EntreContos

Literatura que desafia.

Arapuca (Corposeco)

Contam os de boa memória uma aventura insólita, que afirmam terem ouvido, quando ainda eram kuru’min, da boca daqueles que diziam ser aprendizes dos P’awés, que não existem mais.

Os P’awés nunca foram muitos, é sabido, e nos dias desta história haviam dois, Mayr’mawa, o Vidente, e Pin’dawa, o Pitanga. E não era segredo para ninguém que não se bicavam, e volta e meia maldiziam um ao outro.

Ora, os pintados naquela época, de qualquer tribo, se dividiam nas discussões intermináveis de quem era, dos dois P’awés, o mais correto e sensato.

Muitos buscavam Pin’dawa atrás de aconselhamento e de sua probidade louvável. Ele havia se fixado numa confluência de rios e y’torowós tão bela que parecia Yvm’raeyn na terra. Mas Mayr’mawa preferia a viagem, as andanças, e aparecia sem ser esperado e, com sua visão daquilo que viria a ser, arrumava o caminho para que os problemas fossem enfrentados por aqueles que seriam afetados.

Só que nem todas as suas visões se cumpriam. Seus defensores afirmavam que o mal se espantava quando o via pela frente, já seus opositores argumentavam que ele mais adivinhava do que previa, e muitas vezes ele mesmo era o causador da desgraça, atraidor das adversidades, e completavam dizendo que ele fedia um cheiro só sentido por tudo que havia de ruim.

Dizem os de boa memória que Mayr’mawa apareceu de repente na região de Inguá’mbara, uma baía, na aldeia de Yitérw’y, intensa pitangueira, ou seja, caiam para o lado de Pin’dawa.

Arayndaba era o mturuxá da aldeia naqueles dias distantes, e mesmo sendo pitangueiro desde kuru’min recebeu Mayr’mawa e deu a ele um toco para que sentasse ao seu lado e mandou que trouxessem ai’pi cozido para eles.

Mayr’mawa não quis saber daquilo.

— O fim de sua aldeia se aproxima, velho tonto, e só os deuses podem te ajudar nessa. Se Kwara ou mesmo Yorixir resolverem te dar uma mãozinha, melhor pra você e esses que te seguem. Mas eu não acho que eles vão descer de Yvm’raeyn agora para salvar um bando de oca sem serventia. Não acho mesmo. Então o melhor proceder agora é juntar suas mixarias pessoais e dar no pé o quanto antes. Vão pro outro lado da baía, que é o lugar de vocês. Aqui vocês não podem ficar mais.

Nem terminara de falar aquelas palavras e um forte rugido ecoou pela floresta. Mayr’mawa não esperou resposta e partiu dali tal qual chegou.

Entre o orgulho e desespero Arayndaba escolheu dar ouvidos ao inimigo de seu ídolo, pensando em seu povo, no papel de mturuxá que lhe cabia, e ordenou que as mulheres e os kuru’min corressem para as canoas e atravessassem a baía. E convocou os pintados que pudessem manejar o arco, pegando ele mesmo o seu.

O rugido voltou mais forte, vindo dos montes próximos. Pássaros levantaram voo de lá e nunca mais voltaram praquelas bandas, de tão apavorados que ficaram.

Os pintados se prepararam, formando uma linha entre a aldeia e a mata, arcos tesos, corpos tensos. As árvores balançaram e o rugido se multiplicou e pareceu aos ouvidos deles que uma manada de destruição se aproximava.

E havia coragem ao enfrentar o desconhecido. Mas quando o inimigo se tornou conhecido, quando se mostrou em toda a sua fúria, só então as pernas bambearam, as flechas caíram, o corpo desfaleceu e muitos desmaiaram ali mesmo e por lá ficaram. Arayndaba, de família antiga, conhecido por sua força e coragem, sentiu sua barriga esfriar e a mão tremer.

Recobrando a consciência e renegando o pavor ele gritou pelos seus e atirou sua flecha e tal qual a fruta acerta a terra, a flecha não causou nenhum ferimento ou arranhão. Aqueles que podiam correram para ver se alguma canoa havia ficado para trás. Arayndaba não os reprovou e os acompanhou. Eles eram apenas pintados de vida passageira, e aquilo que enfrentavam estava muito acima de suas capacidades limitadas.

Mas nenhuma ficara para trás e eles, fugindo, pularam na água fria e nadaram como podiam, já certos da morte. Mas aconteceu do monstro chegar até a praia e parar ali e a água da baía de Inguá’mbara o intimidou e ele voltou para a mata, levando a aldeia de Yitérw’y ao chão.

Arayndaba juntou o que restara de seu povo em um abrigo parco. Mas os pintados desejaram voltar para a casa, para o lugar que estavam acostumados a viver. Arayndaba concordava com isso, e sabia que dele ou de qualquer outro pintado não viria a salvação que esperavam. Então imploraram que ele fosse ter com o velho Pitanga, e que aquilo era o mais correto a se fazer.

Sozinho ele caminhou por dias, chorando quando lembrava do que não mais existia e lamentando a desgraça ocorrida.

Quando encontrou Pin’dawa, relatou tudo o que ocorrera, desde a aparição do Vidente. O Pitanga se ausentou por um dia inteiro e voltou acompanhado do cavaleiro da lua, filho de Ia’cy, Kãdö, o herói de muitos feitos.

Arayndaba olhou para o rosto que parecia a plenilúnio e os longos cabelos negros que eram como as tempestades e viu nele a esperança de seu povo.

Os dois voltaram, confiantes. Kãdö levava um arco e flechas feitos da madeira de awnd’rá, e afirmava que elas nunca erravam o alvo.

Quando se aproximaram da baía viram a região devastada. Árvores antigas deitadas ao chão, terra revirada, riachos cursando caminhos novos. A aldeia de Yitérw’y desaparecida.

Enquanto Arayndaba voltou choroso para o outro lado da baía, Kãdö seguiu o rastro do inimigo. Flecha bem posicionada na corda, olhos e ouvidos atentos.

Ora, o filho de Ia’cy já havia provado diversos perigos. Já encarara a morte de perto, enfrentado pintados e dourados, homens feitos de milho ou argila. Já caçara todo tipo de animal, fera e besta, que nadasse ou que voasse. Já observara a onda sem fim, visitara montanhas de cabeças brancas, as largas regiões de águas paradas e lugares sem água alguma. E em todas as vezes ele nunca sentira medo, pois sabia que sua mãe olhava por ele, e que seu arco de awnd’rá iria cantar a música que ele quisesse.

Mas ele nunca havia visto um dos filhos de Tawby’mana, embora conhecesse os sete nomes. E sentiu sua barriga esfriar pela primeira vez.

O corpo escamoso mais largo que um monte, as costas arqueadas exibindo uma fileira de espinhos que iam até a ponta fina da longa cauda. Cabeças sustentadas por compridos pescoços. Sete delas. Olhos negros, caninos brancos, focinho proeminente. A maior, no centro, carregava na testa uma pedra vermelha brilhante, que os P’awés chamavam de carbúnculo. Tawý’yakwá, o primogênito de Tawby’mana.

Kãdö clamou por sua mãe e disparou a flecha, mirando o meio dos olhos da maior das cabeças.

A flecha assobiou no ar e se ascendeu em luz e chamas, como sempre fazia. Antes que Tawý’yakwá pudesse se mover a ponta da flecha penetrou entre seus olhos. E se apagou.

Sete rugidos furiosos reverberaram pela mata e Kãdö disparou outra flecha, e outra, e mais outra, e o monstro avançou contra ele como uma força sombria da natureza. O filho de Ia’cy escapou das abocanhadas de Tawý’yakwá se esquivando por entre troncos e pedras, e as flechas de luz se apagavam quando tocava o amaldiçoado ser e eram consumidas por seu interior negro, sumindo no ar como fumaça.

Sem esperanças, Kãdö fugiu, conseguindo escapar apenas quando a noite caiu, e a lua, sua mãe, apareceu e iluminou a mata com uma luz oscilante, confundindo o monstro. Planejou novas investidas e artimanhas, mas cada ataque era mais infrutífero que o outro e servia apenas para enfurecer mais e mais Tawý’yakwá.

Numa noite escura ele planejava a próxima ação quando ouviu atrás de si uma risada estridente. Se virou para ver quem era e enxergou apenas a escuridão. A risada não parou, vindo de todos os lugares e ele, sem alternativa, convidou a risonha sombra para mais perto.

— Kãdö, Kãdö, de Ia’cy filho, da lua cavaleiro, hihi, honrado homem, sim, hihi, me diga cavaleiro, desistiu já? daquilo que nunca conseguirá? hihi, não, nunca, não sem ajuda minha, sim, ajuda minha, hihi, me diga da lua cavaleiro, topa acordo? meu pito está vazio, eu não fico feliz quando o pito vazio fica, não, não, eu apronto com o pito vazio, então me encha o pito, vá, você, da lua cavaleiro, hihi, me encha o pito, da lua erva, da sua mãe erva, boa erva, boa pro meu pito, e eu derrubo pra ti aquilo que te derrubar quer, que me diz? hihi, que me diz, da lua cavaleiro?

A voz risonha arrepiou a alma de Kãdö, mas o que podia ele fazer? No fundo sabia que nunca conseguiria derrotar Tawý’yakwá. E um acordo com Sazsi, nessa altura, não causaria mais problemas do que ter um monstro solto por aí.

Ele aceitou os termos e a risada cresceu e a escuridão se moveu. Kãdö correu atrás como pode e alcançou ao amanhecer a luta entre duas entidades malignas que nunca antes fora vista por aquelas bandas.

Tawý’yakwá de um lado mordia com suas sete bocas, procurava o inimigo com as garras e golpeava com a cauda. Sazsi, por sua vez era sombra e nuvem, água e fogo negro. Era pássara de bico longo, era fera de dentes afiados. Era flecha, era vento e pedregulho. O primogênito de Tawby’mana nunca vira tanta fúria num único ser. E seu riso estridente ecoava por toda a baía.

O tufão negro levava Tawý’yakwá cada vez para mais perto do mar, para a água, sem que o monstro percebesse, e finalmente, num golpe preciso ele foi jogado ao mar e ali mesmo se tornou pedra mocassim. Seis de suas cabeças se contorceram para cima e formaram uma elevação cônica. Mas a cabeça com o carbúnculo, tombou para frente, bem na entrada da baía de Inguá’mbara.

Kãdö acompanhou a queda de Sazsi na praia e correu até ele. O ser da escuridão agora, esgotado, não passava de uma brisa disforme. A risada veio fraca e o pedido pela erva mal pode ser ouvido.

Antes que pudesse responder uma peneira passou voando por sua cabeça, caindo sobre o ser que agonizava na areia. Pin’dawa pulou atrás da peneira com um frasco na mão e, sem perder tempo, com a ajuda da peneira, empurrou o vento para dentro do receptáculo, o tapando em seguida.

— Seu velho esperto, essa foi uma bela de uma arapuca — disse Mayr’mawa, rindo, vindo logo atrás.

Kãdö olhou para eles sem entender. Pin’dawa se aproximou dele, olhando para dentro do frasco, para a pequena nuvem negra que girava lá dentro.

— Agradeço a você, Kãdö, pela ajuda, e é claro, peço desculpas, pois nada podia lhe dizer. Estávamos atrás desse pequeno ser fazia já alguns anos. Ele vem causando tantos problemas que tivemos que encontrar um meio de capturar esse peste. Mayr’mawa e eu soltamos Tawý’yakwá nesta região, sabendo que os pintados daqui viriam correndo pedir minha ajuda. E é claro que eu enviaria você, e não outro, e esse malandro ouviria isso. E eu disse para Mayr’mawa, ‘ele vai querer fazer um acordo com Kãdö, ele está atrás dessa erva faz anos’, e dito e feito. Obrigado e desculpas mais uma vez.

Pin’dawa balançou o frasco na frente de um atônito Kãdö.

— Mas nada disso pode chegar aos ouvidos dos pintados, meu bom cavaleiro — disse Mayr’mawa. — A fé que eles tem em nós se extinguiria e daria lugar ao ódio. E vejam, algo aparece para mim nessa hora, sim, algo ruim. Muito ruim. O fim de todos nós se dará por esta pedra que nasceu. Vejam, o dia que ela voltar a tocar a terra, que ela não for mais cercada de água do mar, este dia marcará o início do nosso fim. Deste dia em diante os pintados e todos os seres da mata começarão a desaparecer. Isso foi dito.

Eles ficaram em silêncio ainda por algum tempo, até os dois P’awés se despedirem de Kãdö e voltarem para a mata, juntos, conversando como dois velhos amigos.

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.