EntreContos

Literatura que desafia.

Destroços do passar do tempo (Evie Dutra)

idoso solitário

O tempo passa. Infelizmente, às vezes, quando nos damos conta disso, já passou tempo demais. Hoje eu estou aqui, sentado em minha antiga poltrona de balanço, contemplando a sala que serviu de cenário para muitos dos episódios de minha curta existência. Sinto um líquido quente e salgado descendo pelo meu rosto e tocando de leve meus lábios cansados, à medida que meus olhos, lentamente, capturam a imagem ao redor, guardando cada detalhe em minha memória.

Posso dizer que, apesar de breve, a vida é surpreendente. Lembro-me de quando era pequeno, de quando competia com o vento enquanto corria pelas ruas de pedra da Vila Marinho. Lembro-me de minha energia, minha disposição, minha força. Cada partícula, cada átomo, cada parte de mim exalava vida. E então o tempo passou.

Me recordo de minha juventude. Época em que o coração falou mais alto, me ensinando sobre perdas, frustrações, perseverança e coragem. Época esta que deixou como presente minha doce Judith, cuja vida, ainda mais curta que a minha, foi como o frescor do aroma de orquídeas no ar. Juntos, construímos pontes, muralhas, tudo que estava ao nosso alcance para que nosso lar fosse exatamente como foi. Atravessamos, com êxito, cada dificuldade que insistiu em aparecer. Fomos felizes, muito felizes juntos. E então, mais uma vez, o tempo passou.

Como não lembrar dos meus 30 anos? Período este que foi marcado por ricos aprendizados. Trabalhávamos tanto para construir nossa casa, realizar nossos sonhos. Se tudo desse certo, seríamos pais dali a 2 anos. Nossos corpos, ainda tão fortes, se erguiam a cada manhã prontos para se posicionar frente à rotina que, pouco a pouco, foi apagando nosso brilho e carregando nosso vigor. Ainda posso sentir o desespero de quando recebemos a notícia que mudou o nosso rumo. O olhar distante e a voz impassível do médico confirmaram o que já temíamos: Não poderíamos ser pais. Como ondas em um mar revolto, a vida se encarregou de varrer tudo pelo qual havíamos nos dedicado a construir. Felizmente, tínhamos em mente que o tempo passa. Elaboramos novos sonhos e novas metas, mudamos o rumo, seguimos adiante.

A medida que os anos foram passando, fui invadido por uma onda de crescimento e aprendizado. Foi somente aos 40 que Judith e eu apreciamos o término de nossa casa. Ela amava azul. Dizia que transmitia paz, segurança, tranquilidade. Numa casa com 7 cômodos, 4 foram decorados com a cor do céu em um dia de verão. Nosso lar sempre foi relativamente grande para um casal sem filhos e, quando ficou pronto, perguntas como “porque vocês precisam de 3 quartos?” tornaram-se recorrentes. A verdade é que nunca gostamos de solidão. Apreciávamos a casa cheia e, sempre que possível, organizávamos jantares que duravam até tarde, impelindo nossas visitas a pernoitar em um dos quartos em tom de azul. Embora eu tenha entregue a decoração nas mãos de minha esposa, houve somente uma coisa que fiz questão de adquirir do meu gosto. Uma cadeira de balanço. Passei dias procurando por uma que se adequasse e encontrei-a numa loja de departamento a 6 quilômetros de minha casa. Era perfeita. Marrom e verde musgo, com o encosto grande e largo o suficiente para que minhas costas cansadas repousassem. Com o passar do tempo muitas coisas foram esquecidas, estragadas e apagadas. No entanto, assim como eu, minha cadeira de balanço, com cores não tão vibrantes quanto antes, permanece. Característica que, assim como as marcas em meu rosto, revela algo forte, porém, obsoleto.

A vida ainda tinha mais reservado para mim. Há 15 anos fui surpreendido com a morte de Judith. Havíamos superado a infertilidade e seguido adiante. Nos adaptamos bem a uma vida a dois e uma casa, em parte, silenciosa. Tínhamos um ao outro e, durante todo o tempo, foi suficiente. A morte de minha esposa me pegou desprevenido, me atingindo feito um punhal em meu peito. Ela se foi enquanto dormíamos. Silenciosa, calma, tranquila. Acordei e tudo que encontrei foi uma casca vazia ao meu lado. Foi somente aí que eu percebi que, com o passar do tempo, partes de mim foram levadas junto com ele.

Aos 60 anos me encontrei face a face ao meu maior medo – a solidão. A medida que vou enfrentando o longo processo de adaptação percebo que, ao contrário do que dizem, o tempo não cura. Ele causa feridas. Sinto que os anos que vivi foram como uma miragem no deserto, passageiro e irreal, num instante causando alvoroço dentro de mim e quebrando minha confiança no momento seguinte. Apesar de tudo, viver valeu a pena. Os anos que passei na Vila, o encontro com Judith, nossa casa e nossos sonhos, tudo contribuiu para que hoje eu tenha lembranças preciosas em minha memória. Eu viveria tudo novamente, choraria cada lágrima e deixaria cada parte de mim ser quebrada mais uma vez para ter acesso àquela alegria de novo. Posso dizer que aprendi muito com o Tempo. Ele tem sido meu maior companheiro nos dias hoje e me mostra, diariamente, que foi em meio ao caos e aos destroços da existência que encontrei minha glória.

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44 comentários em “Destroços do passar do tempo (Evie Dutra)

  1. Evie Dutra
    5 de janeiro de 2016

    Muito obrigada a todos que comentaram meu conto. Agradeço aos que me ajudaram escrevendo críticas construtivas e tocando em pontos que eu realmente preciso melhorar. Agradeço aos que conseguiram encontrar a biblioteca no meu conto e também aos que, de alguma forma, se sentiram tocados pelo que escrevi.
    Este foi o primeiro desafio em que participei e com certeza retornarei mais vezes. Foi uma experiência incrível!
    Desejo a todos um ano rico em sorrisos, aprendizado e crescimento.
    Feliz 2016 🙂

  2. André Lima dos Santos
    3 de janeiro de 2016

    O conto é bom, tem uma boa carga emocional. A técnica do autor é bem envolvente, mas não o vejo adequado ao tema.

    Depois que li os comentários, vi a explicação do autor… Achei meio forçado. Pareceu que o autor já tinha o texto e apenas deu um jeitinho para colocá-lo no desafio.

    Mas o fluxo é bom. Não fosse pela inadequação, daria uma nota maior que a que dei.

    Boa sorte!

    • Evie Dutra
      3 de janeiro de 2016

      Olá André, boa noite.
      Obrigada pelo seu comentário. Na verdade, essa foi a única inspiração que tive quando vi a imagem do desafio. Estava em um daqueles dias “deprê” e, provavelmente por isso, me veio em mente a imagem de um velhinho sentado numa grande sala vazia.
      Mais uma vez, obrigada.

    • Ellie White
      3 de janeiro de 2016

      Olá André, boa noite.
      Obrigada pelo seu comentário. Na verdade, essa foi a única inspiração que tive quando vi a imagem do desafio. Estava em um daqueles dias “deprê” e, provavelmente por isso, me veio em mente a imagem de um velhinho sentado numa grande sala vazia.
      Mais uma vez, obrigada.

  3. Pedro Luna
    2 de janeiro de 2016

    Mais um conto no estilo relatão, mas que não funcionou para mim porque faltou aquele algo a mais, aquela motivação para ler o texto. Achei simplesmente um relato de memórias, algumas felizes e outras tristes, e nada marcante. A escrita é boa, mas a trama, baseada no envelhecer (algo que sempre envolve emoção) não me atingiu em nenhum momento. Também achei meio deslocado no tema.

    • Ellie White
      3 de janeiro de 2016

      Olá André. Fico feliz em saber que gostou da escrita e triste por não ter conseguido envolvê-lo com meu conto.
      Obrigada pelo comentário.

  4. Jowilton Amaral da Costa
    2 de janeiro de 2016

    Gostei do conto.É melancólico, gosto de textos assim. Dá para sentir toda a tristeza que paira sobre os quartos vazios, sem as crianças que o casal não pôde ter. No entanto, a biblioteca apenas tangenciou o texto, e olhe lá. Boa sorte..

    • Ellie White
      3 de janeiro de 2016

      Olá Jowilton.
      É bom saber que gostou do meu conto. Fico triste por não ter conseguido transmitir melhor a analogia da imagem do desafio com os sentimentos do personagem.
      Obrigada pelo comentário.

  5. Cleber Duarte de Lara
    2 de janeiro de 2016

    Síntese Crítico-construtiva

    O autor brinca com a poesia da passagem do tempo, é muito bonito isso. Escreve bem, convence como personagem. Uma coisa que complicou foi a resumida violenta, isso deu um tom de crônica em alguns momentos, em outros foi um resumo contado de coisas que poderiam ter sido mostradas. No geral, gostei.

  6. Wilson Barros Júnior
    2 de janeiro de 2016

    Gostei do “competir com o vento”. O conto parece refletir muito, com uma singeleza profunda, sobre a vida. Ao ler sobre a cadeira de balanço, lembrei de um antigo conto onde se afirmava que esse tipo de móvel era presente de extraterrestres, para que a humanidade captasse detalhes do mundo até então desconhecidos. o conto é muito bom de ler, e destaco, neste desafio, a eterna preocupação com o tempo e o caos, sempre eles…

  7. Thiago Lee
    2 de janeiro de 2016

    Devo dizer que gostei do seu “desabafo”, e da emoção que transcreveu através do texto.
    Mas infelizmente não vi anada de especial além disso. Foi um conto competente, mas poderia ter sido muito mais, caso fosse melhor trabalhado.

  8. Lucas Rezende
    2 de janeiro de 2016

    Gostei demais do conto.
    O tamanho combinou com o propósito da história, tudo passa tão rápido. Achei legal o não aprofundamento em nenhuma das etapas da vida do personagem, continuou casando com a ideia geral do conto.
    A escrita é perfeita, o conto emociona e a biblioteca está lá de maneira figurada (percebi depois de ler alguns comentários e ler o texto de novo).
    Parabéns e boa sorte!

  9. Bia Machado
    2 de janeiro de 2016

    Bem, diferente do outro texto que li bem reflexivo, esse tinha uma trama, mas não me envolvi com ela, desculpe. A leitura foi bem arrastada e não fui cativada pelo narrador. Não sei o que poderia ajudar com relação ao seu texto, mas quem sabe dar voz às personagens, criar um enredo que seja levado em terceira pessoa? Não consegui encontrar a imagem no que narrou. Onde a biblioteca da imagem se encaixaria aqui? Boa sorte no concurso!

  10. G. S. Willy
    1 de janeiro de 2016

    O conto é maravilhosamente bem escrito, sem dúvidas. Sereno, límpido, traz o ar que precisa para ser apreciado. Porém senti falta da biblioteca, do tema do desafio. Nem mencionada ela foi, e nem nada que supusesse sua existência, seja na casa, seja na vida do casal. É como se o texto não tivesse sido feito exclusivamente para o desafio, e essa é sem dúvida minha única crítica ao conto. Parabéns.

  11. JULIANA CALAFANGE
    31 de dezembro de 2015

    Eu fiquei na dúvida se era um conto ou um desabafo poético. Nada contra os desabafos, certamente a gente se identifica com uma coisa ou outra. É questão de gosto mesmo, senti falta de alguma surpresa, que me fizesse refletir sobre o tempo, que vc coloca como o foco da história. Não sei se isso foi uma experiência real sua, ou se é pura ficção. De uma forma ou de outra, acho q vc precisa trabalhar melhor o conto, talvez jogar umas cores mais fortes em algumas passagens, algo que leve o leitor pra além do previsível. E também não consegui enxergar a biblioteca na sua história. Talvez esteja lá, mas de forma tão subjetiva que a maioria dos leitores não viram, então, pra mim, é sinal q isso precisa ser melhor trabalhado. Parabéns!

  12. Simoni Dário
    30 de dezembro de 2015

    Olá autor. Posso dizer que terminei de ler o seu conto com uma sensação estranha de, tá, e daí, cadê a história? E a biblioteca? Fiquei incomodada comigo, do tipo, putz, vou ter que ler de novo, ando meio cansada, perdi alguma coisa. Li novamente e fiquei pensando, não consegui ainda, onde está a biblioteca? Parecia que eu estava no jogo “Onde está Wally?” E isso me intrigou, e me intrigando causou algum tipo de emoção, então comecei a ver a biblioteca com meus olhos, e pensei: que mágico, o autor deixou que nós leitores decorássemos um dos cômodos da casa como a biblioteca, só nos deu a cadeira de balanço…e eu vi o senhor, sentado, no meio ao caos da sua solidão que deve ter sido devastadora pelo amor que viveu. A biblioteca destroçada estava ali, no paralelo traçado pelo autor entre a vida do personagem e “uma biblioteca” devastada pelo tempo à mercê da solidão por falta de leitores, toda empoeirada e abandonada. Sabe que acabei gostando? Desculpe se me empolguei, mas acho que vi a biblioteca…Ah, vi…Parabéns!
    Abraço e bom desafio!

  13. Philip Klem
    30 de dezembro de 2015

    Boa noite.
    Que escrita maravilhosa e sensível você tem, autor(a).
    Cada frase estava impregnada de sentimentos. Carregada com a nostalgia e emoção de alguém que viveu muito e muito intensamente. São poucos os autores que conseguem tão bem dar voz a um personagem como você fez.
    Ao contrário dos meus colegas, adorei o fato de que abiblioteca não aparece de modo literal no seu texto. É sempre bom fugir do óbvio, afinal, a imagem era apenas para inspiração e não tinha obrigatoriedade de figurar no conto.
    No geral, é um ótimo conto, que revela um talento pronto para ser explorado.
    Meus parabéns e boa sorte no certame.

  14. Antonio Stegues Batista
    28 de dezembro de 2015

    O personagem faz um balanço de sua vida, uma história comum (do personagem). O texto é bem escrito, mas faltou de tudo um pouco, uma boa estória, descrever as emoções, os conflitos,ação, e outras coisas que faz de uma estória um bom conto. A ideia é boa, dizer que, a Vida, apesar das dificuldades, das tristezas, vale a pena ser vivida. Essa foi uma boa mensagem. Mas, faltou a biblioteca bagunçada.

  15. Davenir Viganon
    28 de dezembro de 2015

    Faltou contar uma história. Foi um recorte estático que não avançou. A biblioteca não apareceu no conto também. Apesar isso é bem escrito.

  16. Daniel Reis
    28 de dezembro de 2015

    Esse conto foi o primeiro que realmente não consegui ver nenhuma conexão com a imagem proposta para o desafio. Ou seria somente a cadeira/poltrona, que nem de balanço era? Não achei biblioteca na história! Mas, como estímulo ao autor, tenho uma sugestão de exercício: reescrever o texto inteiro em terceira pessoa. Parece que a narrativa, na primeira pessoa, ficou “contaminada” pela percepção do próprio narrador. Como seria a visão de fora desse drama, teria o mesmo impacto/tom? Boa sorte no desafio!

    • Ellie White
      28 de dezembro de 2015

      Olá Daniel.
      A biblioteca aqui não está de forma literal.
      O interior do personagem principal está destruído, assim como a biblioteca na imagem proposta no desafio.
      Foi minha intenção, desde o início, não utilizar uma biblioteca no meu conto. Gosto bastante de analogias e, por esse motivo, resolvi fazer o conto apenas inspirado na imagem, sem ser necessário utilizar a imagem em si.
      Obrigada pelo comentário.. espero ter conseguido esclarecer.

      • Daniel Reis
        29 de dezembro de 2015

        Obrigado pela réplica! Grande abraço!

  17. Fil Felix
    27 de dezembro de 2015

    Um olhar diferente sobre a fotografia do desafio, que foge do óbvio pelo óbvio – a reprodução de uma biblioteca. O que gera certa relutância por parte do leitor, mas que acaba sendo um achado em meio a tantos contos sobre, necessariamente, uma biblioteca.

    Esse é o ponto alto, mostrar o auge e a decadência do protagonista, seu abandono, tanto pela morte da esposa quanto pelo próprio. Está bem narrado e desenvolvido, porém faltou um “q” a mais. O conto navega sobre uma maré segura, não há nenhuma novidade ou algo que o faça ir além. Como comentaram, faltou um pouco de ousadia e, assim como retratou o tema do desafio, também sair da zona de conforto na história a ser contada.

  18. Neusa Maria Fontolan
    27 de dezembro de 2015

    Apesar de tudo, viver valeu a pena.
    E continua valendo para mim. Não tenho medo da solidão, pelo contrário, gosto dela e aprendo com ela.
    Parabéns e boa sorte.

  19. Leonardo Jardim
    26 de dezembro de 2015

    Caro autor, seguem minhas impressões de cada aspecto do conto antes de ler os demais comentários:

    📜 Trama (⭐⭐▫▫▫): a história contada é bonita, mas bem simples. É, também, comum. Trata-se apenas de um idoso contando como foi sua vida, não muito diferente das demais. Para ser uma trama mais bem sucedida, precisaria de alguma coisa que fugisse disso.

    📝 Técnica (⭐⭐⭐⭐▫): achei muito boa, sem nenhum percalço. Um bom tom intimista que é o maior mérito do conto. Faltou entrar mais em detalhes em alguma cena (mostrar mais e contar menos, para usar a lição número um deste desafio).

    🎯 Tema (▫▫): não consegui enxergar a biblioteca no texto. Teria que forçar uma metáfora do envelhecimento, mas achei que essa metáfora deveria estar mais explícita no texto.

    💡 Criatividade (⭐▫▫): o texto é bonito, mas não foge muito das reflexões normais sobre a passagem do tempo.

    🎭 Emoção/Impacto (⭐⭐⭐▫▫): gostei muito, mas muito mesmo, das primeiras frases. Sentei na poltrona e esperei por um textão. No fim, fiquei com a sensação de texto bom, mas sem sair do lugar comum… :/

    💬 Trecho de destaque: “O tempo passa. Infelizmente, às vezes, quando nos damos conta disso, já passou tempo demais. Hoje eu estou aqui, sentado em minha antiga poltrona de balanço, contemplando a sala que serviu de cenário para muitos dos episódios de minha curta existência.”

  20. Andre Luiz
    25 de dezembro de 2015

    Achei muito bonito seu conto, de certa forma que chega a assustar quando me projeto ao futuro e alcanço a velhice. A solidão é desoladora. Realmente, concordo com vários comentaristas aqui embaixo, a trama não é lá das mais originais, e o conto poderia ser muito melhor trabalhado dentro da proposta que você quis trazer. Siga o conselho do Gustavo Araujo e arrisque-se mais. Boa sorte!

  21. catarinacunha2015
    22 de dezembro de 2015

    TÍTULO reforça a metáfora do conto. FLUXO lento, quase cansado, não ajuda a TRAMA a engrenar. Fiquei com a impressão que a tristeza e derrota dos PERSONAGENS está nas entrelinhas. A melancolia manteve-se constante e, se for este o objetivo, foi alcançado. Neste momento fiquei em dúvida se foi ele ou ela que morreu: “Foi somente aí que eu percebi que, com o passar do tempo, partes de mim foram levadas junto com ele.” . Quanto ao FINAL, li, mas não encontrei glória alguma. Espero tratar-se de uma dicotomia proposital.

    • Ellie White
      22 de dezembro de 2015

      Olá Catarina, boa noite.
      Quanto à frase que você citou “Foi somente aí que eu percebi que, com o passar do tempo, partes de mim foram levadas junto com ele”, o personagem está se referindo à tristeza, decepções que ele passou ao longo da vida. Não significa que partes literais dele foram arrancadas, mas sim que alegrias e sorrisos foram se esvaindo com o passar do tempo.
      Quanto ao final… bem.. com “glória”, o personagem está se referindo aos momentos agradáveis, memórias boas que fizeram com que cada sofrimento, perda ou derrota tenha valido a pena.. a meu ver (e aprendi isso justamente com pessoas idosas) nossa “glória” está exatamente aí! Por isso é tão importante (a meu ver) lutarmos diariamente para melhorarmos como pessoas, amigos, profissionais, pais, filhos, etc.
      Mas isso fica esclarecido na frase anterior, quando ele diz, “Eu viveria tudo novamente, choraria cada lágrima e deixaria cada parte de mim ser quebrada mais uma vez para ter acesso àquela alegria de novo”.
      Espero ter esclarecido.. e obrigada pelo comentário.

  22. Piscies
    22 de dezembro de 2015

    A odisseia da vida narrada em alguns parágrafos.

    O conto desperta uma gama de sentimentos por seu conteúdo que achei impossível não traçar o paralelo comigo mesmo. Os medos que o personagem principal sente, seus problemas e suas reflexões são todas, de certa forma, minhas também.

    A biblioteca aqui tem um significado diferente. A visão do lugar destruído e cheio de sabedoria como a fotografia de uma longa vida que chega ao fim – quebrantada mas resiliente – foi sublime. Gostei desta visão do tema.

    Alguns trechos me fizeram engolir seco de angústia. Entre eles: “Acordei e tudo que encontrei foi uma casca vazia ao meu lado”. O vazio que esta frase gerou dentro de mim ainda está aqui. Parabéns !

    O conto mostra pouco e conta muito. Eu diria que o autor nem sequer tentou mostrar nada: só contou mesmo, em poucas palavras, a história inteira da vida do personagem. Não sei, porém, se este tipo de historia pede outro tipo de narrativa. Só ficou um pouco daquela sensação de “isso aqui poderia ter sido trabalhado de melhor forma”.

    A técnica está um pouco falha. Uma boa revisão dará conta do recado. De qualquer forma, o conto é muito bom. Parabéns!

    Algumas sugestões de melhoria:

    1) “Me recordo de minha juventude.” – Recordo-me.
    2) “Nossos corpos, ainda tão fortes, se erguiam a cada manhã prontos para…” – Erguiam-se

  23. Leandro B.
    21 de dezembro de 2015

    Oi, Ellie White.

    Achei o conto bem escrito, mas no geral acabei não gostando muito. Você tem personagens críveis e ótimas construções, mas não consegui me prender em nenhum momento da leitura.

    Acho que o conflito da história ficou exposto de maneira sutil demais (para o meu gosto pessoal, claro), o que deixou o texto um pouco desinteressante (novamente, para o meu gosto particular).

    Claro, nem todo conflito deve ser ao estilo de novela mexicana, com irmãos apaixonados e traições entre famílias, mas quando se tenta criar algo tão mais sutil acho que se corre o risco de afastar demais um grande público, que não consegue perceber esses elementos mais sutis (eu, por ex. rs)… acho que isso pode incomodar o autor, ou não. Depende do motivo pelo qual cada um escreve.

    Acho que a própria temática que você escolheu pede uma história mais suave. Mesmo assim, o resultado final acabou não me agradando tanto.

    Mas, de novo, parabéns pela escrita.

  24. Anorkinda Neide
    16 de dezembro de 2015

    Gosto de narrativas intimistas e de vidas simples. Não preciso de grandes aventuras para apegar-me a um conto ou a uma história.
    Mas aqui faltou ao menos detalhar os acontecimentos da vida do narrador-personagem, assim poderíamos embarcar em suas emoções.
    Não gostei particularmente do último parágrafo pq eu achei que ali terminariam as reminiscências para algo acontecer, nem q fosse a morte do ancião. Mas nada, foi apenas um velhinho chorando na cadeira, remoendo superficialmente suas lembranças, desculpe, parece q ele tava com preguiça de contar seus causos…rsrs
    Pq minha vivência com a terceira idade mostra que eles se adentram em qualquer lembrança, contado tudo pormenorizadamente, sem se apegar ao tempo cronológico..bem, adoro ouvir estas historias que não apareceram por aqui, embora tenham se pincelado brevemente.
    .
    E a biblioteca em está em paralelo com as cores da casa e da vida do personagem, envelhecendo? Achei um tanto vago…
    .
    Mas vc escreve bem, só o tema que abordaste eu acho que lhe prejudicou.
    Abração e boa sorte!

  25. Rogério Germani
    15 de dezembro de 2015

    Olá, Ellie!

    Um conto baseado em flashbacks, para pescar a atenção do leitor, precisa aprofundar-se nos fatos mais marcantes.
    Do modo em que está, mesmo que usando uma escrita elegante, o enredo oferece pouca “isca”. É claro que a imagem da vida do viúvo salta das linhas.

    Mas, infelizmente, morre em água rasa.

    Boa sorte!

  26. Eduardo Selga
    15 de dezembro de 2015

    Complementando: por outro lado, é preciso tomar cuidado de não cair na surpresa pela surpresa, no texto espetaculoso cujo fito é apenas, no plano do conteúdo, deixar o leitor boquiaberto e sem ar pela quantidade de volta e reviravoltas, e no plano formal encher o texto de adereços e enfeites verbais.

    Em nenhum dos dois equívocos o(a) autor(a) incorreu, apenas esclareço porque senão pode dar a entender, na primeira parte de meu comentário, que defendo tais posturas.

  27. Eduardo Selga
    15 de dezembro de 2015

    Apesar de algumas construções oracionais criativas, a exemplo de “ao contrário do que dizem, o tempo não cura. Ele causa feridas”, o conto não se mostra muito criativo ao abordar solidão de um homem após o falecimento da esposa amada.

    E a esse respeito, uma dúvida e forma: a falta de vivacidade narrativa seria mesmo uma insuficiência ou, ao contrário, uma tentativa do(a) autor(a) de ser coerente com a falta de cor na vida do personagem, na medida em que a narração é posta na “boca” do narrador-personagem, falta de cor cuja intensidade é tamanha que não permite a nenhum dos azuis dos cômodos da casa amenizar?

    Admitindo a segunda hipótese, ao construir uma cenário melancólico e depressivo, um texto em que não pulsa a vida é uma exigência? Ou eu posso elaborar um texto literário que trabalhe com esse estado de espírito usando frases, orações e parágrafos”vivos”? Evidentemente não no sentido de passar alegria de personagem ou de enredo, pois isso seria contraditório, e sim no sentido de a carpintaria verbal produzir no leitor a alegria de um texto bem elaborado. Ou seja, a alegria de ler um texto que fala de tristeza, texto no qual as ferramentas narrativas foram usadas de modo feliz.

    Do modo como foi elaborada, o leitor sai da narrativa do mesmo modo como entrou, pois ele não é questionado, é mantido em sua posição confortável. Até porque o complexo sofrimento da solidão é abordado em seus aspectos mais visíveis, mais palatáveis.No conto, é um sofrimento que dói no leitor, por ser mostrado como algo distante.

    Não se deve dar trégua ao leitor. Ele precisa ser incomodado de alguma maneira, seja pela estrutura formal e estética do texto, seja por seu conteúdo. Caso contrário o enredo não cria raízes dentro do leitor, é esquecido tão logo termina a leitura. Ninguém se lembra especialmente daquela água com açúcar que certa vez bebeu, mas lembrar-se-á do amargo sabor, mesmo se experimentado há muito. Ou seja, o escritor não pode ter medo da solidão, de sentir-se desacompanhado de um grande número de leitores. Se o que eles querem é o perfeitamente palatável, o mamão com mel, eles não fazem falta. Ou não deveriam fazer.

    GRAMATICALIDADES

    “Me recordo de minha juventude”. Pronome oblíquo não pode iniciar frase, portanto deveria ser “Recordo-me de minha juventude”.

    “A medida que os anos foram passando”, quando deveria ser À MEDIDA QUE os anos foram passando”.

  28. Claudia Roberta Angst
    13 de dezembro de 2015

    Conto muito bem escrito,mas que por se arrastar pelas lembranças de um solitário nostálgico, cansa um pouco o leitor. Não todos os leitores, claro, estou falando por mim. A narrativa fez com que eu me lembrasse da animação UP, o senhor solitário e rabugento, preso às lembranças de juventude com a sua amada esposa. Talvez a perda sofrida pelos dois personagens tenha me despertado a lembrança. Os dois são viúvos e que não tiveram filhos.
    Não encontrei deslizes de revisão, tudo muito bem escrito e revisado.
    Gostei do tom intimista um tanto melancólico, por uma questão de identificação mesmo. No entanto, faltou algo que me fizesse querer mergulhar na narrativa, sem medo de me afogar. Boa sorte!

    • Ellie White
      13 de dezembro de 2015

      Não foi minha intenção que a história tivesse alguma relação com a animação Up mas, parando para pensar, lembra um pouco sim.
      Obrigada pelo seu comentário 🙂

  29. Fabio Baptista
    13 de dezembro de 2015

    Bem escrito, com boas construções de frase e boa gramática (é o primeiro no desafio que não tenho nenhum “apontamento” a fazer! :D).

    A história, porém, pecou ao narrar um período muito longo (toda a vida do personagem) sem se aprofundar em nenhum deles. Tudo passou muito depressa, não deu tempo de nos apegarmos ao personagem, à esposa, etc.

    Esse não estabelecimento de vínculo infelizmente deixa o conto sem sabor, apenas uma leitura rápida e prazerosa (devido à qualidade da escrita), mas que não marca a alma.

    Abraço!

    • Ellie White
      13 de dezembro de 2015

      Olá!
      Fico feliz em saber que não encontrou erros gramaticais.
      Quanto a história não ter se aprofundado em algum período da vida do personagem.. concordo com você, erro meu. Como já foi dito em um dos comentários, preciso sair da minha zona de conforto e arriscar um pouco mais.
      É sempre bom receber dicas para que possamos melhorar mais e mais.
      Muito obrigada.

  30. Daniel I. Dutra
    11 de dezembro de 2015

    Bom, o texto é bem escrito.

    No entanto, senti a falta de uma história. Você termina de ler e fica com um “Tá? E daí?”

    Um conto pode ter reflexões, mas ele em si não deve ser uma reflexão. O resultado final ficou com um ar mais de crônica. Uma reflexão sobre a vida. No caso o narrador refletindo sobre sua própria vida.

    Porém, um conto precisa narrar um evento. Uma das definições de conto é que ele é um recorte parte de uma realidade fictícia. Ficaria mais interessante se a história focasse em algum evento específico da vida do personagem e desenvolvesse toda a situação.

    Ademais, o texto ficou meio genérico. Essa história poderia ser a história da vida de qualquer pessoa. Não há nada de particular ou único sobre o personagem narrador.

    Em suma, não gostei, apesar de reconhecer que o autor domina bem a escrita.

    • Ellie White
      13 de dezembro de 2015

      Olá, boa tarde.
      Obrigada pelo seu comentário.
      Realmente, eu pequei em ter escrito um relato. Na verdade, minha intenção foi mesmo essa.. mas não imaginei que os leitores pudessem achar um pouco superficial.. como já foi dito em um dos comentários, acho que eu devia ter arriscado um pouco mais.
      Bom.. mas é errando e praticando que crescemos e melhoramos, não é?
      Agradeço pelo seu comentário e pelas críticas construtivas. 🙂

  31. Brian Oliveira Lancaster
    10 de dezembro de 2015

    MULA (Motivação, Unidade, Leitura, Adequação)

    M: Profundo. Uma abordagem diferenciada sobre o que a imagem evoca. Não é direto, mas causa uma sensação de nostalgia indescritível.
    U: Escrita leve e fluente, com enfeites aqui e ali que dão um charme à mais. Notei apenas uma frase começando por maiúscula após dois pontos. O que, de jeito nenhum, estraga a essência da história.
    L: Agradável e triste. Melancólico ao extremo. Gosto de textos assim, que fazem refletir. A casa gigante para compensar a falta de filhos foi uma grande jogada.
    A: Sinto que a essência toda está aí, apesar de não “linkar” diretamente à imagem. Você captou o que ela lhe transmitiu. Acho que isso também pode ser levado em conta, afinal, é muito subjetivo e emocional.

    • Ellie White
      13 de dezembro de 2015

      Muito obrigada pelo seu comentário! Desde o início minha intenção foi escrever algo que não estivesse diretamente relacionado à imagem. Fico feliz por saber que consegui.
      Obrigada.

  32. Gustavo Castro Araujo
    9 de dezembro de 2015

    O conto é muito bom naquilo a que se propõe: relatar os principais acontecimentos da vida de um homem. A gramática livre de erros (só notei uma crase faltando em “a medida” no último parágrafo) ajuda muito na fluidez. As ideias estão bem concatenadas, contribuindo para que, no geral, o texto seja lido sem maiores problemas.

    A questão é que a proposta me parece muito tímida. O texto mais se assemelha a um relato — bem escrito, mas ainda assim um relato — que em vez de cativar o leitor faz dele mera testemunha. Não há muita coisa que aproxime quem lê dos personagens, não há um fato relevante, uma luta, um conflito, um obstáculo a ser superado, apenas uma sucessão rápida de uma breve existência. Apesar do texto ter todos os elementos para envolver o leitor, jamais cria-se identidade…

    O mais frustrante é ver que o(a) autor(a) é alguém que domina muito bem a prosa, é alguém que conhece da matéria e que sabe expor suas ideias. Em suma, é alguém que poderia ter ido muito mais longe com esse mote, que poderia ter ousado e não permanecido na zona de conforto.

    Se posso dar alguma sugestão aqui é que você, caro(a) autor(a) avance o sinal, exponha-se, crie uma narrativa que desafie o leitor, que o faça pensar, questionar, amar ou odiar seu texto. Estou certo de que você tem todas as ferramentas para isso.

    Boa sorte!

    • Ellie White
      10 de dezembro de 2015

      Eu só tenho a agradecer pelo seu comentário. Me encheu de incentivo e inspiração para continuar a escrever. Críticas assim, construtivas, são essenciais para motivação de todo pequeno (e grande) escritor.

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Publicado às 9 de dezembro de 2015 por em Imagem e marcado .