EntreContos

Detox Literário.

Arnie e o Velocino de Ouro (Antonio Stegues Batista)

arnie

Era uma vez, num país muito, muito distante chamado, Hasta La Vista.

Conan, o rei de Hasta, casou-se com Nefertiti, princesa egípcia. O casal foi morar num castelo construído por um arquiteto italiano. Na entrada havia uma inscrição que dizia: Cerca-Trova, palavra que ninguém entendia o significado.

Dois anos depois nasceu Arnie. O bebe era tão feio que ao vê-lo, a rainha ficou meio decepcionada. O menino era careca, enrugado, magrinho, de orelhas grandes e pernas cambotas.

Na infância, Arnie foi avoado, desengonçado, mas com o tempo se endireitou um pouco. Só um pouco. Para compensar aquela falta de harmonia física, o rei contratou os melhores professores para instruí-lo. Professor de matemática, geografia, física, artes marciais, e outros mestres, inclusive mestre de obras.

O rei queria que o filho se tornasse culto, forte, valente e guerreiro. Mas, o que Arnie gostava mesmo era de compor poesias. – Poesia é coisa de gente que vive com as cabeça nas nuvens! Exclamava o pai e dava um piparote na orelha do filho. Como a orelha era grande, ele nunca errava. Arnie ficou magoado e para consolá-lo, a rainha chamou-o para ajudá-la a embalsamar o gato que havia morrido de indigestão, depois de comer o papagaio.

A primeira poesia que Arnie escreveu foi em homenagem ao gato;

Morreu o gato. O gato morreu, mas morreu feliz, comendo o que sempre quis, morreu sorrindo na hora derradeira. Cadê o gato agora? Enfeitando a lareira.

 Quando Arnie chegou à idade de casar, o rei e a rainha começaram a planejar o casamento dele.

– Nenhuma garota de sangue nobre vai querer se casar com o nosso filho –disse o rei- Vamos ter que arranjar uma plebeia.

– De jeito nenhum! – retrucou a rainha – Lembra de Minos, que se perdeu no labirinto atrás de uma vaca? Você o resgatou de lá mais morto que vivo. Ele tem uma filha solteira, se não me engano o nome dela é Ariane.

– É verdade! Minos me deve a vida. Vou mandar chamá-lo.

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O conde Minos entrou no gabinete e encontrou Conan sentado atrás de uma escrivaninha. Sobre ela havia alguns documentos, papéis, papiros, penas de ganso, tinteiros, chaveiros, cinzeiros, pincéis e borrador, além de uma cabeça encolhida de um índio. Um souvenir do Peru.

– Velho amigo! Como tem passado? Sente-se – cumprimentou o rei.

Minos achou a cordialidade e interesse do rei, fingidos, e respondeu no mesmo tom e com um sorriso cínico.   – Muito bem. E vossa majestade, como está?

– Vamos indo como Deus quer.

Conan fez uma pausa, ajeitando os papéis sobre a mesa. De repente cortou o silêncio assobiando, “Twisted Nerve”. Minos remexeu-se na cadeira, inquieto. Ficou olhando uma catana, pendurada na parede. Finalmente o rei parou de assobiar e disse – Caro amigo, já que ignoramos o protocolo, vamos pular os preâmbulos, ignorar as premissas e ir direto á conclusão de nossa conversa. Arnie vai se casar com sua filha. Fale com ela para marcarmos a data do casório. Faremos uma grande festa, e com feriado nacional, é claro.

Minos pensou em dar uma desculpa, pois sabia que o príncipe não era muito benquisto pelas garotas, mas não teve como recusar. Devia favores ao rei. Com certeza Ariane não iria gostar nem um pouco.

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De fato, a princesa bateu o pé – Casar com aquele feioso? Nem morta! Nem amarrada! Nem que a vaca tussa! Nem…

– Pare! – ordenou o pai – Pense um pouco. Arnie é um príncipe e um dia será rei de Hasta e você, casada com ele será quem? A rainha!

Ariane refletiu alguns instantes e por fim disse – Se é para o bem da nação, farei esse sacrifício.

Arnie não fez objeção quando soube quem seria sua esposa. Ariane era bonita e ele tinha esperança de que ela o amaria com o tempo. Mas, ele estava enganado. Dois meses depois do casamento, certo dia, Ariane exclamou:

– Vivo nesse castelo sob a insígnia do tédio! Que vida chata!

Arnie estava trancado no gabinete escrevendo suas poesias e ela estava no quarto, bordando. Para distrai-la, a aia perguntou- Milady, não quer jogar bilboquê comigo? –

– Não.

– Três Marias?

– Não!

– Já sei! Vamos brincar de cabra-cega!

– Não! Eu vou sair e sozinha, já que meu marido está lá, enfurnado naquele gabinete! Não aguento ficar bordando o dia todo, ou brincando com você! Vou respirar ar puro!

Ariane foi dar um passeio na praça do mercado. E foi naquele mesmo dia que ela conheceu Ali Baba, comerciante de especiarias. Ariane passou a se encontrar com Ali, ali na praça, toda vez que Arnie se trancava no gabinete com seus livros. Os encontros eram rápidos, ela tinha que voltar logo antes que o marido notasse a sua falta. Para ficar mais tempo com a amante, Ali Baba planejou afastar o príncipe da cidade por alguns dias. Ele contou o plano para Ariane e naquela mesma noite a princesa começou a pô-lo em execução. Disse ao marido que queria um velocino de ouro para fazer um acolchoado. Que era a ultima moda da nobreza.

– E onde tem esse velocino de ouro? – perguntou Arnie.

– Na Hileia.

– Hileia?

– Acabei de dizer.

– Mas, bah! Tchê! É longe!

– Que nada! Fica logo ali, na ponta do beiço.

– Beiço do mundo, isso sim!

– Eu quero! Eu quero! – teimou Ariane, fazendo beicinho.

Depois de muita manha da esposa, Arnie acabou concordando e na manhã seguinte, montado em seu alazão, partiu para a Hileia.

Da sacada do palácio a jovem esposa acenou para ele, dando adeus.

– Hasta lá vista, baby!

Mal o príncipe sumiu na curva da estrada, Ariane foi dar um passeio na praça.

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Depois de dois dias de viagem, Arnie chegou a uma taverna na beira do caminho. Uma placa num poste ao lado, dizia; Última Chance.

Entrando num ambiente enfumaçado, cheirando a suor, vinho e linguiça frita, o príncipe dirigiu-se ao balcão e pediu ao taverneiro uma refeição. Pegando a tigela com sopa de legumes, pão e uma caneca de vinho, ele foi sentar-se a uma mesa num canto. Dali a pouco um velhote com sinais de estar embriagado, se aproximou e apontou para a cadeira vazia.

– Posso me sentar? – perguntou, numa voz anasalada.

– Claro! – respondeu Arnie e o homem despencou na cadeira com um baque surdo.

– Me chamo Hermes.

– Eu sou Arnie. Estou indo para Hileia. O senhor sabe se ainda está longe?

– Logo ali, depois das montanhas. Dizem que as mulheres de lá são muito bonitas. Mas, cuidado meu amigo! As mulheres parecem frágeis, indefesas, mas é puro fingimento. Se forem bonitas usam a beleza para te atrair. Se parecem frágeis usam a fraqueza para romper tuas defesas. Quando você se distrai, mostram as garras e te arranham.

Hermes sorriu. – Quando dois homens conversam sempre acabam falando em mulheres, né?

Três homens entraram na taverna conversando em voz alta e rindo. Sentaram-se a uma mesa e pediram cerveja. Hermes virou a cabeça para olha-los.

– São uns vermes! – murmurou. – Pensam que são donos do mundo.

– Quem são?

– O de cota de malha se chama Aníbal. O vândalo com gorro de pele de iaque, talhando o nome com o punhal na mesa, se chama Genserico e o baixinho coçando a barriga é o Napoleão. Nunca se sabe o que podem fazer esses bárbaros!

Hermes voltou-se e continuou: – Falando em saber, antigamente a gente consultava o oráculo para saber os desígnios dos deuses. As respostas eram dadas através de uma mulher chamada Pitonisa. Vai chegar o dia em que todo mundo vai se conectar a uma pitonisa de qualquer lugar e perguntar qualquer coisa. Inclusive se vai chover amanhã…

O velhote meteu a mão no bolso, pegou dois objetos colocando-os sobre a mesa – Tome, leva isso com você para dar sorte.

Um dos objetos era um pedaço de rocha com um trevo de quatro folhas incrustrado. O outro parecia um figo seco.

– A pedra é um fóssil e isso o que é? – indagou Arnie. Hermes ergueu-se.

– Um talismã muito forte! Até logo! Boa sorte!

Cambaleando, o homem dirigiu-se para a saída e foi embora. Depois de comer e pagar pela refeição, Arnie saiu, procurou pelo cavalo e não o encontrou. Alguém tinha roubado sua montaria junto com a espada, embornal e roupas. Mas, ele não desanimou. Seguiu viagem a pé mesmo, penetrando no ermo.

Nas montanhas a estrada se transformou numa trilha estreita a beira de precipícios. Naquela noite Arnie dormiu entre duas rochas para proteger-se do vento e do frio. Arrependido, jurou para si mesmo que no futuro pensaria duas vezes antes de ceder aos caprichos da esposa.

No quarto dia de viagem, Arnie atravessava uma floresta quando chegou a uma cabana na beira do caminho, às margens de um regato. Da chaminé saia um rolo de fumaça. Com fome, ele bateu na porta. Surgiu uma velhinha simpática vestida de preto, com um lenço preto na cabeça.

– Quem é? O que quer?   – perguntou, estreitando os olhos.

– Bom dia! A senhora não teria um pedaço de pão?

– O que? Seu nome é João? – a velha era meio surda.

– Não senhora, meu nome não é João!

– Ah! Quer pão? Meu filho vai demorar a chegar e a lenha para o fogo acabou. Pode cortar lenha, para eu colocar no fogão e acabar o almoço? O machado está ali, no canto.

Arnie achou que era justo a mulher cobrar pela comida. Pegou o machado e encontrando uma árvore seca, dividindo-a em toras e levou para a cabana empilhando-as ao lado do fogão de pedra. Sentiu o agradável odor da comida que saía de uma panela sobre a chapa de ferro. Ele chegou perto da mulher que tricotava e falou alto:

– Já cortei a lenha.

A idosa, sem mesmo erguer o rosto do tricô, apontou um dedo torto para cima.

– Conserte o telhado. Tem goteira quando chove.

Arnie soltou um suspiro e subiu no telhado para colocar a telha no lugar. Acabando o serviço, desceu e entrou na cabana, julgando que as tarefas tinham terminado, mas a mulher tinha outra. Mandou-o pegar água para fazer                                                                                                                                                                                                                                                                                café. Resignado, ele pegou um balde e saiu. Logo depois chegou a um regato. Ao inclinar-se na margem, viu a sua imagem refletida na água. Ficou espantado com o que viu. Estava barbudo, de cabelos compridos, as roupas em frangalhos. E só naquele instante é que notou as botas arrebentadas, com um dedão para fora, as mãos calejadas e cheias de cicatrizes.

Resolvendo ignorar a velha, ele largou o balde, se afastou e tomou a trilha, seguindo para o Oriente. Saindo da floresta, chegou a uma ponte de tábuas e cordas que atravessava um profundo desfiladeiro. Havia uma placa que dizia; Ponte do Ogro. Pague o pedágio.

No meio da ponte estava um ogro esverdeado armado com uma longa espada. Ele ergueu a mão – Alto lá! Se quiseres passar, tens que pagar.

– E quanto é? – indagou Arnie, pegando a bolsinha com as moedas.

– Não é bem assim- disse o ogro sacudindo a cabeçona – Eu vou pedir qualquer coisa que me vier à cabeça. Se vosmecê tem, passa. Caso contrário, se não tem, volta por aonde veio.

– E o que vosmecê quer?

O Ogro pensou, pensou e pensou. Finalmente disse: – Uma flor de pedra.

Arnie achou que teria que voltar, mas lembrou-se do fóssil que Hermes havia lhe dado. Procurando nos bolsos e o encontrando, entregou ao ogro. O ogro olhou, examinou e sacudiu a cabeça dando espaço para Arnie passar.

Arnie atravessou a ponte e do outro lado seguiu por um canyon até sair num vale. Por uma estrada passava uma carroça com um letreiro gravado nos lados; Ave César. Arnie correu atrás – Ei, senhor!  Por favor. Pode me dar uma informação?

O homem, que conduzia a carroça cheia de gaiolas com galinhas, puxou as rédeas fazendo o cavalo estacar.                                                                                                      – Ooooaa! Para, Incitatus!

As galinhas carcarejaram, protestando.

– Amigo, sabe onde posso comprar um velocino de ouro? -perguntou Arnie. O homem olhou-o por alguns instantes.

– O único que ainda existe está na caverna do dragão, mas ele só vai dar a quem ganhar o jogo das adivinhações.

– Que adivinhações?

– O que é o que é? Coisas desse tipo, e olha que faz anos que ele acerta todas.

– E onde posso encontrar esse dragão?

O homem apontou para o morro do outro lado.

– Numa caverna, lá em cima. O nome dele é Bruce Li.

Arnie agradeceu e subiu o morro. Chegando na entrada da caverna, bateu palmas.

– Oi! Ó de casa! Senhor Dragão!  Seu Bruce Li?

O Dragão, já idoso e desdentado, saiu da caverna esfregando os olhos. Bocejou, encolheu as asas e sentou-se no chão.

– Manda lá!

– O quê?

– Não veio cá me desafiar com perguntas de adivinhação?  Para ganhar o velocino?

– Sim. Eu faço uma pergunta e se o senhor não souber ou responder errado eu ganho o velocino? Quantas perguntas eu posso fazer?

– Tantas quantas você quiser. Teve gente que desistiu depois de cinco dias.

– Vamos lá então. O que é que cai em pé e corre deitado?

– Essa é fácil! Chuva.

– O que é que se joga para cima é branco e quando cai no chão é amarelo?

-Todo mundo sabe. Ovo. Manda outra!

– O que é que entra na água e não se molha?

– Sombra. Outra!

Arnie percebeu que o Dragão sabia todas as respostas. Era um fanático pelo jogo de adivinhações e parecia que ele estava disposto a ficar ali por longo tempo naquele jogo. Arnie resolveu trapacear.

– O que é que, de manhã anda com quatro pés, meio dia com dois e de tarde com três?

O Dragão ficou pensando e por fim, disse:

– O ser humano! Quando nasce ele engatinha, anda com quatro pés, quando fica adulto anda com dois e quando fica velho usa bengala, anda com três!

– Errado. – respondeu Arnie.

– Errado? Como assim?

– É o meu vizinho Ariovaldo que saiu de casa numa carroça, carroça tem quatro rodas, ao meio dia o eixo da carroça quebrou e ele teve que andar a pé. No caminho machucou o pé e teve que voltar para casa à tarde usando bengala.

O Bruce Li não gostou. Apertou os olhos, retraiu os lábios e tentou soltar um jorro de fogo, mas não saiu nada. Dragão velho não tem mais fogo.

– Não acho que seja assim! Acho que estais me enganando!

– Sois sábio, mas nem tudo sabeis -respondeu Arnie.  – De qualquer maneira farei uma nova pergunta. Tenho um olho que brilha na escuridão. Todo mundo me vê, mas eu não enxergo. O que é?

– Essa é fácil! O farol – respondeu Bruce com um sorriso de vencedor.

– Não senhor! É uma lanterna no mastro do navio do capitão Gancho.

– Droga. Mais uma, mais uma e se eu não responder, pode levar o velocino.

– Ok! Então me diga; O que é um morto sorrindo na escuridão?

Bruce Li se pôs a pensar. Meia hora depois continuava a pensar e a coçar a cachola. Arnie apontou para a caverna.

– Posso?

– Vá. Não me atrapalhe.

Arnie entrou na caverna. Havia ali uma estante cheia de livros sobre jogos de adivinhações, um catre com colchão encardido, um espelho quebrado, mesa, mochinho, um pôster da Rachel Welch enfeitando a parede, uma talha de água e a pele de carneiro dourada que estava pendurada no chifre de um cervo. Arnie pegou o velocino e procurou se afastar rápido antes que o Dragão conseguisse responder à pergunta.

– Espere um instante – pediu Bruce Li, fazendo um gesto. – Eu desisto! Não sei. O velocino é seu, mas antes de ir me diga a resposta. O que é um morto sorrindo na escuridão?

– É a caveira na bandeira no mastro do navio do capitão Gancho, o pirata da perna de pau, de olho de vidro e cara de mau, que tem aquela lanterna amarrada no mesmo mastro que está a bandeira.

Enquanto o Dragão pensava e raciocinava, Arnie se afastou rápido.

Quando chegou à ponte, lá estava o ogro.

– Pare! Pague o pedágio.

– O que quer agora? -perguntou Arnie, temendo ter que voltar.

O Ogro pensou, pensou, pensou e afinal disse – O prepúcio de Sansão.

Arnie vasculhou os bolsos da calça rota e pegou um objeto que parecia um figo. Deu ao ogro que examinou, examinou, e depois o deixou passar.

Quando o príncipe chegou a Hasta, ninguém o reconheceu por que estava completamente mudado. Com os cabelos compridos, barbudo, musculoso, bronzeado e esfarrapado. Ele viu Ariane atravessando a praça. Ela, mal olhou para ele, pensando que era um mendigo com uma pele de carneiro sobre os ombros. Passou por Arnie e entrou na tenda de um mercador. Arnie foi atrás e ficou chocado quando viu a esposa e o homem da tenda se abraçando e se beijando.

Decepcionado e arrasado, o príncipe dirigiu-se para o castelo. Os guardas não quiseram deixa-lo entrar, mas depois o reconheceram quando ele mostrou as orelhas. Arnie foi direto aos aposentos dos pais e se apresentou. O rei e a rainha estavam almoçando quando ele entrou no salão. A princípio eles ficaram alarmados achando que era um assaltante. Arnie atirou o velo a um canto.

– Sou eu Arnie!  Acabei de chegar do oriente.

– Arnie! – a rainha correu para abraça-lo.

– Pensamos que estavas morto! – disse o rei, roendo uma coxinha de galinha assada. Ele limpou os dedos gordurosos na túnica e abraçou o príncipe. – Não tivemos mais noticias tuas. Mandei procurá-lo diversas vezes e ninguém encontrou pistas tuas na Hileia. Esses seis meses foram de tristeza para nós!

– Seis meses? Então passei esse tempo trabalhando para uma bruxa!

– Que bruxa, meu filho? – indagou a mãe.

– Por falar em bruxa. Ainda há pouco, vi Ariane abraçada a outro homem na praça do mercado.

A rainha bateu no ombro do marido.

– Eu te disse que ela estava aprontando!

Ariane chegou naquele momento. Ao ver aquele homem estranho, sujo e roto, junto à mesa do almoço, julgou que os sogros estavam ficando caducos, convidando os mendigos para almoçar no palácio real.

– Não reconhece mais o teu marido? -perguntou a rainha, ríspida. Ariane olhou novamente e cobriu a boca com as mãos.

– Arnie! -exclamou e foi abraçar Arnie, mas estacou, fazendo uma careta. – Vá tomar um banho primeiro. Você está horrível, fedendo!

– Quem vai tomar um banho é você. Bem longe daqui – retrucou o príncipe, zangado.  – Pegue tuas coisas e vá embora. Eu te vi ainda a pouco na praça, abraçada a um árabe. Vai, te manda pras arábias!

Ariane tentou dar uma desculpa, mas não teve jeito. Foi obrigada a voltar para a casa dos pais. Quando chegou, teve que ajudar Minos, que tinha se perdido no labirinto atrás de um boi.

Alguns dias depois…

A professora sentou-se num banco de pedra no jardim interno, sob os ramos de uma romãzeira e ali ficou à espera do aluno. Dali a pouco chegou Arnie.

Bonjour! Comment êtes-vous? – disse ele, sentando-se ao lado dela.

Je vais bien, et vous?

Bien, merci. Je parle correctement?

Oui, monseur, majesté.

– Não me chame de senhor que me sinto um velho. Pode me chamar de Arnie.

Ela sorriu encantadora.

– Está bem. Então me chame de Morgana, simplesmente.

Assim, Arnie acabou namorando e se casando com a sua professora de francês.

Et ills vécurent heureux pour toujours

E eles viveram felizes para sempre…

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18 comentários em “Arnie e o Velocino de Ouro (Antonio Stegues Batista)

  1. Anorkinda Neide
    23 de março de 2016

    Hahaha achei engraçado aqui tb.. esse grupo tinham os irônicos hein…
    Olá. eu gostei da miscelânia, o protagonista foi cativante, achei q o enredo foi descompromissado, pretendendo brincar e entreter… eu gostei.
    tem alguns errinhos q acho q foram digitação.. dá uma conferida.
    Abração!

  2. Andressa
    18 de março de 2016

    nota: 8,5. Com uma mistura de mitologias e cinema, pois até o Conan é citado no conto e uma pitada de humor, nos remete a eterna história da bela e a fera fazendo um hibridismo com a velha fábula do golpe do baú.

  3. Gustavo Castro Araujo
    17 de março de 2016

    O conto se propõe à sátira. Talvez seja a intenção do autor fazer algo diferente, imaginando que a maioria dos participantes vá aderir à fantasia “hard”, levada a sério. Ou talvez seja alguém como eu, que tem sérias dificuldades de escrever algo crível nesse tema.

    De todo modo, o conto cumpre relativamente bem o que se propôs. Dei algumas risadas com as tiradas sarcásticas de Arnie, com os encontros improvavelmente irônicos e com os personagens “famosos” que frequentam a narrativa no melhor estilo “Shrek”.

    Temos aí um herói feio e azarado, mas ainda assim torcemos por ele, já que a esposa é uma aproveitadora. Arnie vai para muito longe e enfrenta perigos por ela, faz sacrifícios e tem que usar a inteligência. No fim, temos nossa sede de vingança saciada, ao ver a traidora desmascarada. Fim.

    Narrativa redonda, com alguns erros de revisão, mas que cumpre bem o papel de entreter.

    Nota 6,5

  4. Wilson Barros Júnior
    17 de março de 2016

    Algumas frases são muito bem construídas, “vivo sob a insígnia do tédio”, por exemplo. A ambientação ficou realmente hiboriana. Algumas piadas são bem engraçadas, como a do piparote na orelha. O conto em certo momento tende para o surreal, com as presenças de Aníbal e Napoleão, e em outros realoca contos de fadas. Um conto estilo medley, com o jeitinho da Anorkinda e da Neusa.

  5. Alan
    16 de março de 2016

    Conto bem humorado e dentro do tema. Bem escrito e muito criativo. Tive a impressão de que o autor se divertiu muito enquanto escrevia.

  6. Daniel Reis
    15 de março de 2016

    Prezado autor: achei o seu texto muito engraçado, no bom sentido, mas não consegui dar a ele por isso o valor que esperava. Gosto muito de coisas assim, com citações de fontes diversas, mas me pareceu que a estrutura era muito frágil para suportar tantos penduricalhos lendários. Boa sorte neste desafio e nos próximos!

    Pontos positivos: o humor e o caldeirão de citações pop e mitológicas produzidas na cabeça fervilhante do autor.

    Pontos negativos: o aspecto farsesco – o conto parece uma mentira inventada enquanto se conta. Mas quem não, né?

  7. Pedro Teixeira
    15 de março de 2016

    Olá, autor! É um conto divertido, com diálogos bacanas e um enredo bem amalucado. Gostei das referências, a estória lembrou muito o grupo Monthy Python e Schreck também. Algumas coisas me soaram nonsense demais, como as gírias gaúchas e o final me pareceu apressado, mas de resto é um texto interessante.

  8. Carlucci Sampayo
    12 de março de 2016

    Fantástico! A junção de vários elementos de contos outros, de histórias da Mitologia Grega, do imaginário infantil, lendas, nomes de lugares, flashes de filmes e personagens da filmografia voltada ao entretenimento. Magia, lendas e tudo o que o autor mesclou aqui compôs um conto lindo, divertido, bem humorado, leve e sem amarras. Tem movimento, enredo que se coaduna com as ideias iniciais, a simplicidade e a profundidade na mesma medida. Linguagem rápida, moderna, atraente, termos inteligentes, versatilidade e tudo o mais que o torna muito atraente e inteligente. Bem construído em narrativa, com a parada certa no que não se necessita estender e continuando com lógica e equilíbrio de cenas e de narração. Fantasioso e compreensível, encantador. Adorei. Nota 10.

  9. Sonia Rodrigues
    10 de março de 2016

    Percebe-se que o autor tem conhecimento geral e muita leitura, infelizmente o leitor fica perdido nessa mistura de mitologia grega com história geral e de quebra umas cenas saídas da temática de contos de fadas: a velha que impõe trabalhos ao príncipe e lhe dá 3 objetos.

    O narrativa perde a uniformidade pelo excesso de referências cruzadas e infundadas – Bruce Lee, Napoleão e Incitatus, por exemplo. Mostrar erudição demais torna o texto indigesto.
    Por outro lado, algumas tentativas de humor, enfrequeceram o texto, porque infantis:
    “o gato que havia morrido de indigestão, depois de comer o papagaio…
    outros mestres, inclusive mestre de obras…
    Se é para o bem da nação, farei esse sacrifício.”
    Outro fator que tira a credibilidade do texto é a mistura de linguagens, com o uso de
    frases chulas pelo rei e pela princesa ( talvez com a intenção cômica). Esse diálogo vulgar não combina com o uso de palavras estranhas ao uso comum, como catana e borrador.
    E certamente:
    – Mas, bah! Tchê! – dito por Arnie, príncipe em Hasta la vista, certamente não soou bem… uai!

    Outra referência desnecessária e que caiu mal, no meio de tanta citação mitológica, foi o “souvenir do Peru”. Afinal, ou a história passa-se no reino da fantasia ou no mundo real?
    O texto acaba de uma maneira abrupta ex-machina: O aluno casa-se com a professora de francês.
    Bem, o que tem este final a ver com a história?
    O príncipe queria o amor da esposa, sai pelo mundo para realizar um desejo dela, descobre que é traído, a expulsa e …. o leitor sequer sabia que ele aprendia francês!
    Nota: 5

  10. Rubem Cabral
    8 de março de 2016

    Olá, Garralonga.

    Achei criativo e por vezes engraçado, mas também irregular e carecendo de um tanto mais de revisão. A mistura maluca funciona em algumas partes, porém às vezes também desanda, feito no final muito fraco.

    Boa sorte no desafio. Abraços.

    Nota: 6.

  11. Alan
    7 de março de 2016

    Esqueci da nota: 4.

  12. Alan
    7 de março de 2016

    Não sou muito bom como crítico, mas achei a leitura um pouco sofrível. Algumas vírgulas desnecessárias. Acredito que era para o conto ser engraçado, mas achei sem graça. Um ponto positivo é a criatividade do autor. Continue praticando.

  13. andressa
    7 de março de 2016

    Nota 8. É bom, porém as vezes um pouco confuso, mas bem criativo.

  14. Virgílio Gabriel
    6 de março de 2016

    Caramba, que conto mais doido! Acho que na primeira frase dele você quis dizer “um”, e não “num”. Notei que faltou uma certa revisão de forma geral, mas deixarei isso de canto, pois é nítido que foi apenas falta de atenção e não capacidade. Esse estilo conto/paródia me agrada demais, das piadas e momentos engraçados, aos nomes dos personagens. Queria que tivesse explorado um pouco mais o ogro, ele pareceu ter um jeito bobão interessante. Muito bom! Não adianta nada escreverem versos alexandríticos, se o conteúdo for chato. E aqui você me proporcionou minutos de muito prazer. Parabéns, amei o seu estilo, e assim que souber quem é, ficarei feliz em ler mais das suas obras. Boa sorte!

  15. Phillip Klem
    6 de março de 2016

    Boa tarde.
    Logo no início, gostei do seu conto. As referências à vários personagens foram uma boa sacada. E aquele poema sobre o gato me arrancou umas boas gargalhadas. Meus parabéns pela criatividade.
    Porém, no decorrer da narrativa, seu conto foi ficando bastante cansativo de se ler. Não sei dizer exatamente o por que.
    Seus personagens tem pouca profundidade. O próprio Arnie, o suposto protagonista, não é bem explorado. Não consegui gostar dele, mesmo com suas limitações físicas.
    Uma boa parte da historia não fez muito sentido, como o velho Hermes, presenteando Arnie com exatamente o que ele precisava para passar pela ponte do Ogro.
    Confesso, no entanto, que a parte que menos me agradou foi o desfecho.
    Enfim, você tem um bom potencial para escrever, bem puxado para a comédia, o que foi o forte no seu conto, mas precisa desenvolver melhor seus personagens e sua trama.
    Meus parabéns e boa sorte.

  16. Ricardo de Lohem
    6 de março de 2016

    Bom, vamos lá. “Era uma vez, num país muito, muito distante chamado, Hasta La Vista.” Erro na primeira frase não pega bem: claro que você quis dizer “um”, não “num”. É bom que seja corrigido, mas não levar em conta, só um caractere errado pode ser um simples erro de digitação. Outra coisa estranha: “Mandou-o pegar água para fazer café”, o café ficou perdido lá no canto direito da página, fazendo não sei o quê, acho que não é erro do autor, é um erro da página em si, seria bom alguém consertar. Vamos a história em si. O que temos é uma sucessão de piadas, muitas girando em torno do ator Arnold Schwarzenegger. Esse tipo de história, que o folclorista Câmara Cascudo chama de Facécias, gira em torno de uma série de aventuras cômicas de um personagem. Exemplos seriam as histórias de Pedro Malasartes; no oriente médio, temos o personagem Mulla Nasrudin desempenhando o mesmo papel. É uma opção de história de fantasia, só que o autor falhou em suas intenções, e vou explicar o porquê.Esse tipo de personagem de causar algum tipo de empatia no leitor. Há duas variantes básicas: o personagem ingênuo, idiota, talvez até meio retardado, que desperta simpatia por sua pureza inocência; e o esperto, astucioso, que engana seus inimigos e acaba triunfando com sua inteligência. Ora, Arnie não se encaixa em nenhum dos dois casos: não é idiota e ingênuo, e não é esperto. Na verdade, ele é apenas um boneco, um dummy, um títere para as piadas que o cercam. E elas são engraçadas? Não! Não são! A maior parte delas são trocadilhos de efeito cômico nulo (o pais chamado Hasta La Vista, por exemplo) ou tentativas muito malsucedidas de parodiar os estereótipos dos contos de fadas (os enigmas que o dragão tem que responder, por exemplo). Para se parodiar alguma coisa, é preciso conhecer essa coisa, e tive a forte impressão que o autor nunca leu mitologia ou contos de fadas em toda a sua vida e suas únicas referências no assunto vem de filmes. Além disso, há mais uma coisa que me incomodou: a história não tem objetivo em praticamente nenhum ponto, ou os objetivos são delineado de forma tão fraca que quase não se sente que o protagonista tem algum objetivo. Histórias nas quais o objetivo central é fraco ou tolo, só uma desculpa para dar andamento à história – um MacGuffin, como se diz – só dão certo quanto as situações secundárias são realmente interessantes e assumem o comando, o que não se passa com “Arnie e o Velocino de Ouro”. Resumindo, a história teria dado certo, se: 1) o personagem fosse inteligente ou ingênuo, em grau suficiente para despertar simpatia no leitor; 2) as situações comicas fosse realmente bem armadas, com piadas de verdade; 3) os estereótipos dos contos de fadas e mitologia tivessem sido utilizados com habilidade; 4) tivesse seguido o modelo de uma narrativa clássica, com começo, meio e fim satisfatórios, levando a uma sensação de fechamento. Pelo menos um desses quatro objetivos deveria ter sido alcançado pelo menos em parte, mas como nenhum foi, a história resultou bastante fraca. Desejo muito Boa Sorte!

    • Antonio Stegues Batista
      29 de abril de 2016

      A estória não é sobre o país, mas sobre um de seus habitantes, portanto, era uma vez NUM país muito distante…

  17. Catarina Cunha
    6 de março de 2016

    O COMEÇO despertou meu interesse por casar Conan com Nefertiti, e o castelo italiano já deu um leve tom nonsense. O toque medieval com a personalidade contemporânea dos personagens ficou impagável: príncipe feio com sotaque gaúcho, dragão fã de Rachel Welch, o figo prepúcio de Sansão e outras tiradas garantiram um VIAGEM leve e divertida. FLUXO digno de um conto de fadas: simples, objetivo e cheio de malícia sem ser explícita. FINAL feliz mais do que merecido para um herói feio e gente boa, embora desnecessariamente abrupto. Senti falta de um pequeno enredo no romance entre Arnie e Morgana. Nota 8.

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Publicado às 5 de março de 2016 por em Fantasia - Grupo 4 e marcado .