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Literatura que desafia.

Vício Silencioso – Conto (Juliana Calafange)

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São vinte um dias do segundo mês da terceira década do milênio, e há algo muito estranho acontecendo. Desde o ano passado, o silêncio parece ter desaparecido. Falo do silêncio propriamente dito. Não é aquele silêncio de quando a gente acampava no mato, som de insetos, grilos, corujas. Falo daquele silêncio mesmo, total. Um silêncio que já era raro, principalmente na cidade, onde tudo parece ter sido feito pra fazer barulho: os carros, ônibus, caminhões, fábricas, televisores, afiadores de facas, vendedores de vassouras, de pamonha, compradores de ferro velho, sinos de igrejas, cachorros, gatos e pássaros de gaiola, panelas na cozinha, descargas de banheiro, janelas de alumínio abrindo e fechando, secadores de cabelos, aspiradores de pó, telefones fixos e móveis com diversos toques polifônicos, o vendedor de algodão doce, ou de qualquer outra coisa. Obras da prefeitura, para a melhoria da urbe, ou simplesmente obras particulares, residenciais, pequenos consertos, barulho constante, das 7h da manhã às 22h da noite (se você não morar perto de um bar ou boate…). Os jovens e adolescentes falando alto ou ouvindo em volume alto seus “sons” do momento. Os bebês e crianças a testarem seus pulmões todos os dias.

A princípio pareceu a todos nós uma coisa normal, natural e necessária. Os velhos reclamando do barulho dos vizinhos e os vizinhos usando os instrumentos mais barulhentos: martelo, serra, marreta, bombas; as mulheres com seus tamancos de madeira, vassouras, gritos estridentes e enciumados! Os homens com suas últimas palavras, seu futebol fanático. Fodas cada vez mais escandalosas, gatas miando no cio, cachorros enclausurados clamando por sua liberdade, música que só agrada a uns poucos e precisa ser ouvida por todos, festas, oficinas mecânicas, aeroportos, estações de trem, de metrô.

Tudo aconteceu aos poucos, é claro. Ninguém percebeu a princípio. Foi tudo muito gradual. As pessoas se incomodavam e mantinham a pose de quem não se importa, pose de quem se adaptou, uma vez que adaptar-se era o lema do momento; porém no fundo sentiam que alguma coisa estava além da conta. Mas também iam se acostumando gradualmente com o barulho, sabendo que não havia muito a fazer, que era uma coisa maior que a vontade de todos, era uma onda quase natural, um processo global, cultural, impossível de conter.

Até que começaram a surgir os primeiros sinais de que a coisa era séria. Séria para toda a humanidade. Foi no dia em que se viu a primeira propaganda comercial de um pedaço de silêncio.

Veja bem, com o avanço da tecnologia e da medicina nos últimos anos, eu realmente esperava ver um velho sonho concretizado: “mutucas” de neurônios podendo ser compradas em qualquer botequim, qualquer morro da cidade, a preço de um baseado; achava que chegaria uma hora em que se faria não apenas uma cirurgia plástica para aumentar peitos e bundas, eliminar varizes, celulites e rugas; mas também uma cirurgia orgânica, onde se pudesse trocar de fígado, depois de três décadas freqüentando botequins. Achei que a tecnologia faria possível trocar de pulmão; trocar um velho pulmão, negro de alvéolos carbonizados por um novo em folha, para se viver mais 40 anos. Para minha surpresa e decepção, muito antes disso acontecer, infelizmente, eu vi o silêncio ser vendido em pedaços.

– Cinco minutos, 200 pratas!!! Super promoção!

Cinco minutos era nada, mas pensando bem, do jeito que estavam as coisas, lá em casa eu não conseguia cinco minutos de paz pra fazer uma ioga ou meditação, nem pra escrever um poema, coisa que eu já estava sentindo falta; não dava pra ver TV concentradamente, não dava pra falar direito ao telefone. Por todos os lados, tinha um bate-estaca de uma obra, ou uma furadeira de um vizinho recém-mudado, ou o tamanco de madeira da moça que mora em cima, ou o baterista do prédio do lado, ou a oficina de frente de casa. Realmente, tudo o que eu podia pensar em querer a principio eram cinco minutos no silêncio, tomando uma cerva, fumando um e talvez fazendo palavra-cruzada.

Antigamente eu diria “lendo um livro”, mas hoje em dia ler é quase um ato subversivo, uma vez que ninguém tem paciência pra mais de cento e poucos caracteres. Talvez seja por isso que os poucos livros que temos tratem de uma realidade que não existe mais, uma realidade que já acabou. Parece que hoje não há mais sentimentos, ou relações interpessoais, tudo anda muito superficial e sentir certas coisas é até um risco atualmente.

Por tudo isso, compreendo quem começou a pagar por esses 5 minutos. Realmente valia o preço, pra quem podia pagar, é lógico. Isso para mim estava muito claro realmente. Como estava claro o que as pessoas que não tinham dinheiro pra pagar pelo silêncio começariam a fazer em breve, por esse pedaço de falta de som. É claro que o silencio é necessário a todos. Mas só poucos podiam pagar por ele. E quando se começasse a roubar e matar por esse direito, como fizeram antes, pelo direito de andar a pé, de tomar sol na praia, de beber água ou tomar banho?

Sinceramente, eu mesmo comecei a juntar dinheiro para comprar um pouco de silêncio.

 

A PRIMEIRA VEZ A GENTE NÃO ESQUECE

Da primeira vez que experimentei o silêncio, foi demais! Primeiro eles colocam a gente num quarto fechado. Na verdade parecia mais um tipo de estúdio de gravação, totalmente vedado ao som externo, cada centímetro de parede coberta por um tecido super anti-acústico, muito mais poderoso que as velhas caixas de ovo ou aquele tecido de manta que esquenta pra caralho e atrai ácaros e fungos. Era um tecido branco, liso como nunca vi, coisas da tecnologia. Não havia, pelo menos aparentemente, nenhum tipo de ar condicionado ou ventilação. Mas era extremamente fresco o ar dentro do quarto. Antes de fechar a porta, o rapaz acionou um cronômetro e disse:

– O senhor tem cinco minutos a contar de agora.

Foi uma sensação incômoda a princípio. Aquele silêncio todo me oprimia, me sufocava. Eu não estava mais acostumado. Tossi várias vezes. Depois, aquele ar fresco demais me provocou uns duzentos espirros. Tentei me colocar numa posição confortável. O quarto era todo forrado com o tal tecido branco e possuía diversas poltronas, sofás, almofadas e camas de diversos estilos e texturas para a “escolha do cliente”, tudo em tons de azul. Me acomodei numa espécie de divã e tentei apenas respirar e curtir o silêncio. A impressão que eu tinha era que já se passavam uns 15 minutos que estava lá. Pensava: “o cara deve ter esquecido de olhar o cronômetro. Espero que não venham me cobrar por esse tempo extra, pois não vou pagar um centavo a mais. Se eles erraram na contagem do tempo, não é culpa minha.”

Nesse momento percebi como o silêncio se tornara pesado. Eu simplesmente não conseguia me concentrar na minha própria respiração. Parecia ouvir no fundo da minha cabeça aquela marreta da obra do vizinho. Às vezes chegava a escutar os passos pesados da vizinha de cima sobre a minha cabeça. O miado do gato vinha intermitente, ao longe.

Esforcei-me para me concentrar. Aos poucos, os sons foram desaparecendo um a um. Primeiro foi sumindo o gato, depois a vizinha e o som da marreta começou a fazer contratempo com o ar entrando e saindo do meu pulmão. Foi nesse momento que reconheci o silêncio. Aquele silêncio que já não ouvia há tanto tempo. Aquela sensação tranqüila de estar em silêncio. E me lembrei enfim do enorme prazer que o silêncio pode proporcionar. Foram segundos de êxtase, de glória, e eu nem fumei o tal baseado!

Foi nessa hora que a porta se abriu e uma voz suave disse:

– Senhor, seus cinco minutos terminaram. Levante-se lentamente e volte devagar à ante-sala. A Silent Blue agradece a sua preferência.

 

OS ANTECEDENTES

Eu já tinha experimentado sensação semelhante, quando um circo de bizarrices passou pela cidade. Eles vendiam oxigênio. Mas não era oxigênio de galão, como fazem em cidades de grandes altitudes. Era oxigênio puro e simples. No meu aniversário do ano retrasado, alguns amigos fizeram uma vaquinha e pagaram 150 pratas para me dar de presente a tal experiência. Foi realmente bizarro.

A história consistia em trancar-se dentro de uma espécie de banheiro; o recinto tinha uns três metros quadrados, todo forrado de azulejo. Havia um tanque, uma espécie de piscina, ou daquele tipo de banheira que existia em apartamentos muito antigos. Os velhos devem se lembrar. Esse tanque era preenchido com algum liquido combustível. Tinha uma espécie de acendedor, que soltava uma pequena faísca, como quem risca um fósforo. Então começava pegar fogo no combustível e a fumaça ia tomando conta de todo o ar existente no local. E, como toda fumaça, ia tomando primeiro a parte de cima do aposento, e a gente ia naturalmente se abaixando, até quase rastejar por um pouco de oxigênio. E quando a gente tava quase morrendo, implorando pra sair daquela sala fechada e repleta de fumaça, o encarregado abria a porta do recinto. A baforada de oxigênio que entrava então, com uma força tremenda, invadia as nossas narinas, arrasando todos os nossos sentidos. Dava realmente uma “onda”. Fiquei meio anestesiado, meio fora de ar, demorei um pouco pra me lembrar onde estava e que havia outras pessoas ali comigo. Foi muito estranho, mas valeu super a pena. Valeu todos os centavos que meus amigos pagaram!

A parte ruim é que quando saí, me fizeram preencher um monte de fichas eletrônicas, que me geraram uma série de propagandas e malas diretas em série. Todos os dias eu recebia no meu computador um spamfleto contendo as promoções da semana: “30 segundos de oxigênio puro por 50 pratas, se levar dois amigos”, “junte 50 selos e ganhe 280 pratas em bônus!”

Era quase imperdível!

Mas nada disso se comparava ao prazer de experimentar o silêncio!

 

O PRINCÍPIO DO VÍCIO

Comecei comprando “trouxinhas” de cinco minutos de silêncio, uma vez por mês, já que o meu salário não comportava maiores extravagâncias.

Um dia meu chefe finalmente atendeu ao meu pedido e me providenciou um merecido aumento. Ele meteu aquele sorriso sarcástico na cara, me deu um tapinha nas costas e perguntou: “Já sabe o que vai fazer com esse dinheirinho extra, meu caro?”. Respondi que pretendia guarda-lo no banco, juntar um capital para o futuro. Ele sorriu satisfeito. Mas eu no fundo sabia que jamais me passaria pela cabeça colocar o dinheiro no banco. Queria mesmo era gastar tudo em silêncio!

Então me arrisquei pela primeira vez no pacote dos 15 minutos. Custava uma verdadeira fortuna: 600 pratas! Era mais que o aumento que tive no salário. Mas também valeu à pena. Dessa vez levei a cerva e a palavra-cruzada. O baseado resolvi não levar porque apesar de todas as tentativas do Partido Hemp, a maconha continuava proibida e eu não queria me arriscar. Nessa época eu ainda não era um “contraventor” de verdade. Então, fumei um antes de sair de casa e depois me meti no carro com meia dúzia de cervejas geladas e fui direto pra Silent Blue. Mas não pense que me deixaram entrar com as “lourinhas” de graça. Tive que dar quatro delas, uma pra cada segurança, pra eles fazerem vista grossa. “E depois o senhor some com as latinhas vazias, senão eu perco meu emprego”, disse o atendente.

Foi MA-RA-VI-LHO-SO!!! Pareceram horas de puro prazer. Já tinha até me esquecido como era bom fazer palavra-cruzada em silêncio. O pensamento fluía e eu terminava o jogo muito mais rápido, sem nenhum ruído pra atrapalhar as neurotransmissões! Sinceramente, depois desse dia, parei de fumar baseado. Pra que baseado? O silêncio é o melhor dos bagulhos!

Na verdade, o lado bom desses novos vícios modernos é que são todos legalizados. No caso da Silent, bastava assinar um documento dizendo que me responsabilizava por todos os efeitos que o silêncio por ventura viesse a me causar e pronto: era só curtir e relaxar!

O lado ruim era o preço. Realmente exorbitante. Eu achava que isso era só por causa da novidade, que com o tempo, tendo o silêncio ali disponível em qualquer filial da Silent Blue, e com novas prestadoras do “serviço” sendo abertas, o preço ia acabar diminuindo e todos poderiam usufruir dessa dádiva com mais freqüência e menos prejuízos financeiros.

Doce ilusão. Muito antes disso acontecer, se é que vai acontecer um dia, eu já me tornara um adicto.

 

O PROCESSO

Na verdade, levei algum tempo pra perceber o que estava acontecendo comigo. Só sei que comecei a ficar muito nervoso com os barulhos da minha vida. Parei de usar computador em casa, porque o barulho que ele fazia ao ligar e desligar me irritava profundamente. Isso sem falar na impressora, que eu já tinha aposentado e dado de presente pra minha prima, que mora bem longe de mim, pois já não suportava mais o som nhec-nhec-nhec-nhec que ela fazia pra funcionar. TV parei de assistir logo depois da minha terceira sessão de 15 minutos. Aquela falação toda dos filmes, novelas, noticiários e enlatados policiais, com todos aqueles tiros, eram demais pra mim. O ruído da geladeira mudando a climatização também me irritava, as crianças voltando do colégio falando alto pela rua me irritavam. Me irritava o som da água passando pelo cano dentro da parede quando o vizinho do lado usava a pia. O rádio do vigia noturno da minha rua durante madrugada me deixava completamente louco!

Comecei a faltar ao trabalho depois da minha sexta sessão na Silent, pois não agüentava mais todos aqueles equipamentos eletrônicos barulhentos, interfones, telefones, mouses sendo clicados, gavetas sendo abertas e fechadas, o rumor sempre presente do ar condicionado central, a voz da secretária e da recepcionista, a voz do chefe então nem se fala! Pessoas falando por toda parte! Por estes e outros motivos, como o barulho do trânsito na ida e na volta (nunca tinha notado o quanto as pessoas gostam de buzinar nesta cidade!), eu faltava o mais que podia, falsificava atestados médicos, tampava o nariz ao telefone pra dizer que estava “béssimo de gribe”.

Mas, logicamente, eles acabaram desconfiando e me mandando embora.

E eu não perdia por nada a minha sessão semanal (já tinha deixado de ser mensal há muito tempo) de silêncio. Depois passou a ser 2 vezes por semana, depois 3. Torrei toda a grana da rescisão de contrato, do FGTS e mais as cinco parcelas do seguro desemprego em poucos meses. Botei tudo no silêncio!

 

AS BOAS RAZÕES

Depois de um tempo, voltei a gostar de ler e passei a levar livros para a minha salinha cativa na Silent Blue, pois descobri que com o silêncio eu podia até mesmo acreditar que os sentimentos voltaram a ser profundos, que as relações interpessoais voltaram a ser relações “humanas”. Era tão bom ler no silêncio. Tudo no silêncio era melhor: comer, dormir, acordar, ler, beber, escrever… Pois é, depois que eu conheci o silêncio, também voltei a escrever poesias. E acho mesmo que estavam ficando boas.

 

AS MÁS CONSEQUENCIAS

Hoje confesso que já tive que roubar pra conseguir dinheiro pro meu silêncio. Mas comecei apenas pedindo. Eu sempre brincava com as pessoas: “é melhor pedir, do que roubar…” E elas sempre davam. Mas aí começaram a sair matérias na TV, que eu não soube a princípio porque não via mais TV, dizendo que o silêncio estava viciando as pessoas e pessoas viciadas em silêncio estavam se tornando muito agressivas, o que seria perigoso demais para a sociedade.

Pararam de me ajudar. Quando eu pedia, as pessoas me olhavam de cara feia e negavam. Ou simplesmente fugiam de mim. Eu bem que tentei ficar um tempo sem silêncio, juro que tentei. Ninguém mais me ajudava a comprar silêncio, mas também ninguém parava de fazer barulho! No dia que uma família barulhenta, que só gritava e falava palavrão, se mudou para o apartamento na frente do meu, eu sucumbi.

Foi quando roubei pela primeira vez. E o alvo escolhido foi obviamente a família da frente. De tanto gritarem eu já sabia direitinho os horários deles e foi fácil descobrir quando a casa ficava vazia, por causa do silêncio, e por quanto tempo. Tempo suficiente para entrar com a cópia da chave que a filha da vizinha me emprestou pra que eu olhasse a tia doente porque ela tinha que sair pra trabalhar, e não tinha ninguém pra cuidar da velha. Achei muita ingenuidade de uma galera que só fala palavrão, cheia de marra, dar um mole desses de me emprestar a chave; mas certamente com a energia que empregavam para armazenar palavras chulas e fazer barulho, não devia sobrar muito espaço no “HD” para coisas como o raciocínio lógico, puro e simples.

Fiz a festa! Naquele dia fiquei duas horas inteiras em silêncio, pratiquei ioga até quase atingir o Nirvana! Sim, porque acho que ninguém alcança realmente o Nirvana, sabe, nem os monges do Tibet, isso é mais uma questão metafórica, na minha opinião. Li o Yoga Sutra de traz pra frente e voltei aliviado para casa.

Daí comecei a perder a vergonha, pegava os otários dos motoristas barulhentos naqueles engarrafamentos infernais. Num engarrafamento daqueles, ninguém podia fugir de mim, e fazer cara feia definitivamente não adianta quando se está sob a mira de uma bela faca de churrasco. Parece antiquado, mas era a única coisa que eu tinha em casa, que ainda não tinha vendido pra pagar pelo silêncio.

Assaltei a casa de mais dois vizinhos do prédio, a moça do tamanquinho de madeira e o cara da furadeira do terceiro andar. Vestia uma velha máscara de esqui que nunca pude usar nesse clima tropical, mas que servia pra não ser reconhecido pelas câmeras de segurança.

Uma vez assaltei o vendedor de pamonhas. Foi uma glória! Sempre quis me vingar dele. Não é que o velho tava cheio da grana? Deu uma hora e meia de silêncio!

Assim fui seguindo, sustentando meu vício. Sinceramente achava que era o melhor vício do mundo: mente, corpo e ouvidos sãos!

 

O PRENÚNCIO DO FIM

Há pouco tempo, voltava de uma bela sessão na santa paz do silêncio, tinha conseguido grana pra 40 minutos e tinha aproveitado para organizar meus poemas, pois pretendia tentar a edição de um livro. Talvez desse uma grana, eu podia vender na rua e arranjar uns trocados. Se bem que ninguém mais lê poesia hoje em dia. Tenho um amigo poeta que passou a “trocar” os livros de poesia dele por chope, já que não tem dinheiro pra beber. O problema é que quando ele fica bêbado, os clientes desistem, poeta bêbado é muito chato.

Nesse dia cheguei em casa com sono e queria dormir mais cedo, mas a televisão do vizinho, alta como sempre, transmitia o Jornal da Noite. Fui “obrigado” a ouvir a notícia de que o governo ia fechar a Silent Blue, por aliciamento e apologia ao “vício silencioso”, como eles agora se referiam à questão das pessoas adictas – ou adeptas, como eu prefiro – do silêncio. Disseram que, para ajudar essas pobres vítimas do vício, o governo também iria disponibilizar clínicas de reabilitação gratuitas.

Meu coração disparou! Percebi que algo terrível estava acontecendo. Mais terrível que passar semanas ou meses numa clinica para viciados, mais terrível que o fechamento da Silent, era essa sensação de que o silêncio estava prestes a desaparecer para sempre.

 

A DERROTA DO SILÊNCIO

E foi assim que aconteceu. Após o fechamento da Silent, também foram fechadas todas as empresas similares. Até aquele circo bizarro que eu fui há dois anos atrás foi proibido de vender oxigênio. Diziam que a “baforada” de O2 provocava sensação de silêncio momentâneo e que isso era prejudicial à saúde.

O governo realmente abriu diversas clínicas de reabilitação para os adictos silenciosos, como eu. Apesar de ainda haver casos esporádicos de ataques feitos por viciados enfurecidos, parece que, lentamente, o silêncio tem sido derrotado em cada esquina barulhenta da cidade.

Tenho passado por dias terríveis! As crises de abstinência são constantes, mas não me resta outra coisa a não ser me “adaptar”.

Nas ruas, nas casas, nos bares, nas escolas, nas igrejas, por todos os lados existe uma campanha ferrenha contra o silêncio. Cada vez mais a população se empenha em fazer barulho, como se o barulho que fazem fosse a garantia de que estão todos vivos. Vivos e fazendo barulho, propagando ruídos infindáveis, numa tentativa de legar às próximas gerações uma prova de nossa vã existência. Garantir que o som se espalhe pelo espaço infinito, permitindo até mesmo que outras civilizações do universo possam saber quem somos e conhecer nossa barulheira infernal. É uma forma de “patriotismo terráqueo”, de impor nossa superioridade sobre possíveis seres silenciosos que por ventura compartilhem da nossa galáxia.

Hoje, algo realmente estranho está acontecendo. Sinto como se todos os pequenos sons que ouço ao meu redor se encontrassem numa sinfonia atonal, numa cacofonia harmônica, num ruído de fundo impossível de ser eliminado. Mesmo à noite, quando o volume dos barulhos diminui, ainda se pode perceber o ruído permanente, como se o silêncio como o conhecemos não existisse mais.

 

TODOS SURDOS

Nunca mais o silêncio total. Um silêncio que já era raro e caro.

Hoje, terceira década do milênio, só resta a cidade, onde tudo parece ter sido feito pra fazer barulho. Hoje só restaram os carros, os ônibus, os caminhões, as fábricas, os televisores, os afiadores de facas, os vendedores de vassouras, o de pamonha não apareceu mais por essas bandas. Mas ainda há os compradores de ferro velho, os sinos das igrejas, cada vez mais igrejas, mais cachorros, gatos e pássaros de gaiola, panelas na cozinha, descargas de banheiro. Cada vez mais telefones móveis com muito mais toques polifônicos. Também se multiplicam as obras da prefeitura, que parecem que nunca vão melhorar a urbe, e mais e mais obras particulares, residenciais, pequenos consertos, porque tudo também parece ter sido feito pra durar pouco. Hoje só resta o barulho constante, 24 horas por dia, 7 dias por semana, incluindo domingos e feriados. Os jovens e adolescentes não têm mais assunto, não lêem, não comem direito, não fazem palavra-cruzada, mas continuam falando muito alto e ouvindo a mil decibéis os seus “sons” do momento. E os bebês e crianças precisam testar seus pulmões cada vez mais alto, para serem escutados, porque hoje em dia estão todos ficando surdos.

Percebi há poucos meses, quando estava indo para a minha sessão semanal de reabilitação na clínica do governo. Falei com a vizinha do tamanco no elevador e ela não respondeu. Achei que ainda estava com raiva porque roubei seu apartamento, mas quando falei com o porteiro e ele também não escutou, quando falei com o moço da padaria e ele não ouviu o meu pedido, quando cumprimentei o médico na clínica do governo e ele não disse nada, continuou olhando para a minha ficha, de costas pra mim, eu percebi que algo muito estranho está acontecendo.

Quem disse que a surdez não é uma escolha? Talvez seja tarde demais agora para nos livrarmos do vício do silêncio. Talvez os esforços do governo jamais alcancem seu objetivo, porque as pessoas agora estão ficando surdas. Talvez agora elas estejam escolhendo definitivamente o silêncio como meio de vida, e nada mais possa ser feito para reverter esse quadro.

De repente, quando a gente menos perceber, não adiantará mais que os carros, os ônibus, os caminhões, as fábricas, os televisores, os afiadores de facas, os vendedores de vassouras, de pamonha ou de qualquer outra coisa façam seu barulho. Nem os sinos das igrejas serão mais ouvidos. Nem os cachorros, gatos e pássaros de gaiola, nem as trepadas insanas, nem as panelas na cozinha, as descargas de banheiro. De nada mais servirão os telefones a gritar com todos os seus toques polifônicos. Também poderão se multiplicar milhares de obras da prefeitura, porque a urbe estará surda. Os particulares ainda farão mais e mais obras residenciais, pequenos consertos, só que ninguém mais vai escutar. Em breve, só restará o silêncio constante, 24 horas por dia, 7 dias por semana, incluindo domingos e feriados, porque o mundo ficará completamente absorto no silêncio…

 

A REDENÇÃO [susurrus]

Há resistência. Algumas pessoas começam a perceber que o fim do silêncio como conhecemos está próximo, e estão tentando fazer alguma coisa. Já há notícias, esparsas é verdade, mas há, de comunidades isoladas que ainda não ficaram surdas e praticam o silêncio como ritual. Dizem que habitam um lugar longe da grande urbe, que sentam-se em círculo todas as noites e ficam em silêncio, se concentram no silêncio, por hora se horas. Dizem que essa gente é feliz. Eles vivem do que cultivam, falam pouco, e qualquer instrumento que produza barulho é terminantemente proibido na comunidade. Só permitem o uso de antigas vitrolas, mas utilizam headphones quando querem ouvir música. São considerados criminosos pelas autoridades, mas dizem que na verdade são poetas.

Eu estou planejando uma fuga em breve, quero me juntar a eles. Talvez eles gostem das minhas poesias. E talvez eu viva lá pra sempre.

*

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13 comentários em “Vício Silencioso – Conto (Juliana Calafange)

  1. Neusa Maria Fontolan
    24 de agosto de 2016

    Por favor, vamos fazer silêncio aqui? – Achei meio cansativo, mas no geral gostei da história.

  2. Olisomar Pires
    27 de junho de 2016

    Belo conto. Cativante. Lembrei de Saramago e sua “cegueira” num mundo tão visual. Parabéns.

    • JULIANA CALAFANGE
      30 de junho de 2016

      Uau! Não sou digna de tal comparação, Saramago é meu autor predileto! Muito obrigada pelo elogio! Que bom que você gostou!

  3. Eduardo Selga
    26 de junho de 2016

    Muito inteligente a ideia de o silêncio ser uma mercadoria, assim como o oxigênio. E, mais do que isso, um produto considerado pelas autoridades perigoso à população.

    Outro aspecto que reputo relevante é o seguinte: é uma ideia é futurista o silêncio-mercadoria com grande potencial viciante. Não é algo factível nos próximos anos. Apesar disso, o conto está pontilhado de referências contemporâneas, como vendedor de pamonha, rádio a pilha etc. Longe de ser uma falha na construção, considero essa espécie de mistura temporal por meio de referências um recurso bem positivo, no sentido de que rompe com certo paradigma de que o enredo futurístico precisa se dar numa ambientação completamente futurística.

    Penso que faltou um trabalho mais apurado com a linguagem, no sentido de que as coisas não acontecem por si: o narrador diz que elas aconteceram. Nada contra o narrador em primeira pessoa, mas talvez se ele não tomasse conta de todo o texto e houvesse espaço para maiores descrições dos ambientes e dos estados emocionais, talvez tivesse ficado melhor. Do modo como foi executado, a credibilidade dos fatos fica um pouco comprometida, mesmo porque o narrador é parte interessada em contar a estória do modo como foi contada. Exceto se a intenção foi brincar com a credibilidade do narrador perante o leitor. Se a ideia foi essa, então houve sucesso.

    • JULIANA CALAFANGE
      30 de junho de 2016

      Selga, primeiramente, obrigada por ler e comentar. Admiro muito os seus textos, portanto muito me interessa a sua crítica. Esse é um texto antigo, de 2010. Na verdade, foi o primeiro conto que eu escrevi e gostei, ao ponto de ter coragem de mostrar pra alguém. Acabei ganhando um prêmio com ele, no Concurso do Dia do Escritor, uma bobagem, mas que me estimulou a continuar escrevendo. Seu comentário sobre a questão do futurista X contemporâneo foi ótima, porque quando escrevi, a ideia era fazer isso de forma proposital. Essa coisa do barulho me incomoda pessoalmente e eu imaginei um mundo onde isso tudo já fosse possível. Mas aí, na insegurança terrível q eu tinha, achei q precisava localizar a situação num futuro, mais ou menos próximo. Agora acho q teria sido melhor não mencionar datas…
      Com relação ao narrador, bom, talvez vc tenha razão. Acho q escrevi em 1a pessoa pq estava falando muito de mim e do meu desejo q o silêncio existisse, mesmo q vendido aos pedaços. Entendo o seu ponto de vista com relação a isso. Certamente não me passou pela cabeça na ocasião. Mas agora vou meditar sobre o assunto.
      Super obrigada!

  4. Davenir Viganon
    24 de junho de 2016

    FC na veia(2) 🙂

    Ler esse conto me lembrou da crônica do Eduardo Selga tem aqui no blog, publicada recentemente e também do “Farenheit 451” do Ray Bradbury.
    Muito bom de ler. Parabéns!

    • JULIANA CALAFANGE
      24 de junho de 2016

      Eu também adorei a crônica do Selga, Davenir! Foi até por isso q publiquei esse conto aqui. E, nossa, um dia quem sabe eu chego no nível do Selga, ou até do Bradbury!!! Muito honrada com as suas lembranças… rs

  5. Simoni Dårio
    24 de junho de 2016

    Muito bom. Compartilho com o protagonista quanto à tolerância zero com a barulheira do cotidiano. Seu conto me lembrou o filme O Preço do Amanhã , onde as contas são pagas com horas de vida. Interessante que o enredo aqui no seu texto é bem atual, ao mesmo tempo que a solução é ficcional, ou quem sabe profética. Amo os raros momentos de silêncio e curto cada segundo quando tenho oportunidade de vivenciá-los. Espero que năo tenhamos que chegar a esse ponto como o do seu personagem, se é que ja năo chegamos.
    Gostei muito de ler. Parabéns Juliana.

    • JULIANA CALAFANGE
      24 de junho de 2016

      Obrigada Simoni! É um tema precioso pra mim o silêncio. Eu vi O Preço do Amanhã e acho que qualquer hora dessas vai ser assim mesmo… espero que não!!!

  6. Priscila Pereira
    24 de junho de 2016

    Juliana, que texto interessante… muito original e bem escrito!! Gostei demais!! Só achei que você repetiu muito tudo o que podia fazer barulho, sei que sua intenção pode ter sido de reforçar a ideia, mas ficou meio chato de ler essa parte. Realmente muito bom, parabéns!!

    • JULIANA CALAFANGE
      24 de junho de 2016

      Valeu, Priscila! A ideia era reforçar mesmo, incomodar mesmo, pq o barulho incomoda pra C… rsrs

  7. Catarina
    24 de junho de 2016

    FC na veia! Arrebentou! Eu sou viciada em silêncio. Se rolar eu compro!

    • JULIANA CALAFANGE
      24 de junho de 2016

      Obrigada Catarina! Sabe que só depois q eu escrevi o conto, descobri q existe mesmo uma empresa chamada Silent Blue, é uma empresa americana que trabalha com revestimentos acústicos (!)… Mas pode deixar, se eu souber de alguém vendendo silêncio te aviso, eu tb certamente vou ficar viciada… rsrsrs

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Publicado às 23 de junho de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .