EntreContos

Literatura que desafia.

Fome de Amélia (Juliana Calafange)

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Ela era magra, magra, magra, de marré marré marré. Era assim desde menina, o vento vai te levar, de tão magra, vara verde! Ninguém sabia como doía. Por dentro era Amélia, generosa e doce Amélia, que ninguém gostava, que ninguém sabia. Desde que os pais morreram emagreceu e ninguém mais gostou dela. Na escola, no parque, na igreja, até a família zombava. A tia, aquela sapa gorda e infeliz da tia, dizia, ainda bem que teus pais não estão aqui pra ver que você virou a ‘Miss Somália’. A tia ria, e ela chorava e todos da família riam mais ainda, viviam sempre a repetir, magra, magra, magra de ruim que é, desdenha da comida, ingrata que você é!

Da tia ela nunca gostou. Nem da prima gordinha de inveja que vivia a despejar, esquelética, raquítica! Nem da dona da padaria, parece uma cobra de tão magra! Sempre foi assim, nas festas de Natal e na Páscoa, até no dia do seu aniversário, porque Amélia fazia cara de nojo para o bolo, enquanto as outras crianças felizes comiam sem parar. Cresceu com esse estigma, a cidade inteira a lhe acusar de magra, magra, magra, seca, ‘Olívia Palito’, e aquele aperto na garganta que não a deixava sentir fome. Nem sabia o que era fome. Engolia os desaforos do mundo e se dava por satisfeita. Passava os dias invisível, ninguém notava, melhor assim, devia ser sua magreza, vomitava a tia, de tão magra ninguém te vê, não vai arrumar marido, vai ficar encostada na família a vida inteira.

Verdade, Amélia não tinha amigos, não namorava, não gostava de comer, achava nojento. Chegava a achar nojenta a boca, que engolia e também cuspia aquelas palavras duras que a vida inteira teve que aceitar. Mas a tia não parava de falar, aquele domingo falava além do normal, com aquela boca enorme de jacaré, jorrava intrigas como um imenso chafariz. Ali no banco da praça, já era noite e a vaca não parava de falar. As pessoas passavam e olhavam Amélia com ar de censura. Uma noite tão linda, tão estrelada, e aquela boca louca da tia irradiando abusos, a falar mal dela, dizer que não servia pra nada e que um dia ia sumir, desaparecer do mapa de tão magra, que em tanta magreza não cabia nem inteligência nem beleza e Amélia começou a se contorcer. Uma sensação muito forte na barriga. A principio pensou que fossem os intestinos, que ia ter uma diarréia ali no meio da praça. A tia não parava, lançando suas criticas sem nenhum dó. Foi então que Amélia percebeu que o mal estar vinha mesmo do estômago. Era uma dor que ela jamais sentira, não reconhecia como nenhuma outra dor, e olha que foram muitas. Aquela cara impávida da tia sentada na sua frente, falando merda sem parar, e a sensação no estomago foi virando fogo e parecia que Amélia tinha uma pedra em brasa dentro da barriga. Os olhos começaram a esfumaçar e a visão ficou turva, achou que ia desmaiar. E a tia, sempre, ingrata que você é!

Foi um súbito momento, Amélia nem se deu conta. Abriu a boca com a intenção de gritar, de fazer a tia calar, mas quando percebeu já a tinha engolido, assim de uma bocada só. O gosto não era ruim. Ficou satisfeita. Foi só então que Amélia percebeu que na verdade o que ela tinha era fome, muita fome. A raiva foi tanta que Amélia devorou a tia e depois a prima. E daí não parou mais, começou a engolir todos os membros da família. Todos os dias ia visitar um parente, a pretexto de sentir saudades, apesar de ninguém querer sua visita, mas em nome das aparências, recebiam Amélia com um bolinho, e ainda reclamavam porque ela não queria comer. E assim que começavam as críticas, Amélia abria seu bocão de cobra jibóia e engolia seu algoz. Foi assim passando o tempo, e ela se lambuzava, e se sentia saciada, feliz, aliviada, não sabia que comer era tão bom. Foi ganhando peso a olhos vistos, na medida em que sumiam os parentes. Dias de puro contentamento. Até que numa manhã, mal havia raiado o sol, acordou com a gritaria em sua porta. Era a cidade inteira, aos brados, a lhe chamar de gorda, gorda, gorda, de marré marré marré!!!!

*

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21 comentários em “Fome de Amélia (Juliana Calafange)

  1. Anorkinda Neide
    26 de março de 2016

    Hehehe leitura interessante!
    Amo textos curtos!
    Eficiente, fiquei angustiada como Amélia com estas bocas que vomitam coisas feias, identifiquei-me.
    é um surreal que nos leva pra dentro da gente e leva a filosofar… gosto disso.
    Parabens.
    segundo conto que vai por este caminho neste grupo.. hehe
    Abraço

    • JULIANA CALAFANGE
      3 de abril de 2016

      Q bom q gostou, Anorkinda! Eu tb gosto muito do q vc escreve… Abs!

  2. Laís Helena
    17 de março de 2016

    Narrativa (1/2)
    Se há erros de revisão, eles não me saltaram aos olhos. Sua escrita é boa, também, mas o estilo de narrativa, que foca em contar a história em vez de mostrar as ações, não é meu favorito. Não sei se posso dizer que está errado, apenas não é meu estilo. Faz com que eu me sinta distanciada da história, como se estivesse observando de longe em vez de me sentir ali do lado do personagem, acompanhando-o a cada ação e sensação.

    Enredo (1/2)
    O enredo também não faz meu estilo. A discussão sobre a insatisfação da sociedade quanto à aparência é até interessante, mas não gostei da maneira como a magia foi abordada. Embora eu não acredite que fenômenos fantásticos devam fazer sentido ou seguir regras estritas, tenho predileção por ver uma lógica por trás, algo que me faça sentir que aquele fenômeno é plausível dentro do universo da história, e neste conto o fenômeno não me convenceu.

    Personagens (1,5/2)
    Vi que o foco aqui não é explorar o psicológico do personagem, mas sim uma tendência (que em alguns casos eu vejo como obsessão) das pessoas e da sociedade como um todo de dar palpite na vida alheia. Ainda assim, eu acharia interessante trabalhar um pouco mais os sentimentos de Amélia.

    Caracterização (2/2)
    Quando criei o sistema de notas, coloquei essa categoria para avaliar a caracterização do universo criado pelo autor, já que em fantasia isso é muito comum. No entanto, como para o seu conto o ambiente é irrelevante, não tenho o que avaliar aqui.

    Criatividade (1,5/2)
    Apesar de no geral não ter gostado, reconheço que essa é uma abordagem bem diferente da fantasia.

    Total: 7

    • JULIANA CALAFANGE
      3 de abril de 2016

      Obrigada pelos comentários! Mesmo não sendo o estilo que vc gosta, agradeço por ter me dado sua visão do conto.

  3. Tiago Volpato
    17 de março de 2016

    O texto tem seu charme, mas não acho que ele se adeque ao tema proposto. Talvez em outro desafio ele se desse melhor. É um bom texto, com uma pegada intensa e com certa ironia.

    • JULIANA CALAFANGE
      3 de abril de 2016

      Eu temia por isso, Tiago. Também não tenho certeza se se enquadra em ‘fantasia’. Mas depois de tanta discussão sobre isso no FB, acabei resolvendo mandar. Obrigada pelo comentário!

  4. André Lima dos Santos
    17 de março de 2016

    Um conto bem interessante, de poucas palavras, mas que nos passa uma mensagem intrigante. A vida de uma menina que não consegue escapar das críticas. Muita metalinguagem envolvida!

    Mas as construções frasais estão ruins, ao meu ver. Muitas repetições de termos acabam cansando o leitor. A repetição exaustiva de uma idéia também.

    No mais, achei o conto razoável. Boa sorte no desafio!

  5. Pedro Arthur Crivello
    16 de março de 2016

    Um conto de boa linguagem, com um final irônico , no começo foi um pouco obvio o que ia acontecer , dela comer os parentes , na minha visão ao menos , mas foi surpresa a cidade vir no final para fechar a ironia de que não importa como você sempre será criticado pelos outros.
    Foi um texto curto , de fato , mas não tirou seu mérito de ser um bom conto , uma narrativa bem amarrada , simples com um teor macabro bem criativo (embora eu já imaginava o final)

    • JULIANA CALAFANGE
      3 de abril de 2016

      Obrigada, Pedro!

  6. Gustavo Aquino Dos Reis
    15 de março de 2016

    O conto me lembrou muito a técnica do autor Nei Leandro de Castro, do qual sou muito fã.

    Gostei do surrealismo presente no conto e o final, com toda a cidade aos brados chamando-a de gorda, me lembrou da canção “Geni”, do Chico Buarque.

    Porém, autor(a), embora tenha gostado do seu trabalho, não encontrei o elemento “fantasia” presente no seu conto. Ele beira para um surrealismo, um realismo mágico, mas não é composto pelos elementos tradicionais do gênero fantasia. Creio que se você tivesse aberto mais o leque e feito uma narrativa um pouco mais extensa explicando esses lapsos de surrealismo, o trabalho poderia ter melhor se encaixado no desafio. Não obstante, é uma obra de peso.

    Parabéns.

    Boa sorte no desafio.

    • JULIANA CALAFANGE
      3 de abril de 2016

      Puxa, Gustavo, q legal! Minha mãe é amiga do Nei Leandro desde a juventude. Fico honrada por vc me comparar com ele! Eu realmente me inspirei na Geni, do Chico Buarque. Acho um tema universal, que mexe com todos nós. E tb acho q não é muito ‘fantasia’, quase q eu não mando o conto pro desafio. Mas depois de tanta discussão no FB sobre o q se enquadra no gênero, acabei mandando. Muito obrigada pelos comentários! Abraço!

  7. Renan Bernardo
    11 de março de 2016

    Não vejo o conto como uma fantasia, porque não considero a metáfora da menina comendo os parentes como um componente fantástico. Ainda assim, o conto é bom e muito bem escrito. É interessante e faz o leitor refletir. 🙂

    Nota: 8

  8. Antonio Stegues Batista
    9 de março de 2016

    Seu conto Ana, mais parece uma crônica. Bem escrita claro, mas considerando conto, o tema parece mais de Terror do que de Fantasia. Amélia era uma criança magra, mas de repente começou a se transformar e a engolir pessoas. Não há nenhuma pista que indique por que ela passou a ter essa faculdade de abrir a boca, como a Anaconda. Imagina o tamanho que ela vai ficar engolindo a cidade toda!?

  9. Rodrigues
    6 de março de 2016

    Cairia muito bem em um filme do Zé do Caixão, tem tudo. O terro atrelado ao cotidiano e personagens caricatos de família, o mal inexplicado que – pela ação direta dos que tornam a protagonista uma desajustada – acaba por transformar-se na vingança fantástica ao parágrafos finais, o que foi o melhor do conto para mim. Achei a insistência em falar da tia – que tia maldita – um pouco repetitiva e, em geral, as ideias repetiram-se demais no começo, o que acabou tirando o brilho da narração despojada e rápida.

    • JULIANA CALAFANGE
      3 de abril de 2016

      Legal seu comentário. É a segunda pessoa q fala q o gênero é terror. Eu não tinha pensado nisso. Adoro o gênero terror e até sugiro que a gente faça um desafio com esse gênero. Obrigada!!!

  10. Wender Lemes
    6 de março de 2016

    Olá, Ana. Seu conto é o nono que avalio neste certame.

    Observações: estou tomando Fantasia da forma mais abrangente que encontrei – tudo aquilo que não pode ser explicado por nossa realidade. Neste caso, seu conto se encaixa mais do que bem.

    Destaques: apesar da economia nas palavras, seu conto passa a agonia de Amélia de forma muito sólida. Merece pontos por isso. A fome é uma forma de aflição, então faz muito sentido que a protagonista, ao aliviar sua própria aflição engolindo quem a causa, tenha a mesma satisfação e o alívio de quem sacia a fome tradicionalmente.

    Sugestões de melhoria: não sei se é uma questão do seu estilo, mas os parágrafos grandes podem atrapalhar em algumas situações. Não foi o caso porque todo o seu conto é muito sonoro, direto e de simples visualização (dá até a impressão de um poema em prosa). A sugestão fica para quando se aventurar em construções mais quebradas, abstratas, para dar tempo ao leitor de digerir o que lê (até imaginei um leitor engolindo o conto agora kkk).

    Parabéns e boa sorte no desafio!

    • JULIANA CALAFANGE
      3 de abril de 2016

      Obrigada, Wander! Vou seguir seus conselhos! E isso do leitor engolindo contos dá uma boa história!!! rsrs

  11. angst447
    6 de março de 2016

    Ah, esse tal de bullying! Sempre atrapalhando as relações pessoais e nos obrigando a cometer atrocidades.
    Gostei da referência à antiga brincadeira de criança – eu sou pobre, pobre,pobre, de marré marré marré… Muito bem colocada, no começo e no final.
    O final me lembrou um pouco da Geni, joga pedra na Geni….rs. Tadinha. Todos da cidade a censurar seu despertado apetite.
    Demorou um pouco para aparecer o tema fantasia, mas acertou. Devorar é preciso, amar já não alimenta.
    A fusão da narrativa com os diálogos pode trazer uma certa confusão, mas marcou como estilo.
    Do que mais gostei? Do tamanho do conto, claro.
    Boa sorte!

    • JULIANA CALAFANGE
      3 de abril de 2016

      Muito obrigada pelos comentários. Minha inspiração foi mesmo a Geni… Abraço!

  12. José Leonardo
    6 de março de 2016

    Olá, Ana Baptista.

    Seu texto encaixaria muito bem na escola do realismo fantástico. O ápice é como um vulcão: tantos anos de zombarias, de complexidade e até autosubestimação foram se acumulando, acumulando sob o terreno, sozinha, com nojo de comer (“Engolia os desaforos do mundo e se dava por satisfeita” resume esse estado de coisas). O estopim foi o caudal tagarela da tia; então, tudo o que estava trancado e estreito “explodiu” de tal forma que a resposta da garota humilhada ultrapassou a si mesma — o engolimento. Essa virada na situação era irretornável, irrefreável, tanto que a resposta de Amélia era engolir seus detratores — de repente, a cidad inteira.

    “Fome de Amélia” pode ser lido como o apogeu retaliativo de alguém que passou a vida toda sob o chicote da zombaria (logo vêm à mente o massacre de Columbine, “Carrie” de King e tantos outros fatos e ficções, além do contra-ataque — injustificável em alguns casos, porém há que se pensar no martírio diário e pessoal do indivíduo — de quem sofre bullying nas escolas brasileiras) e subitamente aflora como um indivíduo potencialmente perigoso que se lança contra tudo aquilo que o afligia. Essa é a leitura que fiz do seu texto.

    Em linhas gerais, é muito bem elaborado, tem fluidez, mesmo as repetições têm o que acrescentar em termos de, digamos, sublinhar a zombaria sofrida por Amélia. Se a mensagem era essa, foi sabiamente transmitida ao leitor.

    Boa sorte.

    • JULIANA CALAFANGE
      3 de abril de 2016

      Caro José Leonardo, agradeço muito seu comentário. Vc fez a leitura que eu realmente queria desse conto. Pra mim é um tema bastante universal, faz parte da natureza humana tanto praticar o “bullying”, quanto sofrer com ele. E cada um tem o seu limite, aquele ponto de onde não se pode mais voltar. É a represa quando estoura, aquilo que não se consegue calar. Grande abraço!

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Publicado às 5 de março de 2016 por em Fantasia - Grupo 1 e marcado .