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Literatura que desafia.

Acrônico – Conto (Jefferson Lemos)

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Das manhãs frias às noites vertiginosas, são das tardes de outono que mais tenho lembranças. Os gorros de lã se encaixavam na cabeça como capacetes de gladiadores. Tínhamos toda virilidade e disposição dos homens de armas, com aquela sede por aventura que era insaciável. Era estranho e ao mesmo tempo reconfortante; deitar sobre a neve macia e mimetizar anjos de brancura duvidável. Ainda é vívido o cheiro de terra embrenhado no gelo. Não era neve de boa qualidade, como a mãe costumava dizer.

O que tornava tudo mais esquisito era o fato de nevar no outono e o mesmo não acontecer no inverno. Depois que cresci, aprendi o que significava a palavra atemporal, e era assim que costumava me referir ao lugar: um lugar onde a primavera trazia chuvas torrenciais e o outono nevascas ocasionais. Atemporal, diferente de tudo que viria a acontecer na minha vida; tão temporária e inexorável quanto a areia de uma ampulheta.

Na época eu não sabia, pois nunca imaginaria.

Naquele tempo, tudo que eu queria era observar as folhas caindo enquanto o orvalho congelava, enchendo de pingentes as árvores de sonhos. Olhar Marina correndo pela rua, com seu sorriso encantador, era como ouvir uma orquestra reproduzindo a mais bela melodia que já se ouviu… um final tão trágico para uma criatura tão divina.

Eu tinha 12, quando sua vida foi ceifada. Um carro e um sinal vermelho, e nada além disso. Acho que foi aí, nessa crônica temporal de um lugar sem tempo, que tudo começou a mudar. Hoje sou velho e argumento como um adolescente na flor da idade – falta-me maturidade –, mas adquiri um discernimento que só chega com certo número de dezenas. Estava no topo, jogando bolas de neve e gritando para o mundo o quão eu era capaz de tocar o céu, feito um atlas inverso que segura o firmamento e nem mesmo boceja. Mas esse ponto, essa morte, essa falta de vida, me fez descer a montanha em uma escalada lenta e dolorosa.

Não vou dizer que a vida não me revelou raios de sol nas nuvens geladas, mas hoje, quando paro e penso, nada disso fez muita diferença.

Conheci Alana ainda com 18 anos. Um sorriso encantador num rosto oval e de olhos verde mar. Nenhum marinheiro hesitaria em se lançar à deriva naquelas águas plácidas. E eu, como bom homem dos mares que era, sucumbi às suas ondas.

Casamos, vivemos duas longas e felizes décadas, e no vigésimo primeiro ano, tivemos um filho.

E esse filho morreu.

Alguém que teria muitas semanas pela frente, que se transformariam em meses e anos, mas foi levado na primeira. Doença Pulmonar das Membranas Hialinas. Esse foi o nome que o médico deu para a morte do meu filho. Como todo ser humano, eu não aceitei. Briguei, chutei, esperneei; causei alguns hematomas na face do doutor. “Eu compreendo”, ele me disse depois do ocorrido. Eu queria pedir desculpas com sinceridade, mas as palavras saíram apenas por um decoro facultativo. Não, ele não compreendia. Ninguém compreendia.

Após esse episódio, tudo passou a ser resquício. As vontades, os sonhos, o trabalho, o casamento, a vida… meros fantasmas de um corpo que já partira em uma longa viagem. E eu, nesse espectro difuso atrelado a uma vida artificial, me rendi ao inevitável.

Primeiro o álcool, depois os cigarros e então o divórcio. Alana não me suportou por muito tempo. Eu estava quebrado. Ela também, mas era uma mulher de fibra. Lutou até os últimos minutos, enquanto minha indiferente falta de vontade martelava cada caco do que restara dela. Desmoronando suas emoções como um castelo de cartas; todas velhas, castigadas pelas intempéries do tempo.

Não chorei quando ela partiu. Ao contrário, sorri. Sorri porque finalmente ela estava livre. Livre de mim. Livre das minhas tristezas e da minha queda catastrófica em direção aos rochedos.

Talvez uma tragédia vingativa pudesse se desenrolar das peripécias do destino, mas não comigo. Nem o mais nobre poeta seria capaz de me imbuir com a motivação necessária.

O vento do Norte sopra na sacada da varanda, frio e vazio, enquanto fecho os olhos e sinto a inexistente vastidão que traz consigo. Renova as energias e me transporta para um lugar há muito perdido. O chão convidativo me chama como uma dama embebida em luxúria, e os meus 44 anos já pensam em ceder.

Aquelas retrospectivas, que passam pela mente de todo suicida, cruzam através da minha, enquanto os dedos tocam o mármore gelado e me alçam de pé sobre a mureta. Olho para baixo, o semblante decidido de quem sabe o que faz. Como sei disso? Eu não sei, mas certamente imagino. Sinto uma gota escorrendo pela bochecha e salinando a boca e penso: talvez não seja tão destemido assim…

Eu quero abrir os braços e me lançar. Deixar o corpo pairar e descer como um salto de paraquedas para eternidade. Quero ver, pela última vez, o cobre de verão sendo varrido pelo bege da neve suja. Ouvir uma risada maravilhosa que orquestra meus sonhos para livrar-me de pesadelos. Deitar e deixar que o anjo alvo ganhe cor…

Mas, como sempre, sou fraco demais. Não percebo quando foi que desci, e nem mesmo quando me encolhi em um canto e comecei a chorar. Talvez o mundo real coloque tanto peso sobre mim a ponto de fazer-me o verdadeiro Atlas. Não segurando o topo do céu, mas a base do tudo. Há uma obrigação em manter-me aqui, de pé, mesmo quando todas as coisas me dizem que não. As placas de concreto me chamam, o vento assobiante me seduz, e as lembranças, ah, as lembranças… são como filmes rodando em super8, num looping sem fim de imagens em sépia.

Se não posso morrer, então não quero fugir. Não quero. Tudo que quero é ficar aqui. Fazer desse lugar um ponto de fuga, uma válvula de escape, do mundo que tanto me cobra e nada me devolve. Viver por primaveras, verões, outonos e invernos. Apenas viver.

Como se o mundo, com seu tudo e seus todos, fosse um grande lugar atemporal.

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12 comentários em “Acrônico – Conto (Jefferson Lemos)

  1. Neusa Maria Fontolan
    24 de agosto de 2016

    como sempre eu gosto do que você escreve, esse conto não é exceção. Parabéns.

  2. Eduardo Selga
    30 de junho de 2016

    Particularmente considero os personagens trágicos os mais difíceis de serem bem elaborados. Mais até do que os dramáticos, e pelo seguinte motivo: estes, diante de tensão ou reviravolta narrativa, não raro perdem o eixo comportamental e até de caráter, ou seja, “saem dos trilhos”; os trágicos, contudo, sob as mesmas condições, mantêm certa coerência de “personalidade”. É isso o que ocorre com o narrador-personagem desse conto, se observarmos que certo ar depressivo visível na ameaça de suicídio o acompanha desde muitos anos anteriores ao momento em que ele vai à varanda e sobe da sacada de mármore.

    Não apenas a “estabilidade emocional” de que falei no parágrafo anterior é elemento trágico presente nessa narrativa: há também a queda, essencial e definidora da narrativa trágica. Até certa fase da infância, o narrador-personagem estava inteiro, mas começou a ruir quando sua amiga e/ou paixão secreta morreu. A ruína teve seu ritmo fortemente contido com o casamento, mas quando a esposa também falece, há o inevitável desabamento. Este não se configura com a morte por suicídio, mas com uma falência interna.

    Personagem trágico pode cair em definitivo ou cair e recuperar-se em alguma medida. O narrador-personagem do conto é do segundo tipo, e aqui eu gostaria de fazer uma sugestão ao autor: revisar o texto, o que talvez signifique apenas estender os dois últimos parágrafos, deixando mais nítida essa resiliência.

    Outro aspecto valoroso e que demandaria melhor trato é a ideia de atemporalidade. O lugar de que o narrador-personagem tem uma grata lembrança emocional funciona para ele como uma espécie de Paraíso particular. É uma idealização tão forte que ao fim ele, próximo do suicídio que não se concretiza, afirma que seria ótimo “se o mundo, com seu tudo e seus todos, fosse um grande lugar atemporal”.

    Quero chamar a atenção para o seguinte trecho: “Hoje sou velho e argumento como um adolescente na flor da idade – falta-me maturidade –, mas adquiri um discernimento que só chega com certo número de dezenas”. Em primeiro lugar, mas não o mais importante aqui, temos a demonstração de que o personagem trágico reagiu, mas, insisto, precisa ficar melhor demonstrado, conforme já disse. No entanto, o mais importante me parece estar no fato de que a sentença não está adequadamente construída, embora esteja gramaticalmente correta. Quando o narrador-personagem diz “só chega com certo número de dezenas”, há o emprego lícito da elipse, em uma forma específica, a zeugma, porque é possível entender que após a palavra DEZENAS foi omitida a expressão DE IDADE. No entanto, quero crer que a primeira ocorrência da palavra IDADE na sentença, necessária para que se construa o subentendido, está demasiadamente distante da porção final, onde se dá a zeugma. Isso, para alguns leitores, complica. Para que tivesse funcionado adequadamente o recurso, a distância deveria ter sido menor.

  3. Priscila Pereira
    24 de junho de 2016

    Olá Jefferson, gostei do seu texto, bastante visual, se me permite dizer achei um pouco confuso… quem é Marina? Sei que é uma linha de raciocínio do personagem, mas poderia ser melhor explicada para um bom entendimento do leitor.Gostei de ler seu texto! Parabéns!!

    • Jefferson Lemos
      26 de junho de 2016

      Oi, Priscila!
      Obrigado pela leitura!

      Então, optei por uma história mais curta, onde não se diz muito e o resto o leitor supõe. Pra você, quem é Marina? Invente uma história da paixonite de duas crianças e essa será a Marina que um falho suicida amou. 🙂

      Fico feliz que tenha gostado!

  4. Davenir Viganon
    24 de junho de 2016

    Gostei bastante, parabéns!

  5. angst447
    24 de junho de 2016

    Mudando de estilo? Senti um certo tom melancólico poético por todo o conto. Claro que isso se dá porque a narrativa fundamenta-se nos sentimentos do narrador e sua desesperança diante das dores atemporais.
    Fiquei pensando no casamento do narrador com Alana. Levaram vinte anos para ter um filho? Ela tinha 18 quando se conheceram, se o casamento aconteceu logo, ela tinha quase 40 anos quando teve o filho. Tudo bem. Mas por que vinte anos de espera?
    Há algumas expressões clichês espalhadas pelo conto – vida foi ceifada/olhos verde mar/ Não acho isso ruim, pois segundo dizem – a vida é um enorme clichê.
    Concordo com o Brian, o conto teria alcançado boas notas no desafio Cotidiano.
    Percebe-se a nítida evolução da sua escrita e o amadurecimento de sua percepção dos sentidos e sentimentos. Parabéns!

    • Jefferson Lemos
      26 de junho de 2016

      Obrigado pelo comentário, Clau!

      Estou passando por um processo de reciclagem literária, para aprimorar um pouquinho a forma de escrever, porque já está na hora. Haha

      Então, estou começando a trabalhar um pouco mais essa coisa dos sentidos e sentimentos (ainda bem que está melhorando). Quanto ao clichê, a vida tem dessas coisas mesmo e eu quis fazer um caso bem clássico de quem quer se matar (existe caso clássico pra isso?). Quanto ao tempo das crias, uns dão sorte, outros não. D:

      Obrigado pela leitura! 😀

  6. Olisomar Pires
    23 de junho de 2016

    Belo conto sobre a inutilidade da fraqueza. Muito bem escrito e prenhe de emoções. Parabéns !

    • Jefferson Lemos
      26 de junho de 2016

      Exatamente isso, Olisomar. A força nula da nossa impotência.

      Agradeço a leitura!

      Um abraço!

  7. Brian Oliveira Lancaster
    23 de junho de 2016

    Olha aí. Inspiração para o próximo desafio? No Cotidiano este texto ganharia uma ótima nota – consistente, bem emotivo e melancólico. Uma ou outra passagem mais romântica, mesmo que rápida (o que destoou um pouquinho), mas todo o conjunto é bem “vivo” e flui.

    • Jefferson Lemos
      23 de junho de 2016

      Valeu, Brian!
      É algo experimental e que muito me agradou. Talvez algo bom saia disso. 😀

      Obrigado pela leitura!

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Informação

Publicado às 22 de junho de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .