EntreContos

Literatura que desafia.

O Barqueiro (Anderson Henrique)

Meu senhor, não tem jeito. Aqui não é diferente lá das terras donde o senhor vem. Quando o senhor precisava ir de uma cidade a outra, não havia um preço a pagar pelo pedágio? Pois então, aqui é muito parecido. E olha, eu cobro baratinho. Já foi mais caro, custava o dobro, mas eu dividia o trabalho com meu irmão. Agora que fiquei só, cobro apenas uma moeda. Nem mais nem menos. Há quem queira dar mais. E eu aceito, claro, de bom grado. Anoto o nome da pessoa e coloco nas minhas preces. Mas não posso receber menos que uma moeda pelo trabalho. Isso, não.

…uma moeda?

Isso, uma moedinha de nada. Tá nesse preço já tem tempo. Não acompanhamos nem índice nem inflação. É preço módico mesmo, coisa simbólica, uma pequena contribuição para vosso servo.

…tenho uma moeda. Tome.

Reparando agora, moço, o senhor não deveria estar aqui. Tem coisa aí no teu peito que ainda bate. É hora ainda não.

…exceção?

Posso não, moço. A exceção de um é a regra de todos. E tem mais, a punição aqui é severa. Esperteza não tem vez. Ninguém escapa. Se eu te contasse o que aconteceu com aquele rapaz sabido que enganou a morte duas vezes, o senhor não ia acreditar. Já pensou, passar a eternidade daquele jeito? Hu-hum. Posso não. E esse meu ofício já é bem assim, sabe? Um castigo que Deus me deu. Fardo pesado, duro de aguentar. Mas eu vou aguentando. Podia ser pior.

…outro jeito?

Tem jeito não. Teve até quem passasse, é verdade. Mas tem tempo isso. Fiquei com pena. O rapazinho chegou muito entristecido. Vivo ainda, mas morto por dentro. E não trouxe nenhuma moeda. Mal eu disse que não dava, que era melhor ele voltar de onde tinha se bandeado, e ele começou a tocar o instrumento. Moço, foi coisa bonita. Triste, mas bonita. A música foi me causando um desconsolo, um padecimento aqui por dentro, que não teve jeito. Fui eu e mais uma pá de gente chorando. Fez um certo rebuliço aqui. Até quem estava vagando com o coração cheio de pedra acabou se desmanchando. Coisa bonita o amor desses dois. Deixei passar. Tem coisas que dinheiro não paga, né mesmo? Cá entre nós: o pai dele cumprirá o mesmo destino. Virá por amor, em busca de Nada.

…também é por amor que venho.

Olha, moço, já teve quem viesse com essa a mesma história, mas queria era passar. Não tinha nem amor próprio. A moça veio falando de amor, mas acabou não resistindo à curiosidade. Sorte foi que o amado veio em seu socorro. Gosto dessas coisas, sabe? Coisa bonita isso de amor, sempre me emociona. Acho que espalharam que sou coração mole e agora pensam que é só chegar aqui que vou deixar passar. É assim, não. A moça veio, deixei ela passar, mas ela pagou. Pensando o que?

Virgílio intercedeu por Dante e o Caronte se aquietou. Acomodaram-se no fundo da barca. Almas embarcavam uma a uma, deixando suas moedas aos pés do barqueiro. A criatura empurrava-as com o remo quando via hesitação. Houve um grande terremoto. Um clarão avermelhado riscou os céus. Assustado, Dante caiu em sono profundo.

 

“Não te agastes, Caronte! Desta sorte
Se quer lá onde” — disse-lhe o meu guia —
“Quem pode ordena. E nada mais te importe”.
(Divina Comédia – Canto III – Dante Alighieri)

[i]

i Algumas referências talvez escapem aos olhos do leitor:

 

  • A primeira é a mais óbvia e está logo no título, confirmada ao final do texto. Trata-se de um diálogo entre Dante e o barqueiro do inferno, Caronte.
  • Corante é mencionado no primeiro parágrafo sem ter seu nome revelado. Ele divida o trabalho na barca com seu irmão, Caronte, que o assassinou ao descobrir que ele estava trapaceando na divisão das moedas. Ao cair no Estirge, tingiu as águas de vermelho.
  • Sísifo enganou a morte duas vezes, mas morreu de velhice (ainda estou vivo, não me perguntem como funciona). Foi punido severamente por Zeus, condenado a rolar uma pedra gigantesca por toda a eternidade).
  • Orfeu consegue passagem para o inferno ainda vivo para buscar Eurí A música de sua lira comove Caronte.
  • O Morfeu moderno imaginado por Neil Gaiman também é Em um dos Arcos de Sandman, o senhor dos sonhos, pai de Orfeu, vai ao inferno buscar a rainha Nada.
  • Por último temos uma leve menção à Psiquê, que vai ao inferno para concluir uma tarefa dada por Afrodite para reconquistar seu amado, Eros.
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14 comentários em “O Barqueiro (Anderson Henrique)

  1. Anorkinda Neide
    24 de março de 2016

    Ahh gostei, mas não entendi o final, aquele parágrafo ali em itálico.. oi?! minha inteligência parca não alcançou…
    .
    Gostei demais do barqueiro com esse sotaque de gente simples, se fez entender, mesmo que não buscássemos as referências clássicas.
    .
    Um texto primoroso que não é para todos os leitores, né?
    Abração

  2. Bernardo Stamato
    18 de março de 2016

    O diálogo é bem escrito, mas não compreendo o propósito de ilustrar uma conversa entre Dante e Caronte. Se fosse contar toda a cena e do propósito de Dante do ponto de vista do barqueiro, ficaria bom, mas esse diálogo não acrescenta em nada à Divina Comédia.

    Além disso, explicar as referências no final ficou parecendo como subestimar o leitor, como quem “explica uma piada”. Esse é o tipo de coisa que cada leitor entende da própria forma, que perde totalmente o valor ao ser explicado.

    Nota 4.

  3. Daniel Martins
    18 de março de 2016

    Uma obra bem escrita e repleta de referências, que mostra bastante o lado leitor de quem escreve.
    O diálogo moderno e bem humorado e interessante, mas faltou história, não empoulgou.
    Talvez o autor tenha se preocupado demais em parafrasear e faltou criar.
    5,0

  4. Leonardo Jardim
    18 de março de 2016

    Minhas impressões de cada aspecto do conto:

    📜 História (⭐⭐▫▫▫): a ideia era ótima e saquei logo que se tratava do Caronte já no título. A história porém se prendeu às referências (boas) e não trouxe nada de muito novo. Queria saber mesmo era sobre o tripulante que conservava com o barqueiro: qual a história dele? O que ele queria? Conseguiu? Se sim, foi fácil ou muito difícil? É esse tipo de coisas que procuramos em contos e ficou faltando nesse.

    📝 Técnica (⭐⭐▫▫▫): não vi nenhum problema ortográfico que tenha incomodado. O formato do diálogo me pareceu estranho no início, mas logo me adaptei. O final ficou estranho, na parte do texto em itálico e a citação, foi um corte muito brusco. As explicações também sobraram, pois um texto deve se explicar sem isso. Pequenas notas de rodapé talvez fossem suficientes.

    💡 Criatividade (⭐▫▫): o texto bebeu de fontes já existente sem trazer muitas novidades. Um exemplo de texto que também usa esse personagem, mas de forma muito criativa é “Navio sem sombra”, de Rafael Sollberg, publicado na segunda antologia do Entre Contos. Vale à pena a leitura, se ainda não o fez.

    🎯 Tema (⭐⭐): mitologia grega também é fantasia. Está adequado.

    🎭 Impacto (⭐▫▫▫▫): esse foi o quesito mais impactado, pois o texto não trouxe um final. O autor ainda possuía muitas palavras para usar e podia ter elaborado mais a trama. Como não me apeguei a nenhum personagem, infelizmente o texto não me empolgou.

  5. ram9000
    17 de março de 2016

    Um dos desafios do escritor é transmitir a história e suas referências dentro do texto, de forma direta ou indireta. A necessidade de referências passa a impressão de que faltou um pouco mais de criatividade para transmitir melhor as ideias e fazer o leitor se interessar em descobrir qual foi a inspiração do texto. Não curti muito a adaptação e as piadas mundanas.

  6. Ramon Jardim
    17 de março de 2016

    Um dos desafios do escritor é transmitir a história e suas referências dentro do texto, de forma direta ou indireta. A necessidade de referências passa a impressão de que faltou um pouco mais de criatividade parar transmitir melhor as ideias e fazer o leitor se interessar em descobrir qual foi a inspiração do texto. Não curti muito a adaptação e as piadas mundanas.

  7. vitormcleite
    16 de março de 2016

    Gostei muito do texto e da tua escrita, embora me parece que não se encaixa muito no tema do desafio. Gostei das explicações, embora algumas fossem desnecessárias pois o texto está bem explicito. Não vi problemas de maior com o teu texto, parabéns pelo resultado.

  8. Eduardo Velázquez
    14 de março de 2016

    O texto está bem escrito e se adéqua ao tema proposto. Achei a ideia bem interessante apesar de ter ficado um pouco curto. Nota: 6,5.

  9. Thomás Bertozzi
    13 de março de 2016

    Boas as falas do barqueiro. O “monólogo” é bem consistente. Ótimas referências à mitologia grega.
    E, justamente por conta disso quem não conhece as personagens mitológicas pode ficar meio por fora.

    Nota: 9,0

  10. Davenir Viganon
    11 de março de 2016

    Olá H.GO!
    Aqui tem muitas referências a mitologia grega e um conto baseado num diálogo meio lírico, é criativo. O título já serviu de contextualização, para quem conhece Caronte na mitologia grega, e já chegou direto ao que interessa. Fiquei com a impressão de que procuraste evitar entregar um épico arrastado, passou longe de usar o limite. Outra sensação que fica é que poderia ter mais e acho isso bom. A escrita é o que mais gostei. Só senti falta de uma história propriamente dita, mas a escrita é tão boa que terminei a leitura satisfeito.
    Parabéns e boa sorte!

  11. JULIANA CALAFANGE
    9 de março de 2016

    a ideia desse diálogo entre o barqueiro da morte e o morto é muito boa. O seu texto flui com facilidade e me deixei levar pela trama. Tudo ia bem, mas de repente acaba, parece q ficou perdido no espaço e no tempo. Apenas um recorte, mas sem desfecho, sem dizer a q veio. Dispensável, na minha opinião, a informação a respeito das referências e citações, acho isso meio antipático. O leitor tem q embarcar na história mesmo sem ter percebido referência alguma. E o seu texto tem potencial pra isso. Poderia imaginar um monte de desfechos interessantes, é um potencial conto de fantasia, mas termina antes de começar.

  12. Carlucci Sampayo
    8 de março de 2016

    A ideia do conto é bastante atrativa e traz um enredo que possibilita muitas explorações. A menção subentendida dos personagens incidentais faz com que haja incertezas; o que poderia ser sanado caso houvesse a introdução – ainda que curta -, das histórias de cada um. Há fatos notáveis e únicos em cada um dos eventos citados pelo barqueiro, a guisa de explicação pelo preço cobrado e sua importância em efetuar a travessia; esta a questão principal. Sobre os motivos do personagem do conto, não restaram suficientemente claros e mereciam ser mais explorados e ainda fortes o suficiente para vencer Caronte, a despeito da ajuda do poeta Virgílio, em auxílio a Dante. O tema é ótimo, a mitologia oferece uma gama de opções incríveis e a imaginação do autor foi bastante profícua e feliz no seu intento; mas restou um pouco reticente; talvez tímida, o que causou certas lacunas. A explicação do final do conto não seria parte dele, contudo. Considero que seria mais eficiente se introduzida no bojo do próprio enredo. Poderia ser mais explorado, enfim e esta argumentação seria ótima para afirmar o poder do barqueiro. No entanto, a oralidade está bem representada e os elementos de fantasia, subsumem-se na travessia fantástica ao mundo dos mortos. Ideia original em sua intenção, notório conhecimento das lendas mitológicas que servem de fundo. Muito interessante e bem escrito, quanto à disposição; mas o poema que destaca o próprio cerne do conto poderia ter sido misturado ao texto, dando mais informações ao leitor. Mera opinião, contudo; espero seja aceita no intuito de contribuir com o desempenho e criatividade do autor. Nota sete.

  13. Brian Oliveira Lancaster
    7 de março de 2016

    OGRO (Objetivo, Gosto, Realização, Ortografia)
    O: O texto começa bem cotidiano, apesar de o título entregar algumas coisas. Depois o clima mais fantasioso, baseado em mitologia, toma forma, deixando tudo mais claro e ao mesmo tempo surreal. Atmosfera leve. – 8
    G: O que me chamou a atenção no texto foi o ponto de vista da criatura. Serena, blasé, emotiva. Gostei do tom levemente melancólico e de suas expressões mais sentimentais quanto à música. O texto cativa pela sua simplicidade. O glossário ao final pode ser encarado apenas como um adendo, mas para mim funcionaria mesmo sem ele. – 9
    R: A estrutura é um tanto diferente do que estamos acostumados, mas é possível entender a troca de diálogos entre os entes. Ressalto novamente a leveza e objetividade. A poesia no final não se fez tanto necessária, a meu ver. – 8
    O: Escrita leve e fluente, competente em transmitir as emoções. – 9
    [8,5]

  14. Evandro Furtado
    6 de março de 2016

    Esses dias estava assistindo O Alto da Compadecida. Não, não esse que está pensando. O original. É. Aquele com Os Trapalhões. Nunca li a obra de fato, mas acho que deve ser escrita desse jeito. Também me lembrou de um conto do Guimarães Rosa que estou me sacrificando para ler para apresentar um seminário. Mas, enfim, isso não importa. Gostei das referências finais – algo similar de uma versão da Divina Comédia que já vi. Eu acho que é bacana pra quem pegou todas sem precisar ler. Eu, particularmente, só a do Orfeu mesmo. Mas se prepare que vai ter gente dizendo que isso não é fantasia. Não é o meu caso.

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Publicado às 5 de março de 2016 por em Fantasia - Grupo 2 e marcado .