EntreContos

Literatura que desafia.

Mesmo que custe sua alma (Fabio Baptista)

alma

Ao norte do meu reino, perto o suficiente do mar para se ouvir o espumar das ondas e o grasnar esfaimado das gaivotas, existe um aglomerado de colinas, tão imponentes que os clérigos costumam dizer que foram criadas pelos deuses numa noite de orgia particularmente inspirada, nos tempos em que o mundo ainda era jovem. Eu acho isso uma grande bobagem, mas, seja como for, essas pedras escarpadas e traiçoeiras, de um cinza carrancudo onde até o limo parece ter medo de subir, são de natureza arredia, tiram a coragem do coração dos fracos ao primeiro vislumbre, quebram ossos e ceifam a vida dos incautos que ousam subestimá-las. Entretanto, assim como as melhores donzelas, oferecem néctares e delícias sem igual aos poucos que conseguem sobrepujar seus embustes – já vi muitas coisas na vida, mas nenhuma se compara à visão que se tem do mundo no topo das colinas ao norte do meu reino.

Um bom lugar para morrer.

Por isso gosto de vir aqui.

— Amarre os cavalos e suba. Estarei esperando lá em cima. Se não serve para vencer um amontoado de rochas, não servirá para governar o reino – meu pai falou, quando me trouxe aqui pela primeira vez. Eu tinha nove anos.

Subi. Quase caí por duas vezes, o que teria encurtado minha passagem por esse mundo maldito, mas subi. O vento batia gelado, trazendo gotículas do mar que impregnavam a boca com gosto de sal. Meu pai apontou para nossa cidade e perguntou: “o que vê ali?”. Pensei que se referia a alguma coisa além do óbvio, algo que eu não conseguia enxergar. Ergui os ombros, balbuciando “sei lá”. Recebi um belo tapa.

— Da próxima vez que responder dessa forma, arranco sua cabeça. Entendeu?

— Sim… senhor… – confirmei, limpando o sangue que escorria do nariz.

— Então, o que vê?

— Nossa cidade. Apenas isso – respondi, como quem pede desculpas.

— É o que há nessa direção: nossa cidade, nosso castelo e nossa gente. E lá, o que vê? – apontou a oeste.

— As fazendas, os campos de cultivo… – respondi rápido. – Depois, só as árvores da Floresta das Aparições.

— E lá? – virou-se ao leste, após raro sorriso.

— O oceano. E, bem distante, uma porção de terra, não sei ao certo…

— Aperte mais os olhos…

Obedeci, e o espanto transbordou no meu semblante quando entendi o que ele queria mostrar. Como se o horizonte fosse um espelho, ali, incrustrada no distante continente depois do oceano, estava uma cidade, ladeada por falésias ao sul e oeste e por montanhas ao norte.

— Aquilo é…

— Sim. Uma cidade, parecida com a nossa – completou. – O que acha que fazem ali? – meu pai tornou a perguntar, depois de um tempo.

— Não sei, pai… – respondi, perplexo.

— Vou te dizer o que fazem ali: eles criam animais, cuidam da lavoura, comem, bebem, cagam, mijam, reclamam do frio no inverno e do calor no verão. Os homens caçam, treinam com espadas e se embebedam nas tavernas enquanto as mulheres cozinham e cerzem de dia e abrem as pernas para os homens bêbados à noite, depois abrem as pernas para parir os filhos, que vão mamar nos peitos, crescer e começar tudo de novo. Exatamente como fazemos. E sabe o que mais? Eles também sobem naquelas montanhas – apontou como se mirasse uma flecha – e olham para cá. E ficam pensando no que fazemos aqui. Sabe o que isso quer dizer?

— Não… – engoli seco.

— Quer dizer – ele prosseguiu –, que temos ali um inimigo do tipo que nunca enfrentamos. Já lidamos com ogros, trolls, goblins. Ainda hoje, eles espreitam na escuridão, mas, apesar de fortes e traiçoeiros, são tão estúpidos quanto os bois que arrastam nossos arados. Sabemos o que esperar deles. Mas dali – esticou o queixo na direção da cidade além-mar –, não fazemos a menor ideia.

— Se eles são parecidos conosco, será que não poderíamos nos unir?

Meu pai respondeu com um olhar de desaprovação que quase me fez desejar ter levado um tapa no lugar.

— A paz só é desejada pelos fracos. Enquanto houver alguém, de outro povo ou outra raça, com capacidade para erguer uma espada, sua cabeça correrá o risco de ser cortada, suas vilas pilhadas, seus cavalos roubados e suas mulheres estupradas. Se um dia duvidar disso, mesmo que por um instante sequer, então nesse dia você será o maior de todos os tolos. Um tolo que jogará na latrina o nome da família Arunor, junto com os esforços e sacrifícios de seus antepassados. Entende isso? Quando chegar a hora, cumpra sua obrigação, proteja o reino… – agora ele me segurava pelos ombros e me encarava com olhos de carvão em brasa – mesmo que isso custe sua alma. Vai fazer isso? Ou devo atirá-lo ao oceano e adotar um bastardo em quem possa confiar meu legado?

Eu era só um menino, mas, mesmo sem entender completamente as coisas, respondi, com o ímpeto resoluto que jamais abandonaria minha voz dali em diante:

— Farei o que for preciso para proteger o reino, pai. Eu prometo.

ogros2

Ele morreu poucos anos depois, emboscado por um dos inimigos de quem “já sabia o que esperar”. Caçávamos javalis, chegamos perto da borda da Floresta das Aparições e, antes que pudéssemos ter qualquer reação, pulou das sombras um monstro duas vezes maior que o maior homem do reino. Um monstro de garras afiadas, que foram certeiras na garganta do meu pai. Eu estava atrás e tentei acelerar, mas, diante daquela criatura medonha, meu cavalo empacou. Desmontei e corri, sacando a espada, sentindo o fogo jorrar nas veias, mais do que já havia sentido em qualquer caçada. Scalox, o corcel de meu pai, relinchou e deu meia volta, deixando o corpo do rei pendurado na cela. Ele fugiu em minha direção e quando passou correndo, tentei segurar a correia para tomar impulso e montá-lo, mas minha mão enganchou e fui arrastado. Enquanto me afastava, esfolando as pernas na terra, ouvi o relinchar desesperado do meu cavalo. Chacoalhando para cima e para baixo, já quase inconsciente, vi o troll abatendo-o com um único golpe.

E dando a primeira mordida ali mesmo.

cavalos

A coroa nem teve tempo de se aprumar na minha cabeça e já reuni o exército. Nossas fronteiras não estavam tão seguras quanto pensávamos, afinal.  Montei Scalox, trajando a armadura de batalha prateada, que era de meu pai e de meu avô antes dele, empunhando Língua do Diabo, a espada de lâmina flamejante que diziam ter sido forjada pelo próprio deus ferreiro, quando anões e elfos ainda engatinhavam pelo mundo.

E marchamos para a floresta.

Fomos recebidos por azagaias e pedras assim que nos aproximamos. Algumas passaram longe, outras de raspão. Algumas foram aparadas pelos escudos, mas não foram poucas as que encontraram corações e gargantas, dos homens e dos cavalos. Respondemos com flechas de fogo, que tiveram a felicidade de incendiar uma faixa atrás das linhas inimigas, obrigando os monstros a sair de onde estavam entocados. Poderíamos ter continuado a atirar e vencido facilmente aquele punhado de trolls.

Mas vitórias fáceis não fazem a fama de ninguém.

— Vocês conseguem me entender? – perguntei, depois de desmontar e ordenar cessar fogo, confiando nas lendas de que um dia todas as criaturas falaram a mesma língua comum.

— Rusgnör entender homem pequeno… – o maior deles respondeu.

— Rusgnör, hein? Eu contra você, o que acha? – desafiei.

— Rusgnör contra homem pequeno… sozinho?

— Isso mesmo – confirmei, abrindo os braços e sorrindo.

Os trolls gargalharam. Senti a apreensão dos meus soldados, a hesitação no pisotear inquieto dos cavalos. “Se é morrer que homem pequeno quer…”, Rusgnör disse, investindo na minha direção. Foram suas últimas palavras. Esquivei da garra que veio de cima e, agachado, fiz um rápido giro com a espada, cortando o ar e as pernas do troll, à altura dos joelhos. Antes que ele tombasse, a Língua do Diabo lambeu de novo, deixando um rastro flamejante em suas costas. Os outros me atacaram em bando. Eu tinha recém-completos dezessete anos, não era tão forte como fiquei depois, mas era ágil como duvido que outro homem venha a ser. Eu lutava como um deus e meus soldados viam isso pela primeira vez. Fatiei os trolls, um a um. Por orgulho, por reputação, por ego, por crueldade.

E por vingança.

Afinal, um daqueles miseráveis havia matado meu cavalo.

ogro

Depois disso, os soldados iriam comigo até o inferno se necessário. Assim, avançamos pela floresta, eliminando o que encontrássemos pela frente. Não era minha intenção matar todos os monstros. Alguns eu desejava capturar, para utilizar sua força bruta. Mas eles preferiam morrer a se tornar escravos e não nos deixavam escolha. Um dia, porém, os deuses lançaram seus dados. Eu tentava convencer um ogro a se deixar capturar, segurando o filho dele, ainda bebê, no fio da espada. Ameaçava degolar a criança caso não colaborasse. O maldito me entendeu, mas continuou a se debater. Estava prestes a dar a ordem de eliminá-lo, quando fui surpreendido por uma voz de mulher velha vinda das árvores, rouca e maligna de um jeito que me arrepiou até os ossos:

— O reizinho-moço num vai consegui assim, ah, num vai não…

Todos ficaram em um silêncio amedrontado (até o ogro), tentando identificar quem falava aquelas palavras. Percorri o olhar ao redor, mas só vi folhas que farfalhavam traiçoeiras e galhos, retorcidos como as unhas dos mortos que continuam a crescer dentro dos caixões.

— Quem está aí? Apareça… – ordenei, sem muita convicção.

— Calma, reizinho-moço, calma que a véia aparece…

Das sombras saiu uma criatura, tão enrugada quanto encurvada, pouco maior que uma criança. Ela ria, do jeito que só ri quem sabe que controla a situação. Confesso que fiquei apavorado.

— E você, quem é? – perguntei, fingindo coragem.

— Eu sô a véia. A véia já foi uma… fada… se o reizinho-moço faiz questão de sabê. Mas já faiz tempo, reizinho-moço. Ah, bastante tempo – ela disse. – A véia só qué ajudá o reizinho-moço… só ajudá…

— E por que quer me ajudar, velha?

— Pur que? Purque o reizinho-moço é bunito, ué… – ela gargalhou, com uma malícia de tempos ancestrais.

Deveria ter cedido ao primeiro impulso e dizer que eu era Alan Arunor, rei de todas aquelas terras e não precisava da ajuda dela, nem de ninguém. Mas eu realmente queria aqueles monstros como meus escravos.

— Sabe como fazer para que eles se comportem?

— A véia sabe sim. Traiz um chumacinho do cabelo dele e o reizinho-moço vai vê…

O ogro voltou a se debater. Deu trabalho, mas consegui arrancar um pouco do cabelo. Entreguei-o à velha e ela juntou-o a um punhado de terra. Depois, cuspiu na mistura e modelou, na forma rústica de um boneco. Disse algumas palavras e, no instante seguinte, o ogro estava dócil como um cão que se senta aos pés do dono à espera de sobras.

— Esse feitiço dura quanto tempo? – foi a primeira coisa racional que me passou pela cabeça.

— Com esses aí, pode durá pra sempre, reizinho-moço. Se tratá eles bem e num dexá cum fome, num vão se isforçá pra quebrá a magia. Vão inté prifiri ficá assim…

— Também funciona com humanos?

— Muito pôco, reizinho-moço. Com gente qui nem ocê isso serve mais pra matá, alejá, ou dexá bem doente. Controlá, num controlá muito não.

— Então é inútil… minha espada mata e aleija mais rápido que qualquer magia.

— Nunca si sabe, reizinho-moço. Nunca si sabe…

A velha não me cobrou nada pelos “serviços” prestados. Ela ficou na floresta e eu voltei ao castelo, com reputação de guerreiro invencível, um exército que me amava e dúzias de trolls e ogros sob meu comando.

E a força deles me ajudou a concretizar planos que mais tarde se revelariam inúteis.

navio2

Queria construir navios, atravessar o mar e atacar a cidade que assombrava meus pensamentos dia e noite. Isso demandaria árvores pesadas. Os conselheiros tentaram me dissuadir, mostrando nas páginas douradas do livro dos reis que havia bons motivos para uma cidade litorânea não contar com embarcações de guerra. Pelos relatos, a floresta infestada de ogros e trolls afigurava-se como um jardim de flores e borboletas quando comparada aos terrores que espreitavam no oceano. Dragões-marinhos, polvos que poderiam enredar uma cidade inteira com seus tentáculos, leviatãs e uma infinidade de perigos que, desde o início dos tempos, mostravam não estar dispostos a compartilhar espaço com os humanos.

— Todos os reis que tentaram navegar, fracassaram, Senhor… – eles me disseram.

— Nenhum deles era Alan Arunor – respondi.

Construí uma frota enorme, em dezesseis anos de trabalho. Nesse tempo, me casei e tive uma filha. Eliane. Quando a vi, pensei que a amaria. Talvez a tenha amado por um breve instante, ou talvez ainda ouse amá-la até hoje, mesmo depois de tudo que aconteceu, não sei. Mas ali, diante do berço, as palavras do meu pai, dizendo que o amor era a maior de todas as fraquezas, soaram mais alto. E meu coração esfriou.

Os barcos ficaram prontos. Sorri quando as primeiras fragatas de reconhecimento ganharam as ondas, com as velas desfraldadas ao vento. Meu sorriso, no entanto, logo se desfez. Um redemoinho surgiu e dele brotou um demônio de um milhão de dentes, garras e tentáculos. Nunca soube o que era aquilo, mas, seja o que for, num instante havia três barcos na água e no outro não havia mais nada. Os conselheiros ao meu lado fingiram consternação, mas eu sabia o que de fato se passava em seus pensamentos.

Meus planos naufragaram, literalmente, e, pela única vez durante meu reinado, não tinha ideia do que fazer. Pensei em construir uma balista para arpoar a criatura, em pular na água sozinho e enfrentá-lo, em encher um navio com explosivos. Pensei em muitas coisas, mas uma segunda análise das ideias sempre trazia a decepção amarga dos que percebem que nem tudo no mundo está ao alcance. Então, o inimigo moveu suas peças, de um jeito tão simples que fiquei me sentindo um completo idiota por não ter pensado naquilo antes.

Eles vieram pelo alto.

futurama

Três pontos apareceram no horizonte e foram se avolumando até que pudéssemos contemplar, incrédulos, os detalhes das máquinas que flutuavam no ar, deixando um rastro de vapor pelo caminho. Eram mensageiros, deduzi, enviados em resposta à nossa tentativa de chegar até eles. Eliane ardia em febre, acometida por alguma moléstia que veio junto com a primeira regra. Preferi ficar ao lado dela a ver pessoalmente a chegada dos visitantes. Com a desculpa de que não cabia ao rei o papel de receber simples mensageiros, enviei conselheiros, que voltaram dizendo que os visitantes só se distinguiam de nós pela estatura mais baixa, os olhos que pareciam fechados embora estivessem abertos e os cabelos, pretos, lisos e que brilhavam sob o sol como um véu de seda. Desejavam uma audiência comigo para selar acordos de não agressão. Lembrei-me das palavras do meu pai a respeito da paz. E ordenei:

— Degolem todos, menos um. Coloquem as cabeças dentro de uma das máquinas e mande esse um que sobrou voltar, dizendo que considerei um insulto o líder deles não ter vindo se curvar diante de mim. Peguem as máquinas restantes e diga aos nossos engenheiros que façam o que for preciso para descobrir os segredos delas.

Cinco dias depois, incontáveis máquinas voadoras formaram uma colcha que cobria o céu, aproximando-se do meu reino como uma terrível nuvem de tempestade. Eliane já estava melhor e, mesmo que não estivesse, dessa vez eu não poderia ficar. Vesti a armadura prateada, que foi do meu pai e do meu avô antes dele. Empunhei Língua do Diabo.

E fui à guerra.

samurai

Os inimigos trajavam armaduras feitas de madeira e não de metal. Usavam elmos estranhos e estavam armados com espadas diferentes das nossas. Então, numa armadura negra como a alma de um Balor, adiantou-se um homem mais alto que os outros, mas, ainda assim, duas cabeças mais baixo que eu.

— Sou Shigueo Takisumaza, imperador de Nyrzuth. Enviei mensageiros em paz, e o que deste em troca, hum? – ele disse. – Agora, para que repares semelhante afronta, exijo que te ajoelhes aos meus pés e jures lealdade eterna.

— Acho que, mesmo ajoelhado, eu ainda continuaria maior que você… – respondi com confiança. Meus homens gargalharam.

— Piadas não livrarão a ti e a teu povo da completa destruição, caso não cumpras minhas ordens, hum?

— Shigueo Takisumaza, hein? – eu falei, como se me dirigisse a um verme. – Escute uma coisa, Shigueo: meu pai lutou contra trolls, ogros e goblins. Meu avô combateu milhares de orcs. Você já viu um orc? São montanhas de músculos e ferocidade, podem partir três homens ao meio numa única machadada. Meu bisavô guerreou com drows, os elfos que vivem debaixo da terra e usam magias traiçoeiras e flechas envenenadas. Tenho um antepassado que, segundo as lendas, defendeu o reino contra um dragão vermelho ancião. Se quer saber, eu também acho essa história meio exagerada, mas entenda… eu não posso ir para o livro dos reis como “aquele que se ajoelhou perante homenzinhos que atravessaram o mar voando em brinquedos de criança”. Por isso, Shigueo Takisumaza, em vez de me ajoelhar, acho que vou cravar minha espada no seu coração mesmo.

Disse isso e investi. Discursos podem, vez ou outra, servir para intimidar o oponente, elevar o moral das tropas e inflar o próprio ego. Mas não vencem batalhas por si só. E nas três primeiras trocas de espadadas, percebi que aquela era uma luta perdida. Shigueo era um adversário formidável. Se eu tivesse a agilidade de dez anos antes, aliada à força e explosão que possuía naquele momento, então talvez tivesse uma chance. Talvez. Com um chute, que mais pareceu uma pancada de aríete, ele me derrubou. Havia ordenado aos soldados para que não interferissem, acontecesse o que acontecesse, mas ali, suando feito um porco, rolando na grama e tateando o chão desesperadamente em busca de Língua do Diabo, desejei que descumprissem minhas ordens. Eles não descumpriram, mas Eliane descumpriu. “Jamais saia do castelo durante uma batalha”, eu disse a ela. Ela saiu. Se sob influência dos deuses ou dos demônios, jamais saberei, mas saiu.

— Por favor, não mate meu pai… – ela implorou por mim, como certamente teria vergonha de implorar por si própria.

Shigueo tirou o capacete e olhou para minha filha como se tivesse encontrado algo que procurara durante a vida inteira. Vi nele o rosto de um homem que acaba de ter consciência que jamais voltará a ser o mesmo. “Machados até fazem estragos, mas armas de fato perversas as mulheres carregam no meio das pernas!”, meu pai declamou num banquete certa vez, gargalhando, já embriagado.

Eu não poderia deixar de usar isso a meu favor.

— Aceite minha rendição… – sussurrei, engolindo o orgulho. – Ofereço minha filha, como prova de boa vontade. Mas, por favor… não me faça ajoelhar. Isso desonraria meus antepassados de um modo irreversível.

Talvez eu tenha escolhido as palavras certas. Talvez Shigueo estivesse encantado demais para raciocinar. Seja como for, aceitou meus termos. Apertou minha mão e levou Eliane embora em um dos “dirigíveis”. Ali começava a perdição dele.

E também a minha.

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Os mais ingênuos poderiam dizer que nos anos seguintes prevaleceu a paz. Os dirigíveis iam a vinham, trazendo comerciantes, embaixadores, cobradores de impostos e principalmente inspetores, que supervisionavam e “regulamentavam” meus avanços militares. Shigueo podia ser um homem que se apaixonava fácil, mas estava longe de ser um idiota. O povo de Nyrzuth ia se imiscuindo sem pressa, conquistando-nos e roubando nossa identidade, um dia de cada vez. Nossas mulheres olhavam para os homens deles com mais interesse do que olhavam os nossos, o sotaque já era incorporado ao nosso jeito de falar e alguns mestiços começavam a nascer. Só meu estômago sabe quanto me doeu esperar.

Quando meu neto completou três anos, decidi que era hora de agir.

Visitei-os, na cidade além-mar. Fui recebido com grande festa, pela minha filha, pelo pequeno Kyojiro e até mesmo por Shigueo, que parecia sinceramente feliz em me ver. Ele sorria, com uma alegria que jamais consegui sorrir. E eu o invejei por causa disso. Banquetes foram servidos, apresentações de dança e até mesmo um espetáculo de luzes que explodiam coloridas no céu.

— São de uma beleza que enche a alma, hum? – Shigueo apontou, abraçado à esposa e ao filho, com toda felicidade do mundo refletindo-se em seus olhos puxados.

— São mesmo, Shigueo – concordei, encarando com tristeza o deslumbre que se estampava no rosto de Eliane. – São mesmo…

Retornei no dia seguinte, trazendo comigo um punhado do cabelo da minha filha e também do meu neto.

navio

A velha da floresta me recebeu como se já soubesse. Queria ter levado o cabelo de Shigueo, mas a aproximação foi impossível. Estendi as mechas em minha posse e ela perguntou: “o reizinho-moço tem certeza?”. Consenti com a cabeça e observei, com o coração duro, a confecção dos bonecos. Nesses, ela espalhou um tipo de serragem e também o suco de umas frutinhas vermelhas que trazia numa sacola de palha.

— Tá feito, reizinho-moço – ela sorriu. – A mais grande vai durá uns quinze dia. A criança-pequena, uns dez. É melhor o reizinho-moço corrê…

Esperei uma semana.

Os conselheiros e generais ficaram deveras surpresos quando ordenei, de supetão, que se preparassem para um ataque maciço. Preocuparam-se, com boa dose de razão, sobre como seria dado esse ataque e ficaram ainda mais aturdidos quando ouviram minha resposta:

— Vamos com os navios – decretei. – Dividiremos nossas frotas em cinco partes iguais, velejaremos o mais depressa possível, rezando para que não haja tantos monstros marinhos ocupando o mesmo espaço. Se dois comboios conseguirem chegar do outro lado, teremos alguma chance.

Partimos na madrugada: cinco frotas de quinze navios cada. Não ouvi gritos, nem cascos se partindo, nem urros bestiais de monstros. Mas trinta navios desapareceram naquela noite. Porém, três frotas conseguiram chegar do outro lado e considerei isso um enorme sucesso. Desembarcamos junto aos primeiros raios de sol. Chegando de um modo que os inimigos jamais esperavam e camuflados pela neblina que ainda esbranquiçava o mundo, conseguimos um ótimo efeito surpresa e, antes que pudessem soar os gongos de alarme, já tínhamos parte da cidade sob nosso controle. Apenas um herói do lado inimigo poderia mudar os rumos do combate.

E fui me encarregar de que esse herói não aparecesse.

Os bardos cantam canções e declamam versos exagerados sobre minha luta derradeira com Shigueo Takisumaza. Dizem que demorou três dias e três noites, que a terra foi sacudida por terremotos e até os anjos do céu e os demônios do inferno declararam trégua para poder assistir ao embate. Não aconteceu nada disso. Entrei nos aposentos dele e me deparei com a tétrica cena de um homem insone segurando a mão da esposa e do filho à beira da morte. O corpo do meu neto, assim como o de Eliane, estava coberto por feridas purulentas, que eclodiam na pele como se a alma fervesse por dentro e quisesse fugir. Eles emitiam um gemido terrível, agonizante, imbuído da mais profunda dor. Eu quase me comovi, quase me detive e desisti de tudo, quase peguei o primeiro dirigível para ir à floresta implorar à velha que quebrasse o feitiço.

Quase.

Parti Shigueo em dois com um golpe de Língua do Diabo. Matei um inimigo já morto. Depois fui à Eliane e a poupei do sofrimento. Meu neto eu deixei queimar, junto ao castelo. Os homens de Nyrzuth se renderam, imploraram por misericórdia. Apinhei-os num dos meus barcos e permiti que fugissem pelo mar. Mas os leviatãs não foram generosos com eles. Disse aos meus soldados que fizessem o que bem entendessem com as mulheres e depois as degolassem junto às crianças e velhos.

Tiramos os dirigíveis e depois transformamos Nyrzuth numa grande pira. Voltamos para casa, navegando nas ondas seguras das nuvens. Ao chegar, acabei com os embaixadores e visitantes que lá estavam, com as crianças mestiças e com as mulheres que ousaram dormir com aqueles miseráveis. Liquidei todos os vestígios do inimigo. O povo voltou a me amar como amava antes. A velha gargalhou em algum lugar da floresta.

E os demônios gargalharam no inferno, onde meu lugar estava guardado.

castelo

Um dia meu pai me disse: “proteja o reino, mesmo que isso custe a sua alma”.

Eu fiz isso, seu velho desgraçado.

Eu fiz isso.

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30 comentários em “Mesmo que custe sua alma (Fabio Baptista)

  1. Pedro Luna
    2 de abril de 2016

    Bom, a realidade é que eu não esperava ganhar esse desafio. E após ler esse conto, sei que não ganharei..rs. Mas de boa, que bom que um bom texto pode ser o vencedor. To na torcida, pois esse foi meu preferido.

    Uma boa história, personagens duros, violência, fidelidade aos costumes brutais de tempos passados e histórias clássicas de fantasia, criaturas, a inserção das imagens, que ficou bem bacana (ainda que isso não conte pontos comigo, só olho o texto, a não ser que as imagens complementem o conto de forma sólida, e não só sirvam como ilustração), magia negra no meio, e um protagonista filho da puta e sem coração que não poupou nem a filha e o neto. Isso é fantasia medieval/ violenta.

    Tudo isso no mesmo conto e não ficou nenhum pouco chato e confuso. O autor fez com maestria. Excelente leitura.

  2. Piscies
    1 de abril de 2016

    CACETADA esse desafio já está valendo a pena só por causa deste conto e de mais um que eu li faz algum tempo, rs rs rs.

    Está difícil falar deste texto sem ser puxa-saco! O autor com certeza conhece seus caminhos na fantasia medieval, cheio de referências a Dungeons and Dragons e até Final Fantasy (sei lá, eu sempre vejo os “barcos voadores” como uma coisa de Final Fantasy, rs rs rs).

    A ideia de narrar um texto épico assim através dos olhos de um vilão na sua totalidade foi incrível. É impossível concordar com os atos de Arunor, mas também é impossível não ter allguma simpatia pelo homem invencível que ele é. INcrível como o autor conseguiu que eu sentisse alguma ligação com este verdadeiro monstro!

    A escrita está fantástica. A trama também. Os personagens são bem trabalhados, e até o fato de Eliane mal ser comentada na trama tem algum peso: afinal, a trama é narrada por Alan e ele mal notava a própria filha.

    Um conto incrível! Parabéns! Um dos melhores do certame, com certeza!!

  3. Wilson Barros Júnior
    1 de abril de 2016

    O conto começa como uma parábola, um “conto de duas cidades”. A ação se desenrola bastante rápida, típica dos contos medievais, florestas e monstros. Uma bruxa dá um toque bem “Macbeth”. O relacionamento entre o conquistador e o conquistado, ainda que descrito brevemente, é bem feito, lembrando-me o conto “As Linguagens de Pao”, de Jack Vance. O caráter do herói é marcante, bem delineado, e bastante coerente com o final. Bom conto, parabéns.

  4. Emerson Braga
    1 de abril de 2016

    Uma única queixa, o clichê: “…nos tempos em que o mundo ainda era jovem”. Por mais belo e sonoro que pareça, um clichê sempre será um clichê.
    Quanto ao restante da história, o que dizer? Escrita controlada, de quem sabe o que está fazendo. Condução inteligente da trama, períodos costurados com sabedoria. Digna de aplauso a gênese de um crápula revelada através de seu conto.
    Devo confessar que a passagem que narra o jovem rei matando trolls para vingar a morte não do pai, mas a de seu cavalo, é emblemática. Isso revela muito dos sentimentos do jovem rei por seu finado pai.
    Em pensar que tudo começou com um tapa? Que monstro o cara se tornou! E o final! Simplesmente arrebatador!Grande conto! Boa sorte.
    NOTA: 9,6

  5. Gustavo Castro Araujo
    30 de março de 2016

    Este conto tem uma estrutura semelhante a “O Lobo de Jaih”, em que a vida do protagonista – ascensão, queda e retorno – serve como fio condutor. Na medida em que desperta interesse, contudo, também apresenta os mesmos defeitos, tentando comprimir anos e anos de acontecimentos em 4 mil palavras.

    Arunor é um personagem com muito a dizer, oscilando entre o bem e o mal, dividido entre a necessidade de obter conquistas a todo custo e um amor latente pela família. No final, apesar de tudo, escolhe ombrear com o legado familiar, mesmo que isso tenha custado seus bens mais preciosos.

    Creio que funcionaria melhor num texto de dez mil palavras ou mais. Aqui não há tempo para que o leitor se afeiçoe a ele, para que se identifique com ele, torça para que ele se dê bem ou para que, no instante derradeiro, poupe sua família. Tudo acontece rápido demais, como numa dessas histórias que se contam em acampamentos. Sim, é legal, mas poderia ser bem mais legal. A fantasia é bem explorada e as menções aos seres fantásticos ajudam a criar um clima “além da imaginação”.

    No entanto, percebe-se que a real intenção do autor é colocar diante de quem lê um dilema existencial que não chega a ocorrer dada a aceleração da narrativa.
    O texto é bem escrito e faz com que a leitura flua sem sobressaltos, mas isso não é suficiente para transformar esta boa leitura em algo memorável.

    Nota: 8,0

  6. Gustavo Aquino Dos Reis
    29 de março de 2016

    Isso é uma epopeia. Um conto muito bem escrito, genuinamente imbuído de correntes da alta fantasia e da dark fantasy. Gostei muito. Ele é extenso, e atravessa a infância, a adolescência e a maturidade de um anti-herói. Eu só achei extremamente regionalista o sotaque da entidade da floresta (bruxa) e isso deu uma quebrada nos diálogos.

    Porém, é um trabalho de muito peso. Parabéns.

    Boa sorte no desafio.

  7. Wender Lemes
    28 de março de 2016

    Olá, Alan. Seu conto é o segundo que avalio nesta fase final.

    Observações: a trama é concisa e adequada ao tema, mas, como ocorreu com outros contos que também focaram-se muito no tema, senti certa dificuldade de desenvolver empatia em relação aos personagens. Acho que a preocupação ao criar o cenário com monstros, reinos, guerras e demais atributos que remetessem à Fantasia tomou um espaço que poderia ser usado para aprofundar os personagens.

    Destaques: o universo criado é muito rico e abre espaço para um trabalho ainda maior; a ortografia é impecável, no que pude notar; os elementos da fantasia são amplamente explorados.

    Sugestões de melhoria: sugiro buscar mais equilíbrio nessa questão cenário/personagem. Acredito que tenha encarado um dilema entre a adequação ao tema ou o desenvolvimento do personagem dentro do limite que tinha para o conto. Após o certame, por outro lado, você terá liberdade de explorar melhor a personalidade questionável do seu protagonista, transformando a morte da família em algo mais complexo que a carnificina por si só, por exemplo.

    Parabéns por ter chegado à fase final e boa sorte.

  8. phillipklem
    28 de março de 2016

    Boa noite.
    Seu conto me perturbou pela perversidade do protagonista, mas está, de fato, brilhantemente escrito.
    Sou humilde o suficiente para admitir que não gostei da história por simples questão de gosto pessoal, mas que você escreve com maestria e perfeição, com uma bela ênfase na construção de personagens.
    Meus parabéns, autor. E boa sorte.

  9. Catarina Cunha
    28 de março de 2016

    O COMEÇO é chato, descritivo demais, assim como os diálogos pobres. As ilustrações excessivas atrapalharam a leitura. No entanto a VIAGEM é extremamente forte e complexa. Depois do diálogo com o pai, o autor (a) manteve o FLUXO em rédea curta e intensa e soube desenvolver um personagem marcante. Juraria sobre o túmulo de Marcel Proust que esta odisseia tem mais de 10.000 palavras; só que não. Um conto chato e enorme, mas uma pequena e brilhante novela que daria um bom roteiro (a ser muuuuito trabalhado) para filme voltado para o público adolescente. FINAL épico. 8,5

  10. Pedro Teixeira
    25 de março de 2016

    Olá, autor(a)! Um conto muito, mas muito bom mesmo. O protagonista é muito bem construído, assim como o universo em que a estória, narrada de forma brilhante, se passa . O final é um soco no estômago. Toda a estupidez da guerra, é narrada de um modo que causa uma forte impressão. O único ponto que não funcionou tão bem, pra mim, foi o aparecimento da bruxa,soou um pouco superficial. De resto, um conto primoroso. Parabéns pela participação!

  11. Anorkinda Neide
    25 de março de 2016

    Muito bem!!
    Um conto muito bem executado, com figurinha e tudo.. rsrs
    Um enredo completo e fechado, surpreende e enterte. Parabens.
    Só nao simpatizei muito como apego do protagonista com as palavras do pai, a ponto de assassinar a própria filha… 😦
    Mas é coisa minha, não sei..encasquetei!
    Um abraço e parabens pela classificação!

  12. Renan Bernardo
    24 de março de 2016

    Excelente! Muito bom mesmo! Gostei da mescla com steampunk e cultura japonesa. O personagem principal é cativante (odeio ele) e o final é tocante. Bom ver que o conto não seguiu nenhum caminho esperado. Me surpreendeu bastante.

    Parabéns!

    Nota: 10

  13. Simoni Dário
    23 de março de 2016

    Olá Alan
    Você narra com estilo e mestria, prende a atenção durante a leitura, traz muita ação no seu texto, mas em minha opinião deixou a desejar no final. É impactante esse fim, sim, mas por alguma razão não gostei, é como se você tivesse bala na agulha pra fazer algo melhor, e o título entrega o fim. Outro porém é que elmos, trolls, ogros são personagens usados em histórias de fantasia por aí, então prezo quando também os personagens são inéditos, inventados pelo autor, com características criadas por ele, ainda que use daqueles mesmos personagens já conhecidos no mundo da fantasia.
    Enfim, a narrativa é de excelente qualidade, a inteligência e fluidez no texto são evidentes, apenas destaco aquilo que não apreciei tanto, por pensar diferente simplesmente. De qualquer modo, você é um ótimo escritor, criou uma aventura e tanto e está de parabéns!
    Bom desafio!

  14. Claudia Roberta Angst
    23 de março de 2016

    Conto longo, hein? As ilustrações ficaram bem adequadas ao tema, assim como a narrativa, é claro. Fantasia… dos infernos! Que rei malvado esse que prefere cumprir uma promessa feita ao seu pai do que salvar filha e neto do sofrimento.
    Está bem escrito e não encontrei lapsos de revisão, somente uma vírgula aqui e ali, mas isso é implicância minha.
    O tema não me agrada, mas até que me interessei pelo enredo. Batalhas sangrentas, trolls fatiados, bruxa que já foi fada, muitos elementos para compor uma história de ação, a epopeia de Alan Arunor.
    Não poupou a criancinha, pelo contrário, nem diminuiu o seu sofrimento, deixando o menino queimar. Mas se o rei precisava perder a sua alma para defender o seu reino, conseguiu.
    Boa sorte!

  15. Laís Helena
    21 de março de 2016

    Narrativa (1,5/2)
    Gostei da narrativa, especialmente no começo, em que você ressaltou vários detalhes e me fez sentir dentro da história. Durante o restante do conto, sua escrita continuou boa, mas senti que em alguns trechos (a morte do pai, o assassinato de Shigheo, por exemplo), a narrativa ficou muito apressada. Esses trechos mereciam ser tão detalhados quanto o início.

    Enredo (1/2)
    Eu gostei do modo como você mostrou a corrupção gradual do personagem e toda a batalha com a outra cidade. Entretanto, acho que ficou coisa demais para 4 mil palavras, e diversos elementos que tornariam sua história ainda mais interessante foram tratados de maneira apressada.

    Personagens (1,5/2)
    Como já disse, gostei do personagem e da maneira como você o explorou. Entretanto, senti que você poderia ter explorado mais a relação dele com o pai morto, sua obsessão em não desonrar os antepassados, o ódio pela população de Nyrzuth e até mesmo pelos mestiços. São coisas que teriam fortalecido ainda mais a caracterização e desenvolvimento do personagem.

    Caracterização (2/2)
    Gostei da caracterização desse universo, com os monstros, a bruxa e o contraste de uma cultura de tecnologia mais rudimentar com uma de tecnologia mais avançada. Dentro do conto, esses elementos foram bem utilizados e apresentados de forma coerente.

    Criatividade (2/2)
    Gostei da história mais focada no personagem e da caracterização desse universo.

    Total: 8

  16. Rubem Cabral
    21 de março de 2016

    Olá, Arunor.

    Muito bom o conto. Bem construído o personagem principal, dentro do espaço disponível. A mistura de referências ficou muito boa na maior parte das vezes, mas um pouco mais forçada em outras. Exemplo: trolls + orcs + anões = universo clássico de fantasia medieval, mas combinaram bem com os samurais e seus dirigíveis. No entanto, não considerei que a religião judaico-cristã com seus anjos e demônios e a feiticeira velha que falava como mãe-de-santo e fazia voodoo tenham se encaixado tão bem quanto o restante, talvez se houvesse mais espaço e um pouco de background das origens de tais coisas, isso ficaria mais orgânico.

    A visita à bruxa poderia talvez ter sido narrada em flashback depois dos assassinatos da filha, do neto e do genro, , trazendo maior surpresa ao desfecho tão cruel.

    O excesso de ilustrações deixou o texto um tanto poluído.

    Nota: 8,5.

  17. Rodrigues
    20 de março de 2016

    A saga é sensacional. Desde o início, onde o ódio passa de pai para filho como uma herança, até os desdobramentos que causam as guerras, maldições, estupros, o conto mantem-se apoiado a um sólido pilar que segura bem a trama e não deixa pontas soltas. Gostei da inserção da velha e da falta de sentimentos do protagonista, algo bem executado e que não me pareceu falso, dá pra sentir a raiva e ouvir o coração oco do cara. Nesse conto, o escritor pegou elementos diversos de um mundo, como orcs, espadas, conselheiros, cavalos, ogros, e manipulou-os com maestria, gerando uma boa história. Ao meu ver, apesar de muito bem escrito e amarrado, faltou aí algum tipo de estranhamento, algo que elevasse o texto do lugar comum, mas isso seria ousar e provavelmente construiria certa parede de críticas referente aos conservadores, algo bastante ruim em um concurso. Mas não tenho como negar o talento desse escritor.

  18. André Lima dos Santos
    19 de março de 2016

    Um bom conto. Com uma excelente resolução, um clímax do segundo ato bem interessante e um clímax final bom. Faltou uma linha mestra mais firme, ao meu ver. Em dado momento do conto, me entediei por ler cenas que pareciam desconexas (Algumas se conectaram no final, para meu alívio), mas a boa trama e a boa habilidade de escrita do autor compensaram.

    Conto muito bom.
    Boa sorte no desafio!

  19. Bernardo Stamato
    18 de março de 2016

    Se as colinas são tão únicas, mereciam um nome.
    Misturar narrativa direta e indireta ficou estranho
    Excesso de adjetivos, prolonga a narrativa sem necessidade.
    O protagonista é rei, mas se refere ao próprio povoado como “cidade” e não como reino. Parece uma incoerência, pois reis governam mais do que uma única cidade – a não ser que seja um caso específico que não foi explicado ao longo do texto.

    Tirando esses detalhes, a história é excelente. Faz tempos que não lia uma tragédia tão bem elaborada, certamente renderia um livro completo.

    Nota 6,5.

  20. Daniel Martins
    18 de março de 2016

    Mesmo que custe sua alma é uma obra que me chamou demais a atenção. Uma história daquelas que dá vontade
    de ler mais, de chegar ao final mais, rápido, com várias tramas, viradas e ação.
    O autor conseguiu colocar muita história num espaço pequeno sem ficar corrido ou faltando explicação.
    escrita exemplar.

  21. Leonardo Jardim
    18 de março de 2016

    Minhas impressões de cada aspecto do conto:

    📜 História (⭐⭐⭐⭐⭐): muito boa, gostei muito! Teve um ótimo desenvolvimento, com início, meio e fim. Informações bem cadenciadas, jogadas no momento certo, como a apresentação da velha da floresta. E um fim bem fechado com o início e com o título. Não vi defeitos nesse quesito.

    📝 Técnica (⭐⭐⭐⭐▫): direta, bem narrada em primeira pessoa, passou com eficácia a mente do narrador e me prendeu do início ao fim. Não vi nenhum erro de revisão, mas não ganhou as cinco estrelas pois costumo dá-las apenas qdo o autor consegue unir narração fluida (como no seu texto) com figuras de liguagem apuradas (não as vi muito aqui). Mas não ser preocupe, pois é uma ótima avaliação.

    💡 Criatividade (⭐⭐▫): o texto utiliza elementos comuns de fantasia (orcs trolls, etc.), mas traz algumas doses de novidade (os reinos divididos pelo mar, os dirigíveis, etc.)

    🎯 Tema (⭐⭐): fantasia clássica!

    🎭 Impacto (⭐⭐⭐⭐▫): como já adiantei, gostei muito do texto, fiquei preso e o fechamento final com o título ficou legal. O impacto total (cinco estrelas) é reservado, porém, para textos que me deixem incomodados após o fim. Esse foi uma ótima história e teve um bom impacto, mas não completo.

  22. ram9000
    17 de março de 2016

    A historia está adequada ao tema. Achei no geral o conto um bocado longo; poderia dar uma polida, principalmente em alguns diálogos, para deixar somente o essencial.

    O enredo é bom, porém sem grande emoção. As personalidades estão bem definidas.

  23. vitormcleite
    16 de março de 2016

    Gostei muito do teu texto e penso que será um dos finalistas. Adorei a voz da velha e os desenhos, muitos parabéns. O enredo estava perfeitamente enquadrado com o tema, e só me pareceu ter escapado uma gralha em lugar de “e” saiu um “a” em “Os dirigíveis iam a vinham” mas nada que desviasse o conteúdo. Com muita facilidade consegues transformar este conto num romance interessante, já tens as linhas gerais da história, por isso força. Muitos parabéns.

  24. Eduardo Velázquez
    14 de março de 2016

    Excelente texto. As descrições estão ótimas e os diálogos também. História muito interessante e original. Também gostei do final, apesar de ser bem trágico. Nota: 9.

  25. Thomás Bertozzi
    13 de março de 2016

    Bem amarrado e consistente. Alguns elementos foram bem colocados no início e no final do conto (boneco de barro e o conselho do pai, por exemplo)

    Nota: 9,0

  26. Carlucci Sampayo
    13 de março de 2016

    Um conto surpreendente! Forte, com um tema muito bem explorado: ódio, vingança, o temor reverencial e a relação paterna dividida e presa ao passado. Uma história densa e muito bem construída. Detalhes de batalhas e de arsenais muito bem descritos, os cenários que se revezam de maneira correta e bem relacionada ao movimento que imprime ao personagem central. Uma bela saga, se posso assim dizer e contém todas as emoções humanas em xeque; a racionalidade e o poder em jogo, o amor combatido e desvelado porém, a honra sem moral que permeia toda a personalidade do personagem. Hibrido em emoções, desperta muita atenção e prende ao leitor, que, curioso pelo tom épico e trágico, de forma quase leve, vai se familiarizando com os cenários e sua importância na construção do enredo. Magnífico, muito bem escrito. Considero brilhante a composição. Nota 10.

  27. Davenir Viganon
    11 de março de 2016

    Olá Alan Arunor.
    Fizeste uma mistura de um reino meio Tolkien + um reino “steampunk” japonês. Ficou muito bacana. O que mais gostei foi a história, linear, empolgante. Senti que tua preocupação é em contar uma boa história, mas também achei que tuas escolhas narrativas buscaram ir pelo caminho mais seguro. Isso não é ruim, só não foi o suficiente para me empolgar.
    A escrita simples, estava fluida para mim. O personagem cruel e atormentado e as escolhas dele (que o colocam na galeria dos FDP kkk) ficaram interessantes. Foi uma boa aventura. Em comparação com as outras histórias do grupo 2, não é a mais profunda, mas terminei a leitura satisfeito com o que li.
    Parabéns e boa sorte no desafio.

  28. JULIANA CALAFANGE
    9 de março de 2016

    Caramba, vc escreveu exatamente 4 mil palavras! Mas acho q podia ter contato a mesma história com muito menos. Acabou ficando um pouco cansativo, muitas descrições, o uso daquelas palavras típicas de histórias do gênero, mas nem sempre necessárias. No geral, foi um bom conto, a saga de Alan Arunor e sua estupidez implacável! rsrs Parabéns!

  29. Brian Oliveira Lancaster
    7 de março de 2016

    OGRO (Objetivo, Gosto, Realização, Ortografia)
    O: Apesar da sensação de “abraçar o mundo com duas mãos”, a atmosfera é muito boa, competente. Consegue misturar conceitos fantásticos com toques de steampunk. Infelizmente, a mistura não ficou tão homogênea. – 8
    G: O texto não se decide entre relato e narração visceral. O enredo e a ideia geral, bem como o final, são ótimos. Mas a execução deixou um tantinho a desejar. Apesar das figuras fazerem o papel de capítulos, anos e décadas passam muito rápido, bem como acontecimentos importantes que deveriam ter maior desenvolvimento. Talvez, se o texto se desenvolvesse realmente como alguém escrevendo suas memórias, as lacunas ficariam mais fáceis de serem preenchidas. – 7,5
    R: A divisão de figuras foi criativa, mas muitos já fazem isso por aqui. Reafirmando o que disse acima, o início e o final são excelentes, mas o desenvolvimento pede mais “fôlego”, foco. A parte da visão de terras distantes e seu futuro ataque já dariam uma ótima história, sozinha. A parte da filha e das caravelas achei um tanto apressada. – 7,5
    O: Escrita tranquila, boas construções e alguns eufemismos bem utilizados. Um ou outro paragrafo podiam ser “descolados”, mas nada que atrapalhe a experiência. – 8
    [7,8]

  30. Evandro Furtado
    6 de março de 2016

    A história começou meio trama daquele filme do Shrek que ninguém se lembra com a participação da Bruxa Baratuxa. Só faltou alguém dizer parangaricutirimirruaro. Depois se desenvolveu pra revelar um dos caras mais filhos da puta já descritos. Típico. Gostei de certas inovações quanto a personagens e equipamentos. Fiquei pensando em um mar de Leviatãs. Porra, um só já seria responsável pelo fim do mundo, imagina um mar cheio deles.

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Publicado às 5 de março de 2016 por em Fantasia - Finalistas, Fantasia - Grupo 2 e marcado .