EntreContos

Detox Literário.

De pai para filho (Evie Dutra)

pai

Era um dia de verão, quente como todos os outros. O sol estendia seus braços fortes e abraçava todo o planeta de forma amorosa.

Pablo abriu os olhos, sonolento, e deu um longo bocejo antes de pular para fora da cama. As mãos, tão pequenas e tão macias quanto as mãos de uma criança de 5 anos podem ser, seguravam Tom, o fiel jacaré de pelúcia.

Com os cabelos bagunçados e o pijama no corpo, Pablo desceu, saltitante, as escadas em direção ao aroma adocicado que vinha da cozinha.

— Mamãe! Que cheirinho bom! O que é isso?

— Já acordado meu amor? Estou preparando um doce de manga. — Disse, enquanto abraçava o filho e ouvia o pequeno estômago do menino roncar.

— Eba! Eu quero! Posso provar? — as pupilas estavam dilatadas devido à menção das palavras “doce” e “manga”.

Nessa pequena casa vivia uma família pequena. Eram apenas Pablo e Laura. Um menino e a mãe. Um lar sucinto e repleto de amor. No entanto, houve um tempo em que tudo fora um pouco diferente. Houve mais alguém na família. Alguém conhecido como papai.

Ele foi um herói para Pablo, um exemplo a ser seguido, o símbolo da perfeição. As tardes sempre foram magníficas com papai: corridas de carrinhos, sessões de histórias e dias inteiros à beira mar. Apesar de pequeno, Pablo ainda se recorda, com saudade, do cheiro de protetor solar e da sensação da areia áspera na pele macia. Se lembra de como papai nunca estava cansado demais para cobrir o corpo com areia ou nadar mais rápido que as ondas. Sentada numa toalha, a mãe gritava:

— Cuidado com as ondas! Não tão para o fundo! Venham comer alguma coisa!

Mas eles não se importavam. Acenavam para ela com sorrisos gigantes e ela entendia. Nada poderia arrancá-los daquela felicidade.

No entanto, pouco a pouco, pequenas mudanças começaram a surgir.

Papai se mostrava cansado e sem disposição. Toda vivacidade fora substituída por longas horas de sono e os momentos de laser tornaram-se cada vez mais escassos. Palavras como “degenerativa” e “hereditário” corriam pela casa, rápidas demais e complicadas demais para que o menino pudesse compreender.

Aconteceu de forma rápida e quase imperceptível. Certo dia Pablo fora passar um final de semana na casa dos avós, que sempre o traziam de volta nas segundas pela manhã. Ao retornar, deu um beijo na bochecha cansada do avô e correu em direção à porta de entrada. A mãe o aguardava com os braços abertos e um sorriso tímido nos lábios. Estava com um olhar misterioso, como se guardasse algum segredo.

— Mamãe! — o menino gritou enquanto corria. As bochechas começaram a ficar rosadas devido ao calor do verão.

— Oi meu amor! Como é bom ter você de volta! — ao abraçar o filho, sentiu o aroma adocicado que vinha do cabelo do menino. Lembrou-se de quando Pablo ainda era bebê e ela costumava adormecer abraçada a ele, sentindo seu cheiro.

— E o papai? Cadê o papai?

O ambiente foi acometido por um silêncio constrangedor, mas Pablo não esperou pela resposta. Correu em direção ao interior da casa. Entrou em cada cômodo, olhou em cada esconderijo. Quando subiu as escadas, lembrou-se de que o pai ainda deveria estar no trabalho. Desapontado, caminhou em direção aos degraus e foi quando a ouviu pela primeira vez.

Uma melodia suave e brincalhona encheu o ambiente. Pablo parou e ouviu com atenção, tentando descobrir de onde vinha o som. Virou-se, fechou os olhos e começou a andar. Quando tornou a abri-los, estava em frente ao quarto dos pais. E lá estava ela, tão forte e tão clara quanto as luzes coloridas de um parque de diversões. A música o envolveu e Pablo sentiu uma vontade súbita de chorar. Com o rosto quente e o olhar embaçado, sentou-se no tapete castanho claro, cruzou as pernas e fechou os olhos mais uma vez, concentrando-se na melodia mágica que o aconchegava como um abraço apertado. Sem compreender o que estava acontecendo, permaneceu ali por um tempo, com medo de voltar a abrir os olhos e a melodia se extinguir.

Já se passaram quase dois anos desde que a música aparecera pela primeira vez e, desde então, Pablo a tem ouvido com frequência, sentindo-se cada vez mais protegido e aconchegado. Naquela manhã, enquanto estava sentado na velha mesa redonda da cozinha, se lambuzando de doce de manga, o menino se perguntou se era o único que a ouvia. Nunca comentara nada com a mãe, pois sentia que a melodia o havia escolhido e, de alguma forma, sabia que não deveria compartilhar com ninguém.

Era o seu segredo e isso o fazia sentir especial.

— Chega de doce por hoje! Assim você vai ficar com dor de barriga. — Laura caminhou em direção ao filho e tirou-lhe a colher das mãos.

Pablo levantou, contrariado, correu para a sala, se jogou no sofá e começou a pular. Tentava alcançar o teto, provando para si mesmo que já havia crescido desde o dia anterior. Sabia que a mãe estava lavando a louça e ainda tinha por volta de 5 minutos antes que ela percebesse que o sofá estava sendo pisoteado.

Na cozinha, Laura já havia terminado suas tarefas quando se deu conta de que a casa estava estranhamente silenciosa. Enxugou as mãos numa toalha branca pendurada no fogão e seguiu em direção à sala, imaginando a bagunça que encontraria quando lá chegasse.

Ao perceber o que havia acontecido, seu coração congelou por um instante.

— Não! Meu menino não! Não tão cedo. — A respiração travou e os pés vacilaram, fazendo-a sentir um misto de tontura e incredulidade. Sabia que era inevitável, no entanto, esperava que ele ainda tivesse mais tempo.

Pablo estava caído no chão com a cabecinha ligeiramente inclinada para o lado. Os lábios encontravam-se pálidos e semiabertos e o rosado das bochechas havia se esvaído. Avançou titubeante em direção ao menino e o tomou nos braços. Estava tão atônita que não percebeu quando a melodia começou. O som, agora melancólico e consternado, envolvera mãe e filho numa tentativa de consolo e conforto.

Laura compreendeu: havia chegado o momento. Fechou os olhos e abraçou o menino, com água nos olhos e um som reconfortante nos ouvidos.

♪♫♪♫♪♫♪♫♪♫♪♫

Num dia ensolarado de verão, Laura resolvera passar a tarde na praia. Levava apenas uma toalha. Sabia que não precisaria de mais nada.

Forrou a toalha na areia, se sentou, fechou os olhos e esperou. Como previu, a melodia principal começou a soar, forte e imponente, doce e majestosa. Após alguns segundos, uma melodia menor despertou. Era alegre, delicada e divertida.

Os sons se uniram formando uma harmonia impecável e Laura sorriu, certa de que, enquanto pudesse ouvi-la, nunca estaria sozinha.

Anúncios

14 comentários em “De pai para filho (Evie Dutra)

  1. Evie Dutra
    3 de abril de 2016

    Muito obrigada a todos que comentaram meu conto.
    Deixo um agradecimento especial aos que compreenderam a mensagem que pretendi passar, eternizando os entes queridos através da música. Entendo que muitos não tenham achado que meu conto se adequasse ao tema.. mas minha intenção era escrever algo sobre fantasia sem necessidade de falar sobre reis, ogros, gigantes e faunos. Talvez minha noção de fantasia não seja a mais correta, mas me senti muito grata com todos os comentários, elogios e até com as críticas.
    Amei escrever este conto e participar de mais um desafio. É sempre muito bom ler cada comentário, pois me ajudam a melhorar e me motivam a continuar.
    Mais uma vez, muito obrigada a todos.

  2. Anorkinda Neide
    24 de março de 2016

    Ai… uma história linda e tocante.
    Emocionante mesmo, curta, como melhor é para espetar o coração.
    Parabens pela sensibilidade.
    Sempre tem q ter um porém… o menino não deveria ter 5 e depois 7 anos… mais um pouquinho, aumente… 8, 10 anos já resolve.
    E, infelizmente, não acho que a musica transcendental ali, espiritual não faz do conto um conto de fantasia, não.
    Mas é um lindo conto, obrigada por esta leitura!
    Abração

  3. Bernardo Stamato
    18 de março de 2016

    O enredo é bem simples, mas achei que ficou um buraco no ponto em que o filho do garoto sumiu e em nenhum momento ele pareceu realmente se importar com isso. O mistério foi curto e até óbvio, sem criar nenhum suspense ou surpresa. Seria melhor se houvesse algo além da morte óbvia ou se houvesse maior suspense.

    Nota 5,5

  4. Daniel Martins
    18 de março de 2016

    Esse conto tinha tudo pra ter ficado bom. Mas ficou confuso e incompleto.
    Não se sabe que mal acometia os personagens, se eles realmente existiam ou eram fruto da imaginação da mulher
    ou o que representava a música.
    Acho interessante deixar alguns pontos em aberto para o leitor decidir, mas aqui, acabou ficando sem pé nem cabeça
    4,0

  5. Leonardo Jardim
    18 de março de 2016

    Minhas impressões de cada aspecto do conto:

    📜 História (⭐⭐⭐▫▫): bonita e singela, tem por mérito trazer a doçura do mundo infantil. A parte em que o menino morre não ficou muito boa, acho que merecia um pouco mais de emoção e desespero. Foi narrada quase como algo natural. A mensagem final foi bonita e fechou bem o conto: não chegou a ser arrebatadora, mas me fez pensar.

    📝 Técnica (⭐⭐▫▫▫): tem por mérito narrar com doçura sem exagerar demais no açúcar. Passou um “laser” no lugar de “lazer” e alguns verbos no pretérito mais-que-perfeito pareceram meio deslocados (caberia melhor o pretérito perfeito mesmo). Com poucos ajustes, estará muito boa.

    💡 Criatividade (⭐⭐▫): o mote de comunicação com os mortos é relativamente comum, mas achei a abordagem com DNA próprio.

    🎯 Tema (⭐▫): a “música dos mortos” não é uma abordagem muito fantástica, está mais para espiritual. Não se adequa, então, totalmente no tema.

    🎭 Impacto (⭐⭐⭐▫▫): o texto passa emoção e faz pensar, mas eu não gostei muito da solução final e isso reduziu um pouco o impacto. Apesar disso, gostei da mensagem geral.

  6. ram9000
    18 de março de 2016

    Uma bela metáfora; contém valor emocional. O texto é criativo mesmo que simples em sua narrativa. A abordagem ao tema foi interessante por buscar caminhar em uma estrutura mais cotidiana. Eu apostaria numa revisão para enxugar o texto, utilizando sentenças mais curtas.

  7. Thomás Bertozzi
    17 de março de 2016

    É um bom conto, mas senti falta dos elementos de “fantasia”. Há a música e nada mais. É uma história envolvente, porém, um tanto fora do tema proposto (na minha opinião).

    Nota: 7,5

  8. vitormcleite
    16 de março de 2016

    História muito bem contada, sólida e com uma boa estrutura. Gostei muito e conseguimos ouvir essa música também. Espero bem que vás para a próxima fase. Aqui está um belo exemplo de fantasia sem monstros nem outras criaturas imaginárias. Muitos, muitos parabéns.

  9. Evandro Furtado
    14 de março de 2016

    Foi o primeiro que encontrei com algum problema em relação ao tema do desafio. As pessoas morrem e viram música, é isso? Bem, faltou trabalhar um pouco mais, dar maior profundidade, pra poder, de fato, ser encarado como fantasia. Além disso, também faltou aprofundar a trama. O que aconteceu ao pai e ao filho? O que eles tinham? Você tinha bastante espaço pra isso e não aproveitou tão bem.

  10. Eduardo Velázquez
    14 de março de 2016

    Texto bom, mas não sei se se adéqua bem ao tema. Gramática e descrição comuns. História bem simples, não foi muito surpreendente. Nota: 6.

  11. Davenir Viganon
    11 de março de 2016

    Olá Olivia Green
    Tua história é doce como a manga e triste como a doença. A escrita fluiu bem e os personagens passaram o sentimento de ser uma família que se ama. Já a adequação ao tema é que é o maior problema aqui. Existem muitas histórias que misturam o mundo real e tem uma dimensão fantasiosa que os personagem entram e exploram (como nas Crônicas de Nárnia ou no Labirinto de Fauno, por exemplo), mas no teu conto não existe um mundo de fantasia, existe o som que é sobrenatural mas tão dúbio que passaria como um conto espírita também. Emfim, essa som/música é uma ideia muito bonita, mas não acho que seja Fantasia.
    Não quero dar a impressão de que fiz um risco no chão e coloquei teu conto do lado do lado de fora, mas é que eu queria viajar mais em mundos de fantasia, só isso. :). Contudo, apesar do espaço que dediquei para justificar isso, quero dizer que teu conto tem bem mais qualidades que defeitos, pois fez o mais importante: contar uma história com emoção e significado.
    Parabéns e boa sorte no desafio.

    p.s. Já viste o filme A Árvore da Vida? Tem uma história de uma perda por doença que tem uma camada de Fantasia (que me fez lembrar do teu conto) e outra de Ficção Científica (que não tem nada haver com o assunto e só mencionei porque tem no filme mesmo kkk).

  12. JULIANA CALAFANGE
    10 de março de 2016

    uma melodia q consola e ao mesmo tempo mata? Uma doença hereditária q mata o pai adulto e o filho com 7 anos e é anunciada por uma música? Confesso q não entendi onde o conto queria chegar. Faltou densidade narrativa, faltou convenção, e tb revisão.

    OBS: Diferença entre LAZER e LASER:
    Lazer – sm (lat licere) Tempo livre, vagar, ócio.
    Laser – sm (sigla do inglês light amplification by stimulated emission of radiation, amplificação da luz pela emissão estimulada de radiação)

  13. Geyse
    8 de março de 2016

    Achei Maravilhoso! A maneira como devemos encarar a morte, como uma coisa bonita e natural da vida. E realmente, quando chega a hora, não se tem o que fazer. Causa certa melancolia, mas nos faz ver que nossos entes queridos que já se foram tornaram seres superiores e partiram para um plano melhor. A ideia de transforma-los em música foi simplesmente divina.

  14. Brian Oliveira Lancaster
    7 de março de 2016

    OGRO (Objetivo, Gosto, Realização, Ortografia)
    O: Confesso que me esforcei para ver o tema aqui, apesar da boa história. Tem um pé no fantástico, é um texto surreal e insólito, mas não se encaixa tão bem no limiar da definição do tema. – 6
    G: Esses textos mais sentimentais me atraem. É bonito, trágico e melancólico. Como sugestão, quando se passa dois anos, poderia ter utilizado as reticências (…) que ajudam na compreensão de passagem de tempo. Do jeito que está, é um troca muito brusca. De resto, gostei da sensibilidade demonstrada e das fortes emoções relacionadas. – 9
    R: O início, meio e fim se complementam muito bem, apesar de achar a parte após as notas musicais um tanto deslocada. Ela se recuperou rápido demais. – 8
    O: Escrita bem leve, poética. Simples, mas eficiente. – 8
    [7,8]

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 5 de março de 2016 por em Fantasia - Grupo 2 e marcado .