EntreContos

Literatura que desafia.

De lobos e ovelhas (Pastor)

lobo

Se  escrevo nesse momento, é por genuíno receio de perder a memória e com ela, os fatos. Os anos se atropelam e, em sua inércia, arredam quase tudo, por isso, mais que exorcismo de algo ruim, relembro os eventos que me perseguem,  justamente,  para imantá-los numa cápsula.

Aristocrata e herdeiro legítimo de grande fortuna, casei-me com a jovem Ofélia;  ela, apesar de bastante tímida, provinha de família riquíssima do interior do país; Enquanto estudei, conheci, mergulhei, em águas europeias,  grande parte de minha vida, Ofélia cresceu  nas fazendas brasileiras, claro que sob instrução de tutores particulares, naquele intuito de senhorinha bem educada.

Por um desses enredos de ópera, a vida nos uniu e unidos em matrimônio, agradamos às nossas tradições, o que nos bastava por muito tempo.

Pouco mais de seis meses após a cerimônia, convidaram-nos, seus pais, para que os visitássemos  na província das Minas Gerais.

Hei de confessar que a idéia não me agradou, de pronto. Passar um mês ou mais em companhia de pessoas incultas era algo que não me apetecia. Porém, Ofélia, com sua meiguice, olhos de tamarindo e carinhos insuspeitos, convenceu-me  sem muito esforço.

À data prevista, embarcamos e partimos. Deixamos o  Rio de Janeiro e ainda que esta fosse um fraco arremedo de Paris, era cidade que muito me cativava com seu potencial para o belo e costumes civilizados, uma sociedade com  futuro maravilhoso.

Ofélia se divertia na novidade  do  comboio em linha férrea  que nos conduzia.

A paisagem entrevista pelas janelas do transporte ferroviário  era a de tempos ancestrais onde o homem era projeto e respirava,  apenas,  a mata exuberante em puras cores tonalizadas, com seus segredos e sussurros.

Nosso destino inicial era a capital vizinha – Ouro Preto – dali iríamos para a propriedade de meu sogro, uma delas.

Ao chegarmos à estação, duas coisas me chamaram o cuidado imediatamente: a simplicidade quase inocente do lugar, diria eu que não passava de uma vila,   e  o grande número de negros, aos montes, aqui e ali, com suas roupas em remendos e o medo da liberdade forçada nos olhos.

Para minha surpresa, eles não se animaram com nossa presença, sequer nos olharam, exceto um,  de grande compleição, vestido de forma simples, porém distinta, o qual, assim que nos mirou, encaminhou-se resoluto ao nosso encontro. Estando a alguns passos, dirigiu-se, alegremente, à minha esposa:

– Sinhazinha ? – ele chamou.

Ofélia, ainda observando o movimento da pequena estação, alterado pelo desembarque dos demais passageiros, virou-se para a voz:

– Jerônimo, que saudade – ela exclamou num grande sorriso e foi ao negro, passando os braços em volta do seu pescoço num abraço profundo.

As pernas me faltaram. Não podia acreditar em tal comportamento e agradeci por ter recusado o pequeno almoço servido há pouco, meu estômago não o conteria.

– Venha, Jerônimo, venha conhecer meu senhor e marido – ouvi Ofélia ordenar, (ordenar não), convidar.

– Álvaro, este é Jerônimo, um antigo amigo de nossa casa e meu protetor favorito – ela  disse, como se estivesse apresentando a mim um diplomata de alta estirpe.

O negro, notando minha óbvia repulsa, apenas pronunciou:

– Uma honra conhecê-lo para o servir, senhor.

Depois dessa modesta fala, embora a janicefalia  seja  condição inata do preto, por motivo de sobrevivência, o juízo me foi sendo restabelecido, as coisas pareceram voltar à normalidade e simplesmente perguntei, em tom objetivo,  se todas as providências haviam sido tomadas para nosso traslado final.

O negro confirmou  e, apresentando uma incomum competência para a raça, rapidamente nos colocou a bordo de uma ampla sege, muito bem construída, bonita e cara, em tons de roxo-rei. Duas parelhas de belos e fortes cavalos aguardavam o comando.

Uma vez acomodados, ordenei a partida. O cocheiro e o negro estalaram os chicotes e nos movimentamos para a fazenda dos pais de Ofélia.

No vazio e confortável espaço da sege, olhávamos para fora o tempo todo, pois até sairmos da cidade não trocamos palavras. Eu ainda estava admirado com a amizade de minha esposa com um serviçal de cor. Para evitar discussões, foquei minha atenção nas casas que víamos, nas pessoas que se afastavam para nos dar passagem e por fim, na vegetação que crescia a nossa volta.

Por duas ou três vezes fizemos  intervalos à margem do caminho, momento em que Ofélia conversava docemente com o negro, para meu desgosto instantâneo.  Ele aparentava ter a idade do pai dela ou mais (quem saberá?), comportava-se com gentileza e falsidade, julgava eu.

            Na última vez, o cocheiro alertou que não nos demorássemos, pois que a noite se avizinhava e consigo trazia perigos consideráveis.

Voltamos à viagem,  Ofélia entrou a falar de sua infância e aventuras, ela sabia como me envolver. E conseguiu. Rimos muito de muitas coisas e quase tudo ficou agradável.

Sem perceber, já estávamos de fronte à sede da propriedade. Uma excelente e grande construção, com dois pisos, pintada nas cores azul e branco. A família de Ofélia, seu pai e mãe, dois irmãos, alguns convidados desconhecidos para mim e uma boa dúzia de criados nos aguardavam sair  da diligência.

Fomos muito bem recebidos. Ofélia parecia ter vindo do Santo Sepulcro, tamanho o entusiasmo com que fora tratada pelos seus e, novamente, pelos subalternos. Todos, sem exceção, a abraçaram, alguns com lágrimas nos olhos. Nunca havia presenciado nada parecido antes.

Posteriormente fui informado  de que os hóspedes eram um padre, o chefe político local e um professor.

Depois de instalados, nos reunimos para o jantar na enorme sala da casa. Um lauto banquete, eu diria – o exagero é característica nestes rincões.

– Ainda bem que chegaram antes do anoitecer – disse o pai de Ofélia à mesa – estávamos muito preocupados, parece que minha nova carta adiando o convite não os alcançou – complementou entre dentes  de nervosismo.

– Realmente não nos chegou – eu disse constrangido – qual o motivo para não virmos?

– Um assunto complicado, meu genro, talvez seja apenas precaução – respondeu sem convicção,  olhando para o padre, como se pedindo auxílio.

– Senhor Álvaro, no mês passado, uma família inteira foi atacada não muito longe daqui, eles foram pegos de surpresa, houve apenas um sobrevivente – relatou o padre.

– Em função disso, todos da região andam temerosos – atalhou o político.

– Presumo, então,  que o assassino esteja à solta, entretanto, notei que somos muitos aqui, provavelmente haverá armas suficientes para nossa defesa – falei eu, em tom superior.

Os presentes, incluindo Ofélia, já com mais informações que eu, pelo que pude perceber, se entreolharam desanimados.

– Não é uma questão de armas, meu caro – falou reticente o Professor – lutamos contra uma força sobrenatural. Visto que é um homem culto, deve ter ouvido falar de licantropia.

Minha face deve ter se transformado numa máscara cômica, pois ouvi muitos risos por todo o ambiente, inclusive dos negros que nos serviam. Claro que eu conhecia a história  – homens virando lobos ou monstros – Mas o quê, em nome de Deus, o mito grego estava fazendo no interior do Brasil ? – perguntei.

Continuou o mestre:

– É uma história mundial, em cada parte do globo há relatos semelhantes sobre essa estranha metamorfose, mudam-se alguns detalhes. Aqui não é diferente. Talvez seja novidade nos grandes centros, mas no restante do país é cultura enraizada há muito, apoiada por fatos e testemunhos – acrescentou.

Entre divertido e irônico, provoquei:

-Então estamos todos com medo de que um ser mítico,  meio gente, meio bicho, nos ataque na noite ? A propósito, pelo que me lembre, é preciso  uma lua cheia para a receita dar certo – disse gracejando.

– E a teremos hoje – respondeu o pai de Ofélia, muito sério – por isso mesmo, após a refeição, todas as portas e janelas serão trancadas. Elas foram reforçadas no último mês, com duplas e até três travas, todos da fazenda foram orientados e ajudados a fazer o mesmo em suas moradias, alguns mais próximos ficarão conosco na sede.

– Isso é realmente necessário ? – Não seria melhor se caçássemos tal monstro ? – Já participei de diversas excursões com abate de animais muito poderosos – eu insisti.

– O senhor subestima um poder cruel – falou o negro que nos conduziu.

– Entendo. As tolas crendices africanas contaminaram a todos, não me admira que tal coisa ocorresse, observei que são tratados como iguais por esta família, bem como não me surpreenderia se um deles fosse a besta-fera, visto que não passam de animais em essência.

Captei sorrisos de condescendência após minha fala, e um ou outro revirar de olhos, como se estivessem a zombar de mim. Tolos.

Finda a refeição, já com o sol baixo, os demais foram lacrar a casa, eu e Ofélia buscamos nosso quarto no andar de cima.

Após algumas horas entediantes, adormeci para acordar sobressaltado, pareceu-me ter ouvido vozes no quarto. Ofélia não estava ao meu lado. Abri a porta  e desci para o térreo.

Todos estavam reunidos na sala principal, sob a luz de candeeiros, muito quietos, cheirando o tempo, como se diz.  Ofélia me avistou descendo as escadas e acenou-me para que não dissesse palavra. Fiz o que pediu e me juntei ao grupo.

Todos os homens estavam armados em mãos, alguns traziam facas à cintura.

Quando estava para perguntar o que ocorria, deu-se um urro magnífico no pátio da fazenda. O barulho surpreendeu-me, a ponto de meus pêlos se eriçarem. Ofélia se encostou mais em mim.

Num sussurro, meu sogro  dividiu-nos em grupos, alguns para a frente da residência, outros para os fundos, outros ainda para o andar superior. Não vi o negro de Ofélia nem o padre em lugar algum.

As mulheres foram enviadas à despensa na cozinha, um cômodo bem mais reforçado que os outros, Ofélia foi em amparo à sua mãe. Tocou-me vigiar a porta principal, uma simples garrucha me foi concedida.

Durante algum tempo, nada se ouvia.  

Na intenção de ver lá fora, aproximei-me da porta em busca de uma fresta, porém, nesse instante, algo se arremessou contra a mesma com uma força descomunal. A madeira tremeu em seus batentes e se não fossem as travas  firmemente presas nos ganchos de ferro, acredito que ela teria caído de imediato.

Os demais vieram às pressas para o local onde eu estava, visto que ali fora escolhido como ponto de ataque por nosso inimigo.

Ele” então começou a arranhar a peça inteira, de alto a baixo. Podíamos ouvir as lascas sendo arrancadas.  A continuar assim, em pouco tempo, teríamos um buraco na porta e estaríamos à mercê daquilo que nos acuava.

Foi quando reconheci a voz de Jerônimo, gritando:

– Coisa maldita, monstro do inferno,  estou aqui, veja, venha me pegar!

Ele provocava a criatura, tentando tirá-la da varanda. Ouvimos passos do animal (ou o que fosse) se retirando.

               Alguns segundos  depois e a sala foi preenchida por um uivo excruciante, um tiro deflagrado, barulho de luta, gritos de agonia e dor, carne rasgada e mais nada.

O pai de Ofélia ameaçou abrir a porta para ir em socorro a Jerônimo, mas foi impedido pelos demais à custa de bons argumentos e força necessária.

Até amanhecer ficamos ali, estáticos. As mulheres choravam, trancadas e protegidas.

Quando a luz do sol banhou a todos, saímos cautelosos. Vimos que os demais moradores da fazenda também apareciam. Dois corpos jaziam estirados a poucos metros da varanda – um deles era Jerônimo, eviscerado totalmente, seu sangue no chão, tão vermelho, lembrava o contorno do continente.

O outro cadáver, branco, magro e nu, era de um jovem. Em seu peito a adaga brilhante que Jerônimo tinha consigo desde que o vi. O político o reconheceu como sendo o caçula e óctuplo filho  do juiz geral  da província, primeiro homem da linhagem.

Encontramos o padre escondido em seu quarto, depois de arrombarmos a porta.

Fomos embora logo após o funeral bastante concorrido do bravo herói, não havia sentido em ficarmos, prometemos voltar em outra oportunidade.

Agora, quase cinco anos depois, estamos em Paris com nosso filho, Jerônimo; ele tem três anos e quer  muito conhecer o Brasil rural de sua mãe. Um dia, quando tudo tiver ares de fantasia e simples folclore para nós, voltaremos.

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.