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O autor implícito – Artigo (Eduardo Selga)

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É comum, no calor de uma discussão mais genérica sobre elementos da narrativa literária, a afirmação de que o narrador é uma coisa, o autor é outra. De fato, este possui uma existência civil, pertence ao mundo das coisas palpáveis e sensíveis aos olhos; aquele é uma construção linguística e estética, manifesta apenas aos subjetivos “olhos da alma” ou da sensibilidade. Enquanto um é carne e osso, o outro é uma projeção, uma persona criada com intuito de parecer convincente enquanto simulacro de criatura humana, no mais das vezes. E mesmo quando ele não é a representação explícita do humano (os animais das fábulas, por exemplo) há a inevitável antropomorfização.

E aqui entra o ponto essencial que pretendemos discutir. Se o narrador é uma criação, se ele é fruto de determinada escolha e organização sistemática de um autor, ambos não terão entre si vínculos para além da máscara narrativa?

Assim como os personagens, o narrador é uma máscara a partir da qual o autor estabelece uma espécie de teatro de sombras. Suas mãos narram e fazem as vezes de personagens. O leitor, esse espectador que interage com o texto dando-lhe significados não necessariamente idênticos aos que o autor tenha pretendido quando de sua construção, sente que narrador e personagens, sendo peças ficcionais, parecem ter alguma coisa de verídico (no texto que se pretende realístico), como se fossem criaturas viventes do mundo real.

O autor de prosa ficcional estabelece instâncias, hierarquias no interior da narrativa, lugares de fala nesse grande fingimento de caráter estético que é a produção literária. Narrador, personagem e o híbrido narrador-personagem fazem parte dessas instâncias. Como todas elas são articuladas pelo autor real, as digitais dele permanecem nas máscaras narrativas. Assim sendo, quando o narrador se põe a contar algo de determinado modo, ele está necessariamente abrindo mão de narrar de maneiras diversas outras tantas possibilidades, postas no texto, porém não levadas adiante. O que motiva tais opções? É o autor quem faz a escolha consciente, é óbvio, mas as marcas ficam implícitas no texto. Em outras palavras, o autor cria para si uma identidade estética que perpassa toda escrita e preside o narrador e, por via de consequência, o desenrolar da trama.

Essa personalidade, que nem é completamente o autor —por ser uma ficcionalização— tampouco o narrador, é denominada autor implícito. Nas palavras de Lígia Chiappini Moraes Leite em seu livro O foco narrativo, “[…] é uma imagem do autor real criada pela escrita, e é ele que comanda os movimentos do narrador, das personagens, dos acontecimentos narrados, do tempo cronológico e psicológico, do espaço e da linguagem em que se narram diretamente as personagens envolvidas na história” (1987, p. 19). Não é o autor, e sim uma projeção ficcionalizada dele no texto. Logo, por esse entendimento, o autor não desaparece por completo da escrita, antes persiste nas entrelinhas, mais ou menos oculto.

É conhecida a citação de Guimarães Rosa “o diabo mora nos detalhes”. Pois é aí também, nas sombras do pouco visível à primeira vista, que encontramos o autor implícito. O autor civil, ao conceber seu texto, estabelece um valor principal para ele de qualquer ordem que seja (ético, moral, estético, filosófico etc.), que é perceptível em todas as camadas da obra, criando, nas palavras de Wayne Booth, teórico responsável pelo conceito, “um todo artístico completo” (1980, p. 91). Estabelecendo uma comparação, é algo como os fractais, onde cada mínima porção é similar ao todo. E esse valor escolhido não tem necessariamente correlação com os valores éticos, morais ou filosóficos do autor real, o que significa que um mesmo autor possui vários autores implícitos espalhados por suas obras, próximos entre si ou não, a depender do eixo de valor escolhido para cada uma. Ou seja, ele se desdobra, constrói para si outras identidades que se espelham no narrador, no personagem e em todo o texto.

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5 comentários em “O autor implícito – Artigo (Eduardo Selga)

  1. João Paulo Ribeiro
    3 de janeiro de 2017

    Eu lembrei muito do Bakhtin. O autor implícito é produto deste todo. Podemos encontra-lo no narrador e na visão periférica que o liga as demais personagens. O estatuto do narrador dá muito o que pensar. Representa a voz explicita do autor implícito. Mas há um total apagamento do autor implícito pelo acabamento da criação. Eu estou pensando esta questão.

  2. Claudia Roberta Angst
    7 de fevereiro de 2016

    É tudo junto e misturado. Autor, narrador, personagens acabam se mesclando, um contaminando o outro e assim por diante. Até onde vai a influência do autor sobre sua criação e criaturas? O quanto o narrador carrega do autor?
    Acho injusto julgar o autor/pessoa física baseando-se nas ideias expostas pelo narrador ou pelas personagens. Isso não seria desrespeitar a liberdade de expressão? Bem, é certo que o julgamento acontece, de forma explícita ou implícita.
    Eu não conseguiria separar autor-narrador-personagens em blocos distintos. Às vezes, acho mesmo que os personagens tomam conta de tudo e fazem desaparecer qualquer traço meu em um texto . Ilusão minha, claro. Há muito de mim em cada palavra escrita. Só não direi que o que escrevo é a minha verdade, mas parte de mim – real ou fantasia.

    • Eduardo Selga
      7 de fevereiro de 2016

      Claudia, a separação tem efeito didático e é necessária em função de as três instâncias não serem a mesma coisa, rigorosamente. Mas é um jogo de distanciamentos do autor e suas projeções. Um jogo de invisibilidade. A autor real projeta um narrador implícito, que por sua vez projeta o narrador e personagens, todos feitos de uma mesma essência.

  3. Gustavo Castro Araujo
    6 de fevereiro de 2016

    É corrente a ideia de que uma vez criados, os personagens adquirem vida própria, distinta do autor que lhes deu vida. O narrador, quer onisciente, quer aquele que se mescla aos personagens, quer aquele em primeira pessoa, também parece ostentar a mesma característica. Essa premissa de independência pós-criação, na maior parte das vezes, serve de alento e escusa para quem a concebe, na medida em que pode dizer “não é culpa minha, eles são rebeldes.”

    Confesso que já utilizei esse argumento e que provavelmente continuarei a sacá-lo da manga sempre que julgar oportuno, mas num hiato de auto-análise, acredito que isso serve mais para mandar às favas a responsabilidade pela eventual interpretação que os leitores terão. É claro que todos os personagens e todos os narradores têm um pouco, senão muito, do autor. Somos todos e somos nenhum, eis que misturamos nossas próprias ideias a outras, algumas pré-concebidas, algumas preconceituosas, algumas rasas e algumas surpreendentes.

    É interessante notar que no desenvolvimento dos personagens — e aqui considero o narrador como um deles — o autor passa por um processo de auto conhecimento, descobrindo facetas, defeitos e quiçá qualidades de si mesmo. Naturalmente, nesse processo de criação, caberá a quem lhe dá azo calibrar as características, implícita ou explicitamente. De todo modo, jamais poderá dizer “não fui eu.” Porque foi.

    • Eduardo Selga
      7 de fevereiro de 2016

      Importante o que você afirma no último parágrafo, porque muitas vezes o autor não tem a percepção de que o narrador é personagem, ainda que em terceira pessoa. O que muda é o grau de explicitude nesse grande baile de máscaras que a literatura.

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Publicado às 6 de fevereiro de 2016 por em Artigos e marcado .