EntreContos

Literatura que desafia.

Plano de Extração (Sacelote)

— Apareceu a margarida!

Welington levantou as mãos para cima, fingindo agradecer aos céus pela presença de Gleice.

— Minha mãe não saiu do meu pé — justificou ela, a única menina no meio de três garotos montados em bicicleta. — Eles tão desconfiando.

— E cadê sua bike? — Preocupou-se Miguel.

— Tu é surdo ou burro? Não falei que minha mãe tava no meu pé?

— Como a gente vai agora? — Wiliam deu um soco no guidão.

— Calma galera — Welington falou no melhor estilo apaziguador. — Gleice vai na garupa no Wiliam, e pronto!

— E se aparecer um saci eu corro como? — Ele protestou e os olhares recebidos foram de censura.

Gleice era pequena, magra e a impressão que se tinha é que seu maior peso estava nos longos cabelos escuros. Já Wiliam era um armário, misto de músculos e gordura, sendo tão grande que o prefeito do forte já fazia planos para ele na guarda. Desde que soubera disso, ele se tornara amigo de praticamente toda a Guarda Municipal.

— Boa ronda, Wil! — Acenou um dos guardas.

— Miguel tá roubando comida? — Comentou outro, atraindo olhares para a mochila enorme nas costas do mais franzino.

Os risos diminuíram quando o portão se fechou atrás deles e a uma boa distância no descampado, não ouviam mais nada. Até então tudo corria bem. Mesmo não sendo os turnos de Gleice e Welington, ninguém, exceto os pais da menina, se preocupou por vê-los deixando a segurança das muralhas. Os quatro haviam sido nomeados batedores e quando não ajudavam na lavoura, pedalavam nas proximidades verificando ameaças ou viajantes.

— A gente dá uma rasteira nele!

— Que? — Gleice encarou Wiliam com espanto.

— O saci — ele riu da própria piada. — Com uma perna só, é fácil — justificou ao perceber que seu riso fora o único.

— Só se for bem velho — disse Miguel, com ar pensativo. — Quando é novo, tem duas pernas. Depois uma cai. Mas mesmo com uma perna ele não cai com rasteira por causa do rabo.

— Tá bom, Miguel! — Interrompeu Welington.

Gleice, que já revirava os olhos de impaciência, suspirou aliviada.

— Isso tá nesse bando de livros que nessa mochila aí?

— Não — Miguel pareceu feliz em falar sobre histórias. — Tá no livro que eu tô escrevendo. Os livros têm hidra, centauro, vampiro, viking, elfo, mas nunca saci.

O assunto não durou mais que algumas pedaladas. Welington, Gleice e Wiliam não tinham interesse nas histórias já contadas, mas na que estavam prestes a protagonizar. Os batedores percorriam rotas bem conhecidas e não se distanciavam mais que a visibilidade do campanário. O que havia no mundo era um completo mistério para todos e Welington estava certo de que poderia levar ao forte um conhecimento mais útil que os dos livros que Miguel vivia salvando dos fogões.

— Aí ó. Exatamente como eu falei — Welinton apontou um trem de cinco vagões enferrujados e um último tombado. Árvores emergiam de onde teriam sido janelas. — E para provar que eu não sou maluco… — esperou que os outros o alcançassem na frente da composição —, olha aí pra onde ele vai!

— Central — leu Miguel.

— Eu não acredito — Gleice estava boquiaberta. — Isso vai mesmo para o seu Central Park?

— Não é o que tá escrito aí? — Welington encolheu os ombros com fingida indiferença.

— Deixa eu ver o mapa — pediu Miguel.

Era uma verificação desnecessária, já que todos que cresceram com Welington conheciam de cor o conteúdo do papel dobrado. Ainda assim, Gleice e Wiliam se uniram a Miguel e reviram cada desenho do papel com o título de “Extraction” e uma anotação à caneta ao lado: “Plano de Extração”. Trazia desenhos de ruas às margens de um rio e marcas à caneta destacavam os locais assinalados como “Central Park” e “Statue of Liberty”. O mais intrigante eram anotações informando que naqueles locais, uma tal de ONU levaria todos para um lugar longe de “todas essas bestas que atacam até aqui no Rio de Janeiro”.

Havia alguns anos que o pai do Welington aceitara o papel de um viajante em troca de comida. Pensara que seria uma ótima distração para o filho, mas a verdade é que se tornara uma obsessão. Principalmente quando o prefeito construíra o cinema e alguns dos filmes parcialmente recuperados mostravam pessoas tranquilas e alegres em um grande gramado sob a placa “Central Park”.

— Faremos história!

O caminho se mostrou tranquilo e até agradável. Ninguém havia ido tão longe e a visão das ruínas de edifícios e pontes eram um espetáculo por si só. Pedalavam rápido, já que esperavam chegar ao Central Park e voltar antes do anoitecer, mas Miguel ainda encontrava fôlego para fazer observações e comparações de tudo o que via com o que os livros contavam.

A brisa fresca, o dia ensolarado e a tranquilidade do caminho faziam a aventura parecer um passeio de domingo à tarde. O silêncio que se instalara como consequência das novidades não demorou a ser substituído por comentários e planos de como dariam a notícia da existência do Plano de Extração. Uma vida longe da constante ameaça de sacis e capelobos os aguardava e eles seriam lembrados para sempre por isso.

— Sabiam que a mulher de um saci é a mais feliz do mundo? — Wiliam irrompeu com entusiasmo. — Se ela levar um pé na bunda, quem cai é ele!

De todos, quem menos riu foi Gleice, mas riu o suficiente para dar tapinhas nas costas de Wiliam, em quem se apoiava. Miguel gargalhou solto e Welington até bambeou com a bicicleta, ameaçando cair. O princípio de susto aumentou os risos e teriam continuado assim pelo caminho, se uma cabeça negra fumando cachimbo não surgisse em uma abertura no muro da via férrea.

— SACI!

Um dos meninos gritou e sua voz serviu de estopim para pedaladas desesperadas. O saci que os espreitara saltou do buraco e coxeou rapidamente na direção das bicicletas. Outros surgiram atrás e eram todos tão assustadores quanto o que ia na dianteira.

Não era a primeira vez que viam um saci, mas a visão aterrorizava até o mais valente dos homens da Guarda Municipal. Eram negros velhos, sempre de touca, gorro ou turbante na cabeça e um cachimbo fedorento no que sobrara da boca. Poderiam parecer pessoas comuns se não tivessem a aparência de alguém cortado ao meio, da cabeça aos pés e tudo neles fosse sem par.

Uma única perna musculosa, um único braço terminado em garras, além de uma orelha e um olho na metade restante da face. Alguns de aparência mais nova ainda traziam restos putrefatos da parte que perderam, mas os mais velhos pareciam cortados a laser de cima a baixo, conservando apenas o mal cheiro.

Os garotos pedalaram impulsionados pelos rosnados às costas. Welington incentivava os outros com gritos de “vai, vai, vai” ditos a si mesmo. As três bicicletas oscilavam com o esforço e à medida em que as criaturas se aproximavam, Wiliam e Gleice ficavam para trás.

— Fica quieta!

Não era somente o peso que atrapalhava, mas as movimentações da menina para escapar das joelhadas e mudanças de equilíbrio que a correria proporcionava. Ela já sabia que precisava encontrar um ponto que não o atrapalhasse, contudo a urgência a fez arriscar mais que deveria.

Nem Gleice, nem Wiliam viram como aconteceu, mas no instante seguinte iam ao chão e a bicicleta passava rápido acima deles, quicando duas vezes antes de tombar no cascalho. Arranhados, cortados e doloridos, ambos se levantaram o mais rápido que conseguiram, mas garras afiadas entraram num espaço entre as costelas de Wiliam.

— WIL!

O grito atraiu a atenção. Welington sentiu um aperto forte no peito e Miguel virou rapidamente para frente quando viu o saci arreganhar meia-boca de dentes pontiagudos e fixa-los com vontade no pescoço do grandalhão.

— Gleice, a bike! — Gritou Welington.

Ele sabia que seria apenas questão de tempo para o terrível destino de Wiliam, mas a condenação de um poderia ser a salvação do outro.

Gleice não pensou duas vezes. Correu e mancou como podia até o que salvaria sua vida. Lágrimas lhe caíam abundantes pela face ao montar e seus olhos ficaram turvos quando se impulsionou adiante, no tempo limite para não ser agarrada.

A bicicleta recuperada oscilava como as da frente. Precisava correr. Precisava fugir. Precisava colocar-se em segurança. Mas que segurança havia em uma estrada de ferro abandonada?

A situação estava no limite, mostrando-se como o pior dos cenários até que uma espiadela de Miguel revelou o que mais temia. A transformação se completara. O que antes fora Wiliam era agora um saci novo em folha, no vigor de suas duas pernas e rápido o suficiente para alcançar o mais à frente deles em questão de tempo.

Ultrapassaram por uma ponte em arco e mesmo ofegantes pedalaram, sem se abalarem pelas dores, cansaço ou pelos estalos nas bicicletas que eram de parar o coração. Muito trilho ainda se revelava adiante e os prédios arruinados do entorno não ofereciam qualquer segurança. Exceto…

— Welington! — Sem saber como, Miguel encontrou fôlego para gritar.

— Que?

Confuso, o garoto se virou para trás, mas a visão de um Wiliam transtornado abrindo caminho entre as criaturas bestiais o fez voltar-se para frente outra vez. Como se fosse possível não ter visto antes, um prédio em ruínas com um relógio sem ponteiros se erguia como um farol para marinheiros em uma tempestade. Abaixo, plataformas altas abrigavam alguns trens tombados e enferrujados e em pelo menos duas delas podia-se ler uma placa com o nome “Central”.

Ali! O lugar com o qual sonhara por anos. O lugar que seria a salvação de todos no forte e por ora era a salvação dos três amigos. E a perspectiva trouxe novo ânimo às pedaladas que terminaram com as bicicletas atiradas no trilho. Pularam com pressa sobre as plataformas e correram o máximo que puderam para o caminho que parecia mais seguro.

Catracas quebradas embruteciam as boas-vindas, assim como o odor fétido no interior da estação e a confusão de coisas quebradas e abandonadas no imenso salão. Era uma construção incrível, embelezada por mármores e de teto tão alto quanto o topo do campanário do forte, só que eles não tinham tempo para apreciações.

— Olha lá Wel — Gleice apontou para um lugar distante. — O Central Park!

Tal como nos filmes, uma verdadeira floresta em meio aos prédios despontava do outro lado de uma avenida. Uma enxurrada de sacis pulando as catracas impossibilitou qualquer pergunta e eles correram, com a plena consciência de que suas vidas não tinham mais ajuda das bicicletas. Não pensaram muito no caminho. Era preciso fugir e apenas isso.

Bastava atravessar uma avenida abandonada para atingirem o ponto do Plano de Extração, mas grades altas os obrigaram a desviar para escadas que mergulhavam fundo no subterrâneo. Mais catracas dividiam espaços imaginários, mas estas não receberam a enxurrada de criaturas demoníacas.

Olhando para trás, notaram que os sacis simplesmente pararam. Pareciam impedidos de continuar. Somente seus rosnados apavorantes perfaziam o caminho que de alguma forma estavam impossibilitados de seguir.

— Continua! — Bradou Welington.

Havia placas dizendo “Central” por todos os lados. Seguiram no escuro, pouco preocupados em saber onde chegariam. Não demorou para que a luz do sol descendo por uma escada os atraísse. Por sorte, a subida os levou diretamente ao que seria a entrada do parque. No lugar de “Central Park” havia uma inscrição anunciando “Praça da República” e nada ao redor os fazia lembrar do que viram nos filmes.

— Será que é aqui mesmo? — Miguel pestanejou.

— Gente…

Os dois se voltaram para Gleice, mas foi o que viram atrás dela que os encheu de pavor. Homens de cabelos em chamas e pernas tão deformadas que os pés ficavam para trás montavam cavalos imensos que arrancavam fogo do chão que pisavam. Isso por si só já seria assustador, mas os equinos também eram desprovidos de cabeça e altas labaredas subiam do pescoço.

— Miguel, o que é isso? — Gleice engoliu em seco. — São amigos?

— Eu não sei — lamentou ele. — Isso também não tem nos livros.

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.