EntreContos

Literatura que desafia.

A Rosa do Nome (Evelyn Postali)

rosa

De pé, no vazio daquele aposento de pedra, Emile Rosaire ouviu o peso da porta e a tranca.

Vergonha. Foi despojado das vestes lentamente.

Indecisão. Deixou as mãos ásperas e afoitas acariciarem sua carne virgem.

Cabelos, ombros, peito, sexo.

— S-Senhor… — O medo pulsou. Lábios. Voz. Olhos. Ouvira falar dos terríveis castigos impostos aos desobedientes das imposições do subdiácono. — Isso não é sacrilégio?

O canto daquela boca velha ergueu-se em sorriso afetado. Segurando um dos mamilos do noviço, sussurrou bem próximo:

— Deus perdoa os bons e os maus. — Apertou a saliência. Arrancou-lhe um gemido. — No final, tudo será perdoado.

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156 comentários em “A Rosa do Nome (Evelyn Postali)

  1. Gustavo Henrique
    27 de janeiro de 2017

    Achei seu conto bem forte, ficou legal. Boa sorte.

  2. Thayná Afonso
    27 de janeiro de 2017

    Uma ótima crítica com uma referência ainda melhor. Fiquei encantada com a forma que você desenvolveu seu texto e como tomou a liberdade para colocar estas referencias no título. Apesar do tema pesado, conseguiu desenvolver muito bem. Parabéns!

  3. Remisson Aniceto (@RemissonA)
    27 de janeiro de 2017

    Umberco Eco e seu “O Nome da Rosa” ecoando pelos quatro cantos do mundo. Boa sorte.

  4. Lohan Lage
    27 de janeiro de 2017

    Texto bem escrito, forte, crítico.
    Parabéns, Eco!

  5. Sra Datti
    27 de janeiro de 2017

    Ojeriza. É o que seu conto desperta fortemente. Forte crítica, camuflada pela história já bem conhecida por todos. A hipocrisia em seu mais alto grau.
    Narrativa muito bem estruturada, escrita impecável.
    Um dos ótimos do certame.
    Parabéns!

  6. Leandro B.
    27 de janeiro de 2017

    Oi, Eco.

    Nunca li “O nome da rosa”, mas isso não me impediu de apreciar o texto. O que me chamou a atenção não está na hipocrisia ou em um pretenso esteriótipo do religioso, mas nessa “falha” do pensamento católica que deposita tanto poder no arrependimento.

    Lembro que o tema foi explorado em algum outro lugar, mas não lembro onde.

    No que diz respeito a forma, achei muito competente. A ambientação é boa e os personagens soam bastante reais.

  7. Victória
    27 de janeiro de 2017

    Texto muito bem escrito e de excelente ambientação. Apesar do conto remeter à Idade Média (imagino eu), é um tema ainda presente nos dias de hoje, que no texto foi abordado de forma muito eficiente. Parabéns

  8. rsollberg
    26 de janeiro de 2017

    Um dos primeiros livros que li na vida foi justamente “O nome da Rosa”, por essa razão esse conto logo chamou minha atenção. Apesar de guardar restrita semelhança com o clássico do Umberto Eco, o conto ´´e muito bom porque traz uma crítica atilada a um dos principais princípios do cristianismo. Hoje em dia, é muto difícil aceitar esse premissa do perdão irrestrito para qualquer um, não se coaduna com qualquer ideal de justiça. Particularmente, esse é um dos poucos temas que despertam minha intolerância. Voltando ao conto, o autor foi muito feliz na escolha dos personagens e da própria trama para o impacto do dilema.
    Muito bom.
    Parabéns.

  9. Simoni Dário
    26 de janeiro de 2017

    Gostei da forma do texto. O tema é pesado, mas o autor conseguiu com que o desenvolver da história não deixasse isso explícito. Uma realidade desde o início da Igreja, muito verossimil.
    Bom desafio!

  10. Fil Felix
    26 de janeiro de 2017

    Conto muito bem escrito, consegue em poucas palavras nos trazer um ambiente rico e complexo. Uma igreja, padres e arcebispos, porões, costumes, castigos, toda uma mitologia por trás. Demonstra habilidade do autor. Você se sente dentro do pequeno quarto, com as mãos do velho sobre você. Muito bom! Ao contrário dá maioria dos comentários que li, achei o título/ pseudônimo muito “casado”, poderia ter sido um ou outro. Mas nada que prejudique o texto. Um outro ponto que fiquei na dúvida: Emile é o nome do noviço? Ah, também me lembrei de uma das cenas do filme Má Educação.

  11. Gustavo Aquino Dos Reis
    26 de janeiro de 2017

    A obra é boa, inegável.

    Porém, acho que ela parte de um lugar comum bastante explorado na literatura.: o abuso sexual por um religioso.
    A ambientação nos conduziu exatamente para o que esperávamos desde o início.
    E não houve nenhum choque que não aquilo que já prevíamos.

    De todo o modo, eu gostei.

  12. Pedro Luna
    26 de janeiro de 2017

    Gostei de muitos detalhes. Ambientação: o título e pseudônimo já levam o leitor a um cenário na idade média, e toques na construção, como “aposento de pedra”, ajudam a ambientar. Gostei disso.

    A crítica presente no conto é das mais batidas possíveis, no entanto, é por isso que ela funciona. Como não ficar indignado em saber que ainda hoje acontece coisas assim, que já vem lá da idade média? É osso.

    Outro fator de destaque é o conceito de que tudo será perdoado, que Deus perdoa os bons e filhos da puta. Reforça muito a minha crença de que não existe e talvez nunca tenha existido um Deus coletivo. O conceito de Deus é pessoal e é por isso que tem tanta gente fazendo merda em nome dele.

    Gostei do conto.

    • mariasantino1
      26 de janeiro de 2017

      “Deus perdoa os bons e filhos da puta. ” Kkkk. Adorei 😛

  13. Rubem Cabral
    26 de janeiro de 2017

    Olá, Eco.

    Um bom conto, bem direto ao ponto. Você conseguiu com poucas palavras passar sensações e ambientar bem o enredo. O pseudônimo e o título complementaram tudo também. Boa escrita: não notei erros.

    Nota: 8.5

  14. Tom Lima
    26 de janeiro de 2017

    Um conto de força. A imagem de pureza e incerteza do inicio vai se desfazendo aos poucos, dando lugar a uma realidade dura e crua. Muito bem conduzido.

    Gostei bastante.

    Abraços.

  15. Felipe Teodoro
    26 de janeiro de 2017

    Muito bem escrito, as imagens construídas são fortes e a narrativa que começa com tom de indecisão e delicadeza, pega um ritmo mais forte e termina de forma arrebatadora. Muito interessante você conseguir traçar um perfil do homem sagrado sem precisar ficar o descrevendo. Eu gostei bastante, achei que a escrita tem força e voz, é isso que busco quando leio novos autores, voz, não narrativas mecânicas. Parabéns mesmo.

  16. Paula Giannini - palcodapalavrablog
    25 de janeiro de 2017

    Olá, Eco do Umberto,

    Tudo bem?

    Penso que “o eco” de “O Nome da Rosa” ser o a percepção da inocência do ser humano, sejam suas ações de acordo ou não com o que dita a igreja, é uma visão interessante. Porém li que seu conto não tem relação com o livro, segundo uma resposta que deu a um dos leitores.

    Ainda assim, seu conto é muito bem escrito, pensado e embasado.

    No final seremos todos perdoados. Então, vale tudo. O bem e o mal, o dito e o não dito, a mentira e a verdade.

    Gostei da visão.

    Parabéns e boa sorte no desafio

    Beijos

    Paula Giannini

  17. Estela Menezes
    25 de janeiro de 2017

    Alguém aí disse, e eu concordei imediatamente, que foi este um dos melhores contos, a começar pelo título e pelo pseudônimo, que já nos permitem perceber um piscar de olhos cúmplice por parte do autor. Adoro esses detalhes sutis que me conquistam de saída! A atmosfera com sua forte carga dramática foi mantida até o final e a narrativa, tão crua quanto a cena, evolui sem tropeços até o desfecho. Já está no topo da minha lista.

  18. Anderson Henrique
    25 de janeiro de 2017

    Essa primeira frase está um pouco estranha. Primeiro achei que havia um problema de concordância verbal. Depois vi que tranca não era do verbo trancar, mas um substantivo. Se for realmente esse o caso, acho que a frase ficaria “ouviu o peso da porta e DA tranca.”. Deixando essa questão de lado, vamos ao conto. O ritmo é ágil e a cena tátil. Fui lá pra esse quarto de pedra junto com os personagens. A cena é forte e tem cadência. Tudo – ou quase tudo – no lugar. Não gostei apenas de “apertou a saliência”. A atmosfera estava pesada, tensa. Esse “saliência” me pareceu coisa que uma carola diria e não o narrador capaz de uma bela frase como: “Deixou as mãos ásperas e afoitas acariciarem sua carne virgem.” O conto é muito competente em inserir o leitor na história. Bom texto. Ah, agora que vi que vc respondeu a todos os comentários. Deu eco? 🙂

  19. Srgio Ferrari
    25 de janeiro de 2017

    Bom, na medida, poderia ser uma HQ de 1 página e meia dentro daquela antiga revista Heavy Metal, ainda mais com um desenho de decorações futuristas amalgamando a santa inquisição…algo por aí. Portanto, valeu muito.

  20. Daniel Reis
    25 de janeiro de 2017

    Um abuso sexual por religioso? Bem diferente esse tema dos outros do desafio. Acho só que o limite de palavras simplificou demais a relação de poder e submissão que a história poderia gerar – e as consequências dos atos dos dois. De qualquer forma, um conto sui generis. Parabéns.

    • Eco do Umberto
      25 de janeiro de 2017

      Obrigado pelo comentário!

  21. vitormcleite
    24 de janeiro de 2017

    muito bom este conto, um dos melhores na minha opinião e para não estragar o que ficou da leitura vou-me calar. Muitos parabéns.

    • Eco do Umberto
      24 de janeiro de 2017

      Obrigado pelo comentário!

  22. Cilas Medi
    24 de janeiro de 2017

    Fluência e objetividade é tudo o que eu achei. O tema, mais que desgastado, confirma a canalhice do superior. O conto não me convenceu, entretanto. Seguramente, baseado no O Nome da Rosa de Umberto Eco, portanto, não vejo nenhum traço de criatividade.

    • Eco do Umberto
      24 de janeiro de 2017

      Recomendo que leia O Nome da Rosa, então. Vai perceber que não tem nada disso lá, no livro. Não me baseei no livro para escrever. Apenas gostei do trocadinho no título e pseudônimo. Obrigado pelo comentário.

  23. Mariana
    24 de janeiro de 2017

    Eu senti todo o nojo possível ao ler o seu conto… Muito bem escrito e, como já foi dito, proporciona uma imersão que eu preferia não ter tido. As palavras vão pesando e o texto sobrevive muito bem sem as referências que carrega. Parabéns

    • Eco do Umberto
      24 de janeiro de 2017

      Obrigado pelo comentário!

  24. Laís Helena Serra Ramalho
    24 de janeiro de 2017

    Não sei se foi sua intenção fazer referência a “O Nome da Rosa”, que eu não li apesar de já ter ouvido falar muito. Dessa forma, não entendi o título. Mas, deixando ele de lado, não parece imprescindível ter lido o livro referenciado para entender o enredo.

    Mas, quanto a ele, parece não existir um desenvolvimento. Parece mais um trecho de uma história maior que uma história completa, talvez com uma crítica à religião (e à possível incoerência quanto ao perdão). Ou será que perdi alguma coisa por não ter lido o livro?

    • Eco do Umberto
      24 de janeiro de 2017

      Obrigado pelo comentário!

  25. Luiz Eduardo
    24 de janeiro de 2017

    Eu pesoalmente não gosto de contos que se propõem a fazer referência a outra história, mas tenho que admitir que vc soube muito bem conduzir a narrativa em poucas linhas, dando o tom da atmosfera na qual a história se passa. Parabéns e boa sorte

    • Eco do Umberto
      24 de janeiro de 2017

      A referência não está no conteúdo. Apenas no título e pseudônimo. Sugiro que leia o livro do Umberto Eco. É uma leitura super recomendada, mesmo se tiver assistido ao filme.

  26. Vitor De Lerbo
    23 de janeiro de 2017

    Texto muito bem escrito. Nem precisava do título para nos remeter aO Nome da Rosa.
    O tema é denso e a ambientação é perfeita. Podemos sentir a tensão do noviço crescendo, assim como seu medo.
    Boa sorte!

    • Eco do Umberto
      24 de janeiro de 2017

      Obrigado pelo comentário!

  27. Miquéias Dell'Orti
    23 de janeiro de 2017

    Oi,

    Conto forte, tema pesado. Bem ambientado e com uma imersão na cena que infelizmente eu preferia não ter tido. Essas coisas deixam a gente com um embrulho na barriga, sabe? Como se algo estivesse extremamente errado e não pudéssemos fazer nada para mudar isso.

    Um ótimo conto. Parabéns.

    • Eco do Umberto
      24 de janeiro de 2017

      Obrigado pelo comentário!

  28. Lee Rodrigues
    23 de janeiro de 2017

    Essa coisa de tema batido só reforça meu entendimento que tudo se transforma nas mãos de quem sabe contar, porque ele tem o desafio de pegar algo comum, já arroiado e despertar sensações no leitor, e veja, o que já é conhecido nem sempre desperta sensações.

    E aí o autor vem, com regradas 99 palavras me transporta para um mosteiro, onde consigo ver até as pedras tijolo irregulares da parede, um noviço envergonhado, indeciso, com medo… e que geme… e do outro lado, a experiência da raposa velha com os cantos da boca com aquela saliva esbranquiçada. Mentiras, verdades… quebra de paradigmas.

    O texto mexe porque consegue nos levar às profundezas de algumas verdades que preferimos esquecer.

    Não deixou algo enigmático, mas me deu perfeita localização, me apresentou a essência dos seus personagens, e isso foi o tempero do conflito, e ainda me deixou caminhos para imaginar “o a seguir”.

    Cara, você tem meu respeito!

    • Eco do Umberto
      24 de janeiro de 2017

      Penso do mesmo jeito – quais são as histórias que nunca foram contadas?
      Obrigado pelo comentário!

  29. Givago Domingues Thimoti
    23 de janeiro de 2017

    Que conto forte!
    Era como se eu estivesse lá, vendo a cena.
    Surpreendente!
    Parabéns!

    • Eco do Umberto
      24 de janeiro de 2017

      Obrigado pelo comentário!

  30. Sabrina Dalbelo
    23 de janeiro de 2017

    O que estou sentindo? ódio, asco, nojo, vontade de arrancar o membrinho desse padreco…e fazer carne moída.

    Sensacional, tá na lista. Excelente! Muito bem executado… tô com ódio, asco, nojo… sim, excelente… mas quero matar o cara!

    Cada palavra está no seu exato lugar. Parabéns!

    • Sabrina Dalbelo
      23 de janeiro de 2017

      aaa, esqueci (talvez devido ao ódio)…. único senão: o nome do noviço ser “Emile” atrapalhou no início, até eu chegar no próximo adjetivo “despojado”, e entender que se tratava de um menino. Isso!

    • Eco do Umberto
      24 de janeiro de 2017

      Obrigado pelo comentário!

  31. Davenir Viganon
    23 de janeiro de 2017

    O conto tem uma carga de tensão que aumenta a cada palavra. a cena é milimetricamente bem construída. A cena é crua e apesar de ser um conto fechado, os posicionamentos diversos sobre o tema do sexo entre religiosos rende reações tão diferentes, quanto num conto aberto. Muito bom!

    • Eco do Umberto
      24 de janeiro de 2017

      Obrigado pelo comentário!

  32. Renato Silva
    23 de janeiro de 2017

    É a segunda ou terceira vez que leio seu conto e todas as vezes sinto um incômodo tremendo, um asco, vontade de vomitar mesmo. Não entenda isso como um insulto, pelo contrário, pois acho que atingiu seu objetivo em nos envolver em sua narrativa.

    Particularmente, não gosto muito dessa coisa de hoje sempre associarem os padres a pedófilos (não que eu os considere santos) em tudo quanto é obra que sai, mas a referência ao livro “O nome da rosa” está aí. Aliás, uma crítica quanto a isso é a referência escancarada, achei desnecessário. Tanto o título quanto o pseudônimo poderiam ser um pouco mais sutis, pois qualquer um que tenha visto o filme ou lido o livro teria entendido na hora, assim como aquele que desconhece a obra não fará nenhuma associação com o título e pseudônimo.

    Sua escrita é muito boa e você soube descrever a cena como se estivéssemos vendo. Nem sempre isso é fácil de fazer. Boa sorte.

    • Eco do Umberto
      24 de janeiro de 2017

      O conteúdo do conto não está no conteúdo do livro. Se você leu, vai perceber que a referência é a Idade Média. E o título foi uma brincadeira. E não. Nem sempre o que eu escrevo não é a tradução do meu pensamento sobre.
      Obrigado pelo comentário!

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Publicado às 13 de janeiro de 2017 por em Microcontos 2017 e marcado .