EntreContos

Literatura que desafia.

Promessa de Liberdade – Evelyn Postali – Resenha (Gustavo Araujo)

Imagine um Brasil alternativo em que a escravidão jamais tivesse sido abolida. Essa é a realidade que Evelyn Postali explora para falar de intolerância, escolhas e, no fundo, para tratar de algo incômodo, talvez próximo demais de nossa realidade verdadeira.

Evelyn é dona de um estilo firme, sabe como poucos utilizar palavras e expressões de efeito, controlando o ritmo da narrativa, ora mais fluida, ora mais profunda, a depender do momento. Não só isso, demonstra nas entrelinhas um laborioso trabalho de pesquisa, não apenas no que se refere à conjuntura histórica que serve de base para a trama, mas também ao aspecto geográfico, o que resulta numa ambientação rica e muito bem fundamentada.

A construção da realidade escravocrata que permeia esse Brasil (quase) fictício é realçada com a excelência das descrições, à luz de uma atmosfera perturbadora, opressiva e, indiretamente, questionadora – uma distopia – em que há espaço também para se discutir homossexualismo e feminismo.

De início, vê-se que a sociedade brasileira está dividida entre aqueles que anseiam pela abolição da escravatura e aqueles que desejam a manutenção do flagelo, devidamente afiançado por quem exerce o Poder com mão de ferro, um conflito que permeia toda a obra.

O núcleo dessa dicotomia recai sobre a família Paes Leme, cujo patriarca é dono de empresas que não só se beneficiam da mão de obra escrava, auferindo lucros astronômicos, mas que também é responsável pela produção de escravos em nível nacional. Dois dos filhos, Leonardo e Carlos, têm trajetórias diferentes: um segue os passos do pai; outro, integrando uma banda de rock, vê-se atraído pelos ideais de liberdade para os negros.

Os rumos seguidos por Carlos e Leonardo, cruzando-se a partir de polos opostos, conduzem a narrativa e, como é de se esperar, são levados a extremos, constituindo-se, exatamente por isso, nos momentos mais interessantes e emocionantes da história.

O problema é que ao tratar disso, a narração, por vezes, resvala em certo didatismo, preocupada demais em demonstrar como a escravidão é algo abjeto, como se o leitor precisasse ser ensinado a esse respeito reiteradamente.

Quanto a isso, vale traçar um paralelo. No livro “Não me abandone jamais”, Kazuo Ishiguro trata de amor tendo como subtexto uma realidade social que é, em tese, terrível. No entanto, em momento nenhum o narrador daquela obra emite opinião sobre esse contexto – se é certo ou errado, se é ético ou não – deixando que o leitor preencha essas lacunas sozinho.

A mim parece faltar isso, em certos momentos, em “Promessa de Liberdade”, já que o leitor é por demais guiado, preso a um trilho de obviedade, sem direito a digressões próprias.

Além disso – ao contrário do virtuosismo perene que se denota na construção do contexto histórico e também na condução da trama –, os personagens se afiguram um tanto unidimensionais. Os maus são sempre maus, preocupados com os lucros e com a posição social que detêm. Os bons são sempre bons, monopolizando a virtude, puros, sem defeitos. Não há espaço para meio termo, para dúvidas, para questionamentos ou transformações. Pelos olhos do narrador, tomamos ciência de quem devemos admirar e de quem devemos execrar – novamente, sem direito a divagações próprias.

É com certa dor que me refiro a esses defeitos porque no geral a história é muito boa. Porém, talvez por considerar o potencial de Evelyn Postali como autora, não posso me furtar a dizer que a trama ganharia mais cores se esse maniqueísmo fosse relativizado, com a concepção de personagens mais humanos, mais dúbios, que exibissem defeitos e qualidades, ainda que pertencendo a grupos distintos, para explicar suas ações e seus comportamentos.

Paralelamente à história e aos personagens, chamou-me a atenção, ainda, certa falta de revisão no livro. Embora bem escrito (faço questão de frisar isso mais uma vez), aqui e ali veem-se erros de digitação, lapsos gramaticais e também erros de ortografia. Tais fatos não prejudicaram a leitura como um todo, mas não foi possível ignorá-los.

O mais interessante – e isso deixo para o final desta breve resenha – é a sensação de culpa que a absorção do texto produz no leitor, quando interpretada em função do mundo que nos cerca. Não há como fugir da constatação de que somos responsáveis pela desigualdade que permeia nosso dia a dia real. Essa é a maior qualidade do livro, algo que o diferencia e o faz profundo, tão diferente das narrativas rasas que se multiplicam por aí: é um livro que faz pensar, que nos tira da zona de conforto.

Uma obra de coragem, para resumir em uma palavra, e que, apesar dos defeitos, vale muito a pena conferir.

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2 comentários em “Promessa de Liberdade – Evelyn Postali – Resenha (Gustavo Araujo)

  1. Fabio Baptista
    3 de maio de 2017

    Bela resenha, Gustavo!

    Parabéns pelo livro, Evelyn!

  2. Evelyn Postali
    3 de maio de 2017

    Obrigada, Gustavo, pelo carinho e cuidado ao ler o livro. É sempre bem-vinda uma crítica construtiva. Um grande e afetuoso abraço!

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Publicado às 3 de maio de 2017 por em Resenhas e marcado , , .