EntreContos

Literatura que desafia.

A Moça-bonita e o Guardião (Blogueiro Fantasma)

11 de Março de 2017, às 22:00

 

Olá, caros leitores. Bem vindos a mais um post do blog “Entidades reais”.

A história dessa semana foi mandada por “Niarinha”, a quem agradecemos muitíssimo.

Nada de vampiros, fantasmas e lobisomens dessa vez. Prometo que vocês vão se surpreender! Curiosos(a)? Então leiam o relato a seguir:

“ Três anos atrás eu estava completando um ano de namoro. Meu namorado comprou um equipamento de escalada para ele, e outro pra mim. Nos conhecemos no curso de Bombeiros do Amazonas, e em um dia de treinamento na selva, o instrutor separou a turma em duplas para descer de bungee jamping e salvar um “ferido” que havia caído de um pico, acabamos juntos e rolou um clima durante a descida. Foi tentando reviver esse momento que meu namorado comprou as coisas para passarmos um dia na floresta Amazônica.

Porém na véspera do dia marcado descobri que ele estava me traindo e terminei.

Fiquei arrasada. Sabia que precisava me distrair ou ia acabar por me destruir. Estava tudo preparado para a nossa aventura romântica, e decidi ir sozinha mesmo.

No dia seguinte estava lá, no pico preparando-me para descer. Mal tinha conseguido dormir a noite e meus olhos estavam inchados de tanto chorar. Mas só de estar em contato com a Natureza me sentia melhor. Foi quando percebi que descer de bungee jumping teria o efeito contrário ao que eu esperava. Ao invés de me distrair, iria lembrar do momento em que desci com meu ex-namorado traidor. : (

Só que agora já estava lá e não iria voltar atrás.     

Durante a descida lembrei-me de quando Ubirajara colocou o braço em volta da minha cintura, de como se olhamos envergonhadamente e logo desviamos o olhar. Do sorriso de canto de boca dele, do meu perfume forte que inebriava o ar. E então, a dor…

Faltavam ainda 2 metros de descida e minha corda havia se rompido, sem eu perceber. Cai de costas e bati a cabeça no chão. Engraçado, olhando do topo do pico, eu podia jurar que tinham pedras médias e grandes por ali, porém tive a sorte de não cair em cima de nenhuma, ou poderia ter morrido. Mesmo assim fiquei bastante zonza, manchas brancas flutuavam na minha visão.

Não sei quanto tempo se passou, quando dei por mim havia um chuvisco. Devia ter desmaiado ou dormido. Por um momento não sabia onde estava nem como tinha chegado ali. Levantei ainda dolorida e pus-me a andar. A única coisa que sabia era que provavelmente ficaria engripada.

Enquanto andava ouvi um barulho nas folhas. Congelei. Poderia ser um animal perigoso, ou algum macaco malandro. Atenta ao mínimo barulho, puxei uma faca do meu bolso, que era parte do equipamento para o jumping.

Nada.

Continuei andando.

Tempos depois, ouvi galhinhos se quebrando, como se pisados. Olhei pros lados, não sabia de onde vinha o som, não havia me recuperado totalmente. Apenas o verde vivo da floresta e o som de grilos e pássaros.

Do nada uma pequena corrente de ar me atingiu, algo passou muito rápido por mim. Esperei, nada aconteceu e segui caminho.

Anoitece rápido na floresta. Precisava achar um abrigo e se desse sorte, comida. Uma fileira de formiguinhas carregando folhas e outras coisas minúsculas de repente pareceu apetitosa. Parecia que estava sem comer há mais de um dia.

Pela terceira vez ouvi barulhos suspeitos, porém era um barulho contínuo,  o que possibilitou que eu o seguisse. Em poucos metros encontrei a fonte do som: um coelho estava preso no meio de umas plantas com espinhos. “Que sorte a minha!”, pensei, “Arranjar janta foi mais fácil do que eu esperava!”. No treinamento com bombeiros aprendi a caçar, preparar animais, fazer fogueira e abrigo. Um coelho teria as proteínas necessárias para a caminhada do dia seguinte. Aproximei-me com a faca na mão. Nesse momento ele já estava me observando, mas eu ainda não sabia. Provavelmente me observava desde o momento em que cheguei no pico. Olhei pro coelho, o sanguezinho dele manchava o pelo, os espinhos haviam pegado ele de jeito. Aproximei a faca do pescocinho dele. Não iria soltá-lo antes de matá-lo, para não fugir. Nunca é fácil matar um ser vivo. Tentei me convencer de que seria melhor para ele, afinal estava machucado. Com uma mão ergui a cabecinha deixando o pescoço a mostra, com a outra ergui a faca.

Cortei os ramos espinhentos que o aprisionavam e o liberei para vida.

Eu ainda não sabia, mas isso provavelmente tinha sido um teste. Um arbusto com frutinhas que achei depois ajudou a diminuir a fome, mas eu sabia que era pouco. Com uma faca comecei a cortar galhos para fazer um abrigo.

– Moça-bonita não precisa fazer casa.

Se eu tivesse problemas de coração, teria enfartado ali mesmo.

Ele tinha pinturas pelo corpo, em vermelho e preto. Pareciam padrões calculados meticulosamente. Era baixinho, olhos puxados. Eu tinha encontrado um índio. Ou melhor, um índio tinha me encontrado.

– Oi. – respondi com receio, analisando se corria perigo. – O que queres?

– Moça-bonita pode vir morar comigo.

Ri, deixando um pouco da tensão ir embora. O índio estava me cantando. Essa eu precisava contar pras minhas amigas.

– Não posso. – respondi, e de repente o índio não estava mais lá.

Passei as próximas duas horas montando um abrigo simples em forma de oca, porém uma dupla de macacos agressivos apareceu, e começaram a me ameaçar. Estava perigoso ficar naquela região.

Não tive escolha, tive que sair daquela área. Estava escuro e úmido, e eu muito assustada. Cada barulho me dava um sobressalto. Até que algo me pegou pelo braço e me puxou pro lado, e uma cobra deu um bote no ar. Era o índio de novo, ele me salvou.

– Nossa! Obrigado. – disse a ele, coração palpitando.

– Vem para casa de Ailã. Casa de Ailã é segura.

Tive de escolher entre confiar no índio ou ficar a mercê dos animais.

 

Durante a madrugada mal conseguia pregar o olho, estava com fome (e com medo). Ailã arranjou umas frutas para mim, mas eu precisava de proteínas.

O dia amanheceu e eu estava decidida a ir embora. Minha família deveria estar super preocupada com meu sumiço. Sentia-me fraca para andar, mas não tinha opção.

– Obrigada pela gentileza, Ailã. Mas preciso ir hoje.

Dito isso, ele agarrou meu braço. E eu tinha esperanças que ele não fosse assim…

– Não, moça-bonita mulher de Ailã. Salvadora de animais.

– Salvadora de animais? – essa parte chamou minha atenção. – Olhe Ailã, eu não posso ficar…

– Durante muito tempo Ailã procura mulher para proteger animais. Ailã achou a mulher.

Já não entendia o que ele falava.   

Enquanto lavava o rosto num afluente, vi um pássaro caído no chão. Aproximei-me. Estava quase morrendo. Naquele momento tudo que eu podia pensar era em proteínas para me ajudar na viagem, e de alguma forma sentia menos pena daquele pássaro do que do coelho.

Depenei-o e levei para a frente da oca de Ailã, onde ele fez uma fogueira. Ailã não estava mais lá.

Foi a refeição mais gostosa da minha vida. Senti minhas energias voltando.

Secretamente estava feliz por Ailã ter sumido, assim poderia partir em paz. Já estava me dando arrepios aquele papo dele.

Iria seguir o afluente e ele iria me levar para onde há vida. Assim aprendi com os Bombeiros. Civilizações crescem ao redor de rios.

O caminho estava tortuoso mas eu estava me saindo bem, até sentir algo me atingir por trás e escorregar numa pedra molhada. A água coloriu-se com um pouco de sangue. Levantei, iria sobreviver. Devia ter sido um pássaro, pensei na hora.

Alguns metros a frente eu precisaria atravessar pela água. O correnteza estava propícia, porém quando entrei, a corrente subitamente mudou e passou a me levar pra trás, de onde vim; logo percebi que lutar tornava tudo pior, a natureza era mais forte.

Fui parar num ponto mais retrógrado do que comecei. A essa altura já era de tarde. Decidi tentar outro caminho. Seria bom a ajuda de alguém que conhecesse aquela mata. Gritei por ele…

 

O que direi a seguir pode ser difícil de acreditar, mas eu garanto que aconteceu de verdade.

Algo apareceu. Ainda era ele… mas estava diferente.

Veio flutuando no ar, como se 1.500 borboletas o carregassem. Reparei que seus pés estavam virados e seus olhos tinham outra expressão. Fiquei em choque. O que iria fazer comigo?

Tirou um arco e flechas não sei de onde, e mirou em mim.

– Moça-malvada, me enganou. Caçadora de animais. – sua voz assumiu um tom gutural.

Sai correndo. Ele começou a dar risadas e gabar-se:

– Ninguém escapa de Ailã.

Corri pra mata fechada, e tudo parecia conspirar contra mim.

Sentia picadas e arranhões em todo corpo, não dava tempo de desviar dos obstáculos. Um rugido ecoou. Corri além das minhas forças, me superei. Não foi o suficiente, duas patas poderosas me derrubaram e eu apaguei.

Acordei zonza, demorei a me situar. Noite. Estava presa num tronco de cabeça pra baixo. Ailã afiava uma faca na outra. Quando percebeu meu olhar, passou a língua pelos lábios e seu rosto se contorceu numa expressão maligna. Era isso, eu estava sendo punida por comer aquele pássaro.

– Ailã procurava companheira há muito tempo… Achou que seria você. Errou.

– Espera, vamos conversar. Eu amo os animais, jamais faria nada pra…

Em menos de um segundo ele mudou de posição, e agora estava do meu lado. Com um sopro ele acendeu uma fogueira embaixo de mim.

Até hoje tenho queimaduras, mesmo com essa prova a maioria das pessoas não acredita em mim. Bom, voltando ao relato, apertei os olhos com força e comecei a orar (e chorar). Tentei manter a calma, incrivelmente estava conseguindo, até uma chispa pegar em meu cabelo e começar a queimar, nesse momento fiquei desesperada. Gritei como nunca antes. Pensei que ia morrer. Ainda bem que fiz isso.

– Nyara! – ouvi. Era Ubirajara! Ele tinha me encontrado!

– Aqui! – gritei rouca, e repeti.

Logo a mata encheu-se de pontos iluminados. Eram as lanternas dos meus resgatadores.

Olhei em volta, Ailã e sua oca haviam sumido, o fogo havia apagado, e eu caí no chão livre. Era como se o cenário há um minuto atrás jamais tivesse existido.

– Tem um monstro aqui! – eu disse.

– Ela deve ter batido a cabeça – ouvi alguém sussurrar.

– Calma, tudo acabou, você está salva!

  

E esse foi meu encontro com uma entidade que habita as florestas Amazônicas. Na verdade parece o guardião mor, com o consentimento da própria natureza. Depois de muito tempo pensando, cheguei a conclusão de que ele me observava desde quando pisei na floresta. Provavelmente o coelho ferido foi um teste pra ver se eu representava uma ameaça a área. Como eu ajudei o animal, ele pensou que eu seria uma boa companheira pra ele.

Confesso que muitas vezes cheguei a duvidar das minhas memórias, por quase ninguém acreditar em mim e por me darem várias explicações sobre como eu poderia ter me enganado. Mas as queimaduras nas minhas costas, pernas, braços e nuca são um fato.

Um mês depois houve um princípio de queimada naquela área, e eu me demiti dos Bombeiros. Não conseguiria voltar naquele local, e se ele resolvesse terminar o trabalho?

Soube depois que uma pessoa havia desaparecido por lá dias antes dessa queimada, e eu acho que sei o que aconteceu com ela.

 

Comentários (23)

Márcio disse… (16 de Março de 2017, às 23:07)

Meu avô disse que já viu o curupira e o saci. Ele costumava ir pescar numa região de mata. Se não acredita, tem que respeitar quem acredita…

 

Lulu disse… (14 de Março de 2017, às 13:22)

Aiaiai… até parece que isso aconteceu. Assombração não existe, parem de se enganar! Vão estudar ciência…

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.