EntreContos

Literatura que desafia.

De volta ao paraíso (Bia Machado)

ilustração-Blade-Runner

“Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca.” (Borges)

 

Ele entrou no prédio desfigurado pelo tempo e pela desgraça. Ficou alguns instantes a imaginar há quantos anos aqueles livros não eram tomados pelas mãos de leitores ávidos. Antes da fatalidade também ele lia muito. Mas agora não conseguia entender a sensação que tinha lhe tomado o corpo: um misto de alívio e tristeza. Um pouco de alegria, um tanto encoberta pelo desânimo. Naqueles últimos dias não tinha encontrado com qualquer pessoa. A sensação de que era o último homem na face da Terra era cada vez mais forte. Mas não era, algo lhe dizia que não.

Se ele procurasse mais, se fosse mais longe, encontraria alguém. Mas estava cansado. Cansado de tentar qualquer resistência. Poderia, sim, encontrar alguém vivo, mas o que faria? Todos eram tão ou mais desafortunados do que ele. Talvez os vivos fossem ainda mais infelizes do que aquelas criaturas que saíam com a chegada da noite. Sabia que um dia tinham sido humanos como ele, mas nada podia fazer a não ser lutar por sua sobrevivência. Até quando já não tinha mais certeza. Ou não queria saber. Para falar a verdade, já não queria mais continuar. E a biblioteca lhe pareceu o lugar mais certo para, talvez, chegar ao fim.

Passou os dedos sujos pelas lombadas empoeiradas, uma sensação familiar, algo como se alguma coisa o aconchegasse, o tomasse nos braços e o confortasse. Aquelas tantas lombadas pareciam dizer “Bem-vindo!”, convidando-o a abri-las. Quanta coisa preciosa tinha se perdido! As pessoas, os livros, a vida… Mesmo os que não tinham sido transformados, como dizer que estavam vivos, plenamente vivos? Era forte a sensação de ter morrido há muito tempo, quando esposa e filha se foram durante um ataque. E Já nem sabia mais há quanto tempo isso tinha acontecido! Perder a conta do tempo na época tinha sido sua única saída para não enlouquecer.

Pegou alguns livros no chão, olhando atentamente para várias marcas. Pés e mãos gravados na poeira. Os seres que agora precisavam se locomover com a ajuda dos quatro membros. Havia marcas deles por todos os lados, sinal de que estiveram naquele lugar.

Resolveu que não fugiria mais. Se voltassem com o pôr-do-sol ele os enfrentaria. Estava mesmo cansado. Já não se alimentava quase e do que sentia mais fome era daquilo tudo: de sentar-se e ler, esquecer de todo o resto. Não pensar mais em nada. Por isso tinha voltado àquele local. Era o lugar preferido de sua juventude. Um lugar onde passava horas a se esquecer dos problemas do cotidiano, escolhendo a próxima aventura a ser vivida, o próximo mundo a ser conhecido, qual civilização descobriria.

Buscou a estante dos livros de literatura fantástica. Depois de dezenas de títulos lidos, um deles chamou-lhe a atenção por ser um velho conhecido: “Vinte mil léguas submarinas”, de Jules Verne. Curiosamente, nunca tinha estado próximo ao mar. Chegava a ter fobia quando o assunto era nadar, mergulhar, chegando a quase se afogar algumas vezes e, no entanto, quantas vezes ele desejara estar ao lado de Nemo e Aronnax, a bordo do Náutilus. Quantas vezes tinha relido aquela aventura? A verdade é que tinha perdido a conta.

Sentou-se em uma velha poltrona para ler aquela história mais uma vez. E durante algumas horas voltou a ser quem era. Voltava ao mar, voltava ao mundo de fantasia que há muito tempo cria adormecido. Não se lembrou de comer, não sentiu cansaço, nem mesmo sede. Tudo o que ele queria era viver aquela história uma única vez mais, antes que o inevitável acontecesse. Apenas o que importava era estar a bordo do submarino ao menos mais uma vez para reencontrar velhos amigos.

“Borges tinha razão. Estou no paraíso. É aqui que vou ficar”, não conseguiu deixar de fazer uma referência a um dos escritores que mais tinham marcado sua vida. Agora ele compreendia o que o escritor queria dizer ao comparar uma biblioteca com o Jardim do Éden. Aqueles livros eram como frutos e por um tempo tinham sido proibidos para ele. Ler qualquer um deles faria com que seus olhos se abrissem novamente.

Durante a leitura do livro de Verne passaram-se horas. Ao anoitecer vieram as criaturas, que já não mais sabiam o que tudo aquilo significava. Tampouco entenderam o ser imóvel na poltrona, abraçado a uma coisa estranha, no rosto molhado um sorriso. Em meio ao choro, a felicidade da despedida, certo de que em breve seus restos mortais se juntariam às folhas que tentavam resistir ao tempo.

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72 comentários em “De volta ao paraíso (Bia Machado)

  1. Bia Machado
    3 de janeiro de 2016

    Olá! Quero agradecer a todos que comentaram e avisar que escrevi um post sobre o processo de criação do conto no blog que estou recomeçando, que pode ser conferido aqui: https://infinitovariavel.wordpress.com/2016/01/04/de-volta-ao-paraiso-e-a-loucura-de-escrever-esse-conto/

    E fiz a segunda versão desse texto, aproveitando as sugestões que me deram em grande parte. Mas quem queria um conto mais longo, sorry, acabei tirando. Mais de 10% do tamanho. No post do meu blog explico o porquê disso. A segunda versão está aqui: http://www.escrita.com.br/escrita/leitura.asp?Texto_ID=34885

    Muito obrigada por tudo!

  2. Pingback: “De volta ao paraíso” (e a loucura de escrever esse conto) |

  3. Pedro Luna
    2 de janeiro de 2016

    Pô, gostei. O conto não traz nada de novo nem deixa o leitor a filosofar, mas tem uma sinceridade aparente. O personagem se entrega, mas parte feliz pelo momento feliz que viveu depois de tanta desgraça. Senti sim vontade de quero mais. Talvez saber mais sobre as criaturas.

  4. Jowilton Amaral da Costa
    2 de janeiro de 2016

    Bom conto, é denso e está muito bem escrito. Talvez, a única falha, se for uma falha, é que dá pra sacar que o cara vai morrer. Principalmente quando ele se refere as tais criaturas noturnas, aí o impacto final diminuiu. Boa sorte.

    • Blade Runner
      2 de janeiro de 2016

      Sabe que nem pensei nessa questão de estar já entregando para o leitor a morte dele? Acho que foi a correria, mas acho melhor mesmo criar um suspense maior. Valeu a dica!

  5. Cleber Duarte de Lara
    2 de janeiro de 2016

    Síntese Crítico-construtiva
    Aqui o autor consegui aliar a menor extensão do conto com uma certa “abertura” interpretativa, alguma polissemia em certos momentos, mas não do tipo que confunde, a do tipo que convida a especulação do leitor. Os dois elementos bem reunidos, como aqui, proporcionam mais sentidos do que o tamanho do texto por si poderia fazer sendo mais descritivo. Muito bom, parabéns!

    • Blade Runner
      2 de janeiro de 2016

      Agradeço pelo comentário, que bom que gostou!

  6. Thiago Lee
    2 de janeiro de 2016

    Gostei do formato minimalista do conto. Gostei também do fato da primeira frase do conto ser ambígua? Era o homem que estava destroçado pelo tempo e desgraça? Achei que o personagem poderia ter sido um pouco melhortrabalhado para termos um pouco mais de empatia com ele, mas isso não tira a beleza da sua narrativa.
    Parabéns!

    • Blade Runner
      2 de janeiro de 2016

      Putz, que bacana isso de você perceber essa ambiguidade, algo que nem eu tinha percebido, mas sabe que gostei? Desculpe pela falta de empatia da personagem, realmente o tempo foi curtíssimo. Escrevi da forma como ele me apareceu, não deu tempo de muita coisa. Grato pelo comentário!

  7. Lucas Rezende
    2 de janeiro de 2016

    A desinformação foi o trunfo do conto, achei super interessante não saber o que aconteceu ao certo e o que são as criaturas. A escrita ficou fluída, não enrosquei em nenhuma parte. Ficou meio batido no certame esse endeusamento dos livros e tudo mais, mas não tem como ninguém saber o que vai ter no desafio.
    Gostei do conto.
    Parabéns e boa sorte!

    • Blade Runner
      2 de janeiro de 2016

      Pois é, ainda mais com todos os contos postados de uma vez só, acho que pela primeira vez também temos contos com título igual… Agradeço por ter gostado, ainda assim.

  8. Wilson Barros Júnior
    2 de janeiro de 2016

    Vinte Mil léguas trouxe o primeiro vilão “do bem”, o “Nemo”, que depois originou o Magneto dos X-Men e tantos outros. Grande lembrança. A procura por sobreviventes lembrou-me os mundos pós-apocalípticos de Curtis Garland, “Os Escravos da Górgona”, “Depois do Amanhã”, da coleção de bolso da cedibra. O conto aqui tem a virtude da simplicidade, ao tratar o tema sem gorduras, na medida certa, em um estilo econômico e fácil de entender. Não sei por que me veio a mente o desafio “Ficção científica” em que vi vários comentários “não é ficção científica”. Na verdade, trata-se de um equívoco. Todos os temas que têm ciência, futuro, etc. sempre foram considerados, ficção científica. Caso contrário, Asimov seria escritor de outra coisa. Ou seja, a maioria dos contos deste desafio são de ficção científica.

    • Blade Runner
      2 de janeiro de 2016

      Agradeço pelo comentário, sempre pertinente. 😉

  9. Bia Machado
    2 de janeiro de 2016

    Gostei muito de ler esse conto. Conforme fui lendo, fui imaginando a situação. Adoro Borges, adoro Verne, adoro Vinte Mil Léguas. Gosto desses cenários, sou suspeita pra falar, e lembrei de “A Passagem”, do Cronin, um livro do qual gostei muito também. Esse livro do Matheson ainda não li, mas mesmo que tivesse lido, essas coisas de “copiar ideia” não entram na minha cabeça. É apenas uma ideia comum, escrita do jeito que você quis, apenas isso.

    • Blade Runner
      2 de janeiro de 2016

      Agradeço pelo comentário!

  10. G. S. Willy
    1 de janeiro de 2016

    A ideia de deixar em segundo plano e não dar destaque ou descrever longamente o que aconteceu foi boa, e muito bem executada. Porém não senti nenhum tipo de sentimento pelo personagem principal. Talvez por ter sido jogado já em seus últimos minutos, talvez por não ter vagado em sua mente e não ter sentido os mesmos sentimentos que ele. Isso me afastou emocionalmente do final, que para mim não disse nada. Mas o conto, em geral, tem um balanço positivo.

    • Blade Runner
      2 de janeiro de 2016

      Valeu o comentário, Willy. Isso que você citou, esse distanciamento das emoções da personagem é bem aceitável, visto tudo isso que você mesmo elencou. Agradeço pela leitura!

  11. Antonio Stegues Batista
    28 de dezembro de 2015

    O protagonista vaga por uma cidade em ruínas, onde não ha mais ninguém, a não ser monstros, talvez zumbis. Ele fala de uma fatalidade, porém não dá pistas do que seja, do que aconteceu essa lacuna aliada aos monstros, deixa o leitor em dúvida. Poderia haver uma explicação a respeito, mesmo que indiretamente. A narrativa é perfeita, mas algumas poucas frases soaram estranhas. O clima de solidão e destruição ficou latente.

  12. Davenir Viganon
    28 de dezembro de 2015

    E achei redondinho. Gostei, mas essa coisa dramática de morrer com o livro abraçado já teve algo parecido em outros contos. Não vou descontar porque obviamente o autor não sabia que outros usariam esse recurso.
    Eu gostei do conto ser curto, e gostei do resultado em geral.

    E eu sou aficionado pelo filme Blade Runner e o livro que o baseou.
    Já vou fazer um jabá do meu texto aqui no blog 😉 https://entrecontos.com/2015/08/25/androides-sonham-com-ovelhas-eletricas-resenha-davenir-viganon/

    • Blade Runner
      28 de dezembro de 2015

      Ah, sim, cada vez mais é difícil a originalidade com relação ao tema, a uma cena etc. Se eu fosse pesquisar sobre contos em que a pessoa termina abraçada a um livro, não daria tempo hahaha. Às vezes tenho alguma ideia e fico pensando: a impressão é de que alguém já escreveu isso… Mas se eu for pensar desse jeito, sei que acabarei meio que surtando. O negócio é cada um ser sincero na forma de escrever, sem pensar que está copiando de alguém… Adoro Blade Runner desde criança, por vários motivos, assim que liberarem o anonimato vou lá ler seu texto. Só não vou agora pra não dar muito na vista, rs.

  13. Phillip Klem
    28 de dezembro de 2015

    Boa noite.
    Apesar de ter gostado do conto como um todo, não consegui deixar de me incomodar com a semelhança de “Eu sou a lenda”.
    O último homem da terra, criaturas que já foram humanas, saindo à noite. Mulher e filha falecidas… É tudo muito parecido e, talvez por isso, não tenha conseguido me prender.
    A última frase foi o ponto alto da sua escrita, que, por sinal, é muito boa, carecendo apenas de um pouco de revisão.
    Meus parabéns e boa sorte.

    • Blade Runner
      28 de dezembro de 2015

      Bem, o narrador diz que o homem se sente como o último da Terra, mas não que ele seja… que pena que ficou tão parecido, eu realmente não li e nem vi “Eu sou a Lenda”. Há outro conto aqui em que o cara também teve esposa e filha mortos, então, pelo visto é melhor evitar isso nos próximos, sei lá, coloquei esse detalhe sem pensar, meio que automático mesmo, no pouco tempo que tive pra escrever. Azar o meu não ter escolhido fazer de outra forma, não é? Valeu o comentário, estou convencido de que preciso ler “Eu sou a lenda” para quando for reescrever mudar algumas coisas e tirar essa impressão mesmo.

  14. Anorkinda Neide
    28 de dezembro de 2015

    Gosto de contos curtos, mas como vc mesmo disse, autor, por falta de tempo, faltou uma lapidação. Nas frases, poderiam ser mais bonitas e no final, que achei muito rápido, não consegui achar ‘bonito’ ele chorando e sorrindo esperando as mordidas.. rsrsrs Também nao sei como modificar, só sei que não ‘ornou’…
    Gostei da melancolia com a biblioteca e os livros, todos nós nos identificamos, pois aqui só há amantes da literatura… hehe
    Abração e boa sorte!

    • Blade Runner
      28 de dezembro de 2015

      Olá, uma pena mesmo que eu tenha escrito o texto na última hora. E, por causa disso, dou muito valor ao resultado, porém ciente de tudo o que é preciso ser feito/refeito. Quanto a não achar bonito o final, acontece. Quando a nossa imaginação não funciona do jeito que deve, ou do jeito que poderia, acontecem essas divergências, rs. Eu, autor, imaginei a cena de uma forma, como se ele já não estivesse mais ali, como se já não se importasse mais com nada que pudesse lhe acontecer e não estivesse nem aí para o trágico final. Acredito que pessoas, em uma situação dessas, podem vir a ter esse tipo de comportamento, por que não? Mas aí vai de cada um imaginar de uma forma. De qualquer forma, agradecido pelos apontamentos.

  15. Daniel Reis
    28 de dezembro de 2015

    Conto bem escrito, sem ser pretensioso – gostei disso, foi bem objetivo na narrativa e chegou direto ao ponto. Lembrou bastante Blecaute, do Marcelo Rubens Paiva. Senti falta de um pouco mais de ação, inclusive porque o narrador onisciente parece exercer um papel de comentarista do que se passa com o protagonista sem nome, entrando e saindo da mente dele. E esperava algo mais surpreendente para o final da história.

    • Blade Runner
      28 de dezembro de 2015

      Olá, Daniel! Nossa, nem me lembrava mais de “Blecaute”, ótima lembrança! E sabe que justamente o que não queria era esse narrador onisciente? Mas acabo sempre chegando a ele, preciso treinar mais, hehe… Quanto ao final, não deu tempo de pensar em algo mais elaborado… Escrevi o que me surgiu mesmo e mandei. Talvez, se eu tivesse mais tempo, tudo tivesse se dado de forma bem diferente. Acredito que sim. O duro é que esses comentários me dão vontade de aumentar a história e não era bem isso o que eu queria, hhehe… Valeu o comentário!

      • Daniel Reis
        29 de dezembro de 2015

        Não precisa aumentar, não. É aquela coisa… se a gente tivesse mais tempo, faria mais curto. Abs.

  16. Fil Felix
    27 de dezembro de 2015

    Também me lembrei de Eu Sou a Lenda, principalmente quando fala das criaturas ao por do sol. Gostei da maneira delicada que desenvolveu o conto, de como relacionou a citação com a trama e do clímax. O protagonista emociona ao se alimentar das histórias, de se confortar ao lado da leitura predileta sabendo que o fim está próximo. Um ponto alto, sem ser brega.

    Só não gostei das tais criaturas, não acho que possuem grande diferença no conto. Se fossem substituídas por soldados, por exemplo, em meio a uma guerra, teria o mesmo efeito.

    • Blade Runner
      28 de dezembro de 2015

      Olá, Fil, fico agradecido pelo comentário. A questão de serem “criaturas” e não soldados foi por não ter mesmo tempo para analisar o que poderia ser feito ou não. Escrevi como a ideia me veio, sem mudar nada, pensando nas criaturas talvez por serem algo fatal, do qual não seria possível escapar. Se fossem soldados, talvez uma escapatória seria possível, vai saber? Queria algo que não deixasse mesmo dúvidas a respeito do final da personagem, sem precisar explicar muito.

  17. Neusa Maria Fontolan
    27 de dezembro de 2015

    Cansado de tentar sobreviver em um mundo devastado procurou a biblioteca como ato final.
    Feliz ao lado de Nemo navegou para sempre.
    Ótimo conto Parabéns.

    • Blade Runner
      28 de dezembro de 2015

      Grato pelo comentário. Essa foi a essência do conto, bem resumida. 😉

  18. Leonardo Jardim
    26 de dezembro de 2015

    Caro autor, seguem minhas impressões de cada aspecto do conto antes de ler os demais comentários:

    📜 Trama (⭐⭐⭐▫▫): é bem simples, na verdade um retrato de uma história maior. O autor optou por não explicar muito e isso até foi um acerto, mas deixou a trama um pouco crua. O rapaz chega na biblioteca, local onde ele escolheu morrer. Faltou um quê a mais, um clímax para a história se destacar mais.

    📝 Técnica (⭐⭐⭐▫▫): é boa, cria boas imagens, principalmente na parte do ótimo livro de Verne. Não peguei muitos problemas exceto umas vírgulas que me pareceram faltar (anotei algumas abaixo). Acredito, porém, que poderia arriscar umas sentenças mais elaboradas fazendo uso de figuras de liguagem.

    🎯 Tema (⭐⭐): a biblioteca está no centro da trama.

    💡 Criatividade (⭐▫▫): gosto muito do tema apocalíptico-zumbi, mas está super desgastado atualmente. Faltou alguma coisa, como já disse, para criar identidade.

    🎭 Emoção/Impacto (⭐⭐▫▫▫): apesar do texto ser bonito, não chegou a me emocionar. Talvez por conhecer muito pouco o protagonista, com exceção de sua paixão pelos livros. Acho que poderia ter explorado mais o psicológico dele, o passado, o presente solitário, suas emoções e medos. Enfim, entrar ainda nais na cabeça dele.

    💬 Trecho de destaque: “Curiosamente, nunca tinha estado próximo ao mar. Chegava a ter fobia quando o assunto era nadar, mergulhar, chegando a quase se afogar algumas vezes e, no entanto, quantas vezes ele desejara estar ao lado de Nemo e Aronnax, a bordo do Náutilus.”

    🔎 Problemas que encontrei:
    ◾ Antes da fatalidade também (vírgula) ele lia muito
    ◾ Voltava ao mar, voltava ao mundo de fantasia que há muito tempo *cria* (?) adormecido. 
    ◾ Durante a leitura do livro de Verne (vírgula) passaram-se horas
    ◾ no rosto molhado (vírgula) um sorriso

    • Blade Runner
      26 de dezembro de 2015

      Agradeço pelo comentário e apenas algumas réplicas:
      – Minha escrita costuma não fazer mesmo uso de figuras de linguagem, o que sei que pode não agradar muita gente. É o meu jeito de escrever, admito isso. Isso não me exime de poder ter feito sentenças mais elaboradas, claro, porém não tive mesmo tempo de sequer pensar a respeito.
      – Quanto à criatividade, sabia que alguém ia dizer que “o tema zumbi está superdesgastado”, mas pra mim não, uma porque não gosto desse tema, não procuro textos do tipo para ler e nem filmes do gênero para ver, aliás, mas a história surgiu-me assim, então por que não escrever? Pronto, aqui está um texto com zumbis que talvez seja o único que eu escreva nessa vida toda… Ou não.

      Quanto a explorar mais o personagem, foi o que pude fazer com o tempo que eu tinha, assumo total responsabilidade quanto a isso. Acho até que os leitores estão sendo muito generosos com meu texto.

      Com relação à gramática:

      Vírgulas: esse é o tema mais sutil em uma revisão. O pior de tudo é a vírgula em excesso. Se, ao contrário, quando elas parecem faltar, mas mesmo assim o texto se faz compreensível, talvez seja porque a falta delas não é tanto problema assim. E, sim, a cada revisão, uma vírgula pode surgir ou mudar de lugar de forma inusitada. =)

      A palavra CRIA existe. Pretérito Imperfeito do indicativo, nesse caso em terceira pessoa. Esse link aqui é ótimo para uso de conjugações sem erro: http://www.conjugacao.com.br/verbo-crer/

      • Leonardo Jardim
        26 de dezembro de 2015

        Essas réplicas são a maior vantagem do sistema de comentários abertos. Vamos, então, à tréplica (imagine a voz de William Bonner em debate político):

        Sobre a escrita simples, eu também escrevia assim qdo entrei aqui e não entendia muito bem qdo diziam que não “enchia os olhos”. Enfim, ainda não escrevo do jeito que gostaria, mas tenho arriscado mais algumas metáforas e outras figuras de liguagem e tenho avaliado isso no quesito “técnica”.

        Sobre zumbis, como já disse, gosto muito do tema, mas estamos sendo massacrados por eles nos últimos anos e desgastou. Fossem mutantes, por exemplo, teria ficado mais original.

        Sobre as vírgulas, também tenho problemas com elas e por isso mesmo presto tanta atenção qdo leio (o texto dos outros, claro, pq no meu passa tudo).

        Por fim, o “cria”. Ok, a palavra existe, mas sua aplicação está estranha. Se fosse algo como “mundo de fantasia que há muito tempo *cria estar* adormecido” acho que ficaria melhor e mais visível o verbo escolhido. Mas é só minha opinião.

        Grande abraço!

    • Blade Runner
      27 de dezembro de 2015

      Já eu não sou fã de comentários abertos, porque sempre acho que pode influenciar outras pessoas, o mínimo que não deveria.Sei que você comentou antes de ler o que os outros escreveram, como você disse, mas a maioria não faz como você disse que fez.

      Sobre minha escrita simples, eu gosto dela assim. Há muitas imperfeições, mas não acho que seja com relação à falta de metáforas e outras figuras de linguagem, centenas de escritores escrevem de forma crua,sem floreios, e não são nem de longe escritores de escrita simples. Aí vai de gostar ou não de escrever assim (e saber escrever assim), e de o leitor gostar ou não de ler coisas mais cruas (e saber valorizar esse estilo).

      Quanto às criaturas do meu conto, por que não podem ser mutantes? Eu mesmo, deixei meio que para o leitor julgar isso. Na verdade me baseei em um livro chamado “A Passagem”, de Justin Cronin, mas não queria dar muitos detalhes além do que dei. As criaturas do meu conto saem apenas com a escuridão, o que poderiam associar com as criaturas do Matheson, como aconteceu, e não vi problema nenhum quanto a isso também. Mas eu achei que fossem associar mais facilmente mesmo com zumbis e, novamente, não vi problema algum nisso.

      Quanto ao “cria”, lhe pareceu estranho porque não o usei de forma comum, como você sugeriu (no final das contas, parece que gosto de alguns floreios, ao menos com verbos, rs). Fiz uma elipse com o pronome, e justamente por não gostar muito de usar o verbo no tempo composto, como você sugeriu, foi que usei na forma como ele existe mesmo. Mas muita gente acha estranho por não ser usual. Não vejo problema nenhum em usar algo que está certo, mesmo parecendo estranho a alguém. Pelo contrário, rs.

      • Leonardo Jardim
        29 de dezembro de 2015

        Eu também prefiro comentários fechados, mas os abertos têm suas vantagens e o diálogo com o autor é um deles.

        Sobre a escrita, acho que você está certo se prefere escrever “simples”, mas eu preciso avaliar os contos comparativamente e adotei o bom uso de figuras de liguagem como ponto de avaliação para ganhar mais estrelas. Repare que disse que sua técnica é boa, mas não ganhou mais estrelas pela simplicidade. Em geral, bons textos com escrita simples acabam recebendo pontos extras em outros quesitos, é bem difícil algum conto conseguir o máximo de estrelas em todos os quesitos (mesmo os contos nota dez não ganham todas as estrelas).

        Sobre os zumbis/mutantes, para parecer algo novo, creio que precisava mais detalhes. Do jeito vago que o conto apresentou (as justificativas já foram dadas e respeito) pareceu mais do mesmo.

        Sobre o “cria”, se você está dizendo que está certo, quem sou eu pra dizer o contrário 🙂 Os “erros encontrados” no final são mais auxílios para ajudar o autor na revisão que motivo de descontar pontos.

        Abraços!

  19. Andre Luiz
    25 de dezembro de 2015

    A beleza de seu conto está em sua capacidade de transmitir todas as emoções que deseja em poucas palavras. Desolação, solidão, tristeza, melancolia e desesperança passearam por suas palavras como traças em uma biblioteca, costurando e adentrando história adentro. Apenas achei que a trama poderia ser um pouco mais estendida, contando melhor sobre o que seria mesmo aquelas criaturas quadrúpedes, que depreendi serem “involuções” da raça humana, e deixaria o final mais autoexplicativo, visto que não gostei muito da frase de conclusão do conto. Um texto tão bonito como este merecia algo mais “pomposo”, que abrilhantasse ainda mais sua escrita. Boa sorte no desafio!

    • Blade Runner
      26 de dezembro de 2015

      Olá, André, agradeço pelo comentário. Infelizmente, não tive tempo para desenvolver mais como poderia ter sido, mas dou-me por satisfeito devido às circunstâncias em que esse texto veio ao mundo. Para o final ser mais pomposo, todo o restante também deveria ser, creio eu. Grato pelos apontamentos!

  20. Catarina Cunha
    23 de dezembro de 2015

    O TÍTULO surte o efeito desejado. O FLUXO tem força narrativa e, ao contrário de muitos contistas, você tem o poder da síntese. Não tema críticas e não se preocupe com o tamanho de sua obra e sim com a força e motivo de existir de cada palavra. A TRAMA unitária e bem articulada, o que para mim é a essência de um conto, dotou o PERSONAGEM de profundo sentimento e abriu possibilidades. Daria para enxugar mais com uma revisão. O FINAL meloso fugiu um pouco ao estilo do restante do conto, mas a mensagem foi muito bem entregue.

    • Blade Runner
      26 de dezembro de 2015

      Olá! Agradeço pelas palavras, achei que você seria a pessoa que mais entenderia esse meu texto de tamanho abaixo dos padrões aqui, porque até eu mesmo costumo gostar de coisas mais extensas… Sim, quando releio às vezes acho o final um tanto piegas. Talvez porque escrevi sob forte emoção, ou por não saber como terminar de outra forma, medo talvez de acharem ainda mais incompleto… Mas valeu a pena escrever! E valeu muito o seu comentário.

  21. Leandro B.
    21 de dezembro de 2015

    Oi, Blade Runner.

    Me lembrei bastante de “Eu sou a lenda”, do Matheson, conforme fui lendo. O personagem culto perdido diante do fim do mundo e simplesmente cansado da vida que sobrou.

    A narrativa me agradou bastante, e não lembro de nenhum erro ortográfico. A história, em si, não funcionou tanto para mim. Não consegui realmente me importar com o fim do personagem por não ter me conectado com ele. O texto é rápido demais para isso. Acho que ficou faltando alguns elementos, alguns detalhes. Talvez se a história se prolongasse um pouco essa empatia fosse criada (o que é provável, porque, novamente, sua escrita é muito boa).

    Acho que é isso, camarada.

    Boa sorte e parabéns.

    • Blade Runner
      22 de dezembro de 2015

      Olá, Leandro B., agradeço pelo seu comentário, e a história não ter funcionado pra você é perfeitamente compreensível, lamento por isso, mas entendo, acho que isso é comum de acontecer com leitores que preferem textos com mais detalhes, mais longos, eu também assumo certa dificuldade com textos curtos, tanto como leitor quanto como escritor. Então esse texto representou uma aula de tentativa de concisão, ocasionada por pura falta de tempo hábil, mas foi válido apesar de tudo.

  22. Claudia Roberta Angst
    21 de dezembro de 2015

    Que ótimo encontrar um conto mais curto, mas cheio de significados. A atmosfera pós-apocalíptica não é uma das minhas preferidas, nem a ideia de zumbis surgindo com entardecer. No entanto,aqui não ficou pesado ou forçado.
    A descoberta do paraíso particular do narrador vai ganhando vida diante do leitor.
    O conto está muito bem escrito, com um ritmo agradável e sem entraves. Mal senti os parágrafos passarem, o que considero um ótimo sinal.
    O final também me agradou, mesmo prevendo a morte do narrador encantado pela leitura de Verne.
    Boa sorte!

    • Blade Runner
      22 de dezembro de 2015

      Também gostei de ter escrito um conto mais curto, apesar de todos os outros fatores que pesaram, já escrevi contos de outras criaturas, mas de zumbi também foi o primeiro, hehe. Talvez por isso não tenha me alongado tanto, não tinha embasamento suficiente para tal. 🙂

  23. Simoni Dário
    21 de dezembro de 2015

    Lindo, eu não senti falta de nada, pra mim está tudo dito. Muito bom autor, o enredo é tocante. O tamanho do conto é curioso e pude sentir com o protagonsita a angústia que seria viver num mundo assim, e depois o resgate e o conforto daquela alma solitária através dos livros. Que descanse em paz o sobrevivente “çansado de tentar qualquer resistência”. Excelente escolha para o final. Parabéns!
    Bom desafio!

    • Blade Runner
      22 de dezembro de 2015

      Fico feliz que tenha funcionado pra você, moça. E com seu comentário “que descanse em paz o sobrevivente” conseguiu me ajudar a dar ainda mais vida ao personagem. Grato por isso.

  24. Piscies
    21 de dezembro de 2015

    Este conto é um “momento”. Fala da desistência e do cansaço de um sobrevivente, contando muito pouco sobre ele. Em contos neste estilo, sinto-me um curioso a observar um breve momento da vida de alguém que gostaria de conhecer mais.

    Diferente de outros contos curtos deste desafio, este pedia por mais palavras. Eu queria conhecer mais o personagem principal, entender o seu cansaço, entender o seu passado. Saber seu nome.

    É claro que o conto também fala da magia da leitura; de como o livro refrigera a alma e remete o leitor a outro universo, onde ele pode, por algumas horas, esquecer da realidade e dos seus problemas. Isto é levado ao extremo aqui: o personagem principal esquece até mesmo que está inserido no meio de um cataclisma e que logo seria morto por criaturas vorazes caso não fizesse nada.

    O poder da leitura e da biblioteca na vida do personagem é tão grande que ele encontra ali o lugar perfeito para o seu descanso final. De fato, quase sempre pensamos na morte como um descanso. Neste aspecto, sempre esperamos que a nossa morte seja em paz. O fato do personagem ter encontrado esta paz na biblioteca, mesmo no meio de tanta opressão, potencializa o significado dos livros em sua vida.

    Eu gostei do conto, do cenário (que me agrada em particular) e da narrativa. O texto tem alguns erros de português pequenos, mas flui bem. Só acho que a história pedia um pouco mais de aprofundamento. Uma motivação, um drama (a perda da esposa e filha foi narrada tão rapidamente que mal tocou meu coração) ou algo parecido.

    • Blade Runner
      21 de dezembro de 2015

      Respondendo à sua pergunta lá no outro post aqui de baixo, consegui escrever o texto em menos de uma hora, e revisar em vinte minutos, coração celerado, frio na barriga, lutando contra o relógio, rs. Mas a vontade de participar era maior e superou até os erros que sei que estão aí pra todos verem, e por isso me vali do sentido mais estreito do conto mesmo, aquele do recorte, sem maiores delongas. Confesso que isso me deixou um gostinho de “quero mais”, de dar mais contorno ao personagem e ao que houve antes desse instante narrado. Quem sabe, se o gostinho não sair da boca e da mente eu dê um jeito nisso… Mas é coisa que posso considerar quase como um “ato bissexto” na minha vida, só de 4 em 4 anos que faço umas coisas dessa, haha! 😉

      • Blade Runner
        22 de dezembro de 2015

        Céus, quantos erros em uma resposta, perdão aí, hehe.

      • Piscies
        22 de dezembro de 2015

        Hahahaha! De qualquer forma, te admiro! =]

  25. Evie Dutra
    18 de dezembro de 2015

    Acabou? Mesmo? hehe.. este é um daqueles contos que deixa um gostinho de “quero mais” no final.
    A sua escrita foi tão envolvente que eu nem percebi que já estava chegando ao final. Eu gosto de contos curtos mas, neste caso, queria que ainda tivesse alguns parágrafos pela frente 🙂 .
    Apesar da minha facilidade para me distrair enquanto leio, (ainda mais lendo aqui no trabalho, que tem barulho pra todos os lados) o seu conto me manteve concentrada o tempo todo.
    Amei o ambiente que você construiu. Amei a forma como você utilizou a imagem do desafio. Amei sua escrita, sua criatividade.. enfim.. amei seu conto!
    Parabéns 😀

    • Blade Runner
      21 de dezembro de 2015

      Ah, esse gostinho de “quero mais” é bom mesmo! Fico grato por suas palavras, por ter conseguido isso com o meu texto, isso é mágico.

  26. Eduardo Selga
    16 de dezembro de 2015

    Há certas narrativas filiadas ao discurso do insólito que costumam deixar o leitor em suspensão constante, mesmo após seu desfecho, de modo que ele não consegue ter certeza sobre sua interpretação. É lógico, isso depende do leitor. Aqueles que quase nunca têm dúvidas, não terão duvidas em entender indubitavelmente assim ou assado.

    “De Volta ao Paraíso” apresenta, do modo como o vejo, essa característica. Por causa da perfeita ambientação construída, a “concretude” do protagonista me parece suspeita. Ou, melhor explicando, não é tão simples ter certeza de que o protagonista seja uma “pessoa” ou sua projeção, por assim dizer, espiritual. Até a chegada do último parágrafo, a presença dele na biblioteca, envolta em memórias e sensações particulares, é algo de certa maneira etéreo, e essa incerteza é positiva na construção da narrativa. Alguns trechos apontam nessas direção, como “todos eram tão ou mais desafortunados do que ele. Talvez os vivos fossem ainda mais infelizes do que aquelas criaturas que saíam com a chegada da noite”, acenando com a possibilidade de haver criaturas feitas de “matéria espiritual”. Ao mesmo tempo, em “pegou alguns livros no chão, olhando atentamente para várias marcas”, é um trecho no qual o verbo pegar sugere uma atitude sólida, concreta, material.

    Ao fim, o personagem é encontrado morto pelas criaturas, cuja falta de identidade trabalha no sentido de aumentar essa ambiguidade de que falo. Nesse ponto, sim, o personagem parece “concreto”, na medida em que é tratado como alguém imóvel na poltrona e há menção a seus restos mortais, que talvez sem juntassem “ás folhas que tentavam resistir ao vento”.

    Assim sendo, se for plausível falarmos em duas condições do protagonista, imaterial e material, o conto consegue manobra uma operação muito bem feita: a ordem dos fatos estaria invertida, pois no conto a projeção astral do personagem se daria antes de sua morte.

    Mas por que não falarmos na ordem natural das coisas (primeiro estar vivo e depois morto), e nesse caso não haveria a projeção espiritual? Antes do último parágrafo temos “ler qualquer um deles faria com que seus olhos se abrissem novamente”, o que sugere duas coisas: os olhos estavam fechados porque o corpo já estava morto; abir os olhos seria uma referência metafórica equivalente à adquirir consciência.

    Ambas me parecem igualmente válidas. Então, por qual motivo considerar o personagem uma entidade espiritual? Dentre outros trechos, por causa deste, situado no início do primeiro parágrafo: “Antes da fatalidade também ele lia muito”. Que fatalidade? A morte?

    Esse não dizer, esse desdizer, é a beleza do conto.

    • Blade Runner
      21 de dezembro de 2015

      Moço, acredito que posso dizer que você “transviu” o meu texto, da forma como Manoel de Barros disse que a gente precisava fazer com o mundo, rs. Por isso me dou como satisfeito. Porque se a gente escreve é justamente para isso, ou deveria ser: para que o leitor vá além do que a gente, que escreveu, pensou para o que o conto se propôs.

  27. Rogério Germani
    15 de dezembro de 2015

    Olá, Blade Runner!

    A julgar pelo pseudônimo e o clima “Eu sou a Lenda”, o autor(a) é fã de histórias fantásticas que despem os humanos de suas máscaras sociais para revelar os instintos primitivos. O conto aproxima-se desta toada. A escrita convence com maestria.

    Achei, no entanto, que os dois primeiros parágrafos são reflexos das mesmas divagações, apenas mudando as palavras. Um único parágrafo serviria para manter o ar de solidão e, assim, sobraria mais “espaço” para criar um clímax quando chegam as criaturas.

    Em suma, ficar remoendo os prazeres trazidas pelas leituras do passado é válido no cenário apresentado; só não deve ficar de fora o suspense quando o protagonista irá pertencer, de vez, ao mundo das letras.

    Boa sorte!

    • Blade Runner
      21 de dezembro de 2015

      Olá! Agradeço muito pelas considerações. Escrevi sem tempo, assumo todas as falhas, e agradeço pelos toques, podendo depois mexer com mais calma.

  28. Gustavo Castro Araujo
    14 de dezembro de 2015

    Bom, sou suspeito para falar porque gosto muito, muito mesmo, desses cenários pós apocalípticos, dessa sensação de isolamento, de destruição, de desesperança e de tristeza, mas que no fim, por nos reduzir aos nossos instintos mais primitivos e básicos, revelam nossa verdadeira natureza, à razão que nos faz humanos.

    Achei que a ambientação foi feita de maneira competente. Na minha opinião, esse tipo de narrativa precisa de algo cru, direto, sem floreios. Creio que isso aumenta a sensação de solidão. Também achei boa a sacada do suicídio, a busca pelo paraíso de Borges. Realmente, é difícil pensar num lugar melhor para aguardar a chegada do inevitável.

    O conto poderia ter oferecido mais? Sem dúvidas. Poderia haver flashbacks da vida do protagonista, poderia ter-nos oferecido mais pistas sobre seus defeitos e qualidades. Porém, isso significaria arriscar, com tudo o que há de bom e ruim como consequência. O conto é competente naquilo a que se propõe. Haverá quem se dê por satisfeito; haverá quem fique com gosto de “queria-mais”. E eu? Bom, claro que eu queria mais, porém, não posso deixar de admitir que o conto funcionou comigo mesmo sendo curto.

    Talvez não fosse necessário aludir às tais criaturas que chegariam à noite. Do jeito que está, ou melhor, da maneira como foi construída, a narrativa dispensa esse recurso, esse apelo ao sobrenatural ou, se preferir, ao fantástico. Do meu ponto de vista penso que a morte pela solidão, tendo como companhia apenas os livros, já seria o bastante para nos afeiçoarmos ao protagonista.

    Enfim, um conto executado com competência, que prende e cativa. Além disso, escrito à perfeição. Acima da média, sem dúvidas.

    Parabéns. Eu gostei.

    • Gustavo Castro Araujo
      14 de dezembro de 2015

      Ah, sim, e ainda tem a menção às “Vinte Mil Léguas”. Putz, não dá para não gostar. Também fiz menção a ela no meu “Liberdade Condicional”. Acho que dá sorte 😉

    • Blade Runner
      21 de dezembro de 2015

      Que bom que gostou, Gustavo. Contos curtos também são uma pedrinha no sapato pra mim, dificilmente consigo, mas acho que dessa vez fui feliz, em se tratando de tudo que aconteceu. Foi pra fechar o ano feliz por ter participado bem. 😉

  29. JULIANA CALAFANGE
    14 de dezembro de 2015

    Eu gosto de contos curtos. Também gosto de histórias fantásticas. Achei muito bonita essa coisa de escolher uma biblioteca para morrer. Eu acho q também gostaria de morrem em uma, abraçada com um livro do Verne, ou do Borges… Realmente, senti falta de uma maior lapidação no texto, pra que ficasse mais “bem amarrado”. Concordo com o Fabio, o texto não traz maiores reflexões. Mas quem disse que isso é necessário? Uma boa ideia e um bom texto falam por si. Parabéns!

    • Blade Runner
      21 de dezembro de 2015

      Agradeço pelo comentário. A falta de lapidação é porque não houve mesmo tempo. Acho que às vezes precisamos de textos sem maiores reflexões, apenas para deleite, por que não? 😉

  30. Fabio Baptista
    12 de dezembro de 2015

    Gostei!

    Um tiro curto, que deixa a maior parte da história a cargo da imaginação do leitor. É um recurso “perigoso” esse “contar pouco”, assim como também o “contar demais” (explicar cada detalhe) pode tornar um texto chato.

    Aqui achei que o autor conseguiu obter sucesso. O que seriam as criaturas? Zumbis? Mutantes? Não importa, seja o que for, cumpriu o papel de ameaça.

    O texto, no entanto, não oferece maiores atrativos na questão técnica, nem leva a maiores reflexões. É um entretenimento bem construído e só (não estou dizendo que isso seja ruim, apenas justificando a nota que não será tão baixa, mas também não será tão alta).

    O final foi muito bom.

    – Antes da fatalidade também ele lia muito
    >>> Antes da fatalidade, ele também lia muito (ficaria melhor, na minha opinião)

    Abraço!

    • Blade Runner
      21 de dezembro de 2015

      Valeu pelo comentário e pelos apontamentos. Uma pena não oferecer mais do que entretenimento, mas se chamou de “bem construído” já é um ponto positivo, levando-se em conta a doideira que foi pra conseguir escrever e mandar isso. Por isso também não tenho muitas expectativas quanto a nota. Valeu mais pra fechar o ano participando com algo que ao menos eu considerei decente. 😉

  31. Daniel I. Dutra
    12 de dezembro de 2015

    A premissa é boa, lembra uma mistura de “Eu sou a Lenda” do Richard Matheson com um episódio do “Além da Imaginação” onde, após uma Guerra Nuclear, um personagem viciado em livros, mas que não tinha tempo para ler, encontra refúgio numa biblioteca e agora tem tempo de sobra para ler.

    Infelizmente a execução não é das melhores. A narrativa anda rápido demais.

    Explicando melhor: faltou criar um suspense. A história já começa com os dois primeiros parágrafos dizendo “o mundo acabou e só sobrou o fulano, e tem umas criaturas atrás dele”.

    O interessante, para a história cativar melhor o leitor, seria, por exemplo, primeiro mostrar o personagem nas ruas escuras sendo atacado pelas criaturas, sem muita explicação, e depois ir revelando as circunstâncias.

    O que estou tentando é que estou sentindo a falta do “tell” no texto. O velho “Show, Don´t tell”. Mas creio que o problema principal é que essa premissa funcionaria melhor se fosse uma história maior, talvez até mesmo uma novela, onde todo a situação desesperadora do personagem vai se desenvolvendo e ficando cada vez pior, até chegar ao desfecho melancólico.

    • Blade Runner
      12 de dezembro de 2015

      Agradeço pelo comentário. A correria foi por questão de tempo mesmo. Tive menos de duas horas para escrever e revisar, porque a ideia me surgiu em cima da hora e tentei ao menos escrever e mandar pra não passar em branco. Como tinha pouco tempo, me concentrei na ação dentro da biblioteca, com medo de não fugir do tema. E com os 20 minutos que sobraram tirei alguma coisa aqui e ali, mudei outras, foi o que deu pra fazer pra não ficar sem participar. Talvez eu siga seu conselho de ampliar o texto. Gostei muito desse cenário e fiquei mesmo triste por não ter tempo de desenvolver mais.

      • Piscies
        21 de dezembro de 2015

        O conto foi escrito em menos de duas horas?? Cacete. Não consigo isso. Em duas horas eu escrevo mil palavras toscas e sem nexo, e passo a semana inteira revisando até sair algo.

        Parabéns mesmo!!

  32. André Lima dos Santos
    11 de dezembro de 2015

    Olá autor, tudo bem?

    Bom, primeiro quero dizer que gostei da sua ideia, embora não tenha gostado da execução.

    Acho que a ambientação foi pouco explorada, sabe? Muitas dúvidas surgiram na minha mente. Óbvio que explicar como surgiram as criaturas seria desvirtuar a coluna vertebral do texto, mas algo mais sobre o ambiente ficou faltando, para mim.

    Teve alguns errinhos de vírgula e de pontuações, mas nada que comprometa o conto. O que eu senti falta foi de uma narrativa mais sólida, mais eloquente.

    O final é MUITO BOM. Adorei o último parágrafo e acho que o conto teria um potencial muito maior se a pegada do último parágrafo fosse utilizada no texto inteiro.

    No fim, foi um bom conto, em minha opinião. Abraços!

    • Blade Runner
      12 de dezembro de 2015

      Agradeço pelo comentário. Como resolvi escrever faltando pouco para encerrar o prazo, tive que pensar em algo que coubesse em poucas palavras. Ok, pelo visto a história não coube em menos de 1.000 palavras, mas foi o que deu pra fazer ao menos pra não passar em branco. A revisão foi bem de qualquer jeito mesmo, não tinha mais tempo pra nada, heehe, Tentei não explicar muita coisa, focando a ação dentro da biblioteca mesmo, ou isso ou perder o prazo. Mas foi bom esse exercício e quem sabe eu aumente essa história, não, seria novamente um exercício.

  33. Brian Oliveira Lancaster
    10 de dezembro de 2015

    MULA (Motivação, Unidade, Leitura, Adequação)

    M: Curto e impactante. O cenário é bem utilizado como um ponto final, literalmente. Não sei se uma pessoa num mundo de monstros, procuraria uma biblioteca para se esconder.
    Mas como o texto tem um áurea lúdica, esse detalhe passa despercebido.
    U: Escrita leve. Algumas frases ficariam melhores apenas deslocando os advérbios, como “Não pensar mais em nada”; para “Não pensar em mais nada”. No geral, bem escrito e fluente.
    L: A ideia de fuga da realidade condiz, e muito, com a literatura (reconheço essas ilustrações!). Foi bem colocado esse ponto no enredo. Só não entendi se eram zumbis ou criaturas fantásticas. A ideia de apocalipse casa com a imagem.
    A: Toda a essência de destruição é repassada através dos olhos do protagonista, com pequenos detalhes aqui e ali. Não é uma abordagem direta, mas funciona.

    • Blade Runner
      12 de dezembro de 2015

      Olá! Agradeço pelo comentário. Talvez eu procurasse uma biblioteca no sentido de não querer mais fugir e procurar fazer algo de que gostasse antes do momento derradeiro, foi assim que pensei. Como escrevi muito em cima da hora não tive tempo nem para lapidar e nem para revisar, agradeço pelos apontamentos, certo que vou mexer nisso. Quanto às criaturas, achei que tinha ficado meio que certo que são zumbis, ou algo do tipo, estilo walking dead mesmo, mas assumo que deixei isso meio vago, muito por conta do leitor. Gostei dessa MULA!

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Publicado às 9 de dezembro de 2015 por em Imagem e marcado .