A culinária tradicional é forte, principalmente para os descendentes de alemães e italianos que vivem aqui. Entretanto, eu logrei na missão de misturar a tradição e a modernidade. Graças a essa combinação, em alguns meses, meu estabelecimento era um dos mais comentados da cidade.

Claro que eu sentia falta dos amigos da cidade grande. Eu lembro que muitos gargalharam quando eu anunciei que sairia de “Sampa” para o interior do Rio Grande do Sul. Acho que foi o Felipe, colega meu da faculdade de gastronomia, que falou, misturando o sotaque paulista com uma péssima tentativa de imitar um gaúcho:

– Bah, meu! O nosso Leozinho quer conhecer a carne gaúcha, tchê! Direto da fonte. Quem pode culpá-lo?

Eu forcei um sorriso. Dos meus amigos, eu era o que menos gostava de namorar. Nunca fui muito de perder meu tempo com mulheres. Eu havia namorado uma vez e não pensava em compromisso sério.

Só que tudo mudou quando Carolina entrou no meu restaurante pela primeira vez.

Acompanhada de umas amigas, por volta das 21h, ela pisou no meu estabelecimento. Calça jeans, bota e sobretudo. A pele do rosto branco estava levemente maquiada e contrastava, de forma hipnotizante, com seus olhos castanhos. O cabelo preto lembrava a escuridão revelada de um penhasco.

Assim que Carolina e seus amigos sentaram a mesa, eu apareci, com um sorriso no rosto e os cardápios nas mãos. Esperei, pacientemente, pelos pedidos delas. Carol foi a última a escolher. Eu notei que ela se demorava numa picanha argentina mal passada. Inocentemente, eu disse:

– A sugestão do chef é a picanha argentina mal passada. – Ela ergueu os olhos e sorriu para mim.

– Bah, quem sou eu para discutir com o chef de um dos melhores restaurantes da cidade?

Voltei para a cozinha e preparei os pedidos com uma vontade bem maior do que a costumeira.  Dosei os temperos com o cuidado digno de um alquimista. Arrumei o prato de Carolina como se fosse servisse à Rainha da Inglaterra.

Chamei o Lucas, um dos garçons, para me ajudar a levar a comida mais a cerveja. Passados vinte minutos, voltei à mesa, perguntando se precisavam de mais alguma coisa:

– Sim. Precisamos que você elogie o chef. Essa é uma das melhores carnes que eu já comi. – Carolina disse, sorrindo, enquanto olhava fundo nos meus olhos.

– Bom, eu agradeço o elogio. – Respondi, sorrindo de volta.

Desde então, Carolina passou a marcar presença constante no meu restaurante. Até que na véspera do Natal, nós nos beijamos. Foi mágico. Eu diria quase perfeito. Teria sido se a policia não tivesse irrompido no restaurante, anunciando que haviam encontrado o corpo desfigurado do Lucas, meu funcionário.

Os policiais estranharam as marcas encontradas no corpo dele. No pescoço, marcas de corrente e de mordidas de um animal. Na altura do tronco, hematomas sugeriam que ele tivesse sido espancado.

A polícia não conseguiu concluir muito. E o mesmo aconteceu com as três seguintes. A pequena cidade começou a criar inúmeras historias e explicações para o ocorrido. A avó da minha namorada jurava que era a volta de uma lenda urbana alemã.

As autoridades encontraram mais pistas quando encontraram um amigo da Carolina nas mesmas situações dos últimos assassinados, mas dois fatos chamaram a atenção dos investigadores. O primeiro foram as fezes encontradas do animal. Os exames de DNA apontaram que o cocô pertencia a um javali. Sim, um javali! Como se não fosse o suficiente, nas costas da vítima, a polícia encontrou um bilhete do assassino se identificando: “Le Sanglier Assassin”, ou “o Javali Assassino”.

O fato é que o nome não inspirou o medo que um serial killer impõe normalmente. Um exemplo é aquele tal de BTK, o estrangulador. É um nome prático que resumia o que ele fazia: “Blind, Torture and Kill” (traduzindo: amarrar, torturar e matar).

Um mês depois que seu codinome foi revelado, o Javali Assassino provou (como se isso fosse necessário) que merecia ser temido. Alguns cidadãos desavisados fizeram piadinhas, tudo pelo humor negro. Gramado nunca mais seria a mesma.

Num belo dia, a irmã de Carolina, Cátia, convidou algumas pessoas para uma trilha, incluindo eu. Ela queria tirar fotos dos amigos em um lugar diferente. Minha namorada estava super animada para ir, mas, no ultimo instante, eu comecei a sofrer uma crise de enxaqueca forte.

Eu tomei tanto remédio que eu apaguei por um bom tempo. Quando eu acordei, Cátia estava desaparecida.

A cidade se mobilizou e iniciaram as buscas pela garota. Foram quinze horas de pura tensão e angustia. A cada segundo que se passava, mas claro ficava que a minha cunhada tinha sido vitima do Javali. Infelizmente, acharam o corpo mutilado de Cátia Bergen ao lado de sua amada câmera.

Como todo bom psicopata, ele precisa aparecer. Por isso, o Javali Assassino deixou uma gravação na câmera da garota. Os boatos diziam que ele segurava a maquina, mostrando pela primeira vez sua aparência. Parecia uma criatura que havia saído dos quadrinhos. Uma espécie de detetive particular que usava uma mascara de gás.

O vídeo tinha apenas trinta segundos de duração. Ao fundo, o corpo desfigurado da garota era saboreado pelo javali. Acho que nem Deus sabe como aquele homem conseguiu adestrar um javali daquele jeito.

O serial killer, com um dispositivo que alterava a voz dele, disse poucas palavras:

– Vocês riram de mim. A cidade não me levou a sério. Vocês acharam que eu estava brincando? Não se brinca com uma força incontrolável da natureza.

O assassino deixou a câmera cair, de forma que ela gravasse a saída dele. Com um estalar de dedos, o javali obediente se juntou ao seu dono.

É incrível como apenas um homem conseguiu amedrontar toda uma cidade. Se bem que uma pessoa não ficou com medo dele. Não. Carolina sentiu pela primeira vez o gosto do ódio.

Eu não podia culpar a minha namorada. Era compreensível o surgimento daquele ódio. Por isso, eu não me opus ao fato da minha namorada comprar uma arma. Nem mesmo que, em um período de oito meses, ela virou basicamente uma psiquiatra especialista em psicopatas. Para mim, era apenas um meio que Carol estava usando para superar a dor.

Nesse ínterim, mais três pessoas foram encontradas mortas. A policia descobriu o dito modus operandi. Ele escolhia as vitimas ao acaso. Primeiro, ele atraia a pessoa. Depois, quando a presa abaixasse a guarda, o Javali Assassino usava uma planta alucinógena, a ayahuasca. Desorientadas, as vitimas eram atacadas pelo javali. Ao serial killer restava aproveitar os últimos momentos das vitimas.

Desde o último assassinato cometido por ele, a minha enxaqueca voltou com força. Para mim, totalmente compreensível, já que os negócios não iam tão bem e eu vivia preocupado com a possibilidade de ser atacado, ou pior, a Carolina sofrer um ataque.

Ao contrário de mim, Carol não demonstrava nenhuma preocupação. Ela estava tentando chamar a atenção do psicopata. Botava nas redes sociais coisas provocando o serial killer, dizendo que ele não passava de um lunático sem ter o que fazer e que daria um fim nele.

Carolina fez isso até o mês passado. Foi quando ela recebeu um bilhete do assassino. No papel escrito à sangue, o psicopata convidava ela para ver quem ganharia um confronto entre os dois. Obviamente, o local seria onde Cátia foi morta. Ele a deixou escolher um parceiro. Eu, prontamente, me voluntariei. Não sei o que se passava na minha cabeça. Vamos dizer que foi o amor.

O dia do encontro chegou num piscar de olhos. Por volta das 20h, eu e Carolina entramos no carro e nos dirigimos ao local. Minha namorada checava a arma a cada cinco minutos. A cada dez via se tinha trago munição suficiente.

Eu encostei o carro no acostamento. Uma cruz com o nome e um tufo de cabelo da Cátia estava fincada no chão.

– Filho de uma puta! – Carolina esbravejou.

Antes de entramos na floresta, ela pegou uma arma e uma lanterna, então me entregou. Depois, tomou um gole da sua água. Olhei para ela e perguntei se estava pronta. Ela se limitou a assentir com a cabeça.

O plano era “simples”. Entraríamos, não ficaríamos mais de dez metros separados e mataríamos o javali e seu dono.

Assim que entramos na floresta, uma névoa forte desceu. Eu me perdi de Carolina. Eu sabia que não adiantava procurá-la. Mesmo com a lanterna, eu não enxergava nada mais do que dez passos à minha frente.  Minha cabeça doía tanto que eu mal conseguia manter os olhos abertos.

Comecei a sentir que eu estava sendo perseguido. Respirei fundo e tentei enxergar algo no breu. A forma de algum animal se aproximava de mim. Por via das duvidas, atirei duas vezes. O que quer que fosse, saiu correndo, provavelmente ferido.

A sensação de medo despertou algo diferente em mim. Eu estava mais atento ao que acontecia. Era a tal da adrenalina, correndo nas minhas veias avisando que o perigo estava se aproximando.

Por duas vezes, eu pensei ter visto o assassino. A sombra de um homem (ou seria um demônio brincando com os meus sentidos?). Eu corria atrás do individuo, batendo em galhos, atirava, praguejava e ouvia a risada dele.

Eu me senti cansado. A cabeça latejava ritmicamente. Eu sentia que ele estava por perto, entretanto, por que ele parecia tão longe? Enquanto eu refletia nisso, ouvi um grito. O grito de Carolina e uma risada fria e seca.

Mais uma vez, eu corri. Desta vez, com uma direção certa. A minha arma estava em punho. O assassino parecia gostar do jogo. Ele estava me seguindo. Eu podia ouvir ele, como se sussurrasse no meu ouvido: “Você está perto da verdade! Venha!” Mas como era possível?

Carolina continuava a gritar, provavelmente em dor. Eu sentia que estava mais próximo dela. Foi quando eu quase cai num desfiladeiro. Parei diante daquele penhasco, com a certeza que algo estava errado.

Eis que surgiu a voz de Carol e a do serial killer, logo em seguida.

– Não acredito! É você! Mas, como? Você que matou a Cátia?!

– Quer saber a verdade, Leonardo? Pule. Vai dar tudo certo.

Pulei, mesmo sabendo que seria a coisa mais estúpida. Quando eu comecei a me arrepender, uma bola branca de luz surgiu, tirando-me dali.

Minha visão não era mais a mesma. Era como se eu estivesse um óculos de sol. Eu usava luvas grossas feitas de couro. E um sobre-tudo. Mas como? Por quê?

Eu desequilibrei e caí diante do corpo inerte e desfigurado de Carolina. A dor de cabeça lancinante abrandava devagar, enquanto eu encarava o cadáver da minha namorada. Eu não sentia nojo, nem raiva e muito menos medo. Controlei o meu fôlego, sentindo a animação de mais um assassinato correr pelas minhas veias.

Ares nos rodeava, procurando algo no chão. Notei que o sangue de Carolina escorria dos caninos do javali.

Finalmente, me ergui. Ao lado da cabeça de Carol, eu vi a enorme poça de sangue que começara a se formar, misturando-se com uma poça de chuva. Enquanto o líquido vermelho se diluía, eu vi o meu verdadeiro eu.

Os olhos cobertos por uns óculos de lentes escuras, que lembrava vagamente as lentes daqueles cientistas malucos de filmes trashs. O sobretudo tinha algumas marcas da caçada. Pedaçinhos de galho presos nas mangas e lamas sujavam o meu manto.  

Diante do meu reflexo, eu ri e disse:

– Amor, eu odeio quando você está certa.

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54 comentários em “O Fenômeno de Gramado (Givago Thimoti)

  1. Givago Domingues Thimoti
    25 de junho de 2017

    Bom, acho que o que me resta é agradecer pelos comentários. Principalmente aqueles que dão aquela animada. Mas não podemos esquecer as críticas negativas. Às vezes irritam, outras machucam, porém são necessárias para melhorar. Muito obrigado a todos!

E Então? O que achou?

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Publicado às 18 de maio de 2017 por em Imagem - 2017 e marcado .