EntreContos

Literatura que desafia.

A Estrada das Almas Perdidas – Conto (Antonio Stegues Batista)

almas

“ Deus nos deu os sentidos para deixar-nos sentir o Amor no coração de todos, e não as ilusões trazidas pela riqueza”.

Steve Jobs

 

Fiquei sentado diante do notebook, olhando para a tela. Na imagem de fundo da área de trabalho do Windows, havia uma garota vestindo blusa e short. Seus cabelos estão presos num rabo-de-cavalo. Ela carrega uma mochila pendurada ao ombro e caminha por uma trilha que faz uma leve curva para a direita, no meio de um capinzal. Segue em direção ao sol que está baixo no horizonte. As nuvens estão avermelhadas, mas não dá para se saber se era início da manhã, ou final da tarde que a foto foi tirada.

A mochila é grande, vai de seu ombro até um pouco abaixo da cintura, mas aparentemente está quase vazia, pois ela caminha ereta e desenvolta, a perna direita na frente, o braço direito para trás, dando equilíbrio ao corpo. Tentei imaginar quem era ela, para onde se dirigia e porquê.

O som do telefone celular chamando, interrompeu o meu devaneio. Pensei que fosse Veronica, mas ao pegar o aparelho, vi que era meu chefe, Edgar Santiago, diretor e editor-chefe do jornal O Meteoro.

Eu ainda estava naquela maré baixa. O fracasso do meu casamento com Veronica me deixou sem ânimo, desanimado com a vida e com meu trabalho de jornalista. O nosso casamento parecia que ia bem, quando de repente, sem mais nem menos, Veronica anunciou que estava me deixando. O amor acabou disse ela. Achei que havia outros motivos, porém, não tive coragem para perguntar, nem descobri por conta própria. Eu não queria ficar mais magoado do que estava.

Assim, procurei seguir a vida. Agora estava ali, depois de oito meses, ainda pensando que poderia ser ela ao telefone.

-: Vicente, preciso conversar com você pessoalmente com urgência.- disse Edgar. – Considere suas férias canceladas pois tenho uma missão importante para você. Estou te aguardando, venha o mais rápido que puder.

Edgar era assim mesmo. Não deu nem tempo para eu responder e já desligou.  Levantei-me e fui até janela. A chuva batia na vidraça, embaçando a paisagem. Minha vida também parecia um caminho que se perdia na neblina.

Logo que cheguei na redação, me dirigi para a sala de Edgar. Dei um bom dia e me sentei em frente da mesa dele. O chefe despachava alguns documentos com a secretária. Katia pegou a pasta com os documentos, piscou o olho para mim e se retirou. Edgar abriu uma gaveta e pegou uma pasta de cartolina azul.

– Sabe quem é Jaques Rickman?

– Não.- respondi, sem hesitar.

– Jonas Marcondes Rickman? – insistiu Edgar, encarando-me. Sacudi a cabeça, negando.

– Jonas Rickman, foi um jornalista e um escritor. Ele ganhou o prêmio Nobel de Literatura pelo livro; A Estrada das Almas Perdidas, mas desapareceu poucos dias antes de ir a Estocolmo receber o prêmio.

Edgar abriu a pasta, destacou uma folha de papel e passou a ler:

– “ A mãe de Jonas era brasileira e o pai, inglês. Nasceu em são Salvador, Bahia, no ano de 1948. Estudou na faculdade do Rio de Janeiro, formando-se em jornalismo. Aos 25 anos começou a trabalhar num jornal como cronista. Participou de uma manifestação estudantil contra o governo em 1966. Foi preso junto com outros manifestantes e libertado seis meses depois. Como a família passou a receber ameaças anônimas, eles resolveram ir embora para a para a Argentina e de lá, se transferiram para Denver, nos Estados Unidos em 1969. Lá ele trabalhou em alguns jornais locais e passou a integrar o movimento hippie. Se casou com Audrey Stewart, professora, mas o casamento durou apenas 4 anos. Os pais dele morreram num acidente de carro em 1971.  Com a abertura da anistia no Brasil, Jonas voltou para o Brasil em 1986.  Em 1989 publicou, um drama ambientado no Regime Militar brasileiro que se tornou grande sucesso de vendas e críticas. Em 1995, ganhou o prêmio Nobel de Literatura. Mas, ele não comparece à cerimônia de premiação. Seu irmão, Cleomar Rickman, que também havia voltado para o Brasil com a família, desconhecia o paradeiro de Jonas, ninguém sabia onde ele estava. Jonas simplesmente sumiu. ”

Edgar encerrou a leitura e me entregou o dossiê. – Cleomar morreu no ano passado, aparentemente sem saber o que aconteceu com o irmão. Mas, alguém me telefonou ontem, dizendo, afirmando, aliás, que Jonas Rickman está vivo e morando numa caverna em São Tomé das Letras.

– Morando numa caverna?

– Pois é. Parece que o homem virou eremita. Mas, o que o fez mudar assim, de repente naquele ano de 1995? O que o fez recusar o prêmio máximo da literatura?

– Um problema sentimental, talvez. Um amor impossível, ou algo assim?

– Isso você vai descobrir quando fizer uma entrevista com ele. Uma entrevista exclusiva para nossa revista.

– Será que é ele mesmo?

– A fonte é digna de confiança.

– E se ele recusar a dar uma entrevista? Afinal, Jonas está escondido há 20 anos!

– Se não tentarmos não saberemos, não é? Portanto, já providenciei tudo para você ir para São Tomé das Letras. Reservei hospedagem numa pousada na cidade e o homem que nos deu a informação, vai te procurar lá e levar ao local.  O nome dele é Reginaldo.

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Eu estava na pousada, cochilando após o almoço, quando bateram na porta do quarto. Levantei-me da cama e fui atender.

– Senhor, Vicente Rosenberg? -perguntou o homem, vestindo camisa, bermuda, tênis e boné.

– Sim, sou eu.

– Meu nome é Reginaldo. O senhor Edgar disse que o senhor estaria aqui.

– Ah! Sim. Você vai me levar até a caverna onde Jonas Rickman mora?

– Podemos ir agora?

– É claro, só vou pegar minhas coisas.

Peguei a mochila onde eu tinha colocado a câmera de vídeo, câmera fotográfica, gravador, duas garrafas de água mineral, repelente contra insetos, kit de primeiros-socorros e dois pacotes de bolacha. Devidamente vestido para a excursão, igual ao meu guia, acompanhei- o até o carro.  Saindo da cidade, tomamos uma rodovia, seguindo rumo sul. Quarenta minutos depois entramos numa estradinha e rodamos mais uns quinze minutos. Deixamos o carro na margem da estrada para seguir o resto do caminho a pé, uma trilha estreita entre vegetação baixa e terreno irregular.

– Já estamos perto.- disse Reginaldo caminhando na dianteira. Peguei uma garrafa d’água da mochila e bebi alguns goles. Voltei a enroscar a tampa e guardei

– Você sabe o motivo que levou Jonas a vir morar numa caverna?

– Não. Não conversei com ele sobre isso. Quando descobri quem ele era, a primeira coisa que pensei foi em dizer para todo mundo que Jonas Rickman estava vivo. Afinal, todo mundo procurou por ele!

– Como você descobriu que era o escritor desparecido?

Reginaldo continuou caminhando pela trilha.

– Eu sou amigo da filha do irmão de Jonas. Eu sabia que ela, de vez em quando, vinha a essa gruta trazer algumas coisas ao homem que mora nela. Gisele trazia cadernos, frutas, remédios. Gisele disse que ele foi amigo do pai dela, disse que era um senhor de idade que vivia sozinho por que não tinha parentes. Ele decidiu deixar o conforto da vida moderna para viver junto à natureza.

Reginaldo fez uma pausa para atravessar uma vala e continuou: – Certo dia Gisele se referiu a ele como tio Jonas. Como eu conheci o pai dela, o senhor Cleomar Rickman e como tinha conhecimento do desaparecimento do irmão dele, o Jonas, logo conclui que poderia ser o escritor desaparecido. Noutro dia resolvi seguir Gisele até a gruta. Quando ela me viu, já perto da gruta, ficou furiosa, mas como Jonas estava doente, me pediu para chamar um médico.  Porém, ele disse que estava melhor e que não precisava de médico nenhum. Ele até se levantou da cama para fazer um café!

Reginaldo fez uma pausa, concluindo: – Olha! Estamos chegando.

A gruta ficava ao pé de uma elevação e perto de uma cachoeira. Dali podia-se ouvir a rumor das águas. O lugar era bonito, com árvores frondosas, algumas rochas, um regato, além de pássaros e borboletas que voejavam ao sol da tarde.

Em frente à gruta tinha um monte de lixo. Olhando mais de perto, vi que não era lixo comum, eram cadernos, folhas de papéis manuscritos, papéis amassados, inteiros, dobrados, todos amontoados cheirando a gasolina. Uma jovem saiu da gruta com algumas peças de roupas numa mão e uma caixa de sapatos na outra. Ela olhou para nós com indiferença e acrescentou aquelas coisas ao monte. A caixa de papelão bateu no flanco do monte e rolou até a base, despejando seu conteúdo, um par de sandálias, lápis, canetas e algumas fotos.

Reginaldo apressou o passo e entrou na gruta. Voltou logo em seguida.

– Gisele! Onde está o Jonas?

– Ele teve um infarto, morreu ontem e já foi sepultado. Você chegou tarde.

O rapaz ficou decepcionado. Me olhou como que pedindo desculpas. Gisele abaixou-se para pegar algo de uma mochila que estava no chão, ao lado da entrada da gruta.

– Eu sabia que você não iria resistir à tentação! – exclamou ela num tom amargo. Ergueu-se, encarando o rapaz. – De revelar ao mundo o paradeiro de Jonas Rickman. Você prometeu guardar segredo e quebrou a promessa. Isso mostra que tipo de amigo você é. Quanto é que eles prometeram te pagar? Judas!

Reginaldo ficou estupefato ao ver a caixa de fósforos na mão dela.

– Não acredito eu você vai queimar os textos dele! São os escritos de Jonas Rickman!

O rapaz virou-se para mim com a mão estendida para a pilha de cadernos.

–  Manuscritos que um mestre da literatura escreveu durante vinte anos! Ela vai colocar fogo!

Gisele nos encarou, com a caixa de fósforos na mão. Tentei fazê-la mudar de ideia.

– Com certeza algumas editoras pagarão uma fortuna por esses cadernos.

– É o desejo dele.- respondeu a jovem e riscou um fósforo, atirando-o aceso ao monte de papeis. As labaredas se ergueram vivas e majestosas. Tivemos que nos afastar um pouco por causa do calor.

– Pouco antes de morrer ele me pediu que fizesse isso. – disse a garota. -Jonas escreveu para ele mesmo. Ele gostava de escrever, passar para o papel tudo que vinha à sua mente. Precisava passar para o papel as suas fantasias, tudo que sua mente implacavelmente criava. Coisas fantásticas, contos, romances, poesias, teorias, pensamentos que ele não sabia de onde vinham, ou por que vinham. Ele sentia prazer em escrever, só isso! Não para os outros, para ele mesmo.

– Jonas Rickman era um egoísta, egocêntrico. – afirmou Reginaldo, aborrecido por não poder ganhar o dinheiro que Edgar havia prometido.

Gisele meteu a mão no bolso traseiro da bermuda e pegou uma folha de papel manuscrito que ela desdobrou e passou a ler. Era o derradeiro texto de Jonas Rickman, uma confissão, um desabafo e um gesto irônico.

-“ Escrever para mim é como o ar que me mantem vivo. Não são os prazeres do corpo que importa. Dinheiro, fama, prestígio, tudo isso é bom, mas não satisfaz a minha alma, ao me espírito que precisa evoluir. Meu único romance foi um sucesso. Imediatamente ganhei fama, prestígio e muito dinheiro. Ganhei também o prêmio máximo, o Prêmio Nobel de Literatura. Pouco antes de recebe-lo, questionei comigo mesmo; é isso que eu quero? Fama e dinheiro? Decidi que não. Analisando minha obra, os críticos usaram uma linguagem difícil, rebuscada, frases que apena os eruditos entendem. Minha linguagem é simples, para o povo e eu sou simples. Eu só queria escrever”.  – É isso! – disse Gisele, acabando a leitura.- Ele não teve forças para continuar. Ele era uma alma perdida que voltou para casa.

Aquele pedaço de papel era tão importante quanto os outros manuscritos de Jonas e eu até pensei em pedir para a garota me dar, mas não tive tempo. Gisele simplesmente amassou o papel entre os dedos e o jogou na fogueira. Sem dizer mais nada, ela pegou a mochila e colocou pendurada no ombro.

– O senhor Edgar vai ficar chateado. – disse Reginaldo. – Não há mais nada que fazer aqui. Vamos embora?

Gisele dirigiu-se para uma trilha que fazia uma leve curva para a direita em meio a um capinzal. Segue em direção do sol ao final da tarde.

Ela para e olha para mim. Sorri, diante da minha indecisão.

Eu não levo muito tempo para me decidir.

– Eu vou com ela.- respondi. – Vou para casa.

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Um comentário em “A Estrada das Almas Perdidas – Conto (Antonio Stegues Batista)

  1. fheluany
    8 de fevereiro de 2016

    Trama e linguagem abordadas de forma criativa e agradáveis à leitura. É sempre bom ler os textos de Steven. Parabéns por mais este.

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Publicado às 7 de fevereiro de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .