EntreContos

Literatura que desafia.

Submundo (Alan Rodrigo)

O aniversário de Brenda estava se aproximando e, como toda adolescente, a garota estava empolgada com a chegada de seus 15 anos. Seu pai, Walter, um homem encorpado e barbudo, faria qualquer coisa pela filha, menos concordar com o presente que Brenda pediu: um corte de cabelo.

–  Ah, pai. É só um corte de cabelo. Cabelo cresce.

–  Não, Brenda. Já falei que não e pronto. Me peça outra coisa. Até um cachorro novo, mas não esse corte ridículo.

–  Não quero um cachorro novo. O Boby já é o suficiente para mim.

Boby parecia entender o que sua dona falara e sorriu com um latido enquanto brincava com sua bolinha.

– Mas tudo bem. – continuou Brenda – Vou pensar em outra coisa.

Brenda não desistiria assim tão facilmente. Quando coloca algo na cabeça não sossega enquanto não faz. Ou pelo menos não tenta.

No dia seguinte da última tentativa em convencer o pai, a garota foi decidida ao salão do bairro para cortar o cabelo usando suas economias.

–  Já que meu pai não vai me dar esse presente, eu me dou! – Brenda falava consigo mesma.

A princípio Laís, a cabeleireira, ficou receosa em fazer um corte de cabelo tão incomum, ainda mais se tratando de cabelos negros tão longos e bem cuidados.

– Tem certeza que seu pai autorizou você a fazer esse corte?

– Tá, ele não quer que eu faça, mas… Poxa, eu já tenho praticamente 15 anos, posso fazer o que bem entendo com o meu cabelo.

Laís conhecia Walter muito bem e sabia que ele não iria gostar nada daquilo, mas acabou fazendo. O corte que Brenda tanto queria, consistia em passar a máquina nº 1 na lateral direita da cabeça e assim a cabeleireira o fez. Não demorou muito para perceber que havia uma marca na cabeça de Brenda.

–  Nossa! Quando você fez essa tatuagem? Você nem tem idade pra isso.

– Tatuagem?? Como assim?

A cabeleireira entregou um pequeno espelho à Brenda para que ficasse melhor de visualizar olhando contra o espelho maior que estava à sua frente:

–  Aqui, olha.

Brenda levou um susto. Havia o desenho de um círculo dividido por uma lança que o atravessava de baixo para cima, a 45 graus. Nunca soube daquela marca. E agora que pretendia guardar segredo do seu cabelo, como faria para perguntar ao pai?

Já estava quase escurecendo quando Brenda chegou em casa e encontrou Walter, faminto, tomando café. Chegara havia pouco tempo de mais um dia puxado de taxista. A garota, sem medo da reação do pai, foi logo desabafando:

–  Por que nunca contou sobre essa marca na minha cabeça? O que significa?

Walter ficou paralisado. Não sabia se ficava bravo por ela ter cortado o cabelo daquele jeito sem sua autorização ou se pedia desculpas por nunca ter falado nada sobre aquela marca.

– Primeiro você vai me explicar quem foi que autorizou você a fazer isso com seu cabelo!

– Não mude de assunto! Que marca é essa? Eu nasci com isso? Quem fez isso em mim??

Walter respirou fundo.

– Senta aqui. Chegou a hora de te contar a verdade.

– Que verdade?

– Senta logo aqui!

Os dois sentaram no mesmo sofá, posicionados um de frente para o outro.

– Filha, antes de mais nada, quero que saiba que te amo mais do que tudo, independente do que eu vou te contar agora.

– Ai, meu Deus… Fala logo, pai!

–  Filha, quando você era recém- nascida eu te encontrei num carrinho de bebê, próximo do parque.

– O quê?!

– Calma, deixa eu continuar. Eu estava voltando da padaria quando percebi que havia um carrinho de bebê abandonado e ninguém por perto. Apenas um cachorro. Me aproximei, na expectativa de que não houvesse nada dentro, mas lá estava você.

Brenda ouvia toda a história com lágrimas prontas para desabarem em seu belo rosto e sem querer acreditar.

– Mas e a minha mãe? Como soube o que aconteceu com ela? Como conseguiu a foto dela?

– Essa mulher da foto é só uma modelo. Ela não é sua mãe. Nunca a conheci. Fiz isso para que você se sentisse numa família de verdade. Escondi isso durante todo esse tempo porque te amo muito e só quero que você seja feliz.

– Isso é mentira! Não acredito nisso!

– Calma, filha. Eu imagino o quanto seja difícil para você, mas eu sei que você é forte e esse é o momento certo para você lidar com isso.

– E o que essa marca tem a ver com tudo isso? Foi você que fez em mim?

– Não. Quando te encontrei ela já estava aí.

Brenda foi se deitar, bastante abatida com a revelação que teve. Demorou para pegar no sono. Em meio aos seus pensamentos, algumas visões começaram a surgir. Via a mesma marca da sua cabeça em um tamanho maior, num tom vermelho escuro, algumas criaturas apareciam de forma distorcida chamando- a pelo nome, várias e várias vezes, até que uma criatura de maior destaque a chamava por FILHA. Brenda abriu os olhos assustada e ficou ainda mais confusa, tentando entender o que significava tudo aquilo.

Na manhã seguinte, Brenda seguiu habitualmente o seu curso até o colégio, que fica próximo de casa. As vozes da noite passada voltaram em sua cabeça. Palavras se misturavam, mas ela parecia entender o recado: a chamavam para ir até um Sebo chamado Submundo, localizado no centro da cidade, num beco estreito e espremido por prédios históricos. Brenda ficou curiosa para ir, mas seu pai jamais deixaria. O centro da cidade sempre foi evitado devido à violência. Walter, taxista veterano, conhece muito bem o assunto. Além disso, há quase tudo o que precisam no bairro tranquilo onde moram. A estrutura é muito boa. Além do colégio, do salão, da padaria e do parque, também há farmácia, chaveiro, oficina mecânica – onde seu pai passa boa parte do tempo com os amigos – uma loja de materiais de construção, um açougue, uma vídeo locadora, um pequeno mercado e até um armazém, que resistiu ao progresso do comércio, tendo o velho caderninho como registro dos clientes que compram fiado.

À noite Brenda deitou e ficou receosa em fechar os olhos, com medo de que aquelas visões voltassem a incomodá-la, mas ao mesmo tempo, poderiam ser respostas para muitas de suas perguntas. De repente, ouviu um barulho do lado de fora. Brenda levantou para conferir. Abriu a janela de madeira e, aparentemente, estava tudo bem, até que avistou uma coruja no galho mais baixo do pinheiro que fica no jardim. Brenda sentiu- se mais aliviada. Sorriu e interagiu com a coruja.

–  Oi, corujinha. Que susto você me deu. O que está fazendo aí?

É claro que Brenda não esperava por uma resposta, mas ela veio:

– Vim chamá- la para ir até o Submundo, ou melhor, até o Sebo Submundo

Brenda ficou perplexa. Olhava para os lados acreditando que aquilo era uma brincadeira de mau gosto.

– Como assim? Você fala?

– Não! Claro que falo! Não está me ouvindo, ué? Não está vendo meu bico se mexer? Olha: Blá, blá… Blá, blá, blá… Blá!

– Meu Deus, como isso é possível?

– Vá até o Sebo e descobrirá.

– Mas o que farei quando chegar lá?

– Apenas vá e peça pelo livro “A Ascensão do Submundo”. E use isso, você pode precisar.

A coruja então jogou para Brenda um cordão prateado com uma pedra verde e brilhante pendurada nele, o qual Brenda agarrou sem hesitar.

– Agora tenho que ir. Tenha bons sonhos…

– Espere! Qual o seu nome?

– Asgrim! Eu sou Asgrim!

Brenda acompanhou o voo da coruja até sumir por trás dos prédios que ficavam em bairros mais nobres que o seu. Ficou deitada em sua cama pensando no que aconteceu até cair no sono.

Pela manhã, Brenda despertou com a certeza de que tudo não havia passado de um sonho, mas ao olhar para o relógio em cima do criado- mudo percebeu que lá também estava o amuleto que recebeu de Asgrim.

Brenda tomou café com seu pai como mandava a rotina e achou melhor não falar nada sobre a noite passada, pois provavelmente a chamaria de doida. Pronta para ir ao colégio e com o amuleto pendurado no pescoço e escondido dentro do moletom do uniforme, Brenda esperou Walter sair para o trabalho e resolveu ir até o Sebo, acompanhada do seu cão.

Após descer do ônibus no terminal central, Brenda seguiu até o beco onde ficava o Sebo, antes que acabasse sendo assaltada ou agarrada naquele lugar tomado por prostitutas, mendigos, viciados e loucos. Chegando lá, percebeu que a região era pouco movimentada e avistou apenas três jovens vindo em sua direção. Os garotos pareciam estar querendo se divertir e começaram a provocar Brenda. Um deles foi mais ousado e a agarrou. Boby latia e até ameaçava morder, mas sem muito sucesso. No meio da confusão, o amuleto saltou para fora e disparou um raio que envolveu Brenda e acertou o marginal que a estava segurando, desintegrando-o completamente. Os outros dois ficaram paralisados por poucos segundos e logo saíram correndo.

Começou a garoar. Brenda seguiu seu caminho a passos largos, sempre olhando para trás com medo de que os delinquentes voltassem e também admirando o local, apesar de seu ar sombrio, era bonito. Sombriamente bonito. A garota chegou no fim do beco, onde ficava o Sebo. O silêncio tomava conta. Ouvia- se apenas o som da garoa. Achou aquele lugar muito estranho e ficou receosa. Ameaçou voltar, mas estava muito próxima de seu objetivo. Criou coragem e seguiu adiante. A porta era estreita, de madeira, pintada de branco e com vidros. Ao empurrar a porta ouviu o som do mensageiro dos ventos que anunciava sua chegada. Apenas uma mulher robusta e não muito simpática estava no local. Olhou para Brenda com desdém, até que Brenda, depois de observar o lugar, disse a que veio.

– Oi. Eu procuro por um livro chamado “A Ascenção do Submundo”.

A expressão facial da mulher gorda mudou completamente. Seus olhos se arregalaram, procurando imediatamente pela marca em sua cabeça.

– Você disse “A Ascenção do Submundo”?

– Sim, você tem esse livro?

A mulher já parecia outra pessoa. Ficou submissa e logo foi se encaminhando para os fundos da loja, passando por várias estantes cheias de livros empoeirados. Brenda a acompanhou até chegar numa porta que estava fechada. A mulher abriu e podia-se ver apenas uma escada. A escuridão do outro lado não permitia ver mais nada. A mulher gorda convidou Brenda a entrar. Logo que ela entrou, a mulher fechou a porta e deixou Brenda do outro lado com seu cão.

Brenda ficou assustada e gritou por socorro enquanto batia na porta, mas era em vão. Não podia fazer mais nada a não ser descer as escadas, passo a passo e com muito cuidado. Seu amuleto começou a projetar uma pequena luz que a ajudava a enxergar alguns palmos adiante. À medida que Brenda descia, ouvia vozes que pareciam vir de baixo. O cheiro era pútrido e o ambiente era bastante úmido. Começou a perceber luzes que revelavam sombras em movimento nas paredes. Ao terminar a escada viu muitas velas acesas e paredes de tijolos escurecidos pelo tempo e cheios de musgo que formavam um grande corredor. Ao longo dele, criaturas estranhas perambulavam e outras apenas estavam encostadas nas paredes. O lugar parecia um bairro sem leis. Mas invés de humanos era habitado por essas criaturas bizarras.

– Um bairro dentro do Sebo? – pensou Brenda.

Não demorou muito para aparecer um pequeno ser de duas cabeças, da altura da cintura da garota, com longos narizes e orelhas pontudas. Seus chapéus davam a ilusão de ser mais alto.

– Seja bem vinda ao Submundo! – Falaram as duas cabeças ao mesmo tempo.

Brenda foi convidada a acompanhar a simpática figura. Foram caminhando pela ruela, passando por uma criatura mais bizarra que a outra. A adolescente observava tudo com curiosidade, como se aquele lugar fosse cenário de um filme de fantasia. Ou de terror. Logo a ruela se abriu, dando espaço a um enorme salão. Ao centro estava um altar com o símbolo que apareceu nas visões de Brenda e no centro do altar, um trono. Nele estava sentada uma mulher decrépita, alta, cabelos negros e pele pálida. Apesar de sua estranha aparência tinha postura confiante. Postura de líder.

– Olha só quem resolveu aparecer. Já estava na hora.

– Quem é você? Que lugar é esse? Por que eu vim parar aqui?

– Calma, minha criança. Tudo será respondido. Sou Asgrim, Senhora do Submundo Ocidental.

– Asgrim? O mesmo nome da coruja que falou comigo?

– Digamos que não temos apenas o mesmo nome.

– Como assim? Você e a coruja são uma só?

– Vejo que você é muito esperta. Será muito útil em nossos planos.

– E que planos são esses?

– Bom, isso nos leva a responder uma de suas perguntas anteriores. Você está aqui por que é filha do Submundo. Você pertence a este lugar.

– Não pertenço, não.

– Pertence, mas ainda não sabia disso.

– Não. Pertenço a minha vida lá em cima. Com o meu pai…

– Seu pai? Aquele traidor?

– Traidor?

– Me diga, Brenda, onde você nasceu?

– Bom, não sei exatamente. Meu pai me encontrou abandonada num carrinho de bebê, perto do parque…

– A- há! É aí que eu queria chegar. Você tem ideia de quem te deixou lá?

– Não sei. Minha mãe, talvez.

– Quase isso! Fomos nós que te deixamos lá.

– “Nós” quem?

– Nós, o Submundo. Há muito tempo temos planos de dominar a Terra. Mas não podemos fazer assim, de repente. Estamos em desvantagem. Seríamos destruídos rapidamente. Por isso, aos poucos temos infiltrado nossa espécie lá em cima, para quê destruam os humanos e se envolvam com eles para gerar filhos híbridos. Isso está acontecendo no mundo todo. Em toda a Terra há passagens secretas como essa que dão acesso ao Submundo e só quem tem o nosso sangue é que pode entrar com vida. Um humano aqui tem a vida reduzida a segundos.

– Mas e como que eu ainda estou viva?

– Não me decepcione, Brenda. Achei que você fosse mais esperta. Você não é humana. É uma de nós. Foi infiltrada na Terra para nos ajudar a dominá-la, a gerar filhos híbridos e a extinguir, discretamente, os humanos. Você já deve ter visto alguns de nós por lá, só não percebeu por que lá em cima nos adaptamos às formas terrestres. Só aqui embaixo é que apresentamos nosso verdadeiro “eu”. Bem, com exceção de alguns seres mais inferiores que infelizmente vão ficar com essa aparência para sempre.

– Mas eu continuo a mesma aqui embaixo.

– Dá uma olhadinha no espelho, querida.

Brenda procurou seu reflexo e rapidamente se assustou com o que viu. Seu belo rosto desapareceu, dando lugar a uma aparência tão feia quanto às demais criaturas do Submundo. Se antes ela considerava o namoro algo utópico em sua vida, agora ela percebia que não poderia ser namorada por mais ninguém. Nem amigos conseguiria conquistar. Talvez o seu cão ainda continuaria fiel ao seu lado. Foi nesse momento que percebeu a ausência de Boby. Começou a chamá-lo, mas não o via em lugar algum, até que uma criatura lupina, três vezes maior e mais forte que seu cão, surgiu do escuro. Seus olhos eram negros e sua boca salivava enquanto rosnava.

– Boby? É você?

– Acho que esse nome não combina com ele aqui embaixo – ironizou Asgrim – Seu cão também pertence a esse mundo. Foi enviado junto com você para acompanhá-la e protegê-la.

– Certo. Digamos que toda essa loucura seja verdade. Por que estou sabendo disso só agora?

– A verdade deveria ser revelada há muito tempo, mas um imprevisto fez com que prorrogássemos nossos planos. Tivemos sorte que você acabou encontrando a sua marca por conta própria. Todos os nossos que estão lá em cima já sabem a verdade desde muito cedo. Você já deve ter ouvido falar de crianças que matam pais, entram armadas nas escolas, enfim.

– Meu Deus. Mas e que imprevisto foi esse?

Nesse momento apareceu um ogro. Chegou correndo e parecia estar cansado.

– Brenda!

– Acho que isso responde a última pergunta. – disse Asgrim.

– Quem é você? – Brenda olhou com mais atenção – Papai?

– Ele não é seu pai! É apenas um traidor que resolveu fazer papel de herói.

– Mas como assim? Você também é do Submundo?

– Sim. Infelizmente sim. Mas me neguei a seguir em frente com esse plano diabólico e resolvi tentar ser um humano normal. Até que um dia encontrei você. Logo vi a sua marca e decidi que você também seria uma humana. Me dediquei a amá-la como filha e a esconder essa verdade horrível para que você fosse feliz, mesmo com as imperfeições dos humanos.

– Por isso você não queria que eu cortasse o cabelo. Não queria que eu visse a marca. Ah, papai… – Brenda foi em direção ao seu pai e lhe abraçou com força. Asgrim rapidamente deu o comando para que seus subordinados os separassem. Walter reagiu. Conseguiu se defender de uma das criaturas, de outra logo em seguida, mas logo foi denominado por outros, enquanto Brenda foi segurada e tentava se livrar em vão das garras das criaturas. Pai e filha foram colocados em uma jaula.

– Filha, me desculpe por ter escondido isso tudo de você. Eu estava apenas tentando protegê-la e esperando que fosse mais madura para te contar.

– Eu entendo papai. Mas o que será de nós de agora em diante?

– Não se preocupe, minha filha. Vamos sair daqui e vou te mostrar que é possível seguir com as nossas vidas, do jeito que sempre foi, sem ter contato com esse Submundo nojento.

– Confio em você, papai. Mas a grande questão é: como vamos sair daqui?

– Eu tenho uma ideia.

Walter tirou do seu bolso um canivete e, depois de algumas tentativas, conseguiu abrir a jaula. O ogro percebeu que todas as criaturas estavam dormindo. Os dois então caminharam de mansinho em direção à saída, quando o lobo gigante apareceu, impedindo a passagem.

– Boby, meu amor. Vamos embora.

Infelizmente, Boby não era mais o mesmo. Não reagia ao carinho de Brenda, até que a garota usou uma “palavra mágica”.

– Boby, cadê a BOLINHA? Vai buscar a BOLINHA pra mamãe, vai!

O cão, ou melhor, o grande lobo começou a abanar o rabo, colocou a língua pra fora como um filhotinho de labrador que já foi um dia e saiu em busca de seu brinquedo favorito. Walter não titubeou. Puxou a filha pela mão e saíram correndo. Ao chegarem na porta que dava acesso ao Sebo perceberam que estava trancada. Enquanto tentavam abri-la, criaturas apareceram para agarrá-los. O Submundo acordou e já havia percebido a ausência dos dois fugitivos.

– Pai, tenta usar o seu canivete de novo.

– Tenho uma ideia melhor.

Walter, com toda sua força, derrubou a porta, mas Brenda foi agarrada pelo cordão que recebeu de Asgrim, que acabou arrebentando.

– Pai, o cordão!

– Esqueça, filha. Você não precisa disso.

Os dois saem em disparada, rumo ao seu verdadeiro mundo, empurrando a mulher gorda que trancava o caminho.

Já na rua, Brenda toma fôlego e fica mais aliviada.

– Essa foi por pouco. Ainda bem que eles não saem de lá.

– Você que pensa.

Seis criaturas apareceram correndo em busca dos dois. Já estava escurecendo e a chuva estava mais forte. Walter pensou que poderia despistá-los.

– Venha, Brenda! Vamos entrar nessa caçamba de lixo.

– Ah, pai. Que nojo!

– Você acabou de sair do Submundo. Não pode ser pior do que aquilo.

Os dois ficaram em silêncio, tentando ouvir o lado fora. Walter tentou dar uma espiadinha e foi surpreendido pelas criaturas. Os dois estavam encurralados. As criaturas os agarraram e começaram a arrastá-los de volta, até que no meio do beco apareceu o cão com o olho de uma das criaturas na boca, todo faceiro.

– Boby, você achou uma bolinha!

– Cala a boca, coisinha feia. – disse uma das criaturas, dando um tapa no rosto de Brenda e deixando-a desacordada.

O cão não gostou daquela atitude e logo avançou para proteger sua dona. Walter aproveitou a oportunidade e conseguiu escapar, lutando ao lado do cão contra as criaturas. Os seres medonhos acabaram aceitando a derrota e fugiram sem olhar para trás.

– Brenda, acorda filha. Fala comigo!

Brenda parecia ter batido a cabeça ao cair e não respondia ao chamado do pai.

– Brenda! Acorda! Vamos pra casa! Acabou!

Brenda abriu os olhos devagar. Parecia que tudo não passara de um sonho. Ou de um pesadelo.

– Pai? Onde estamos?

– No nosso mundo, minha filha. Estamos no nosso mundo.

No dia seguinte, pai e filha já tentavam esquecer o que havia ocorrido no dia anterior e tentavam levar suas vidas normalmente. No intervalo do colégio, uma das amigas de Brenda apareceu acompanhada de um garoto.

– Brenda, quero te apresentar o Bruno. Ele também tem uma tatuagem na cabeça, parecida com essa tua. Acho que vocês podem se dar bem.

Bruno olha fixamente para Brenda e abre um leve sorriso.

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13 comentários em “Submundo (Alan Rodrigo)

  1. Alan (A. R. Wolf)
    5 de abril de 2016

    Agradeço a todos pelos comentários. Os elogios me deixam muito feliz e as críticas me deixam mais atento e enriquecem minha escrita. Podem ter certeza de que levarei em consideração todas as observações. Sou muito grato mesmo!

    OBS.: Fiquei bastante surpreso com a quantidade de comparações do conto com Harry Potter, pois nunca li um livro da saga e nem vi todos os filmes.

    Valeu, galera!

    Nota: 10,0

  2. Eduardo Matias dos Santos
    18 de março de 2016

    A técnica e linguagem denota um escritor jovem, talvez inexperiente, mas que possui uma escrita fluida, o que eu considero muito importante.
    Entretanto, vale ressaltar alguns pontos: 1) você criou um mundo imaginário, seria interessante detalha-lo um pouco mais. 2) acredito que a rainha do submundo julgou importante guiar pessoalmente a Brenda, devido aos “planos” que tinha com ela, mas quando a menina foge, a rainha simplesmebte “aceita”. Que planos são esses, que podem ser esquecidos tão facilmente, uma vez que são eles mesmos que ativam o climax da história? Talvez a rainha tivesse alguma intenção secreta ao deixar a menina ir sem muita resistência. Seria o Bruno uma arma? Se for este o caso, eu aconselho que você explicite sutilmente, para dar um toque final. 3) A menina aceitou tudo muito bem, creio que não foi dado o devido peso ao que aconteceu. Por exemplo, o pai deu a notícia que não era o pai de maneira muito casual. Você acrescentar uma pitada de drama, ele sempre cai bem nestas situações. 4) Há uma mudança de tempo verbal na última frase, talvez seja intencional, nesse caso seria uma escolha bastante ousada. 5) uma dica: inspire-se em Rick Riordan, Rowling ou qualquer outro autor que você admire, mas construa sua própria identidade. Boa sorte, no concurso e na carreira!

  3. Swylmar Ferreira
    15 de março de 2016

    De inicio me pareceu um conto infantil, daqueles que se contava antigamente para assustar as crianças arteiras, o que me deixou contente. É inegável a pertinência do tema ao desafio, o autor(a) usa linguagem objetiva, mas apresenta alguns erros gramaticais e de concordância. Apesar de ser criativo o conto não me pareceu estar bem fechado, faltou algo mais sólido, é imaginativo, mas pouco estético. A presença dos diálogos enobreceu o conto. O fechamento é interessante, concluindo o texto ou ainda dando a oportunidade de continuar. Parabéns!
    A nota é 8,1.

  4. Anderson Henrique
    14 de março de 2016

    Linguagem simples e objetiva. Não encontrei grandes problemas. O texto tem uma estrutura básica: o chamado da aventura, a revelação de uma ascendência mágica, o encontro com um mestre e uma explanação de todo o funcionamento do mundo mágico. Acho que o narrador poderia ter sido mais criativo na estrutura e tentar inovar um pouco para que o conto não ficasse tão semelhante a tantos outros. Segue o esquema padrão que encontramos em diversos outros livros. O encerramento foi bacana, deixando algumas hipóteses em aberto.
    Nota: 5.5

  5. Piscies
    13 de março de 2016

    O conto tem uma temática divertida. Algumas tiradas são bem engraçadas, e o conto possui desde cenas de ação e morte até cenas de comédia, passando por um leve drama entre filha adotiva e pai que quis protegê-la da verdade.

    Infelizmente, este é um daqueles contos que tentou falar muito em pouco tempo. Eu consegui captar a história e o que o escritor quis passar, mas isto estava perdido no meio de uma escrita muito simplificada que eu acho que foi forçada para fazer caber em 4 mil palavras o que pedia 10 – talvez 20 mil.

    A narrativa é corrida demais. Brenda corta o cabelo e já chega em casa bufando pedindo explicações sobre a tatuagem. O pai explica a história verdadeira da filha – algo que deveria ter um peso enorme da trama – em poucas linhas. A reação de Brenda é “Brenda foi se deitar, bastante abatida com a revelação que teve.”. Isto não remete o leitor a nada. Nenhuma sensação vem desta frase. Não consegui me identificar com Brenda, nem com nenhum outro personagem da trama, por quê todos eles parecem não ter o espaço que merecem.

    A correria da escrita somada a uma enxurrada de clichês deixou o texto muito raso. Eu não tenho nada contra clichês, desde que o autor demonstre que está tentando fazer algo diferente com eles. Aqui, eu senti como se o autor estivesse usando os clichês como ferramenta para cativar o leitor – sem saber que isso, na verdade, o afasta.

    No fim, a sensação foi de ter lido uma história divertida mas mal executada. Gostaria de ter a oportunidade de lê-la novamente sem o limite das palavras, com o espaço que ela merece (narrando, inclusive, o que acontece entre ela e o garoto que ela encontrou na escola!)

    Abraços!

  6. Pedro Luna
    13 de março de 2016

    Olha, foi um conto agradável de ler, mas fiquei incomodado com várias coisas.

    A trama me lembrou muito de Harry Potter, A Sombra do Vento e até de Lugar Nenhum, do Gaiman, mas beleza, normal a cabeça fazer referências. O problema mesmo está em algumas das cenas.

    – A cena da fuga da jaula ficou um pouco ridícula. O ogro do nada tira um canivete do bolso, abre a jaula e todos estão dormindo? Que prisão fulera é essa? Fora que se o Submundo pretende mesmo dominar o mundo, vão demorar muito, pois o texto mostra como eles são fracos e despreparados.

    Eu sugiro, em uma revisão, você deixar as coisas mais perigosas. Dá uma sensação de que aquele submundo realmente é um perigo pra humanidade, pois não foi isso que passou. Sugiro também tirar a parte que o pai diz: senta aqui, é hora de falar a verdade, pois é um clichê enorme.

    Apesar disso, aceitei o conto com um tom mais infantil, infanto adolescente, então achei legal por isso.

  7. Carlucci Sampayo
    11 de março de 2016

    No quesito fantasia, penso que este conto tem um pouco de tudo o que compõe a boa história, porém a narrativa em tempo presente não deu o tom desejado, na minha opinião. A história tem elementos para ser mais desenvolvida e o tamanho do conto, de acordo com o regulamento, não permite este desenvolvimento. No entanto, há um enredo interessante e híbrido em contexto racional e emocional que prende a atenção do leitor. Nota 07.

  8. Anorkinda Neide
    8 de março de 2016

    Olá!
    Você fez um conto interessante, que instiga a querer sabe mais…Embora o final aberto esteja perfeitamente claro , todo um filme se desenrola na cabeça do leitor e falando em filme, o enredo lembra Harry Potter!
    Buenas, anotei algumas frases que ficaram fora do acerto, vamos dizer assim:
    .
    ‘Ou pelo menos não tenta.’ melhor seriam assim:
    ‘Ou pelo menos enquanto não tenta.’
    .
    ‘– Vim chamá- la para ir até o Submundo, ou melhor, até o Sebo Submundo.’
    achei desnecessario e ficaria mais impactante se ela nao dissesse: ‘ou melhor, até o sebo submundo.’
    .
    ‘Seus chapéus davam a ilusão de ser mais alto.’ confusa essa frase… talvez assim: ‘Seus chapéus davam a ilusão de que ele era mais alto.’
    .
    a palavra Ascensão se escreve com ‘s’, tá bom?!
    .
    Abração

  9. Emerson Braga
    8 de março de 2016

    A.R. Wolf, você escreve bem e seu texto é criativo. Há uma boa história aqui.
    Porém, não precisava ter corrido tanto com a narrativa. Novos elementos surgem na trama sem que os anteriores tenham sido devidamente explorados. O texto poderia ter apresentado mais sofisticação e esmero. Quem o lê tem a sensação de que o autor deixou-se levar pela pressa em contar sua história, o que comprometeu o andamento do conto.
    Também percebi uma necessidade exagerada de explicar-se tudo. Acredito que, principalmente em textos fantásticos, o melhor da leitura está naquilo que é sugerido, insinuado. Enfim, “o diabo mora nos detalhes”.
    O clichê do cão feroz que fica manso e tolo sempre que alguém atira um graveto ou uma bola não acrescentou muito a seu trabalho literário. O alívio cômico tem que ter uma pegada original e inteligente, senão o leitor dá só meio risinho.
    Pelo que captei de sua escrita, você é capaz de fazer bem melhor do que fez aqui. Seja paciente com sua imaginação e exigente em suas construções frasais. Boa sorte!

    NOTA: 6,5

  10. Simoni Dário
    7 de março de 2016

    Olá A.R.Wolf

    Do ponto de vista estético, o texto é impecável, talhado com esmero, bem escrito e bem narrado. Tem muita fantasia, tem início, meio e fim.

    A historia é boa, mas lembra alguns livros e filmes que existem por aí. Não sei identificar especificamente qual, mas lembrei de Harry Potter e até do Código Da Vince.

    Quanto ao final, fiquei em dúvida se o mundo deles era dos humanos ou do submundo, mas parece que não foi tudo um sonho..

    O ambiente narrado não envolveu em cheio, não senti que estava dentro da cena em alguns momentos.

    Uma boa ideia, bons momentos no texto, mas uma história que pedia reviravoltas maiores, na minha opinião. Tudo se resolveu muito fácil, a ação ficou toda por conta das características bizarras dos personagens e de cenas já batidas em alguns filmes e histórias existentes na literatura.

    Tirando prós e contras, tem-se aqui um autor de talento, Parabéns!

  11. Andre Luiz
    6 de março de 2016

    Achei o conto bom, focando em uma trama que tem tudo para dar certo, salvos alguns erros de execução. Eu realmente gostei da história do Submundo, de uma organização secreta que queria roubar a Terra dos humanos, e da forma como as criaturas que viveriam lá estariam infiltradas em nosso mundo. Brenda e a sua relação com o pai também ficaram bem construídas. O que me incomodou é que no texto faltou um “algo mais”, que saltasse aos olhos e tornasse sua narrativa realmente diferente e inovadora. Brenda descobre que não é humana, que é um ser do Submundo e que seu pai é um “traidor”, tenta fugir e é perseguida, mas tudo acaba bem. Faltou um “quê” para tornar tudo mais emocionante e deixar no ar a tensão que a sua narrativa pedia. Enfim, é uma proposta boa mas que precisa ser melhor trabalhada e você precisa pensar em como Brenda pode “sofrer” mais com essa descoberta, ou em como o Submundo pode tentar resgatá-la à prisão agora que ela sabe do segredo. Boa sorte no desafio!

  12. Evie Dutra
    6 de março de 2016

    Para ser sincera, eu até que gostei.
    Admito que achei bastante previsível mas, talvez pelo fato da escrita ser leve, foi uma leitura fluída e agradável.
    Não achei um conto muito original e encontrei alguns errinhos por falta de atenção (duas ou três palavras faltando), mas gostei da sua escrita. É simples no sentido bom da palavra. Sem muitos floreios nem exageros, você vai direto ao ponto. Gostei do tom levemente cômico do conto e acho que isso compensou um pouco o fato de ser previsível.. além disso, se enquadra perfeitamente ao tema.
    Enfim.. parabéns e boa sorte!

  13. Fabio Baptista
    6 de março de 2016

    O texto está bem escrito, dentro da proposta infantojuvenil a que se propõe (pelo menos entendi dessa forma).
    Não é meu estilo preferido, mas reconheço o mérito (apesar de alguns apontamentos relevantes, elencados abaixo, principalmente no que diz respeito à variação de tempo verbal).

    O grande problema aqui foi a enorme similaridade com sagas já conhecidas, principalmente Harry Potter.

    Jogou contra também a impressão de que tudo foi apenas um prólogo, não um conto em si.

    – Mas tudo bem. – continuou Brenda – Vou pensar em outra coisa.
    >>> eu marcaria a pontuação do diálogo de forma diferente:
    >>> Mas tudo bem – continuou Brenda. – Vou pensar em outra coisa.

    – Brenda não desistiria assim tão facilmente. Quando coloca algo na cabeça não sossega enquanto não faz. Ou pelo menos não tenta.
    >>> mesmo que Brenda continue viva (estou comentando conforme leio, então realmente não sei) e ainda mantenha o hábito da “cabeça-dura”, essa variação de tempo verbal não ficou boa.

    – Essa mulher da foto é só uma modelo. Ela não é sua mãe.
    >>> quem nunca? huhauhauhauha

    – Walter, taxista veterano, conhece muito bem o assunto. Além disso, há quase tudo o que precisam no bairro tranquilo onde moram
    >>> Mais variação de tempo verbal

    – De repente, ouviu um barulho do lado de fora
    >>> Juro que pensei “Deus, por favor… que não seja uma coruja…”

    – Brenda seguiu seu caminho a passos largos, sempre olhando para trás com medo de que os delinquentes voltassem e também ****admirando o local****, apesar de seu ar sombrio, era bonito
    >>> uma reação estranha para quem acabou de quase ser estuprada e depois desintegrou o agressor.

    – para quê destruam
    >>> que, sem chapéuzinho

    – Dá uma olhadinha no espelho, querida.
    >>> Essa eu rachei o bico huauhauhauha

    – Certo. Digamos que toda essa loucura seja verdade. Por que estou sabendo disso só agora?
    >>> Mais um reação bastante inverossímil…

    – mas logo foi denominado por outros
    >>> dominado

    – Eu entendo papai
    >>> Eu entendo, papai

    Resumo: bem escrito dentro da proposta (apesar de alguns erros relevantes), mas abusou de muitos elementos já batidos e conhecidos de outras séries.

    NOTA: 6,5

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Publicado às 5 de março de 2016 por em Fantasia - Grupo 3 e marcado .