EntreContos

Literatura que desafia.

Barriga para cima (Exilado)

A falta de ar começava sempre do mesmo jeito, logo depois que ele se deitava. Não exatamente logo depois. Havia sempre um período de calmaria, como uma lua-de-mel. Minutos, às vezes até algumas horas. Mas a pressão começava abrupta, bem na boca do estômago, e ia se espalhando rapidamente. A ultima refeição, convertida num liquido azedo, subia-lhe à garganta e ele parecia estar engasgado. Os olhos se abriam, mas cordas invisíveis o mantinham imóvel. Por fim, com o coração prestes a explodir, sentava-se na cama e gritava. O familiar cheiro de quarto fechado o invadia e o guarda-roupa de madeira escura materializava-se à sua frente. A mulher ao seu lado praguejava, semi-acordada, um “puta que pariu” que, no dia seguinte, atribuiria ao sono e fingiria não se lembrar, se alguém lhe perguntasse a respeito.

Mas ninguém perguntaria. Nem mesmo Alfredo, que não teria qualquer registro do praguejo. Ele não se lembraria de quase nada. Se recordaria somente da falta de ar.

E da sensação de que alguém havia tentado sufocá-lo.

***

Havia sido naquela tarde quente de domingo, uma das muitas que havia passado na casa em Peruíbe. Duas da tarde, logo depois do almoço. O avô, com o estômago repleto de macarrão e vinho tinto barato do qual fingia não gostar, dirigia-se para o quarto. A avó, com um sorriso maroto e um tom de voz a meio caminho ente o sarcasmo e a reprovação, o havia interceptado, implacável:

– Não deite com barriga pra cima, que a Pisadeira vem te pegar!

Ao perceber o ponto de interrogação flutuando sobre a cabeça de sete anos de Alfredo, não se fizera de rogada:

– A Pisadeira é essa mulher magra, de unha comprida e cabelo arrepiado. Ela anda nos telhados e entra dentro do forro das casas.

-Será…será que ela vem aqui na casa da senhora? –ele havia perguntado, com as pernas moles de medo.

-Ela vem em todo tipo de casa. Rico, pobre, velho, novo…mas não tem perigo, é só não comer muito antes de deitar. E nunca, nunca dormir de barriga pra cima.

– Por que?

– Porque, se você estiver dormindo de barriga pra cima, ela desce do forro e vem para cima de você. Ela aperta a sua barriga e fala, com a boca cheia de dentes podres, para você virar de lado.

***

Era estranho como ele se lembrava dos detalhes daquela conversa, mais de sessenta anos antes. Lembrava-se até do barulho das ondas da praia emoldurando o relato da avó. Conseguia quase tocar o vestido dela, um azul pálido cheio de bolinhas vermelhas. Mas, em contraste, não conseguia se lembrar de que dia era hoje. Ou do que comera durante o café da manha, poucas horas antes.

Tampouco sabia ao certo quem era esta outra mulher que, todas a noites, se esparramava na cama ao lado dele. Esposa, filha, sobrinha, alguma coisa do tipo. Ele não tinha certeza. A mulher não se parecia muito com a avó. Os cabelos eram castanhos e grisalhos, uma velha com cara de jovem. Sempre com uma expressão de cansaço no rosto. Alfredo não se lembrava de seu nome. Nem um beijo ao deitar, somente o “boa noite” seco.

Havia sido ela mesma, a velha que era jovem, quem havia chamado o médico quando os ataques de falta de ar começaram. Alfredo jamais gostara de médicos, principalmente destes de agora.  O Dr. Juarez, o médico da família durante sua infância, pelo menos trazia balas para as crianças. Falava que os doces eram sua poção magica. Dizia que resolvia tudo e que certa vez operara alguém no meio da rua, com um canivete. Se fosse o Dr. Juarez, ainda vá lá. Talvez o nome nem mesmo fosse Juarez. Não vinha ao caso. O fato era que o novo doutor que viera examiná-lo tinha nariz grande, gravata cor-de-rosa e mania de falar difícil. Alfredo não entendera nada do que lhe fora dito, e entendera menos ainda as explicações cuidadosamente fornecidas pelo médico à mulher velha-jovem, que apenas meneava a cabeça com cara de enfado e mantinha os lábios finos ainda mais apertados, enquanto ouvia. Percebera que o médico nem fizera questão de sair da sala para evitar conversar na presença dele, e falava com a mulher como se Alfredo não estivesse ali.

***

-Eu…não quero mais dormir aqui, não!

-E tem mais uma coisa- continuara a avó, fingindo não ouvir, com um sorriso malicioso e, agora, um tom ainda mais conspiratório- Ela usa um gorrinho vermelho.

-Eu pensei que quem usasse gorro vermelho era saci.

-Não, a Pisadeira também usa. E, se alguém for bem corajoso e forte e conseguir tirar o gorrinho da cabeça dela, a Pisadeira realiza um pedido.

-Que tipo de pedido?

-O que a pessoa quiser. Qualquer coisa. Você entendeu bem? Qualquer coisa!

***

As crises só haviam piorado depois da visita do médico de gravata rosa. As pílulas grandes e redondas que a mulher passou a lhe dar em nada ajudavam, e ele sentia um estranho enrijecimento em todo o seu corpo cada vez que as tomava.  As mãos tremiam. Os movimentos das pernas eram decompostos, pareciam acontecer em etapas, como se uma espécie de trava os liberasse aos poucos, e não de uma vez. Para se levantar da cama, precisava se concentrar ao máximo e balançar os braços para a frente, como se estivesse batendo asas.

Mas aquilo não era o pior de tudo. Estava ficando com medo da noite, antecipando-a com o mesmo grau de apreensão que associava com suas visitas ao dentista do bairro durante a infância. Assim que começava a ficar escuro, seu coração acelerava. Sentava-se na cama, recostado nos travesseiros, para não correr o risco de dormir. A mulher jovem-velha olhava aquilo e meneava a cabeça, com os olhos bem estreitos, como duas fendas. Mas o sono teimava em envolvê-lo com seus tentáculos escuros e Alfredo acabava por deslizar para a posição deitado.

Até, mais uma vez, acordar sufocado. Com a barriga para cima. Com uma vaga lembrança de onde estava, e de quem era, até que o cheiro de quarto fechado de novo o atingisse.

Ele não sabia por quanto tempo daria para continuar daquela maneira. Chegara a pensar em suicídio, mas logo se esquecera da idéia. A mulher jovem-velha com frequência franzia a testa em sua presença e havia passado a resmungar, baixinho, coisas como “casa de repouso” e “asilo”. Para Alfredo, aquilo era totalmente sem propósito. Ele não precisava de mais repouso, já repousava bastante ali mesmo, naquela cama, durante a maior parte do tempo. E asilo… por que? Para quem? Cogitou perguntar, mas teve receio de aborrecê-la e, em seguida, já não se lembrava mais de qual havia sido a pergunta.

A revelação viera rápida e inesperada, como se ele houvesse sido atingido por um raio em um dia de sol. Finalmente, havia conseguido conectar os pontos. Não entendia por que demorara tanto. Mas o mérito não era apenas dele. Devia o lampejo de aparente lucidez à caixa elétrica com imagens dentro que, todas as tardes, era plantada à sua frente, e que a mulher jovem-velha sempre observava com grande interesse. A caixa era esquisita, ele não tinha certeza se as pessoas estavam lá dentro ou se ficavam em outro lugar e aquilo era uma espécie de janela. Às vezes, apareciam mocinhas, cantando e dançando de um lado para o outro, enquanto muitas outras pessoas aplaudiam e saltavam, sem sair do lugar. Às vezes, sujeitos fortes, sem camisa, ficavam lutando, até que um deles caísse no chão e lá ficasse. Outras vezes, homens e mulheres de rosto sério, segurando papéis, lendo noticias difíceis e complicadas, que ele não compreendia.

Naquele dia, entretanto, ele havia compreendido. Algum homem de terno cinza, devia ser alguém importante, decidira criar um novo feriado. O Dia do Saci.  Alfredo não sabia ao certo se os outros homens de terno que aplaudiam conseguiam entender tudo o que o homem de terno cinza falava ou se apenas fingiam entender. Talvez eles…

Eu pensei que quem usasse gorro vermelho era saci.

Não, a Pisadeira também usa.

E, de repente, ele havia se lembrado. Tudo agora fazia sentido!

***

-Mas ela deixa você, assim, ir lá e pegar o gorro?-ele havia perguntado, agora com mais interesse do que medo.

– Não e fácil. Não e só ”ir lá e pegar o gorro”- a avó o arremedara, com a voz em falsete-Precisa de muita coragem. E tem que ser forte para conseguir se livrar da paralisia e conseguir apertar o pescoço dela. Ai, ela se rende e você pega o gorrinho. E então você já pode fazer o seu pedido.

***

Alfredo não entendia por que a Pisadeira decidira começar a atormentá-lo agora, depois de tantos anos. Mas, ao mesmo tempo, sentia quase um funesto alívio por finalmente entender a origem de seu suplício. Agarrou-se à lembrança qual um náufrago grudado à única tábua ainda boiando na superfície do mar. Apavorava-se diante da perspectiva de perdê-la. Tentou gravar a palavra “Pisadeira” no criado-mudo de jacarandá, usando as próprias unhas como cinzel, mas a mulher jovem-velha o havia olhado feio. Repetia a palavra para si, baixinho.

Tinha que ser naquela noite. Se adiasse até a noite seguinte, corria o risco de esquecer tudo outra vez. Havia divisado o plano com cuidado e rezava com todas as forças para não o esquecer. Comeria o máximo que conseguisse no jantar. Era assim que a velha-jovem preferia, estava sempre a reprová-lo por comer pouco, e insistindo para que comesse mais. “Saco vazio não pára em pé”, não cansava de repetir. Alfredo não sabia a que ela se referia, mas estava convencido que aquilo tinha alguma coisa a ver com comida.

Depois, iria para a cama e se deitaria. De barriga para cima. Fecharia os olhos e fingiria dormir. Esperaria pela Pisadeira com um misto de medo e excitação. Como se aguardasse o reencontro com uma ex-namorada ou um colega de infância há muitos anos perdido. Na hora em que a sacana aparecesse e começasse a pressionar-lhe a barriga, ele estaria pronto para ela. Apertaria o pescoço dela bem apertado, até que ela caísse para o lado, roxa, e se rendesse. Nunca mais ela iria sufocá-lo de novo. Nunca mais ele ouviria o “puta que pariu”. E já havia decidido qual seria seu desejo.

Que tipo de pedido?

O que a pessoa quiser. Qualquer coisa.

Iria pedir para se lembrar. Para se lembrar de tudo. De como chegara até aquele ponto, de por que estava ali naquela casa estranha e não mais na casa da avó. De quem era a mulher jovem-velha. De quantos anos tinha. De que cidade era aquela. De que tipo de comida gostava de comer. De esperar a hora de ir ao banheiro ao invés de molhar as calças. E da razão pela qual o médico de gravata cor-de-rosa havia balançado a cabeça e, com um sorriso triste, batido de leve no ombro da mulher velha que era jovem, como que a consolá-la. Depois, o médico havia pronunciado, em tom professoral, um nome estrangeiro antigo, que começava com a letra “a” e raspava a garganta. Alzheimer. Ele já ouvira aquele nome antes e o associava a um estranho mal-estar, mas não se lembrava por quê. Precisava saber. Precisava entender. Para tudo isso, era essencial que a Pisadeira viesse naquela noite.

Ele a esperaria.

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.