EntreContos

Literatura que desafia.

Samba-enredo (Allan Tejoula)

No quintal do terreiro de Mãe Donana, praticamente todo domingo, o couro comia solto desde manhã. Nem era o mês de maio ainda e o pessoal do Grêmio Recreativo, Esportivo e Social Campo Comprido já esperava, com ansiedade, a divulgação das regras do concurso de samba-enredo para o próximo carnaval. Ao redor da grande mesa de madeira reuniam-se bambas da comunidade como Vadeco do Pandeiro, Canhotinho, Toninho Cuíca e vários outros, novos e da velha guarda. Ali também se temperava a feijoada com risadas e se enxugavam todos os tipos de garrafas de bebidas, embalando, desde o berço, o nascimento dos futuros sambas. Naquele ano havia a expectativa de uma parceria inédita entre os compositores Severino Paraíba e Dejair do Cavaquinho. Ambos, cada um por si, haviam tentado emplacar, no ano anterior, o samba-enredo e o prêmio em dinheiro oferecido pelo Presidente de Honra e Patrono da escola, João Eunício de Barros, o João da Boca Torta. Agora, iam juntos, em busca da fama e do prêmio, principalmente.

Severino Paraíba chegou criança à comunidade; foi mensageiro, office boy e ajudante de pedreiro, mas sempre sonhando tornar-se um daqueles cantores famosos da TV. Arranjou emprego em uma empreiteira grande, reponsável pelos conjuntos habitacionais populares financiados pelo governo, mas acabou demitido por causa da crise. Sobrevivia de bicos, fazendo uma reforma aqui, uma laje acolá. Apesar de tímido, fisionomia séria e frágil, era safo com as rimas e cantava com voz firme e grave, seu grande trunfo em busca do sucesso. Mas, nessa área, não conseguia nada além de um pagode ou festa de casamento por mês, quase sempre com cachê irrisório. Recém-casado com Jucimara, evangélica, filha de pastor, dezessete anos, depois de um rápido namoro tradicional, cafezinho na sala de visitas e muita conversa no portão; e antes que o pai dela descobrisse que, apesar de honesto, o genro não tinha onde cair morto.

Já Dejair do Cavaquinho era solto na vida. Cuca fresca, tomando todas com quem viesse conversar com ele no bar, a qualquer hora do dia. Vivia de pequenos golpes, cambalachos e outros truques mais ou menos inocentes. Quando se apertava, pedia emprestado aos amigos; mas fazia questão de pagar, mesmo que fosse num dia a perder de vista. Tocava um cavaquinho infernal, o que não facilitava com as dívidas, mas ajudava com as mulheres. Farrista, cachaceiro, sem-vergonha, diziam sobre ele. Mas nunca que não levasse a sério o samba, e, principalmente, a sua escola do coração. Inclusive, tinha feito um samba-enredo que, se não ganhou a avenida, ficou na memória da comunidade: “Em tempo de folia, Rei Momo e Monarquia estão aí para ficar”. Mas isso já fazia bem uns seis anos.

Caipirinha liberada, linguiça em prato de papel, cigarrinho suspeito de mão em mão, todo mundo aguardando a chegada da nova dupla. A previsão era que, naquele dia mesmo, poderia ser divulgado o tema do enredo elaborado pelo carnavalesco Abelardo da Rosa, o Purpurina.

Dejair chegou no embalo, afinando o cavaco para entrar no tom. Recebeu a saudação de reverência da batucada, e muitos beijos e abraços das novinhas, bem como das mais velhas também. Aquele seu jeito cafajeste agradava a todas, sem distinção. A casa se encheu de vizinhança e de cerveja, pinga, batida de coco, refrigerante barato. No pagode de Donana, cada um traz o que pode – e leva, quem sabe, a alegria de conhecer um samba campeão.

Alguém ouviu as palmas tímidas na rua e Mãe Donana foi atender. Era Severino Paraíba. Com ele estava Jucimara, olhar no chão, vestidinho bem-comportado de chita, cabelo longo preso em tranças. Toda sem jeito, pela primeira vez saindo com o marido, foi saudada pela geral com paradinha e repique de tarol. Teve vergonha de estar no meio deles. Na igreja dela, tudo era pecado.

Severino indicou onde a mulher deveria permanecer e foi para perto de Dejair. Respeitoso, ofereceu ao novo parceiro um aperto de mão protocolar, recebido como assinatura do contrato de trabalho, entre aplausos dos presentes.

Nisso, chegou o Magrelinho, esbaforido. Terceiro Mestre-Sala reserva da escola, o mulato comprido, de olhos mais compridos ainda, veio correndo da quadra de ensaios com um calhamaço de folhas mimeografadas nas mãos:

Puta que pariu, olha só, saiu o enredo! Vocês não vão acreditar!

Os músicos se amontoaram ao redor dele para conhecer o tema de autoria do Abelardo Purpurina, figurinista e carnavalesco, cinco vezes vencedor do grupo de acesso por outras escolas. E foi o próprio Magrelinho que leu, entre uma ou outra tropeçada no português de ensino fundamental, o teor do que o carnavalesco definia, bem ao seu estilo imodesto, como “um tema deslumbrante, para um desfile arrasador”.

***

Kua Iruí e Tian Tiá: do barro viestes, ao barro voltarás“.

Esse Purpurina, vou te dizer…

Porra, que merda de enredo, hein?!

— É um filho da puta mesmo, daí não sai nada!

Quase seis da tarde e só meia dúzia de pessoas no quintal, tamborilando, com desânimo, um pandeiro fraco, um surdo quase mudo. Nada de aparecer o tal do samba. Canhotinho deu desculpa e tirou o time. Vadeco apagou numa rede, com a cabeça cheia de cerveja. As novinhas foram embora, de fininho, com destino ao baile funk. Na mesa principal, restavam só o Severino, ainda mais sério do que de costume, lápis rombudo e rascunhos espalhados pelo chão; e Dejair, camisa aberta, manchas redondas nos dois sovacos, debruçado sobre o cavaquinho.

— Não sei o que fazer com essa história, Severino…

O letrista continuava quieto, lendo de novo a resma para tentar entender a “a concepção artístico-lítero-filosófica” do carnavalesco. É óbvio que a escolha do enredo foi ao gosto do todo-poderoso João da Boca Torta. O que justifica o desânimo coletivo: pelo menos dessa vez, a maioria apostava num tema histórico ou na exaltação da própria escola. Mas veio outra lenda…

Severino foi prático:

— Vamos para o lado do povão, Dejair. Eu preciso desse dinheiro do concurso pra pagar as contas, mas não dá pra ficar agradando o benfeitor. Tem mais é que fazer sucesso…

***

Enquanto isso, Jucimara, toda envergonhada à procura de um banheiro, não quis incomodar ninguém e entrou sozinha na casa. Deu de cara com o congá de Mãe Donana, todo enfeitado e iluminado com velas para os santos. Teve medo. Mas relaxou, pois começara a ouvir, de dentro, o verdadeiro batuque…

***

Dejair apertou a vista e o cavaco, baixou o queixo e mandou:

— E se a gente começasse assim:

Hoje eu vou cantar contente,

Vou contar pra minha gente

A história de um amor:

Severino aprovou o mote e retrucou:

Kua Iruí, índia bela e reluzante

Apaixonou-se de repente

Por Tian Tiá, um caçador.

Mãe Donana tinha sono pesado, principalmente em frente à TV ligada no Programa Silvio Santos, e por isso não viu a primeira contração do samba-enredo. Nem Jucimara, incorporada, batendo cabeça no salão.

Do lado de fora, Dejair modulava e mandava o outro verso:

Era o mais forte e altaneiro

E da taba o mais matreiro,

Sabendo o seu valor, o seu lugar…

Foi a vez do Severino emendar:

E apesar de tantas glórias e vitórias

O indio herói da nossa história

Não tinha um oca pra morar…

Revisaram as estrofes já elaboradas, ajustando detalhes da melodia, harmonia e convenções. Longe da vista dos dois, Jucimara, ou a Pomba-Gira, rodopiava livre no quintal.

***

Taba Iré, morubixaba da aldeia

Não queria sua filha entregar

Para um índio preguiçoso e festeiro

Mas Kua Iruí jurou amor

ao seu guerreiro

Fez pirraça para vê-lo

Mas seu pai não quis nem mesmo conversar

— Boa, Severino! Agora vem a parte triste, tom menor, porque afinal eles desobedeceram o pai da moça…

Fugiram juntos,

se esconderam ao relento

Mas ficaram sem sustento

Até que o cacique veio os encontrar

— Daí é drama continuou Severino, quase sem pensar:

Obrigou o jovem índio a um sacrifício:

nove noites, nove dias

sem poder se alimentar:

Tian Tiá foi feito prisioneiro

E a bela Kua Iruí chorou de medo

Que ele não pudesse aguentar.

Beberam o resto de cerveja quente, revisaram versos, beliscaram torresmo, juntaram as partes soltas. E seguiram em frente:

Depois de nove dias e uma prece

Tupã fez um milagre, ao que parece,

para o índio transformar:

Tantiá voou livre, um passarinho

ficou forte e fez um ninho

aonde ele e sua amada vão morar.

 

— Agora, paradinha e refrão… disse o Dejair, escolhendo uma sequência maior no cavaquinho:

Olê, olá,

Que bom que é ver

Com tanto ardor,

João-de-Barro

Ser fiel ao seu amor.

Olá, olê,

Vamos cantar,

Pra você ver:

Até de barro

o nosso lar

dá pra fazer!

***

Já era segunda-feira clara, e Severino e Dejair se despediram, trôpegos. Jucimara dormia no chão da varanda quando o marido a acordou para ir embora. Aturdida, cambaleou com ele até o barraco onde moravam. Nem bem fecharam a porta e ela sentiu um impulso estranho, irrefreável, de o arrastar para a cama – e praticar seu próprio “culto de libertação”. Severino ficou impressionado com as iniciativas da mulher, sempre tão recatada; mas se deu por satisfeito e preferiu não reclamar. Depois do amor, dormiu feliz, com a certeza de que a fama e a fortuna estavam por perto. Era o samba ideal, com o melhor parceiro. E, para despistar a concorrência, os ensaios dos dois seriam ali no barraco mesmo, melhorando um pouco a cada dia, até a data do concurso – duas semanas depois.

***

Severino andava meio nervoso nos bastidores. Não se sentia intimidado com a quadra lotada, inclusive de amigos fazendo campanha pelo samba deles. E nem contrariado com a transformação de Jucimara, ex-crente, agora toda simpática na multidão, cabelo solto e barra da saia acima do joelho, distribuindo folhas de xerox para quem quisesse acompanhar a letra, parceria entre o seu marido e o fabuloso Dejair do Cavaquinho. A angústia de Severino, no momento, tinha outra razão: Dejair estava em lugar incerto e não sabido. Estranho, pois, apesar da cachaça, o novo amigo sempre dava notícias e chegava até mais cedo, demonstrando dedicação e empenho em todos os ensaios. Ligou na pensão, onde o parceiro morava, e perguntou sobre o seu paradeiro, mas ninguém sabia. E, nos bares, idem, ibidem.

Severino circulou entre o povo na quadra, recebendo tapinhas nas costas de “já ganhou” até dos desconhecidos. Era quase hora de cantar o samba, duas vezes sem acompanhamento, depois com a bateria completa, para contagiar o público presente. E nada do Dejair aparecer.

Conformou-se em puxar o samba sozinho. Severino voltou aos bastidores a tempo de encontrar o parceiro, agarrado com Jucimara, atrás de uma coluna de concreto.

***

Severino girou nos calcanhares, voltou ao bar e pediu uma dose extra de coragem com conhaque, para aquecer e esquecer. Mas só decidiu subir ao palco quando o puxador oficial da escola começou a chamá-lo pelo alto-falante, insistentemente, para que se apresentasse de imediato “o oitavo samba-enredo concorrente desta noite”.  Já de frente para a plateia, com as luzes fortes no rosto, Severino cruzou olhares com Dejair, e este percebeu que o marido sabia de tudo. Pego de surpresa, o cafajeste deu os ombros e fez um gesto com as mãos e o cavaquinho, como se pudesse explicar alguma coisa: “não tive culpa, parceiro”.

***

No fim das contas, o escolhido foi outro: “João de Barro, Campo Comprido contará pra sempre a sua história”. Os detalhes da melodia, que contagiou a netinha de seis anos, e a letra, na qual era citado até o nome da nova esposa dele, certamente convenceram o patrono da escola a influenciar os jurados, e a desconsiderar a falta de empolgação da plateia.

Dejair não se abalou. Continuou tocando a vida do jeito que dava, como fazia com o cavaquinho; mas, por via das dúvidas, evitou cruzar com o antigo parceiro. Já Severino, provavelmente, foi embora para a Paraíba; e Jucimara, como souberam Mãe Donana e a turma do pagode, apareceu até na televisão: “Pedreiro João-de-Barro: mata e empareda esposa no barraco”.

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.