EntreContos

Literatura que desafia.

Fura Tripa (Sonhador)

Um gritinho de felicidades e muita alegria, sábado e domingo comemorativos e o rebuliço vai começar na casa da dona Laura.

“Senhor Saci, senhor Saci Tinhorão” – exclamou espevitada e nervosa, se colocando no meio da reunião, cujos programadores estão eufóricos, também, com a possibilidade de haver humanos entre eles que os podem ver. “Senhor Saci, não…”

— As crianças – falou e pensou rápido, abrindo os olhos e lembrando do que programou para o dia, assim, em milésimos de segundos. Foi para o banheiro.

“Não riam não, vai sobrar para mim”, falou ela, apontando a cada um deles, encarapitados na pedra, na árvore, na relva, unidos em abraços, se cutucando…. “não, eu não, ainda preciso…”

— Querido?! As crianças – lamentou, sorriu, esclarecida do dia e viu o marido sair do banheiro, com os braços abertos e tudo sobrando. Olhou para ele e depois para o outro ele, rindo e apontando.

“Vamos, pessoal, agora somos nós. Um de cada vez para não botar fogo na casa”, explicou corretamente, ordenando, com simples gestos, fazer a fila. “Você, Nairinha, minha razão de viver, falou o esclarecido Iucã, uma forma simples entre batráquio e Louva-a-Deus, ali misturado entre eles, mas firme entre ir e vir nas ordens do Saci Tinhorão.

— Você vai ficar firme, perguntou e tripudiou ela – apontando novamente e afirmando, sem palavras, a cabeça girando para a direita e esquerda, com a voz melosa e o fazendo compreender que não funcionaria mais.

“Vamos, pessoal, devagar”, afirmou e aquele levante de elementares, agitados, reassumindo as suas formas femininas e masculinas, no plano, para o qual, vão tentar ver aqueles que irão ficar. Até para coordenar melhor o Dia do Saci.

— Pode deixar, tudo no controle – colocando a cueca, a bermuda, a camiseta ornada com uma mancha enorme de negro e vermelho, destacando um Saci parrudo e mostrando os músculos, ladeado por dois cachimbos e uma caveira. Ela sacudiu a cabeça, agora na negativa das bobagens que têm que aturar, nesse dia, especialmente, com a festa e, em outros longos tempos, para afirmar, para os pais, que ele não era insano, quando aparecia com trajes totalmente fora de estilo, cabelos longos, barba, as vezes curta (lembrou-se de um dia, a cara raspada pela metade, dizendo que a era a sua cara metade) provocando mais e mais reações adversas dos futuros sogro e sogra.

“Agora, atenção, vocês que ficaram…. esses diabinhos precisam gritar desse jeito? ” – Foi a pergunta para todos os outros que olharam para trás e viram a enorme quantidade de elementares: Caipora, Matinta Perera – lúgubre, mostrando-se e mudando, rapidamente, na sua forma de Coruja e Anciã -, Araci, Iaras em início e na puberdade, Icamiabas – fortes e guerreiras -, Alamoa, com seu séquito e uma sempre benvinda convidada. Os tenebrosos Jururá-Açu, afastados, mas integrados no mesmo sentimento.  

— Que bagunça – ouviu a expressão agoniada da mãe. — Maurício, meu filho do coração, porque você ainda apronta – larga meu velho, vou reclamar sim, – porque você faz isso, não lhe demos educação suficiente!? – Apertando a bochecha e puxando várias vezes. E aperto de mãe dói alguma coisa? Ele pensando e recebendo o carinho.

“Tudo acertado, Iucã famoso chefe – tripudiou Tupi. Ele não respondeu, esperando o último da fila gritar e desaparecer.

— Mamãe, mamãe, gritou a pequena Rafaela – Rafa, espevitada e sempre na condição de estar alarmada com alguma coisa. Abriu a porta do quarto, viu o tio, os avós e passou correndo, entrando no quarto da tia. Atrás dela, o primo que adora a sua presença.

“Tudo, sou suficiente e eficiente com todos eles”, falou bravo e estendeu a fina garra apontando para todos, em nítida ameaça. Todos riram, sorriram, gritaram fininho, uivaram, característica de cada uma das formas.

“Posso assumir, senhor Iucã!?”, falou a sua formosa, Inhansã, que na falta do Tupã, faz-se de secretária para esses assuntos nos dias festivos, como hoje, ou, nesse tempo, já que eles são diferentes quando em uma e outra forma.

— Mamãe, está tudo bem, não precisa nada – falou firme e colocou o fone de ouvido e transmitiu a primeira ordem, comandando: — Batalhão Curupira!!!

— Sim, senhor, a postos. Ele deixou os pais ouvirem, porque já sabia da gritaria do outro lado, os filhos Márcio, Maura e o pequeno Maurício – Miro – sete anos, um temporão, depois do Márcio – quinze anos e a Maura – treze anos. Não precisariam dos fones, já que os gritos se fez ouvir da cozinha e agora uma enxurrada de sons, considerados estranhos para quem não sabe.

— O que é isso, Maurício – ralhou a mãe.

— Dona Virtude – rindo – eles estão se servindo e mastigando. — Melhor se apressar, – puxando e abraçando os pais. — Cuidado com o Betinho, ele não pode tomar leite.

— Minha nossa, é verdade – aliando a preocupação com a saída rápida entre os dois.

— Você continua uma praga – falou, rindo, o velho e atencioso pai (desconfiam, que foi ele o autor de todo esse início de brincadeiras, afinal, é uma mistura de indigenista e autor de livros sobre o folclore das nações, evidente, mas com o forte controle sobre os nacionais), um emérito contador de histórias, entre elas o início do mundo, com os deuses Yamandú, Iara, Abaçai, Angra – tórrida -, Rudá, Chandoré.  

“Podem se acomodar, por favor”, salientou Inhansã, formosa, gentil, coerente, apesar de saber controlar os raios e trovões, apontando para o enorme jardim da casa dos Alencar, onde irão festejar mais esse momento de puro prazer, entre os que saem da companhia deles para desfrutar o prazer de voltar a ser mortal. “Vou lhes trazer o néctar”, mais gentil ainda, girando por si, agradando e sendo agradada por lufadas dos primos Brisa e Vento. A dona Ventania e o senhor Tufão estão viajando, para outras plagas e mandaram lembranças (afinal, basta pensar e saber de todas as novidades no mundo) e ela agradeceu gentil, em nome de todos.  

Os dois chegaram na cozinha, no momento certo de ver o Betinho sair correndo, atrás dos outros, com uma banana de primeira mordida, eufórico, para montar as barracas. A mãe sentou-se em uma das cadeiras, colocando os braços em cima da mesa, uma verdadeira bagunça. Ele ia chamar os filhos, mas ela declinou.

— Deixa, querido, eu arrumo tudo, só faltou um pouco de ar, confirmou sorrindo. Todos os primos de uma vez? Sua irmã não vem? Estou com saudades dela.

— A Beatriz e o Flávio foram viajar, a negócios, dela. Ele foi porque ela não queria ir sozinha, estava um pouco aflita com a apresentação. — Eu disse para ela levar um Saci para dar sorte. A mãe abriu os olhos, já antecipando, mas o velho pai confirmou com aquele sorrisinho que ela já conhece há quarenta e dois anos, exatamente, se não quiser contar os meses.

— O que vocês dois aprontaram!? Eles disfarçaram, mas não conseguiram fazer mais nada porque ela os proibia com a sua presença, evitando pegar frutas, café, leite, cereais – com pequenos conjuntos dele espalhados por um amplo granito – central –, com oito cadeiras, já que os pais, proprietários da casa, os fez vir morar ali e mudaram para um apartamento menor, perto e longe ao mesmo tempo, da agitação e barulho das crianças. — Querem fazer o favor!?.

Na pergunta a presença da “dona da casa”, com a pequena nos braços e o menino Bruno, neto da cunhada da sogra, também longe de todas essas confusões.

— O que foi? Entre perguntar por causa do clima e prestar atenção neles dois, os pequenos. — Senta, Bruninho, filhote, falou amorosa, vamos comer depois vai brincar, – salientou, segurando o garoto, colocando a menina sentada e voltando a atenção para eles três. — Quero saber, alguma outra novidade? O questionamento “outra” foi mais do que evidenciado. A sogra apontando para os dois e ainda evitando que pegassem   as xícaras no guarda-louça antiga, retrato dos restantes móveis da velha casa, relíquia de família e evitada ir embora quando da imensa reforma que atualizou tudo, dos canos de ferro para plástico, de azulejos azuis para brancos, de pia esmaltada para granito. — Então!? Para os dois, enquanto servia as crianças.

— Está bem, está bem, senta papai, eu falo – rindo, antecipadamente. — Eu coloquei um Saci, quer dizer, sacizinho, pequenino, na mala dela e uma foto de nós dois, fantasiados, para dar sorte. O velho começou a rir, satisfeito, ele também.

“Não falei que iríamos nos divertir? Você é muito cheia de melindres, Iara.

“Ela pode não compreender o gesto, achando que é uma praga”. “Vamos lá, vamos viajar” – voando e rindo, majestosa – puxando a filha da Akuanduba, que está treinando na harmonia e do gesto carinhoso.

— Olha só, Flávio, o meu pai e o meu irmão – mostrando a foto e rindo. Ele viu e sorriu.

— Boa sorte?!

— Com certeza. Já devem estar se divertindo e muito. Eu estou melhor, não precisa fazer essa cara e ficar nervoso.

— Está bem, preciso concordar com um cunhado maluco que quase me mata de susto com aquelas brincadeiras idiotas. Ela riu, lembrando-se e concordando.

— Era para testar o seu amor, no entender dele e do meu pai. Ou ama ou morre. Riram os dois. Ela, pela diferença de horário do exterior, a postos no hotel. Na saída do quarto para o ambiente entre festivo e nervoso dos conferencistas. Será a segunda a falar. Apertou a foto na mão esquerda, com força e sentou-se na primeira fila de cadeiras depois que o marido a beijou carinhosamente, mostrando o pequeno saci – descoberto – na mão direita.

— Está bem, podem tomar a sua refeição matinal – falou ela, a matriarca. — Você…. ameaçou e ele se retirou, sorrateiro, de perto dela.

— Querida, foi só uma brincadeira séria. O filho confirmou.

— Rezamos antes, tripudiou. Ela avançou agora no filho, que deu a volta na mesa granito e ela parou. Sentou-se novamente, puxando o marido. A pequena já está habituada em ficar com eles e o pequeno também. Após refeição os dois para o quintal e a bagunça confirmada. Ajudar na armação das vinte barracas, para mais crianças do condomínio. Qual o sentido de sofrer sozinho?

“Larga, seu chato”. Cutucou com a pequena varetinha.

— Aí, porque você me cutucou, criticou ela contra o irmão.

— Não fiz nada disso.

— Pai, olha o Márcio.

“Não é legal?! Eles podem sentir, não falei para você! ”. Olharam em volta para ver se não havia nenhum superior e fez novamente.

— Aí, agora foi você.

— Não fiz nada disso, reclamou. A confusão vai começar, como se não fosse o suficiente o número de crianças que já estão e as que virão. Os pequenos capetinhas existem em todos os lados e cantos.

“Para, é melhor. Eles podem nos ver?!

“Claro que sim. Vou ensinar. A gente se concentra, assim, fazendo força na mente e no corpo….

“Que corpo? … nós não temos, somos fumaça, nuvem, invisíveis…”

“…. e vamos ajuntando….”

“…. e é por isso que eles não nos veem… quer saber, pode falar, pronto”

“…. as partículas do nosso pensamento…. obrigado, sem educação”.

”Não sou não, você é que é” – bateu, cutucou com a varetinha e levou de volta um empurrão. Juntou mais Curupiras, Mula sem Cabeça, Caiporas, Cabi, Acutipuru – agitado como ele só -, vistos de longe pela enorme e plácida Cobra Grande, majestosa em seu tamanho e conhecimento da psique, sabedora que nada irá acontecer depois de rusgas, tapas, correrias e pancadas.

— Vocês têm que dar o exemplo, olha as crianças menores. Afinal, não são a patrulha Curupira?

— Batalhão – afirmou o Márcio e a irmã concordando. Saíram de perto um do outro e o pequeno Miro veio até ele.

— Papai, vovô, vai ser bem legal essa festa, não é? Eles passaram a mão na vasta cabeleira do garoto, que só vai cortar quanto tiver a idade do avô e ficar careca para sempre, foi a firme vontade dele. — Até lá, embaralhamos, eles pensam – fazendo o pequeno rir, próprio para a ocasião.

— Seu fura tripa – comentou ele, rindo para o pai. — Seu fura tripa – repetiu. O garoto saiu correndo e eles ouviram vindo da casa.

— Vamos trabalhar!?

“Vamos embora, antes que eles nos vejam e tenhamos que trabalhar”. A turma se dispersou, célere.

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.