EntreContos

Literatura que desafia.

Idade da Pedra (Daniel Reis)

idade_da_pedra

Dez anos de idade. Morava na rua.

Os outros não sabiam onde. Nem tinha tanta importância.

Aproximou-se, envergonhado — posso jogar?

Depois, sempre o último escolhido no par ou ímpar.

A maioria usava kichutes, com cadarços ao redor das canelas.

As solas dos pés dele eram vulcanizadas no asfalto.

***

Quem tinha mãe distraída jogava até anoitecer: o que viesse primeiro.

Vadio, descalço e sem ninguém — naquela noite, o menino ficou ali.

***

Mosquitos e mariposas chuviscavam nas lâmpadas dos postes — fornilho do cachimbo aceso no escuro. Entreviu um vulto negro, hesitante. Tremendo de fome, infestado por sarna, quase sem respirar. Desistiu-se no chão.

Sentiu. Muita. Pena. Por ele.

***

Do alto, a pedra de calçada atingiu o cão na cabeça.

Nem ganiu. Mas não morreu nessa hora.

***

Laércio, ex-menino, ergueu-o num abraço.

E apertou, contra o peito, todo o remorso e a revolta do mundo.

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63 comentários em “Idade da Pedra (Daniel Reis)

  1. Matheus Pacheco
    29 de janeiro de 2016

    Cara, o final desse conto tem algo a ver com a violencia doméstica, por que eu sinto muito mas eu não consegui entender.

  2. Fabio D'Oliveira
    29 de janeiro de 2016

    ௫ Idade da Pedra (Lev Yashin)

    ஒ Estrutura: Texto belo, tanto na escrita, quanto na estética. Lev entende. Soube aproveitar o limite pequeno escolhendo bem as palavras e organizando as ideias. Parabéns!

    ஜ Essência: É um conto triste. Vemos o fim da inocência e a falta de empatia do mundo. Estamos sozinhos, não é? Bem, enquanto não nos conhecemos, estamos. E o menino indefeso com certeza passará muito tempo sozinho.

    ஆ Egocentrismo: Gostei da reflexão e da escrita. A leitura também foi agradável. Adoro textos que adotam uma abordagem simples com um tom poético leve. Lev merece os parabéns.

    ண Nota: 10.

  3. Swylmar Ferreira
    28 de janeiro de 2016

    Trama interessante, instigante. Boa criatividade.
    Confesso que não entendi o motivo da violência no final. Talvez o autor quisesse chocar. Não sei. Critério do autor.
    Boa sorte.

  4. Kleber
    28 de janeiro de 2016

    Olá, Yashin!
    Entendi bem ao terminar de ler o seu conto o significado do título. E a dor de consciencia por matar um animal. Isto me lembrou de uma vez quando eu mesmo era menino. Foi uma passagem da minha vida que me marcou bastante, e que me fez sentir empatia com o seu conto.
    Eu tinha feito um estilingue “porreta”. E atirava em tudo o que se mexia. Até que um belo dia, eu vi um joão de barro no alto de um choupo. Não pensei duas vezes. Foi um “pelotaço” certeiro. Rapidamente cheguei perto daquela massa de sangue e penas. O bichinho olhou para mim, como que me perguntando: “que direito voce tem de me tirar a vida?”. Baixou a cabecinha no chão e fechou os olhos. Cara, chorei muito. Fiquei com aquilo na cabeça por semanas. Joguei fora a atiradeira e jurei que nunca mais ia fazer aquilo.

    Por isso me identifiquei tanto com este conto. Afora estar bem estruturado e escrito. Abraço e boa sorte!

  5. mkalves
    28 de janeiro de 2016

    Mais tristeza e miséria, mas com um enfoque interessante porque coloca o piá pobre também um pouco como vilão, ainda que se arrependa. A frase truncada não funcionou, mas fora ela, gostei do ritmo da escrita.

  6. Nijair
    28 de janeiro de 2016

    .:.
    Idade da Pedra (Lev Yashin)
    1. Temática: Exclusão social.
    2. Desenvolvimento: Os *** provocam cortes textuais, legal a ideia – justifica os cortes e os saltos.
    3. Texto: ‘Sentiu muita pena por ele’. Seria essa a ideia?
    4. Desfecho: Entendi a revolta do mundo, mas qual o porquê do remorso? O que ele fez, além de ser vítima?
    Kichutes – essa palavra me reportou aos tempos da minha infância. ‘Desistiu-se no chão.’ – que figura linda! Reflexivo, sim.
    Adorei!

  7. Nijair
    27 de janeiro de 2016

    Kichutes – essa palavra me reportou aos tempos da minha infância. ‘Desistiu-se no chão.’ – que figura linda! Adorei!

  8. Tamara Padilha
    27 de janeiro de 2016

    Gostei muito do conto, só não consegui entender tanto a inserção do cão… talvez quis dizer que o menino se sentia como um? e concordo com alguns colegas que disseram que a frase “Sentiu. Muita. Pena. Por ele.” ficou bem estranha.

  9. Daniel Reis
    26 de janeiro de 2016

    Meu caro Lev Yashin, aí vão minhas observações:

    TEMÁTICA: saudosismo misturado com crítica social. Nem sempre funciona, mas aqui não ficou ruim.

    TÉCNICA: interessante jogo de palavras do título. O que me causou estranheza foi, realmente, o uso da pontuação na frase “Sentiu. Muita. Pena. Por ele.” Acho que poderia melhorar. E a divisão com asteriscos me lembrou muito os contos do Dalton Trevisan.

    TRANSCENDÊNCIA: a história é um misto de memória de infância com denúncia social. A gente sabe que existe, mas é difícil ver acontecendo e por isso, não acredita. Ainda mais que uma criança possa fazer uma coisa dessas…

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Publicado às 14 de janeiro de 2016 por em Micro Contos e marcado .