EntreContos

Literatura que desafia.

Agulhas (Miquéias Dell’Orti)

O relógio marcava o tempo como se estivesse brincando com a paciência de David. O tamborilar dos seus dedos acompanhava a métrica dos segundos e ele tentava não fixar seu olhar no derradeiro marcador de tempo. A tontura havia diminuído bastante após o medicamento que o último doutor lhe prescreveu e ele estava levando uma vida normal desde então. Sem crises nervosas, delírios e nem aquela dor retumbante que o acompanhava como um cachorro fiel. David sofria com dores constantes na cabeça desde seus dezessete anos. De uma hora para outra, crises nervosas e ataques de uma enxaqueca insuportável começaram a fazer parte do seu dia-a-dia. Nessa época, ele morava com seus avôs em Paiva, um minúsculo município de Minas. Uma cidade de mil e poucos habitantes jogada no meio do nada. Quando as crises começaram, os avôs ligaram a situação do neto a uma banalidade adolescente, negligenciando qualquer ajuda médica. No começo, ele acabou se acostumando com as dores frequentes, até a coisa piorar.

David começou a ter apagões repentinos. Sempre que isso acontecia o garoto era tomado por sonhos horripilantes. Pesadelos com coisas grotescas, tão reais para ele que pareciam se tornar parte da realidade. Relatou diversas vezes ter visto inúmeras formas estranhas pairando sobre as paredes de onde estava pouco antes dos desmaios. Elas o rodeavam devagar, como nuvens vagarosas num dia ensolarado.

Para os médicos, seu problema era completamente neurológico. Seu avô, num último ato de desespero, ou talvez para se livrar dos gritos de horror e medo que era obrigado a ouvir todas as noites, decidiu mandá-lo para a capital, alegando que lá ele teria o melhor tratamento. Alugaram-no um apartamento numa rua próxima ao Palácio das Artes, estrategicamente localizado ao lado do Hospital das Clínicas da Universidade Federal, famoso pelos estudos avançados em neurociência, e o cadastraram num programa de avaliação cirúrgica.

Foi submetido a alguns exames e aguardava a liberação da cirurgia. Aquela seria sua última consulta. Estava sozinho e impaciente. A sala estava vazia. As paredes brancas pintadas à cal e o chão revestido de um piso cor de marfim. Num dos cantos havia um sofá de couro marrom em forma de “L”, com dois lugares pendendo para cada vértice. David estava sentado numa das pontas. À sua frente, duas portas e do seu lado esquerdo, uma terceira, por onde entrara. O som do relógio, seu único companheiro, parecia mais intenso.

“Meu Deus, vou ficar maluco se continuar aqui,” — uma gota de suor escorreu por trás de sua orelha e ele começou a ofegar — “que demora é essa?” — Pensou enquanto batia com o dorso das mãos na lateral do sofá.

Uma das portas se abriu, mas David estava distante demais em seus pensamentos e não percebeu a movimentação. Uma jovem usando um avental branco quase no mesmo tom da sua própria pele apareceu na porta carregando uma prancheta. Ela olhou para o papel e gritou numa voz alta e rouca:

— Sr. David Tamille?

David voltou a si e arregalou os olhos.

— So… sou eu… eu — ele suava frio agora e seu coração palpitava forte, dando pancadas em seu peito.

— Acho que lhe assustei, não? Perdão por isso — ela esboçou um sorriso frio e caminhou até o meio da sala. — Venha comigo, por favor. O doutor o aguarda.

Quando se levantou, David sentiu um pouco de tontura. Associou isso à espera e à fome. Não comia desde a noite anterior por causa do jejum obrigatório e resolveu não falar nada.

— Desculpa pelo susto, eu tava aqui faz muito tempo já e… — sem deixá-lo terminar, ela deu as costas e voltou em direção a porta.

— Seu exame estava marcado para as nove horas. Conforme mostra esse relógio, estamos sendo bem pontuais.

O relógio marcava exatamente nove horas.

 

Antes de sair, ela o mediu dos pés à cabeça e acrescentou.

— O senhor está bem pálido. Espere um momento que vou pedir para trazerem uma cadeira de rodas.

— Não, não. Eu consigo andar ainda — disse se endireitando enquanto caminhava a passos vacilantes até a enfermeira.

Passaram pela porta e entraram num corredor escuro. Apenas uma luz avermelhada se esforçava para mostrar o caminho. Ele via com dificuldade a mulher que o conduzia e o avental branco se tingiu de um tom vermelho escuro quando submetido pela ação da luz. David não estava enxergando muito bem e tentou tocar o ombro da garota, mas ao mesmo tempo em que parecia estar próxima, percebeu que ela estava longe demais do seu alcance. O corredor se alongava como o interior de uma cobra se rastejando e ele teve a estranha impressão de que as paredes do túnel expandiam e comprimiam de forma quase imperceptível. Olhou para o teto oval e viu uma camada escura e úmida que cobria toda a parede e emitia a estranha luz vermelha, da qual não fazia ideia de onde vinha.

“Que tipo de lugar é esse?” — Disse enquanto voltava seus olhos para a enfermeira à sua frente. Parou por um instante e estremeceu. Estava marchando sozinho na escuridão.

“Ei… não estou te vendo. Enfermeira… me espera” — disse isso e aguardou uma resposta, em vão.

Olhou para trás na esperança de retornar pela porta, mas a situação era a mesma. A luz fraca e vermelha iluminando poucos metros de um túnel redondo e úmido.

Parado sob aquele lugar, David deu alguns passos em direção ao que antes era a saída e parou novamente. Por um motivo que não sabia explicar resolveu seguir em frente. Começou a caminhar a passos curtos e lentos, pisando como se o chão fosse ceder a qualquer instante. Depois de alguns minutos, pensou ter visto o vulto da enfermeira, mas logo tudo se tornou escuro novamente.

Continuava caminhando túnel adentro quando sentiu algo se mover atrás dele. Virou rapidamente e olhou em volta. Apertou os olhos para tentar enxergar melhor, onde a luz não alcançava, mas só viu a profunda escuridão. Mesmo assim, continuou com a estranha sensação de que alguma coisa se aproximava. De repente, começou a ouvir um barulho, um tec-tec estranho que quebrava o profundo silêncio do túnel onde estava. Sentiu um arrepio subindo pela espinha.

Virou-se novamente e conseguiu ver a sombra da coisa que o espreitava, sentiu que suas pernas iam desabar. Não caiu, mas não conseguiu correr dali, estava paralisado pelo medo. Olhou para cima e observou, com o terror envolvendo seu corpo, uma criatura parada no teto do túnel. Agora ele a via perfeitamente, era como um amontoado redondo de carne branca brilhante, com alguns pontos negros que formavam o que pareciam ser os olhos. Ela andava lentamente sobre patas finas como gravetos, seis ou sete, David não conseguiu contar. Na verdade, dadas as circunstâncias, essa não era sua maior preocupação.

“Não… não pode ser. Era isso que eu via nos meus sonhos. Aqueles vultos redondos. Como? Será que estou ficando louco? Estou sonhando novamente. Só pode ser isso, mas… tudo parece tão real, eu posso sentir que é real… meu Deus!”

A coisa grotesca, como se ouvisse os pensamentos de David, começou a emitir um ruído estranho, como um chiado de rádio fora de frequência, e acelerou o trote em sua direção.

David tentou acompanhar seu movimento com os olhos. Em vão. Quando a criatura o atacou ele já era tarde demais para esboçar alguma reação. Ela correu por trás dele mais de rápido do que pôde acompanhar, passou por cima da sua cabeça, andando pelo teto, desceu pela parede do seu lado esquerdo e saltou em suas costas. Antes que pudesse perceber, ele sentiu as patas pontudas subindo pelo seu corpo rapidamente, eram como agulhas perfurando sua pele e quando ela chegou perto de seu pescoço, um enorme ferrão surgiu por trás de seu corpo e desferiu um golpe, atingindo em cheio sua orelha. David sentiu o ferrão penetrando seu ouvido e gritou.

A criança segurava o lápis com a mão direita e se apoiava numa cadeira que havia colocado ao lado de onde David estava sentado. A ponta do lápis espetava seu ouvido quando ele gritou e o menino deu um salto para trás, soltando uma risada fina e extremamente estranha. Uma das portas da sala se abriu rapidamente e uma mulher de rosto e corpo volumoso olhou num misto de dúvida e bronca para o garoto.

“Carlos… pare já de atormentar as pessoas” — ela puxou o menino pelo braço.

“Desculpe-me por isso senhor. Esse menino é terrível” — ela soltou uma risada aguda e rouca, estranhamente parecida com a da criança — “crianças, o senhor sabe não é? Elas podem ser assustadoramente terríveis”,

No misto de confusão e dor que David estava sentindo, aquelas palavras lhe pareceram ainda mais amedrontadoras que o sonho que tivera. Olhou para a mulher, ainda meio confuso, e lhe disse enquanto passava o dedo delicadamente sobre o ouvido, confirmando que não estava sangrando.

“Tudo bem senhora, crianças são assim mesmo. Devo ter caído no sono enquanto esperava” — seu coração ainda batia forte quando ele olhou para o menino que sorria com o lápis de madeira nas mãos.

Outra porta se abriu e a jovem de avental surgiu à porta gritando o próximo nome na prancheta.

“David Tamille?”

“Sim, sou eu.”

Ele se levantou e se dirigiu até a enfermeira que o esperava com um sorriso amistoso. Hesitou por um instante naquele Déjà vu. Aquela garota não era a mesma do pesadelo?

“Estranho… bem, talvez eu esteja só nervoso, preciso me acalmar. Logo tudo isso acaba.”

Assim que se levantou, sentiu uma pontada de dor na cabeça e tudo à sua volta pareceu opaco e distante. Até o piso do chão tinha uma aparência diferente e, enquanto caminhava, teve a sensação de estar flutuando. Na realidade, tudo o que ele olhava enquanto caminhava parecia flutuar.

“O senhor pode aguardar nessa sala, já será atendido.” — A enfermeira abriu passagem para que ele passasse pela porta. David, sem conseguir protestar e com uma tontura insuportável, passou por ela cambaleando.

Entrou num quarto a meia luz. Havia uma cama de solteiro num dos cantos e uma lâmpada fraca pendia sobre um fio no meio do cômodo. Uma escrivaninha com um pequeno livro de capa preta e um banco de madeira estavam na outra ponta da parede. Nada mais havia ali, e um cheiro forte de madeira podre tomava conta do lugar.

Ao entrar, David olhou para tudo aquilo, e se virou para a enfermeira.

“Que lugar mais estranho para…” — ele ficou paralisado, com a boca entreaberta, olhando estupidamente para o lugar do qual havia entrado. A enfermeira, juntamente com a porta, havia sumido. Estava só dentro daquele quarto e não havia qualquer sinal de uma saída.

A luz da lâmpada começou a oscilar e deu um leve estalo, fazendo-o retornar do choque.

“Isso não é possível. Mas que diabos tá acontecendo?” — Ele caminhou até a parede onde antes estava a porta e a tocou com a palma das mãos, na esperança quem sabe de encontrar algum segredo ou uma parede falsa, mas não teve sucesso.

“Deve ser outro sonho. O anterior foi muito real também. Só me resta saber como faço para acordar.”

O silêncio foi quebrado por um som distante, que parecia o de uma furadeira. Depois de alguns segundos, o som cessou. David começou a sentir tontura novamente.

Olhou em volta e se certificou de que não havia mesmo como sair. As paredes e o teto eram revestidos de blocos de pedra negra que pareciam densos e pesados. Colocados de forma simétrica uns sobre os outros.

Foi até a cama e sentou. Experimentou fechar os olhos e se forçar a acordar. Nada. Sua cabeça latejava, mas ele sentia estar completamente desperto e nada dali lhe assegurava que era um sonho, cada sensação, cada passo que ele dava dentro daquele quarto eram tão reais como qualquer outra coisa.

Enquanto estava de olhos fechados o som da furadeira voltou mais alto do que antes e ele sentiu uma pontada de dor dentro da cabeça.

Abriu os olhos lentamente e percebeu algo no outro canto do quarto. Algo que não estava lá antes, uma sombra disforme que não conseguia identificar. A luz oscilou mais uma vez, intensificando-se, e então ele viu. A mesma criatura de forma arredondava estava parada ali, com suas finas patas e aquela dezena de pontos negros que, agora tinha certeza, só podiam ser olhos. Dobrava lentamente cada um dos gravetos que usava como pernas e parecia o fitar, esperando sua reação para dar o bote.

Ele olhou para o banco de madeira junto à escrivaninha e para o monstro parado no outro canto. Suas mãos tremiam e o horror lhe consumia até o último fio de cabelo. Não queria, de modo algum, ser atacado novamente, então colocou lentamente as duas mãos sobre o colchão e se preparou para dar um impulso.

A criatura não se mexia, era uma estátua feita de carne putrefata. A carapaça que a envolvia parecia a epiderme branca de uma ferida descascada. A coisa o olhava e ele olhava para a coisa. Os dois imóveis, aguardando um a reação do outro.

David avançou primeiro. Correu em direção ao banco de madeira, segurou-o com as duas mãos e virou para seu rival que, nesse momento, já havia disparado. Ele correu pela parede de seu lado direito em direção a David, que quando virou com o banco nas mãos não conseguiu vê-lo passar por trás de si. O monstro saltou direto para sua nuca, fincando as patas em seus ombros e costas. David tentou acertá-lo com o banco, lançando-o para trás na esperança de atingir alguma coisa. Uma dor desesperadora subiu pelo seu pescoço e ele sentiu aquelas patas, finas como agulhas, atravessando sua pele. Gritou.

Num movimento de desespero, soltou o banco de madeira, jogou os braços para trás e agarrou a coisa, que já estava grudada em suas têmporas. Pegou-a com as duas mãos. A sensação era a de segurar uma lagarta, sentiu aquele corpo mole como gelatina e a palma das suas mãos começaram a queimar. Ele ainda teve forças para lançá-la contra a parede antes de cair paralisado pela dor.

“Não posso desmaiar. Se eu apagar é o fim” — pensou enquanto tentava se mexer e se esforçava para recobrar os movimentos.

Seu pescoço latejava de dor. O sangue escorria pelas suas costas e ele sentia as diversas picadas, profundas o bastante para fazer verter todo aquele sangue. Podia sentir os finos furos na sua nuca e cabeça.

A dor era insuportável e tudo em volta rodava. Juntou forças e apoiou as mãos e os joelhos no chão para levantar. Vomitou. Sentia todo corpo se contraindo, como se quisesse expelir tudo que havia dentro, inclusive seus órgãos. O suor frio escorria pelo rosto em chamas.

Aos poucos a ânsia diminuiu e ele conseguiu pousar seu olhar sobre a criatura. Ela estava caída, com as patas dobradas como gravetos quebrados para o alto. Um líquido marrom viscoso formava uma mancha no chão ao seu redor.

Ele olhou em volta, esforçando-se para enxergar direito. Então aquele sentimento de ansiedade e medo voltou a lhe tomar por inteiro. As rochas cúbicas enormes que formavam a parede daquele decrépito quarto começaram a emitir uma luz fraca esverdeada, como polônio enriquecido. David sentiu como se cada pedaço do cômodo o observasse. Como se em cada canto escuro uma daquelas coisas asquerosas estivesse a sua espreita, observando-o, se preparando para atacar.

Mais um pouco de esforço e ele conseguiu levantar. Cambaleante, foi em direção da massa branca. Três passos depois uma forte vertigem o atingiu e ele perdeu a força nas pernas novamente. Enquanto caía, percebeu uma movimentação diferente do aspecto vertiginoso da sua tontura: mais três daquelas criaturas vinham pelo teto do quarto em sua direção. A visão aterradora, somada à dor e ao desespero de estar pendendo a consciência, foi de um impacto tão forte que nesse mesmo instante ele apagou, caindo no chão já desacordado.

Como num sonho dentro de outro sonho, David começou a ouvir coisas que pareciam vozes embaralhadas, mas ele não conseguiu distinguir nem definir o que realmente diziam. Quando cessaram, foi como se ele estivesse flutuando num espaço negro, sentia como se estivesse fora de seu corpo. Pairou sobre a escuridão como se o tempo e o espaço não existissem, até o momento em que todo o peso, dor e angústia da vida caíram sobre sua alma novamente.

Recobrou a consciência. No começo as coisas estavam todas embaralhadas em sua cabeça, mas a dor o ajudou a reorganizar seus pensamentos. Percebeu que algo cobria seus olhos e voltou a ouvir aqueles sons indistinguíveis, porém estavam muito mais próximos.

Aos poucos seus sentidos retornaram e a dor tomou conta de todo o seu corpo. Sentia uma pressão estranha na parte de cima de seu crânio e na região da nuca, tudo lá doía e latejava e ele começou a se desesperar. Os sons embaçados em sua mente foram tomando uma forma concreta, começou a ouvir claramente tudo o que diziam.

Sentiu algo tocando seu ombro e lhe subiu um calafrio doloroso pela espinha. Ouviu a voz de um homem e ficou muito aliviado por escutar algo familiar.

— Senhor Tamille, escute-me bem. Meu nome é Doutor Carlos. O senhor está bem! Está em um quarto do Hospital das Clínicas aqui em Belo Horizonte. O senhor foi submetido a uma cirurgia neurológica devido a um ataque que teve na sala de espera. Tenho que lhe dizer que o procedimento foi um sucesso, é provável que tudo esteja bastante confuso, mas não há com o que se preocupar, essa sensação é normal. O senhor está completamente bem. Não está enxergando agora devido a uma faixa que cobre seus olhos e a região onde foi realizado o procedimento.

Uma voz feminina, um pouco mais distante, começou a falar.

— Nós fizemos a cirurgia de retirada de um tumor em seu lobo frontal e devido a uma compressão sobre os nervos ópticos também tivemos que realizar um pequeno procedimento próximo da região de seus olhos, mas tudo correu muito bem. A cirurgia não afetou sua visão, porém o senhor entrou num coma profundo e apagou por quinze dias.

David tentou levantar as mãos até a cabeça. O médico segurou-as pelo pulso e as afastou lentamente.

— A venda é uma precaução que tomamos devido à intensidade de luz na sala. Assim que se sentir bem o bastante, iremos apagar todas as lâmpadas e retirá-la para que o senhor se acostume aos poucos com a luminosidade. Isso é um procedimento padrão para esses casos, pois como o senhor ficou muito tempo desacordado, certamente terá uma alta sensibilidade à luz. Vamos medicá-lo agora, fique tranquilo, o senhor sentirá uma leve picada e logo a dor que está sentido vai diminuir.

Ao ouvir isso David teve um sobressalto, mas antes de tentar qualquer reação já haviam lhe aplicado o medicamento e a dor começou a diminuir. Após algum tempo ele já se sentia muito melhor e pronto para tirar a venda, mas como falar ainda era doloroso, fez sinal para que iniciassem e sentiu diversas mãos o colocando sentado na maca. Mesmo com a dor, sentiu a necessidade de falar.

— Eu não… consigo me lembrar de quase nada. Só… vestígios. Lembranças, algumas assustadoras. Tive pesadelos com aquelas… coisas estranhas. Pareciam de outro mundo. Foi muito real.

Outra voz, provavelmente de outro médico, lhe disse num tom calmo.

— Essa é exatamente a principal contestação dos pacientes que passam por isso senhor David, um dos sintomas que esse tipo de tumor comumente causa são alucinações e delírios durante ataques convulsivos. É comum também haver confusão entre esses delírios e a realidade. Fique sossegado, após a retirada, em noventa e nove por cento dos casos, todos esses sintomas desaparecem.

Aos poucos foram tirando a venda que cobria os olhos de David. Enquanto as várias mãos o auxiliavam, ele ouviu o primeiro doutor falar.

— As luzes estão apagadas senhor Tamille, só há uma pequena lâmpada atrás do senhor, coberta por um pano. Mesmo assim tenha calma, pois mesmo essa luz fraca pode lhe proporcionar uma sensação desagradável.

Tiraram toda a venda. Uma luz forte e branca não permitiu que ele abrisse os olhos por completo no início. Abriu-os devagar e, junto ao clarão, diversas manchas coloridas explodiam em pontos fora de seu foco de visão. Percebeu então que estava retomando a percepção das formas e se viu em um quarto pouco iluminado, com paredes brancas e com uma enorme lâmpada apagada virada para si. Diversas pessoas vestidas de branco rodeavam-no, algumas indo de um lado para o outro e regulando um ou outro aparelho. Mas havia alguma coisa errada com elas, algo que David não conseguiu identificar a princípio. Ainda estava com a visão bem turva, mas já conseguia perceber os vultos que o rodeavam, viu um dos médicos se dirigindo a ele.

— Senhor Tamille, vamos aumentar a intensidade da luz, caso o senhor sinta algum desconforto nos avise de imediato.

O doutor deu sinal para que aumentassem a luz. E a explosão de cores tomou conta de seus olhos.

Ao contrário do que esperava, a sensação que David experimentou foi de pavor, confusão e pânico. Seus olhos saltaram das órbitas assim que a luz se reestabeleceu ao ponto dele poder enxergar todos os contornos daquela sala. Suas mãos começaram a tremer e seu coração palpitava como se fosse saltar pela garganta.

O que ele viu estava completamente fora de qualquer coisa aceitável, ou mesmo imaginável, pelo mais paranoico doente mental. Não havia qualquer alucinação que se comparasse com aquilo.

As formas octópodes se agarravam às cabeças de todos na sala, fincando suas finas patas em volta de seus crânios. O ferrão que partia de trás do corpo fazia um arco para baixo e estava introduzido firmemente na nuca. As parasitas pareciam sugar algo das vítimas, sangue, energia, ou qualquer outra coisa. Expandiam e comprimiam-se como um pulmão durante a respiração.

David, tomado pelo horror e medo, não conseguia se mexer. Fechou os olhos e apertou-os contra o rosto. Orou, a oração mais rápida e sincera de toda a sua vida, então abriu novamente os olhos. As criaturas ainda estavam lá.

Os médicos, parecendo não perceber a que estavam sendo submetidos, olhavam-no com ar de preocupação.

— Senhor Tamille, está tudo bem? Quer que apaguemos as luzes novamente? — O médico que lhe disse essas palavras deu um passo em direção a David, fazendo a nojenta forma sobre sua cabeça ondular como uma gelatina.

Nesse momento, David, perdendo completamente a sanidade, deu um grito de desespero e saltou da maca, correu para o lado de uma porta com os dizeres “WC” e um boneco palito desenhado logo abaixo. Parou de costas para ela, pegando na bancada ao lado um bisturi que haviam deixado ali. Apontou o objeto para todos na sala e berrou:

— TODOS VOCÊS, PARADOS. NÃO MEXAM UM MÚSCULO OU EU ARRANCO A CABEÇA DE VOCÊS JUNTO COM ESSAS PORCARIAS NOJENTAS QUE CARREGAM.

Os médicos paralisaram diante da ameaça e tentaram acalmá-lo de alguma forma:

— Calma Senhor David. O senhor deve estar tendo algum vestígio de alucinação. Não perca o controle. Abaixe esse bisturi, por favor.

Ao olhar em volta, David viu através do vidro de uma das portas alguns seguranças do hospital, que também carregavam seus parasitas.

Levou a mão que não segurava o bisturi para trás do corpo, pegou a maçaneta da porta que estava atrás de si e se certificou que estava aberta. Abriu-a num movimento rápido e entrou. Teve um acesso de raiva quando percebeu que a chave não estava na fechadura. Ouviu os passos correndo até a porta e segurou-a com toda a força que pôde.

Olhou em volta e viu na parede, pendurada por um prego, um pedaço roliço de madeira talhado com a palavra “BANHEIRO MASC” e a chave presa por uma argola. Esticou a mão com o bisturi para pegá-la, com a ponta fina do objeto direcionada para ela.

Começaram a bater e empurrar a porta e a gritar para que abrissem do lado de fora. Sua obsessão pela chave era tão grande que ele não conseguia ouvir nada do que diziam. Só pensava em pegá-la e trancar a porta na esperança de se salvar daquele pesadelo.

Fez um movimento rápido com o pulso e conseguiu tocar a argola de leve. Num golpe de sorte, ela escorregou para o bisturi, batendo em seus dedos.

Quase sem forças para aguentar e com sua cabeça latejando mais do que nunca, ele pôs a chave no miolo da fechadura e a virou, se separando momentaneamente daquelas monstruosidades.

Sentou na privada, ofegante. A dor e a tontura não o deixavam pensar e ele não conseguia organizar os pensamentos. As topadas na porta do lado de fora pareciam distantes. Ele olhou para a janela, levantou e caminhou com dificuldade até ela.

O que viu do lado de fora foi ainda mais inacreditável. As pessoas caminhavam nas ruas e todas elas tinham essas criaturas fincadas em suas cabeças. Sugando suas vidas. Todas. Homens, mulheres, até mesmo as crianças. “Oh meu Deus, crianças!” — O turbilhão de imagens era uma tortura para sua mente.

Foi então ele que viu uma pessoa que não tinha sido atacada, uma mulher, devia ter uns vinte anos, talvez menos, era loira e ele viu o desespero nos seus olhos enquanto ela andava encostada sobre a parede de um beco escuro do outro lado da rua.  Ele tentou abrir a janela, mas além de emperrada, ela estava protegida por uma grade de ferro.

As batidas voltaram com força total a seus ouvidos. Virou-se para a porta e ouviu o grito de um deles. Conseguiu entender somente as palavras “pegue” e “de-cabra”.

Olhou novamente pela a janela e viu a garota, agora escondida atrás de uma caçamba de entulho. As pessoas passavam do outro lado como se vivessem suas vidas normais junto de seus escrotópodes de estimação.

De repente ele viu um vulto familiar. Começou a bater no vidro da janela e a gritar.

— EI!!! ATRÁS DE VOCÊ!!! ATRÁS DE VOCÊ!! CORRE!!! SAI DAÍ!!!!

Algumas das hibridas criaturas humanas olharam para o alto da janela, a mulher também, no mesmo momento em que foi atacada pelo parasita. Ele saltou nas suas costas e agarrou de imediato as têmporas da moça com as patas afiadas. Fios de sangue começaram a escorrer de suas orelhas e ela gritava de dor. A maldita coisa tirou seu ferrão e rapidamente enfiou-o fundo por trás de seu pescoço. David a viu estremecer e cambalear um pouco antes de parar, imóvel, com a cabeça baixa enquanto a criatura sugava sua vida. Após alguns segundos uma ambulância chegou ao local onde ela estava. Diversas pessoas vestidas de branco, acompanhadas de seus respectivos pares, desceram do carro, pegaram-na pelos braços e a levaram. A ambulância partiu dali e as não-mais-pessoas voltaram a caminhar tranquilamente, como se nada tivesse acontecido.

David chorava desesperado enquanto batia, já sem forças, no vidro da janela. Suas mãos tremiam muito agora e a dor e a pressão na cabeça haviam aumentado demais. Virou-se de costas para a janela e percebeu um barulho de lado de fora que indicava que o pé-de-cabra havia chegado. Alguém estava pedindo para que todos se afastassem.

Deu alguns passos em direção à porta e parou no meio do caminho. Do seu lado esquerdo havia uma pia com um espelho que não havia percebido quando entrou. Caminhou até ele, colocou a mão com o bisturi sobre a louça e se olhou no reflexo.

Começou a rir. Uma risada insana e desconcertante. A risada de alguém que perdeu tudo o que um ser possui de consciência e senso de realidade. Ele apertava o bisturi com as mãos trêmulas e a lâmina brilhava em seus olhos.

A primeira investida com o pé-de-cabra foi suficiente para escancarar a porta, mas a pia branca daquele banheiro dentro do Hospital das Clínicas já transbordava de sangue e lágrimas.

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2 comentários em “Agulhas (Miquéias Dell’Orti)

  1. Gustavo Castro Araujo
    17 de novembro de 2015

    Olá, Miquéias, seja bem vindo ao Entre Contos e obrigado por compartilhar seu texto com a gente.

    Achei bem construídos a atmosfera de opressão e o suspense que permeiam o conto. Há algo de “O Iluminado” aí, despertando uma sensação de claustrofobia, refletindo, muito provavelmente, sua intenção em cercar o leitor.

    Também gostei do estilo. Escrita fluida, ágil, sem erros — o que é muito importante para passar credibilidade. Você é um autor que sabe o que está fazendo e isso é ótimo para o desenvolvimento da história.

    A trama em si, todavia, não me agradou tanto. Achei um pouco arrastada, cansativa. Isso por conta das repetições de cena — quartos de paredes brancas em cujo teto havia formas escuras com braços que pareciam gravetos prontos para atacar o pobre David. Posso entender que isso era necessário para justificar a mente perturbada do protagonista, mas creio que ficou exagerado. O final é previsível, o que tirou um pouco da força narrativa.

    De todo modo, no geral, a história prende e deve agradar os fãs de terror. Embora eu não seja um deles, tenho que admitir que você tem muito potencial, de modo que seria bacana ver outros trabalhos seus, especialmente num dos nossos próximos desafios — oportunidade em que você seguramente receberia vários comentários.

    Um abraço!

    • Miquéias Dell'Orti
      18 de novembro de 2015

      E aê Gustavo,

      Eu que agradeço pelo pelo espaço cedido, também pela crítica e comentário.

      É bom quando falam que você tem potencial rsrs. Mas, melhor ainda é a crítica. Só com ela podemos melhorar e nos superar, ainda melhor quando é feita com alguém com bagagem para isso =)

      Agora é tentar melhorar nos próximos. Valeu!

E Então? O que achou?

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Publicado às 14 de novembro de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .