EntreContos

Literatura que desafia.

Responsabilidade (Mestre de Obras)

Tomás empilhou as últimas sacas de cimento e acendeu um cigarro para tentar aliviar o tremor nos músculos. Chovia fino fora da obra, e ele ficou encostado na janela, absorto, observando a relva molhada. Quando deu por si novamente, o cigarro já havia se transformado em cinzas e ele o arremessou pela janela.

– Vai com a gente pra Içá? – perguntou Aírton, quando estavam no alojamento, trocando de roupa para encerrar o dia.

Tomás fez que não com a cabeça.

– Tomázinho nunca vai – gritou um peão pelado ao fundo. – Não sabe o que é bom na vida.

– Vamo com a gente, Tomás – insistiu Aírton. – Você nunca vai. Deve tá a perigo.

Tomás sorriu e negou novamente o convite. Gostava de Aírton, era um cara legal, embora só soubesse falar de mulheres e dinheiro, como a maioria dos peões. Iam semanalmente para Içá, gastar o dinheiro com putas, e o colega sempre o convidava. Mas Tomás não podia se dar ao luxo de gastar dinheiro com sexo. E pelo que ouvia nas conversas, a farra dos companheiros era maceta e cara.

– Então vai se foder – disse Aírton, um pouco irritado. – Vai pra casa mesmo enquanto a gente faz o estrago em Içá. Hoje vai ser pai d’égua, não é não, peãozada?

E todos os outros gritaram em coro. Debaixo de vaias e xingamentos de brincadeira, Tomás deixou o alojamento sem se importar com nada daquilo. No dia seguinte, voltariam a ser apenas peões, lado a lado, empilhando cimento e assentando tijolos. No fundo eram todos iguais.

A chuva cessara e a noite começava a cair. Ele pedalou sua bicicleta, descendo a estradinha de terra batida que serpenteava por dentro do mato e levava até a estrada maior. Chegando nela, Tomás precisou descer e empurrar a bicicleta para poder passar pelos enormes buracos alagados. Vinte minutos depois, já pedalava no centro de Amaturá. Como fazia todas as quintas, parou em uma barraca na feira para comprar laranjas e depois seguiu pela Frei Reinaldo até chegar à beira do Solimões. Tomás desceu novamente da bicicleta e a empurrou através de uma ladeira de terra que levava até a vila dos pescadores. Estava cansado naquela noite, e resolveu acender outro cigarro.

– Tomás?

A voz familiar vinha de suas costas. Ele se virou e viu Teresa subindo a ladeira, correndo, com uma bacia de roupas nas mãos.

– Oi – disse ela, quando finalmente o alcançou. – Vindo da obra?

Tomás fez que sim, contemplando aquela visão que sempre lhe despertava um aperto no peito. Teresa estava molhada, suas roupas de pano colando no corpo, e ele sempre a achava ainda mais linda quando se encontrava nesse estado.

– Eu tava lavando roupa no rio – explicou ela. – Posso botar a bacia na garupa?

– Claro – respondeu Tomás, chateado por não ter pensado em oferecer antes. Ele posicionou a bacia de Teresa na garupa da bicicleta e segurou pela parte de trás, para impedir que ela caísse. Os dois recomeçaram a andar, subindo lentamente a ladeira.

– Como tá a obra? Perto de acabar? – perguntou Teresa.

– Não. Ainda tá longe.

– É uma escola nova, não é?

– É.

– Mas vão fechar a antiga? Aquela que a gente estudou?

– Não sei.

– Hum.

Os dois continuaram o trajeto em silêncio, com Tomás a se torturar. Gostava da companhia de Teresa, mas nunca pensava em nada de bom para falar quando estava a seu lado. Tinha medo que ela pensasse o pior dele, que era um bocó, e foi então que lembrou das laranjas.

– Quer uma laranja? – perguntou, parando e mostrando o saco.

– Como é?

– Comprei pro meu pai. Mas posso te dar algumas se você quiser.

– Ah, quero sim. Se não for faltar pro seu Valeriano.

– Não vai faltar, não.

Tomás abriu o saco e retirou três laranjas, que Teresa guardou no bolsão da saia. Ela sorriu para ele e agradeceu. Tomás sorriu de volta. Quando chegaram no topo da ladeira, ela pegou a bacia, se despediu e correu na direção da sua casa. Tomás a observou partir e depois tomou o próprio rumo.

Seu pai estava na sala do barracão, cochilando na cadeira de balanço, mas acordou quando ouviu o barulho da porta.

– Quem é?

– Sou eu, pai. Eu trouxe umas laranjas.

– Heim?

– Laranjas Trouxe algumas pro senhor.

– Ah, sim. Deixa na cozinha.

– O senhor quer que eu descasque uma agora?

– Não, agora não. Hoje tô mei ruim da barriga.

Tomás deixou o saco na mesa e lavou as mãos. Depois foi até a sala e sentou em um banquinho ao lado do pai. O velho sorriu para ele, as rugas se expandindo pelo rosto.

– E no serviço?

– Tá normal.

– A obra tá perto de acabar?

– Não. Falta muito.

– Melhor pra você, né, filho? Continua no serviço.

– É sim. O que o senhor fez hoje?

– Ah, tentei ver a televisão mas tava tudo preto.

– Hum, deve ser a antena. A chuva de hoje pode ter derrubado ela. Vou dar uma olhada de manhã.

– Tá certo.

De repente, sem aviso prévio, o pai fechou os olhos e então estava cochilando. Tomás suspirou. Apagar de uma hora para outra estava virando um costume a medida que o pai envelhecia. Cada vez menos lembrava o pescador ativo e vigoroso que um dia tinha sido.

Pensou em cochilar também antes de preparar algum jantar, mas batidas na porta o alertaram, além de despertar o pai.

– O que foi? – perguntou o velho, um pouco assustado.

– Nada. É só a porta. Vou ver quem é.

Mas quando abriu, foi a vez de Tomás levar um susto. Na sua frente, Teresa parecia com um sonho. Havia trocado de roupa e os cabelos estavam amarrados em uma longa trança. Ao invés da bacia, trazia nas mãos uma panela, e sorria um pouco desconcertada.

– Tomás, quando eu disse pra minha mãe que você tinha me dado umas laranjas, ela mandou eu trazer para vocês. É canja.

Tomás novamente não fazia a menor ideia do que falar.

– Canja? Mas Teresa… não preci…

– Quem é que tá aí? – gritou o velho.

– Sou eu, seu Valeriano. Teresa.

– Quem?

– Teresinha. Filha da Rosa.

– Não tô lembrando, não.

– Então eu vou aí pro senhor me ver.

E dito isso, Teresa avançou, empurrando um lesado Tomás para dentro da casa.

– Onde eu ponho a panela? – ela perguntou.

– Ah… deixa que eu levo – disse ele, saindo do transe rígido em que se encontrava e pegando a panela. Enquanto Teresa conversava com o pai na sala, Tomás andava de um lado para o outro na cozinha. Se sentia o homem mais bocó do mundo por ter ficado parado que nem estátua quando a mulher apareceu. Fazia muito tempo que Teresa não entrava ali na casa. Na última vez eles eram apenas adolescentes. Agora Tomás sentia um misto de nervosismo e alegria, e não sabia como reagir. Por fim, tomou fôlego e retornou a sala.

Teresa estava sentada no banco. Seu pai mostrava a ela uma fotografia.

– Essa é minha mulher, Antônia, que já morreu. Esse menino magrinho aqui é o Tomás, que você viu ainda agorinha, e essa moça bonita aqui é minha filha, Diana. Você chegou a conhecer a minha Diana? Ela parecia um pouco com você.

Teresa ficou surpresa com a pergunta e olhou para Tomás, que discretamente fez um gesto para que ela dissesse que não.

– Não conheci, não, seu Valeriano – mentiu Teresa. – Mas ela é muito bonita.

Os olhos do velho se encheram de orgulho.

– Ah, mas era muito bonita, mesmo. Uma belezura. E era inteligente também. Muito. A gente achava que ela ia pra Manaus, pra ser doutora ou enfermeira. Mas aí aconteceu aquela desgraça e…

O velho mordeu os lábios, apreensivo, e o mesmo fez Teresa, que agora desesperadamente procurava Tomás com os olhos.

– A minha menina – o velho continuou, tinha a voz chorosa e tropeçante. – Ela engravidou do boto. Esse peixe maldito. Virou homem e enganou ela numa festa. É um coisa ruim. Engravidou minha menina e depois voltou pra levar ela embora. Sabia que eles fazem isso? Os boto?

Teresa não sabia o que dizer. Apenas assentiu.

– Pois é. Os maldito peixe vira homem e vem aqui roubar as menina.  Depois leva elas pro fundo do rio. Eu odeio eles. Matei um monte. Usava eles pra isca, sabe? Mas na verdade eu matava era por raiva mesmo. Tomaram minha Diana e nunca mais devolveram ela. Matei um monte. Não podia deixar eles fazer de novo. Matava mesmo, e depois tirava os olho e jogava no fundo do rio de novo, pra ninguém usar como mandinga.

Tomás coçou a têmpora, incomodado, e quando se preparava para se intrometer e salvar Teresa daquela situação, notou que o pai já estava cochilando de novo. Discretamente, fez um gesto para que a moça se levantasse com calma e em silêncio o seguisse para fora da casa, e assim foram.

A vila dos pescadores dormia cedo, e a maioria dos barracos já estavam com as luzes apagadas. Tomás e Teresa desciam a ladeira, rumo ao rio.

– Não sabia que seu pai ainda contava essa história sobre a Diana – disse Teresa, em um tom frágil, como se estivesse pedindo desculpas.

– Ele ainda pensa nisso.

– E como ela tá? Tua irmã? Tem notícias dela?

– Ela veio na cidade tem coisa de um ano. Está bem.

– O filho dela deve estar enorme, né?

– Nunca vi. Mas ela disse que é um menino bonito. Já tem dez anos.

– Ela ainda tá junta do marido?

– Não. Ele foi embora. Parece que está morando em uma vila perto de Manaus.

Tomás suspirou. Era duro lembrar daquelas coisas. Não passava de um jovem quando a irmã engravidou de um pescador da vila, um tipo grosseiro e beberrão, e o seu pai a expulsou de casa. Junto com a mãe, tentou convencê-lo do contrário, ficando do lado da irmã, mas não foi o suficiente. Diana foi embora com o pescador e nunca mais voltou. Anos depois, perderiam a mãe, e então o pai piraria completamente. Quando falava de Diana, contava pra todo mundo que a filha tinha engravidado do boto e que fora raptada por ele. Tomás às vezes se perguntava se o pai em sua demência realmente acreditava nisso, ou se apenas mentia para si mesmo, tentando disfarçar a dor do arrependimento.

Os dois chegaram ao rio. No céu, as nuvens haviam dado espaço para a lua, que brilhava intensamente sobre as águas.

– Lembra quando o Solimões era cheio de botos? – perguntou Teresa.

Tomás assentiu. Ela o encarou.

– É verdade o que o seu pai disse? Ele matava os bichinhos por vingança?

– Não sei. Usavam os botos como isca de piracatinga, isso eu sei que é verdade.

– Ah.

Tomás pigarreou.

– Teresa?

– Oi?

– Não conta pra ninguém que o meu pai ainda acredita na história do boto.

Ela o olhou com ternura e fez que sim. Depois, apontou para o rio.

– A gente brincou muita nessas águas quando era criança.

– Foi.

Uma rajada de vento frio passou pelos dois, talvez anunciando que a noite seria de chuva. Teresa abraçou os próprios braços, tentando se aquecer, e deu leve ombrada no amigo.

– Que frio – disse, rindo. – Né não?

Tomás sorriu e enfiou as mãos nos bolsos.

– É, sim.

Seguiram em silêncio, contemplando as águas do Solimões, até que não puderam mais vê-las com nitidez quando a lua sumiu por trás das nuvens. Um pouco depois, Teresa massageou o pescoço e se animou ao parecer lembrar de algo.

– Ah, como tá a obra? Perto de acabar?

Tomás suspirou, tirando a carteira de cigarros do bolso.

– Não. Ainda tá longe.

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.