EntreContos

Detox Literário.

Batuque e Reza (Fil Felix)

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Xiqueópolis sempre foi esta cidade litorânea excêntrica e odara. Onde o tempo e realidade se tornam um grande termo abstrato e colorido, sem início ou fim. E desde o primeiro dia em que desci da piroga e coloquei meus pés sobre a areia úmida de Amaralina, percebi que ela – Xiqueópolis – possuía uma aura festiva. Sequer era época de Carnaval ou São João, mas os ribeirinhos estavam em polvorosa: fitas sobrevoavam o céu, bonecos de papel crepom eram manuseados através de grandes mastros, roupas não menos extravagantes e o povo… ah, o povo mantinha um sorriso faceiro! Cada pessoa irisava prazer. Foi a melhor primeira impressão que já pude experienciar, acompanhada pelo batuque dos caxixis e xequerês.

 

* * *

Este conto faz parte da coletânea “Devaneios Improváveis“, Quarta Antologia EntreContos, cujo download gratuito pode ser feito AQUI.

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42 comentários em “Batuque e Reza (Fil Felix)

  1. Felipe T.S
    14 de outubro de 2016

    Muito bem escrito, narrador bem estruturado, com identidade e uma voz clara. Gostei das descrições, do vocabulário apresentando. Certos momentos são muito divertidos, outros de puro sarcasmo. Achei muito interessante também o ritmo empregado no texto, a leitura flui e as pausas durante as divisões de parágrafos foram muito bem estruturadas. Parabéns de verdade!

  2. Pedro Luna
    14 de outubro de 2016

    Um texto bem escrito que me lembrou algumas passagens de Mario Vargas Llosa. Além, claro, de novelas de realismo mágico. Sinto dizer que a trama não é o forte. Pelo menos para mim, ela só pegou a partir do início da caminhada com o caixão. Essa construção, por exemplo, me fez rir demais:

    “Adalberto – vá entender! – pedia desculpas ao falecido invisível de crepom.”

    Antes disso, existe uma preparação de terreno, mas que cansa um pouco. Muitos personagens também, que aparecem pouco.

    Em relação a isso, é aquela história. Tramas desse tipo tem os personagens mais malucos que você possa imaginar, cheios de peculiaridade. Mas eles só funcionam porque são explorados arduamente. Aqui, num conto com limite de palavras, você dá nome e alguma característica marcante, mas não consegue o efeito desejado. Falo por mim, lógico.

    Eu gostei do conto, mas queria ter gostado demais. Apesar disso, se destacou. Achei também que o cemitério não teve presença no texto.

  3. Daniel Reis
    14 de outubro de 2016

    11. Batuque e Reza (Clarice)
    COMENTÁRIO GERAL (PARA TODOS OS AUTORES): Olá, Autor! Neste desafio, estou procurando fazer uma avaliação apreciativa como parte de um processo particular de aprendizagem. Espero que meu comentário possa ajudá-lo.
    O QUE EU APRENDI COM O SEU CONTO: acho muito bacana construir universos próximos como a Xiqueópolis da história, com seus personagens e lendas. Dias Gomes é uma grande referência, mas acho que me falta a vivência desse universo, que o autor desse conto demonstrou dominar. Como ponto de observação, pelo tamanho do texto, acho que o excesso de personagens e seus papéis dificultou um pouco o andamento dos fatos. Mas isso é opinião, ok?
    MINHA PRIMEIRA IMPRESSÃO SUBJETIVA DO SEU CONTO, EM UMA PALAVRA:
    Sucupiriano

  4. Pedro Teixeira
    13 de outubro de 2016

    Olá, Clarice! Um conto de leitura bastante agradável, vocabulário rico e trama recheada de realismo mágico. As descrições funcionaram muito bem e me diverti muito imaginando as situações. Um trabalho de grande qualidade, sem dúvida. Parabéns e boa sorte no desafio!

  5. Phillip Klem
    13 de outubro de 2016

    Boa noite, Clarice.
    Seu conto é divertido, leve e agradável.
    Gostei desse povo festeiro que enterrou um caixão vazio.
    A execução está boa, com uma escrita diferente e bem interessante.
    Parabéns e boa sorte.

  6. Anderson Henrique
    13 de outubro de 2016

    Um texto “zoeiro” que só. Tradição pura. Gostei da paródia, da bagunça e do surrealismo (que às vezes é menos que a realidade). Queria estar na festa (era um enterro, não?), mesmo sem corpo. Gostei. Um ou outro ponto para ajustar (fique de olhos nas crases), mas é um texto que acerta bem mais do que erra.

  7. Bia Machado
    12 de outubro de 2016

    Tema: Por pouco não foge da temática. Mas vá lá, o cemitério é o cenário onde o furdunço se desenrola, então…

    Enredo: Muito bom, gostoso de ler o desenvolvimento da trama. Faz tempo que não leio um texto de Jorge Amado. E esse conto deu vontade de ir lá e fazer isso agora, tipo “Suor” ou “Dona Flor”. Foi um enredo onde houve espaço para uma crítica política também, bem ao gosto de Dias Gomes.

    Personagens: Foram bem tratados, tanto quanto o enredo. São todos necessários, nada de gratuidade.

    Emoção: Gostei bastante, foi um trabalho bom de ler. Parabéns.

    Alguns toques: Algumas crases desnecessárias passaram na primeira revisão. Poderia também aumentar o conto, ou escrever algo maior sobre Xiqueópolis, cada capítulo para uma história interessante de lá. Êta lugar animado, hein? Tanto ou mais que Tubiacanga, Santana do Agreste ou Sucupira, rs.

  8. Luis Guilherme
    12 de outubro de 2016

    Boa tarde, Clarice, tudo bão por ai?

    O texto tem uma beleza e qualidade estética muito grandes, e demonstra um claro domínio da escrita. Parabéns!

    Outro ponto forte são as descrições que tão muito boas e poéticas, e tem uma veia cultural e regional muito bonita.

    Por outro lado, achei que faltou um enredo mais forte pra sustentar a trama, e portanto acabou não me prendendo totalmente do início ao fim. Quanto à gramática, só notei uns errinhos no uso da crase, que destoam do restante.

    Enfim, um conto agradável e bonito, parabéns!

  9. Thiago Amaral
    12 de outubro de 2016

    A escrita é muito boa e natural, gostosa de ler. Por meio dela, podemos entrar no clima e realmente VER o local no qual a história se desenvolve.

    O problema foi na trama, a qual, até a queda do caixão, não apresenta nada de interessante. Contudo, parece que o conto pretende mostrar mais um cenário que um acontecimento, mesmo

    A partir da queda, e do sumiço, a história fica mais interessante.

    Notei mau uso da crase em vários momentos, o que deve ser revisto.

    No geral, um conto cujos méritos são de estilo e ambientação. Até!

  10. catarinacunha2015
    12 de outubro de 2016

    QUERO CONTINUAR LENDO? TÍTULO + 1º PARÁGRAFO: Que bagaceira poderia sair dessa festa ribeirinha? Quero saber.

    TRAMA de vocabulário delicioso e cheio de malícia. Há um enredo estruturado com maestria.

    AMBIENTE: há mais de velório do que de cemitério. Mas como o clímax ocorre diante da tumba, ficou muito bom.

    EFEITO déjà-vu. Já vi cidade, prefeito filho-da-puta e seu sucessor, povo feliz enganado igualzinho.

  11. Maria Flora
    12 de outubro de 2016

    Existe um toque de humor no conto, o que nos anima a prosseguir na leitura. E nos deixa curiosa. A abordagem do tema é leve e gostosa. A narrativa é concreta, segue linear até o fim. Traz uma cidade diferente e personagens diversos. Mostra parte da riqueza do Brasil. Confesso que na primeira vez que li não compreendi bem a ideia do protagonista de lançar sua candidatura. De uma forma tão inédita, mirabolante até. Mas é uma história. Pode se trabalhar este aspecto (descrever mais o próprio personagem). Vale a pena, pois este conto deixou um gosto de quero mais. Gostei dele. Foi um alívio em meio a tantas histórias de terror.

  12. Gustavo Aquino Dos Reis
    11 de outubro de 2016

    Que delícia, que maravilha!

    Regionalismo puro! Xequerês! Amaralina! Odara! Odara!

    Gostei muito do seu conto. É sempre uma delícia ler trabalhos que se arriscam nessa sanha regionalista. Esse conto é a minha cara! Gostaria de ter escrito ele.

    Parabéns, mesmo.

    Deixa eu dançar, pro meu corpo ficar odaaaara!

  13. Evandro Furtado
    10 de outubro de 2016

    Fluídez – Average

    No geral, a leitura é um pouco truncada, apesar da ausência de problemas com a sintaxe ou com a ortografia.

    Personagens – Good

    O trabalho do autor gira diante da multiplicidade de personagens. Traz cada um deles, com descrições precisas, tanto físicas quanto psicológicas. O eu-narrador, personagem principal, assume o papel de protagonista. É o forasteiro. O cara que chega na cidade do interior cheio de ideias mirabolantes e que é, ou aclamado pela população local, ou completamente rechaçado.

    Trama – Good

    Um arco simples que gira em torno da morte de um local. A maior parte do conto detem-se sobre o processo do enterro, com a descoberta da não presença do corpo – que pode ser encarada de forma fantasiosa ou como uma grande farsa – como clímax.

    Verossimilhança (Personagens + Trama) – Good

    Estilo – Good

    A narrativa em primeira pessoa funciona bem na forma de retrato-relato. Temos uma cor-local muito bem estabelecida, apesar do caráter fantasioso que perdura no texto. A linguagem empregada é bastante interessante, demonstrando um caro senso de direcionamento por parte do autor.

    Efeito Catártico – Weak

    Um texto muito bem escrito que não possui, no entanto, apelo o suficiente para impactar o leitor.

    Resultado Final – Average

  14. mariasantino1
    10 de outubro de 2016

    Oi, autor(a)!

    Então, em primeiro lugar gostaria de agradecê-lo pela riqueza dos vocábulos. Me ensinaste algumas palavras cujo significado, fiz questão de catar, principalmente, para minha satisfação pessoal (e que se dane a redundância). >>>> Odara, experienciar, caxixis, xequerês e lorpa me fizeram rir e fascinar com o seu trabalho. A escolha das palavras menos usuais (mais) como piroga e faceiro faz lembrar das narrativas das pessoas de outros tempos, sabe? O lance dos batuques e a ambientação do conto me fez lembrar de imediato a canção do “Olodum” chamada “Madagascar”( mais pelo ritmo que pela letra. Vi o cortejo seguindo essa toada).

    Aqui pra escutar, ó >>>> https://www.youtube.com/watch?v=LZYE-zP7Mk8

    Então, gostei do conto pela narrativa, pela construção de cenário e personagens e pelo clima bom que deixa uma presença após o término da leitura. O clima é algo que não dá muito pra explicar, mas vc sente a força da junção das palavras, e as alegorias deixaram tudo mais cômico e cheio de personalidade. O tema está aí, é onde a revelação do não defunto acontece, e a argumentação está bem crível.

    Uma dúvida, brandei e brandavam, não seria bradei, bradavam?

    És um vendedor de ideias mui convincente. Parabéns!

    • Clarice
      10 de outubro de 2016

      Boa tarde! Não iria responder os comentários agora, mas fico feliz que tenha lembrado de Madagascar, a Ilha do Amor! Madagascar ficou conhecida com a Banda Reflexus, que foi uma das primeiras de axé a fazer sucesso no Brasil, pegando embalo com Faraó da Margareth Menezes e o bloco do Olodum. É um gênero bastante subestimado, mas sou apaixonado e sempre me inspiram. Principalmente no vocabulário. Mas foi a mineira Clara Nunes que trouxe a inspiração maior, pois eu também “quero uma batucada quando morrer”. Obrigado por sentir a musicalidade! (Também fiquei na dúvida do bradei e brandei agora, mas “brandar” também pode ser sinônimo de esbravejar. Então acho que coube. As crases, já aceitei a mea culpa).

    • Gustavo Aquino Dos Reis
      11 de outubro de 2016

      Madagascar!!!

  15. Gustavo Castro Araujo
    9 de outubro de 2016

    Gostei bastante do conto. Há aqui uma certa leveza, ainda que assentada sobre uma fina camada de crítica social. Gostei do ritmo, dos nomes, das palavras inspiradas. Embora o autor não se refira a uma região do Brasil em específico – apenas menciona algumas cidades de Minas Gerais – enxerguei no conto uma atmosfera baiana que poderia ser do agrado do velho Jorge. Enfim, é um conto gostoso de ler, daqueles que a gente sente até vontade de que se prolongue mais, com aquele regionalismo bem brasileiro sem parecer forçado. Um ótimo trabalho, em suma. Parabéns!

  16. Gilson Raimundo
    9 de outubro de 2016

    Um texto quase perfeito, parece de um dos grandes autores do séc passado, está bem acima da média. .. a palavra cliché deveria ser tirada do conto… uma pena foi o tal do cemitério, nem toda a cena do velório e do cortejo compensaram sua ausência.

  17. Olá, Clarice,

    Seu texto é muito peculiar e isso é um elogio. Fugindo do lugar comum, a narrativa me fez lembrar Lima Barreto e seus retratos de uma sociedade em uma determinada época e local.

    Também gostei muito da ilustração que você escolheu. Caiu como uma luva ao toque satírico do conto. O enterro como festa, o corpo ausente, o sincretismo religioso, o papel crepom, tudo colabora para uma alegoria muito bem construída do Brasil com suas “piadas prontas”.

    Parabéns e boa sorte no desafio.

  18. vitormcleite
    8 de outubro de 2016

    Excelente sátira e conto bem estruturado e de boa leitura. Gostei bastante e apesar das gralhas, consegue-se perceber o que pretendes, mas dá aí uma revisada, pois o texto merece. Apesar da sucessão de clichés, deixa no ar a vontade de continuar a ler este conto. Era bom que não houvesse este limite de palavras neste desafio. Muitos parabéns.

  19. Marcia Saito
    6 de outubro de 2016

    Olá
    Percebo que o autor denota um, profissionalismo na escrita que o deixa a vontade em gastar à vontade palavras difíceis e herméticas dicionarescas, dignas de dar inveja a Aurélio, se este ousasse escrever histórias.
    De ar alegre e leve , sua leitura fora rápida e com leves paradas para recordar os termos mais “difíceis” e de pouco uso na gramatica moderna.
    Apesar de tantos adjetivos que o qualifica, não é o tipo de leitura que aprecio. Mas existem gostos e leitores para tudo.
    Desejo boa sorte e parabéns pelo texto.

  20. Pétrya Bischoff
    6 de outubro de 2016

    Olá, Clarice!
    A escrita é marcada por um quase tom de causo, mas proveniente de outra parte do país, ou fazendo referência a isso. A narrativa é gostosa e conduz bem a leitura e a ambientação vence o proposto, principalmente enquanto nas descrições pormenorizadas do festejo.
    A estética geral do conto não me agrada, mas isso é pessoal e não pesa na avaliação. Apesar de pretensões de comédia, senti uma leitura mediana. De qualquer maneira, parabéns e boa sorte.

  21. Eduardo Selga
    6 de outubro de 2016

    Darcy Ribeiro, um dos maiores intelectuais que o Brasil já teve, e que nos faz muita falta, disse certa vez: “Nós, brasileiros, somos um povo sem ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito […]. Nela [na mestiçagem] fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos viveu por séculos sem consciência de si… Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros…”.

    Essa identidade, contudo, não é una, e isso é particularíssimo no Brasil, gerando muitas vezes entre nós mesmos afirmações depreciativas do tipo “brasileiro não tem jeito” (quem nunca ouviu coisa parecida?), não raro sinalizando a recusa que temos de nós mesmos, uma perigosa despaixão. Existem Brasis sendo construídos dentro de um Brasil ainda por fazer e que pode ser desmontado antes de sua completa arquitetura, costurados pela língua portuguesa e por um modo de ser e enxergar o mundo que, ao contrário do europeu e do norte-americano, funda-se muito na subjetividade, no implícito.

    Somos um povo subjetivo, e isso é uma característica ímpar e ótima. Brigar contra isso, pretender que sejamos frios, racionais, quase anglo-saxões poderá causar uma eterna busca por nós mesmos.

    Na esteira de uma longa tradição literária que nos recupera esteticamente, cujo ponto alto esteve no Modernismo, “Batuque e reza” nos fala dessa ausência do concreto que nos caracteriza. Uma das maneiras de demonstrar isso “concretamente” no texto é pelo uso do papel crepom para substituir o corpo defunto, mas não apenas por ser leve, quase imaterial: é que esse produto, muito usado em ornamentação, remete à alegria, combinando com o ambiente que se dá em torno do velório. Por sinal, entendo haver uma deliciosa ambiguidade na alegria popular: ela ocorre por alguma festividade local que não seja Carnaval nem São João — hipóteses excluídas pelo texto — ou por causa da suspeitíssima morte sem cadáver?

    Acho que ambas as possibilidades são colocadas sem necessariamente uma eliminar a outra, mesmo que a eleição dele tenha sido, um dia, motivo de felicidade. No trecho “Era como se, por dentro, as pessoas abrissem um sorriso”, demonstrando a reação das pessoas perante as palavras de despedida do padre, talvez mostre essas possibilidades: feliz porque a natureza do povo é festeira ou por se verem livre de um “encosto”. Afinal, nós sabemos o quanto um aparente bom candidato pode mostrar-se péssimo administrador ou legislador.

    Outro modo de demonstrar nossa subjetividade, a respeito da qual falei acima, está na cena em que após o caixão abrir-se e expor a farsa do conteúdo, o crepom é reposto em seu lugar para ser devidamente enterrado, e na certeza de que ninguém questionaria o ato. Por qual motivo? Pela consciência de que todos ali são farsantes, do ponto de vista objetivo, e, ao mesmo tempo, senhores de uma absurdidade natural entre eles.

    A festança — e isso me parece bem evidente — é menção ao nosso caráter festivo. Se por um lado podemos considerar esse traço um fato, por outro há comumente um tratamento estereotipado quando falamos dele, dando uma conotação pejorativa (povo preguiçoso) e supondo que todos os povos de todos os rincões brasileiros se comportam da mesma maneira, na mesma intensidade, o que não é verdade. Pois bem. O conto demonstra essa pluralidade brasileira, ou seja, nega o estereótipo. O protagonista, um “bom mineiro”, se espanta diante de “tamanha festividade”, a cujo ambiente vai aos poucos se aclimatando. É sintomático, nesse sentido, ele se comparar a um “selvagem em terras estrangeiras”. São os Brasis.

    Mais um detalhe quanto à suposta falta de concretude do povo brasileiro, na verdade a falta de uma caixinha segura onde se possa indiscutivelmente rotular nossa singularidader: o “falecido” se chama Danúvio, palavra que remete a núveo (nublado), e estar coberto de nuvens significa ser pouco visível. Mas também significa obstacular a luminosidade, sem impedir que a fonte de luz exista. Do mesmo modo que a alegria do povo de Xiqueópolis é clara, mas não o seu motivo.

    Odara, irisava, lorpa, ululando, vesânia e profanidade. Nenhuma dessas palavras é neologismo, gíria ou regionalismo, no entanto são pouquíssimo usadas, mesmo na escrita (“odara” talvez seja bem falada na Bahia, mas não tenho certeza). Como percebo uma arquitetura textual bem trabalhada, não acredito tenha sido por acaso o uso desses vocábulos. A mim me parece contribuir para acentuar a separação entre o personagem-narrador e o povo de Xiqueópolis, dando àquele um caráter mais culto, e aumentando certa arrogância demonstrada em relação aos “nativos” e que podemos constatar em “O pequeno grupo de cinco ou seis pessoas, não me recordo direito, que velava o corpo de seu Danúvio, representava o que havia de melhor (e de pior) na ilha. Lembro de ter ficado reparando. Sim, botei reparo, mesmo!”.

    Alguns escorregões na construção frasal, o que sempre afeta a coesão: “Josué, desengonçando como só ele, conseguiu completar a piada e também teve sua alça arrebentada […]” pode causar a impressão de que Josué tem em seu corpo uma alça que se partiu, quando a intenção é dizer que a alça que Josué estava segurando se rompeu. O contexto evidentemente explica, mas o trecho não está bem construído. Além disso, há falhas no uso da crase (“à mim” e “à outro ator”) e do pronome oblíquo com um “Me espantei” em início de frase.

    Coesão textual: pequenas falhas.
    Coerência narrativa: excelente.
    Personagens: todos eles bem construídos, inclusive os que funcionam como uma espécie de “cenário humano”, pois não são apenas enchimento: eles consubstanciam o personagem-narrador.
    Enredo: excelente, e há material para mais.
    Linguagem: adequada, causando no leitor uma boa separação entre o espírito da população e do personagem-narrador.

  22. Fabio Baptista
    5 de outubro de 2016

    O texto não é de assimilação simples, mas é muito bom. Só consegui perceber isso numa segunda leitura. Da primeira vez, não tinha entendido muita coisa.

    Na parte técnica, só notei a questão das crases:
    – meio à um sermão
    – juntou-se à mim
    – levado à passear
    – informar à outro ator

    E algumas palavras mais “difíceis”, que não contribuíram para nenhum regionalismo (nem sei se era essa a intenção).

    Enfim… a trama puxa meio para um realismo mágico, um evento insólito, algo assim, não sei definir muito bem. Ficou bacana.

    Isso ainda é Brasil.

    Abraço!

  23. Fheluany Nogueira
    5 de outubro de 2016

    Só faltou a viúva Porcina! Também considerei este texto da mesma linha da novela “O Bem-Amado” – criação de um mundo caricatural, com linguagem própria. Aqui, com detalhes bem interessantes. Amei a descrição de DESastrado Josué, assim como da cena em que o caixão cai em que as frases curtas, a repetição criam dinamismo e surpresa.

    Uma história destinada a entreter, bem escrita, vocabulário adequado ao picaresco, personagens bem construídos, ao estilo do malandro nacional, aquele que não perde nenhuma oportunidade ou dá um jeitinho para se arrumar.

    A ilustração me remeteu ainda a “Memórias de um Sargento de Milícias” e também a trama, à medida que as situações de ordem e desordem são expostas, acabam igualmente niveladas aos olhos do leitor incapaz de julgar porque o narrador retirou qualquer escala necessária para isto.

    Parabéns pelas ideias. Abraços.

  24. Iolandinha Pinheiro
    5 de outubro de 2016

    Mesmo encontrando erros de colocação pronominal e algumas coisas meio forçadas que me incomodaram, o seu texto é, pelo menos, interessante, diferente, criativo. Parecia que eu estava assistindo um cenário de novela de Dias Gomes. Achei maravilhoso principalmente o final, e o enterro do prefeito de crepom. Realmente nonsense e hilário. Como assim, enterrar um caixão vazio como se fosse muito normal? Não se se estará entre os meus escolhidos, mas com certeza não me esquecerei do teu conto.

  25. Davenir Viganon
    3 de outubro de 2016

    Olá Clarice
    Título já remete a uma definição desse Brasil varonil, essa mistura.
    Então é assim: o caixão estava vazio, todos fingem que nada aconteceu, continuam a festa, e o ocorrido serve para projetar uma nova liderança politica. Esse conto tem aquele gostinho dos clássicos que satirizaram o Brasil. É possível, para qualquer um aqui, projetar o que pensa sobre o país. Ainda que aqui ninguém tenha se arriscado a fazer nenhuma correlação mais profunda entre o texto e a nossa realidade, o texto abre muitas possibilidades.
    A estória é o ponto forte, o que importa não é resolução do mistério mas como as pessoas reagem e isso. Quanto ao regionalismo, não sou “dessa região” para saber se está bem feito e não. Aqui funcionou comigo. Ajudou a me transportar para outro lugar. Não seria a mesma coisa se a linguagem fosse pasteurizada e mastigada. Pelo volume de descrições, a ambientação ficou excelente, mas o ritmo ficou prejudicado. No fim das contas eu gostei do texto.
    Um abraço!

  26. Jowilton Amaral da Costa
    3 de outubro de 2016

    O conto tem um humor “Joãoubaldiano”, ao meu ver. João Ubaldo era bom pra caralho! Este conto não é tanto. É divertido, bem escrito peculiarmente, mas, para mim não passou disso. Não me impactou, nem emocionou, entreteve. Boa sorte.

  27. Wender Lemes
    2 de outubro de 2016

    Olá! Narrativa interessante, com uma técnica muito própria. O vocabulário encaixou-se bem no que intentava mostrar. Xiqueópolis acaba sendo uma caricatura do Brasil, com seu gosto peculiar pelo pão e pelo circo. Há gente esperta, querendo lucrar às custas dos outros, e há quem esteja aqui só pela festa, mas também há um sentimento fraterno que nos leva a querer festejar sempre juntos. No final das contas, temos muitos defeitos, mas eles também são parte da identidade brasileira/xiqueopolense. Bela sátira. Parabéns e boa sorte.

  28. Anorkinda Neide
    30 de setembro de 2016

    Oi oi oi
    Show essa doideira aqui.. por falar em doideira… desconfio quem sejas tu, ó doido!
    O texto tá perfeitinho hein… parabéns! Nem tinha percebido as crases erradas, arruma ae.
    Gostei demais dos nomes Danúvio e Padre Sabaró, sei lá, achei simpáticos, tudo é simpático, até o mistério é simpático! haha
    Deliciosa leitura!
    Sem mais.. abração ae!
    ps: até a imagem é simpática! kkk

  29. Brian Oliveira Lancaster
    30 de setembro de 2016

    VERME (Versão, Método)
    VER: Excelente. Regionalismos não costumam me surpreender se a história não for boa. São enfeites necessários. Ainda bem que sua história, com jeito típico de folhetim, tem seu charme. Destaco o “fatídico” bom humor na hora do desespero.
    ME: A construção nos leva ao insólito e inusitado de cara, uma escolha bem acertada. O suspense cresce no decorrer e deixa o leitor interessado em tão estranho cortejo. As nuances de “cidade do interior” foram bem pontuadas. Encerrar com ironia, sarcasmo e bom humor, aumentou meu conceito sobre o enredo típico. E acho que já sei quem escreveu…

  30. Marcelo Nunes
    29 de setembro de 2016

    Olá Clarice

    Gostei da escrita, a leitura fluiu até o final. O vocabulário está muito bom.
    Alguns pontos achei divertido e bem combinado.

    As descrições estão bem claras. Achei alguns erros que passaram batidos, mas nada afetou o entendimento e a ideia do autor.

    Parabéns pelo conto.

    Boa Sorte!

  31. Ricardo Gnecco Falco
    29 de setembro de 2016

    Olá, autor(a)!
    Vou utilizar o método “3 EUS” para tecer os comentários referentes ao seu texto.
    – São eles:

    EU LEITOR (o mais importante!) –> Eu gosti! 🙂 O texto é muito rico em figuras de linguagem e profundamente imagético. Leitura começa com estranheza, devido ao linguajar peculiar, mas embarca na proposta do/a autor/a e flui sem entraves até o final. Destaque para a cena da abertura do caixão e a reação das personagens; a melhor parte do conto! De 1 a 10, daria nota 8 ao trabalho. Parabéns!

    EU ESCRITOR (o mais chato!) –> Escrita gostosa e com passagens célebres. Destaque para as descrições das cenas e profunda eficiência do/a autor/a em criar as imagens na mente do leitor. Gostei muito destas descrições: “A cova permaneceu aberta. O caixão permaneceu aberto. As pessoas permaneceram com a boca aberta. Por um longo minuto de silêncio. Não havia corpo. Apenas um punhado de papel crepom.” — descrições curtas e muito ricas. E, a melhor delas: “Sr. Bonifácio me olhava como quem havia esquecido a fala, na tentativa de informar à outro ator que desse continuidade ao texto.” Muito bom!!! 😉

    EU EDITOR (o lado negro da Força) –> Bela obra!

    Boa sorte,
    Paz e Bem!

  32. Priscila Pereira
    27 de setembro de 2016

    Oi Clarice, gostei muito do seu conto!! Gostoso de ler, bem escrito de um jeito informal. Os personagens são muito bem caracterisados, tem umas frases muito inteligentes. Parabéns e boa sorte!!

  33. Ricardo de Lohem
    27 de setembro de 2016

    Olá, como vai? Vamos ao conto! Uma história alegre e esfuziante, mas também bastante confusa e caótica. Uma coisa que me incomodou foi o excesso de descrições, acho que isso não cabe em uma história curta, mas talvez isso seja uma questão de gosto. Não tenho muito o que dizer desse conto, não tem defeitos evidentes, mas também não tem características capazes de me atrair, no geral achei que, para que gosta do estilo, deve ser bastante bom. Parabéns! Desejo para Você Boa Sorte!

  34. jggouvea
    27 de setembro de 2016

    Achei a linguagem um tanto forçada e ‘misturebada’. Isso não chega a ser um problema devido ao tom jocoso com que a história é contata, então esse lado caricatural do texto acaba servindo para construir o personagem. Só não sei se isso me agradou.

    A história é boa, e remete a muito conto popular de sucesso. Eu não gostei muito da maneira como o final foi narrado, aliás, cometendo um deslize frequente no resto do texto, que é a falta da agilidade. O autor precisa descobrir um caminho para narrar com agilidade as cenas que acontecem com rapidez, evitando aquela folha que cai da árvore durante oito páginas… Não que eu ache que o autor exagera, mas sim que o texto se beneficiaria, inclusive pelo seu tom jocoso, se o autor fosse mais ágil no clímax da história e conseguisse construir em seguida um anticlímax.

  35. Simoni Dário
    26 de setembro de 2016

    Olá Clarice

    O clima divertido da festiva Xiqueópolis foi muito bem narrado. O texto traz a propriedade de divertir sem provocar gargalhadas. De humor sutil e inteligente, conduz o leitor deliciosamente ao final despretensioso e clichê, o que torna o conto mais gostoso ainda.

    Uma leitura que desce redondinha. Quando terminei nem sabia se o tema do desafio estava nele ou não porque isso não importava. Mas ele está, o tema do desafio está lá, o tempo todo, com cara de novela brasileira.

    Parabéns pela excelente narrativa (com vocabulário afiado), estética, enredo e graça.

    Bom desafio.
    Abraço

  36. Amanda Gomez
    25 de setembro de 2016

    Ótimo conto!! Que escrita gostosa de ler, o ritmo impõe ao leitor que adentre na história e que participe, nem que seja imitando um sotaque.

    Gostei bastante da cidadezinha de Xiquenopolis, e de todas as descrições feitas, era nítida a voz dos personagens assim como suas figuras.

    Isso ainda é Brasil…. O tema foi atual, o desfecho, com o personagem referindo- se ao seu pé de meia, tal como o defunto que não era defunto foi muito boa também.

    O clima de cidadezinha, de moradores simplórios, porém, orgulhosos foi outro ponto alto.

    Achei que iria ter uma reviravolta do tipo: onde está o defunto. Mas não teve, e por isso adorei. O cara já lançar sua candidatura, tanto para seu bem, quando pelo partido, foi demais, e o povo aceitando isso, mostra um pouco de como são os brasileiros: omissos e memória curta.

    Enterrou o defunto e fim de história.

    O autor parece experiente e, deixou a criatividade em um tema que é difícil fazer algo original, fluir.

    Parabéns!!!

  37. Taty
    25 de setembro de 2016

    Ótimo conto, divertido, engraçado e inusitado.

    O autor é profissional, só pode.

    Escrita boa e contagiante, não dá vontade de parar de ler.

    Um dos melhores contos até agora, e de novo, não sei se basta ter um cemitério na trama ou um enterro, no caso, mas vou considerar todos como válidos.

    É isso.

  38. Evelyn
    24 de setembro de 2016

    Oi, Clarice.
    Muito bom conto. A linguagem flui e tem uma leveza bem diferente de alguns outros contos do desafio. Gostei também do vocabulário, da maneira como usa as palavras. Está dentro do desafio.
    Parabéns.
    Abraço!

  39. Claudia Roberta Angst
    24 de setembro de 2016

    O tema proposto pelo desafio foi abordado com sucesso. Lembrei-me também da novela O Bem-Amado. Inevitável fazer a relação.

    A linguagem empregada é bem particular, o que me agradou pela peculiaridade da narrativa. Estilo próprio de lidar com as palavras, escolhendo combinações inesperadas.

    O ritmo do conto é muito bom, segue natural como um rio sem pressa, mas também sem represa. Portanto, a leitura não se torna em nada cansativa.

    Alguns pequenos pontos escaparam na hora da revisão:
    Desapega da crase, menina! Regra geral: não use crase antes de masculino ou de verbos.
    meio à um sermão > meio a um sermão
    contando à todos > contando a todos
    juntou-se à mim > juntou-se a mim
    levado à passear > levado a passear
    E um errinho de digitação, creio:
    chance deu continuar > chance de continuar

    De resto, tudo muito bom. Boa sorte!

  40. Olisomar Pires
    24 de setembro de 2016

    Muito bom conto. Lembrei-me de Odorico Paraguaçu e sua Sucupira. Bem escrito e divertido. Vocabulário rico e naturalmente empregado. Personagens bem trabalhados e potencialmente um rio de outras estórias.

    Esse conto caberia como capítulo em um romance contando as proezas do protagonista.

    Parabéns !

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Informação

Publicado às 24 de setembro de 2016 por em Retrô Cemitérios e marcado .