EntreContos

Literatura que desafia.

Conspiração Folclórica (Velho do Saco)

saci1

Manaus, Centro Velho.

A sala daquele cinema de rua falido fora alugada na véspera e aspirada às pressas pelos proprietários aturdidos, enquanto borboletas, colibris e morcegos levaram uma mensagem urgente aos quatro cantos do Brasil. Na noite seguinte, uma platéia bizarra esperava, entre tensa e silenciosa, imersa na escuridão, quando um feixe de luz finalmente clareou a tela marfim.

Projetavam-se os bastidores de uma conhecida série televisiva: Sálvio Pereira, vinte e dois anos, de olhos azul-husky, talvez típico exemplar da geração pera-com-leite e whey, outra vez gravava uma cena com o peito desnudo, exibindo à legião de fãs enlouquecidas o torso perfeito, resultado de muitas horas de exercício físico fanático e de raras aulas de dramaturgia. Segundo as revistas de fuxicos, deixaria em breve o elenco de “Malhadão” – onde emprestava os bíceps ao surfista Carlão –  e ingressaria na primeira fase da nova novela das oito, “Sertões de Sangue”, como o jovem Coronel Aristides Gouvêa, rapaz idealista que se corromperia perdidamente por política, mas que seria redimido pelo amor de uma escrava alforriada.

A cena se congelou. Alguns slides de comerciais começaram então a se intercalar: todos protagonizados pelo rapagão. Clínicas de clareamento dentário, programas de exercícios para um abdômen trincado,  uma nova linha de ecológicas cuecas de fibra de bambu…

A projeção foi então interrompida, as luzes enfim se acenderam.

— Até um ano atrás ninguém jamais ouvira falar de Sálvio Pereira. Segundo sua biografia oficial, publicada pela revista “Fatos #SQN”, ele é órfão, foi achado numa cestinha na porta da igreja e criado em uma instituição mantida por padres polacos no interior do Paraná. O jovem acredita na santidade do casamento, é virgem e espera pelo amor de sua vida. Foi campeão estadual de xadrez com dez anos, fala fluentemente quatro línguas, que aprendeu sozinho, luta capoeira e come o que quiser que não engorda! – comentou Kaíque Pora da Silva, guarda-florestal três vezes condecorado por excelência pelo IBAMA. — Ora, se isso não é a biografia de um mau mentiroso, eu não sei mais o que é.

— E o que que nossas águas têm a ver com isso? – indagou com voz gorgolejante a socióloga Yara Madre Régia, quase fantasmagórica numa bata com inúmeros tons vegetais. — Todo dia algum ator ou atriz com pouco talento e muita beleza ganha destaque no fluxo do rio da vida. Logo, logo, desaparecerá, feito oferendas arrastadas pela cabeça d’água depois duma tempestade na serra. Os humanos precisam de ídolos e de torvelinhos assim. Qual a surpresa? Foi para isso que nos convocou, Caipora?

O guarda de cabelos ruivos e dentes clareados – do verde original – não se intimidou: — Não use meu nome real, Yara. Você conhece bem as regras d’O Acordo, desde que desistimos de nossos papéis originais e resolvermos nos misturar aos humanos. Não é óbvio? – ele gesticulou, impaciente. — Sálvio Pereira é o Saci Pererê! O Acordo previa que ocuparíamos posições que não chamassem a atenção do público, e o malandro vira uma estrela teen da tevê, onze em cada dez capas de todas as revistas! Há meses que tento contactá-lo pelos nossos canais sobrenaturais, em vão! O Saci sumiu de vez do mapa das assombrações…

Um odor desagradabilíssimo se espalhou, desde o fundo da sala. O que parecia ser um bicho-preguiça gigante, ficou de pé e começou a falar pela bocarra que tinha sobre o estômago.

— Mas, maninho, esse Sálvio tem duas pernas e é bem mais maceta e clarinho que o Saci, se bem me recordo do curumim.

— Arre, o Saci não é burro, ora essa! Ele sabe que o Brasil é racista e que dificilmente faria sucesso sendo negro e monopernalta. Esqueceram que ele pode mudar de forma? Quando lhe convém, é redemoinho, é morcego trançador de crinas e espírito azedador de leite… Veja, estamos todos nós aqui, levando vidas duras e seguindo o tratado à risca. Você, – ele se dirigiu à criatura que cheirava à carniça – “O” Mapinguari, o outrora terror dos índios, trabalhando hoje em dia num parque temático como um Chewbacca genérico por dois salários mínimos e morando num trailer que partilha com o Papa-figo! E por quê? Porque é honesto com os companheiros… Trato é trato – o Caipora bufou. — Mas aquele, aquele bugio sem-vergonha, é claro, está rindo de nossas caras nesse momento, cagando e dançando sobre os farrapos do nosso contrato sagrado! Comendo todas as garotas e – Tupã os proteja – garotos também! Ele não tem honra, não tem palavra, e deve pagar por isso!

Todos anuíram com energia. Mesmo para o Saci, aquilo era abusar da paciência alheia.

— Uai, podemos pedir à Cuca que lance um feitiço que deixe ele cheinho de birruga. O Boitatá podia botá fogo na casa dele… — sugeriu amuada a Mula sem cabeça, que no mundo externo atendia por “Moeda”, usava uma cabeça postiça e puxava uma charrete cheia de turistas no interior de Minas.

— Não. Não é lição suficiente – o Caipora matutou. — Hummm. Próxima sexta-feira é treze e, coincidentemente, é noite de lua cheia, não? Captaram minha mensagem, amados mestres? Pedir um favorzinho ao nosso peludo primo meio europeu?

— Kaíque, seu demonho das mata, mas isso seria cruel! Gosto disso… –  zurrou a mula, inadvertidamente chamuscando os demais com perdigotos de fogo.

***

Sexta-feira 13, Apart Hotel St. Moritz, apartamento 1001, alugado no dia anterior por Folkbras – Manifestações Culturais S/C.

A fúria ali se fez sólida em dentes e garras, carne coberta de pelo grosseiro, quando a luz prateada de Jaci ebuliu o sangue de Luíson. Não. Ele não era mais aquele humano ordinário, único macho de uma prole de sete fêmeas, tímido balconista de um armarinho do Arraial Vila das Moças, era força da natureza e justiça divina: incontrolável, ensandecido, com quem não se pode argumentar. Como se discutir amenidades com uma avalanche, uma pororoca, um estouro de manada?

Contudo, mesmo na confusão de sua mente selvagem a missão não se perdera: dar uma sova de arriar os quartos no garoto louro do 1101. Fazer o Saci entender que o Grupo não estava nada satisfeito com seu comportamento. Mas tomar cuidado, muito cuidado, pois o Saci é ladino…

***

Apartamento 1101.

“O mal conspira desde sempre, meu filho. O diabo não deve ser subestimado. A descrença de muitos, a ideia de que ele sequer exista, é uma de suas maiores artimanhas. Pois em cada canto escuro, em cada cemitério abandonado, seus asseclas esperam pelo momento certo. Lembre-se, Sálvio, quando você ganhar o mundo, nunca se esqueça de quem você é, e o que se tornou: chamariz e paladino. Sálvio, o que salva. Nunca se esqueça também de observar os sinais da aproximação do verme de chifres: pesadelos, um ovo com sangue, um espelho que se quebra sem razão… E, então, você poderá se preparar para cumprir seu papel. Terá vantagem sobre o Inimigo.”

Os ensinamentos do Padre Olszowski, martelados por anos, numa rotina espartana de banhos gelados, exercícios e estudos, não haviam sido ofuscados pelo sucesso do rapaz, mero trampolim com o propósito de chamar a atenção das trevas para si.

Meditando no centro da sala, o belo Sálvio observou com o canto dos olhos os copos-de-leite murchando na jarra sobre a mesa, moscas surgidas do nada, rondando sua cabeça. E rezou, e planejou, e esperou.

E não teve que esperar muito. Mal soaram as doze badaladas num velho relógio-carrilhão, as tábuas de carvalho que cobriam o chão da sala começaram a ranger e encurvar. Uma explosão de lascas e poeira coroou então a chegada do lobisomem. O monstro ergueu-se do buraco que cavou e abaixou a cabeçorra, que roçava o teto.

Sálvio encarou os olhos injetados da criatura, com calma monástica observou as armas que deixara dispostas sobre a mesinha de café diante de si: uma espada, uma adaga, um revólver, uma cruz, um frasco com água benta, um ramo de visco.

— A Cruz Sagrada seja a minha luz. Não seja o dragão o meu guia – disse o jovem, quando escolheu a pistola e atirou no peito do animal com a precisão de um sniper.

Luíson uivou, os vidros das janelas trincaram em resposta. Uma sensação gelada correu por todo seu corpo e ele desabou, paralisado; iceberg desgarrando-se da geleira e espatifando-se sobre o oceano.

— O projétil é recheado de prata coloidal, abençoado pelo Papa em pessoa – o rapaz explicou, aproximando-se, antes de dar um pontapé no focinho da criatura e lhe fraturar um canino de dez centímetros. — Alcança a corrente sanguínea e se espalha rapidamente. Não deve te matar, ainda.

O corpo do lobisomem começou a diminuir de tamanho, os pelos rarearam, as feições suavizaram. Até que só havia ali um homem magro e nu, esparramado sobre o chão.

Sálvio alcançou a adaga sobre a mesinha, dirigiu-se a Luíson e disse: — Isso não me dará prazer, monstro – ele elevou a faca e a admirou sob a luz. — Essa é a Destrinchadora Beneditina. Tem uns seiscentos anos e é de prata também. Foi fundida a partir de objetos litúrgicos roubados pelos mouros e recuperados pelos cruzados. Esta belezura me diz que você me contará tudo o que sabe, que me entregará todos os seus contatos diabólicos – ele se benzeu. — Talvez a dor poderá até te purificar, quem sabe? – ele sorriu de forma angelical. — Acredite, no que depender de mim, demônio, você irá hoje para o Céu. Então? Podemos começar?

— Mas eu não sou nenhum capeta, sô… – sussurrou fraco Luíson.

***

Superquadra Norte 302 – Asa Norte, Brasília.

O Nissan Sentra azul-marinho esperava diante do prédio onde ficava seu apartamento funcional. Negro retinto, sem mancar por causa da caríssima prótese de última geração, o Deputado Sácio Pederneira estava elegante no terno bem-cortado.

— Para o Limoncello, Jarbas, por favor – ele pediu ao motorista.

Sentou-se ao lado do funcionário. Gostava de ter contato com o povo, com sua essência. Comentou alguma bobagem sobre o tempo muito seco, sobre o futebol, e depois calou-se. Recordou-se do acordo que costurara naquele dia com a bancada evangélica para apoiar algum projeto tacanho, embora houvesse garantido com a esquerda libertária o bloqueio do mesmo. Era um mestre nessa arte: dizer algo, fazer outra coisa completamente distinta, e sair limpo e insuspeito e ainda querido por ambas as partes. Direita, esquerda, tudo bobagem. Implantar o caos, observar a expressão de criança que derrubou o sorvete no chão, na cara daqueles velhacos: isso sim, não tinha preço.

Abriu a janela, o cheiro do cerrado invadiu o carro, alguém vendia pequi numa barraca. Deu esmola generosa ao rapaz que fazia acrobacias sobre as muletas numa sinaleira. O vento quente acarinhou seu rosto e ele sorriu, e gargalhou depois, tanto que lágrimas vieram a seus olhos. Ah, aquela era uma vida boa.

Qualquer dia deveria visitar o Caipora e agradecê-lo pela ótima iniciativa. Isso, caso ele já houvesse lhe perdoado por ter lhe roubado a namorada, aquela índia branca linda, de nome Mani, que o aguardava no Limoncello.

***

Parque Nacional do Pantanal Matogrossense.

Kaíque Pora da Silva acordou cedo. Depois de uma noite tempestuosa, o dia prometia um céu de brigadeiro. Antes de se levantar da cama, torceu os pés para a frente. Era algo meio dolorido, mas ele já estava acostumando.

Comeu frutas como desjejum. Alguém lhe arrumava cajá-mirim, aticum e cupuaçu silvestres. Caminhou até a sede, onde turistas esperavam pela visita guiada. Muitos estrangeiros: um jovem parrudo e louro chamou sua atenção, parecia conhecido. No entanto, a camisa estilo havaiana, a bermuda cargo e os óculos escuros enormes, enviavam outra mensagem: típico norte-americano. O guarda-florestal riu com seus botões: aquele sujeito maluco levava uma faquinha de cabo prateado presa à bainha no cinto. Devia pensar que a visita era algum tipo de safári, o pobre.

Kaíque conferiu o relógio de pulso, refletiu sobre a falta de notícias da missão de Luíson, mas aquele capiau nunca fora muito sociável mesmo… Nem celular tinha!

Dirigiu-se aos visitantes: — Vamos lá, pessoal. Tá todo mundo pronto? Prestem atenção: não pode pegar nada na mata! Nem pedra, nem planta, nem bicho. Ou o Caipora vai atrás d’ocês! É sério!

O grupo riu, os gringos não entenderam porra nenhuma da tradução. O dia seria cheio.

Anúncios

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.