EntreContos

Detox Literário.

As Palavras do Poeta (Raione Pedrosa)

Libélulas brotavam no meu estômago, tentando subir em espirais. As pernas perdiam sua consistência, moles como uma tira de elástico, me fazendo desabar sobre o chão. Minha boca aberta, maxilares muito retesados, liberava urros guturais com o esforço da garganta em expulsar para fora do corpo meu próprio corpo enjoado. Os dedos procuravam pelos olhos para comprimi-los com força sob as pálpebras, sem conseguir parar as imagens. Da cabeça aos pés, eu tremia. No meu lobo frontal, sentia uma segunda e imaginária boca nascer, gritando, sem que a vida monstruosa cessasse.

Escrevi o trecho anterior na atmosfera sufocante do momento, enquanto essas sensações ainda produziam ecos fortes. É uma descrição breve do meu estado após a primeira experiência com os comentais.

Já é a quarta vez que apago os dados na chapa translúcida, reiniciando este relato, pois sempre que tomo a iniciativa de escrever, sou sugado pelos pensamentos em Maria, e me ponho a temer pelo meu anjinho neste mundo em trapos. De certo modo, eu faço isto por Maria.

Desconheço um método ou tom adequado a esta escrita: não sou uma pessoa competente para a tarefa, um historiador ou qualquer coisa do tipo. Não existem historiadores nesta época… Época com um passado fantasmagórico e um presente fantasma.

Eu me encontrei com o homem há alguns dias no antigo megacentro urbano, debaixo de uma chuva torrencial. Ele parecia receoso demais dentro de sua capa preta e eu me perguntava onde teria conseguido os aparelhos. Tentei não demonstrar nenhuma dúvida, principalmente dúvida de mim mesmo, pois sabia que homens de sua laia sobrevivem destroçando negociadores fracos.

“Espera”, ele disse, enquanto me entregava o material. Olhei para o embrulho prateado em minhas mãos, depois ergui a cabeça e senti os olhos dele nos meus, olhos que pareciam dois pecados. A hesitação durou um longo instante, até que o encapotado me pediu o frasco de nanosoro (o pagamento combinado) e desapareceu mancando em uma das vias de acesso ao subterrâneo.

É estranho voltar a escrever: parece que não consigo amarrar bem as palavras, deixando-as soltas na frase. Escrevi apenas durante um curto período na infância, fazendo jogos com outras crianças. Porém, agora, registro meu relato em caracteres, como faziam meus antepassados. A tecnologia dos comentais e tantas outras estão perdidas atualmente, o que me obriga a recorrer a meios alternativos e mais rudimentares. Talvez a escassez de dados sobre o fim oculte ainda mais o fardo que paira acima das jovens almas herdeiras deste mundo em ruínas, que desconhecem suas origens.

É para a geração futura que estou grafando sinais nesta chapa de cristal, encontrada por mim sob os escombros da antiga Biblioteca Central, que mantinha uma exposição de objetos pertencentes à história da escrita. Depositarei isto e os comentais da catástrofe adquiridos por mim num cilindro de abertura programável que, incrivelmente, ainda funciona. Expliquei a minha neta Maria que ela será a guardiã deste material, que terá a missão especial de preservá-lo para que um dia, quando o mundo estiver curado, possa ser reproduzido em massa e chegar às mãos de cada humano, a fim de que nunca esqueçam. E Maria se mostrou bastante empolgada com a ideia, embora eu tema que com apenas onze anos ela ainda não entenda a importância de sua tarefa.

Preciso introduzir uma pequena explicação sobre os comentais. Um comental é um aparato complexo que capta impressões mentais ao redor (emitidas por outros comentais) e propaga as impressões da própria mente que o usa para comentais próximos. Definir em palavras essa tecnologia é um trabalho realmente difícil. É como se várias pessoas pudessem vivenciar uma experiência de forma conjunta e em quase absoluta comunhão de pensamentos e sensações. Além disso, os níveis e processos da própria mente que utiliza o aparelho são evidenciados. O uso coletivo desses aparatos proporciona a confluência de vários ângulos mentais numa espécie de amálgama, formando uma rede de experiências profundas sobre o mesmo evento. É algo muito intenso mesmo para alguém que não vivencia a ocasião, mas apenas acessa a memória dos aparatos, como eu.

Em verdade, os comentais nunca ultrapassaram a fase de testes, pois trazem à tona fluxos muito encobertos, coisa que nunca combinou com a vida pública. De fato, não é possível usar um comental sem estar disposto a abrir mão da própria intimidade. Bom, de uma maneira ou de outra, foram usados por muitas pessoas.

Frequentei durante bastante tempo os aglomerados subterrâneos em busca desses comentais, chegando a manter contato com grupos nômades que atravessavam o oceano regularmente trazendo mercadorias do lado ocidental, da face mais deformada do mundo. Nesse período, finalmente compreendi por que tantos escolhem habitar as profundezas ou as terras deformadas: se eles retornarem, é preferível estar entre os primeiros a perecer.

Entreguei minha consciência diversas vezes às gravações comentais. Eu estava obstinado, quase obcecado. Tinha decidido transpor para as limitações da linguagem escrita tudo o que os aparelhos me revelassem. Logo na primeira tentativa, o processo se mostrou absurdamente exaustivo, doloroso e viciante. Eu não acreditava que sobreviveria.

Eu não sabia nada disso naquele dia de sol. Naquele dia de sol em que os altos membros da Academia Transdisciplinar deslizariam seus dedos sobre os controles, acionando novamente as câmaras. Para selar a reativação, um grande número de versos poéticos de todas as eras havia sido reunido. Os acadêmicos optaram por não utilizar um dos contemporâneos poemas modeláveis, escolhendo adotar certo classicismo, ao mesmo tempo em que, seguindo as teorias literárias da época, deixariam um computador sortear o verso no último momento, através de um sistema matemático especial.

Aparentemente, os comentais começam a ser acionados pelos convidados logo na abertura do evento, instantes antes de exibirem o verso e abrirem as cápsulas. O número de pessoas usando comentais é relativamente pequeno.

 “O último trabalho do doutor, não concluído em vida, é uma série de servidores, um conceito idealizado por muito tempo. Os servidores possuem aplicações além do mensurável. Foram projetados para que sua mera presença seja energeticamente revitalizante, tanto para máquinas quanto para campos eletromagnéticos e até mesmo para o psiquismo humano.” Sorrio ouvindo o Reitor Cactus, o orgulho de ser cientista florescendo em mim. Primeira vez que uso um comental. Engraçado como uma cócega. Estou usando comental? Parece que subdividiram minha mente em níveis e em cada prateleira há um pensamento ou uma impressão que eu não sabia existir e em algumas prateleiras impressões profundas de outros que existem como se fossem minhas e de certa forma, talvez de qualquer forma, são minhas. Gole de luz. Bom. Cactus na plataforma. “Nosso bom doutor utilizou principalmente do novo conhecimento e do material coletado nas expedições desbravadoras às dimensões IA-53 e PKD-72, ambas dentro do perímetro de Tulipa.”

As cápsulas estão subindo, reluzindo ao sol. Cada uma está preenchida com gelatina meio transparente, povoada por coisas que parecem grandes, redondas e luminosas células. Mas não consigo ver os servidores lá dentro. Imagino que não sejam os grãos de luminosidade, porque são coisinhas muito bobas. Estão demorando para começar. E eu queria estar no meu gabinete. Longe das formalidades e das coisas solenes, muito longe desses monólitos brancos, que parecem mais vivos do que eu, respirando e conspirando, meio inclinados, sem suar ao sol, com sua eficiência branca de computador. Santuário da ciência, analisando, existindo por razões hipotéticas. E é quando a ciência toca Deus. Quando a ciência toca Deus.

Camellia Z. vai falar. O aracnídeo sintético prende seu coque ruivo; daqui, eu a vejo de perfil e em intervalos irregulares, de ¾. Rostos vistos em ¾ sempre parecem olhar de soslaio. Aquele rosto é bonito porque sugere algo “hibernavam, sim. Não é a melhor expressão, mas podemos dizer que hibernavam num estado mental, conquanto tal estado tenha uma ressonância, uma contraparte material.” Sua voz não sustenta o coque. “Quero dizer que, apesar de estarem dentro das cápsulas, imersos naquilo que se convencionou chamar ‘soro anti-temporal’, os servidores também habitavam a formação energética de onde surge essa tela mental.” Ninguém entende, nem eu. Só os cientistas diretamente envolvidos no projeto confirmam tudo balançando a cabeça com um ar doce e bovino. Penso em Camellia com irritação. Penso ela se tornando o aracnídeo. “Tudo ocorre sutilmente. De qualquer forma, o assunto é exaustivamente tratado nas projeções do digno Dr. Cactus reunidas no Tratado sobre a Multidimensionalidade. Quem tiver interesse, que acesse a obra através de seus computadores domésticos. Obrigada.”

O soro está sendo drenado. Vão projetar o verso escolhido nos paredões brancos. Eles vão abrigar poesia, vivos fingindo morte, conspirando. O soro escorrendo e sim, o verso, agora, em azul elétrico: Beleza é verdade, verdade é beleza (John Keats, 1795-1821). Ahnn… Se queriam falar de beleza, deviam ter usado um poema modelável: seria bem mais bonito.

Beleza é verdade, verdade é beleza. O raio de sol era beleza, mas mesmo assim eu caí dele.

Que orgulho de ser cientista e fabricar o amanhã, e as residências e os protótipos de teletransporte e os produtos e os milagres. “Se algo inspirou Eucaliptus III neste projeto, certamente foi a figura dos anjos.” Aprovo com a cabeça as palavras de Cactus e tenho um ar doce e bovino. Tenho?

 “Se algo inspirou Eucaliptus III neste projeto, certamente foi a figura dos anjos” digo. Então, a plataforma gira para que eu também possa ver o despertar. A ciência existe em prol da verdade, isso é belo. Devem ser como anjos. Mas estão cinzentos, longos e cinzentos, de um cinza oco e acre. Ainda não despertam.

… porque se Ah, agora está acontecendo. (Re)Nascem mais ou menos ao mesmo tempo, num movimento único, demorado, gradual; anjos se espreguiçando em arquejos de massa e luz. São tão

altos. Expandem-se e depois concentram de novo seus corpos, ficando grandes e finos. Contorcem-se com negligência. Vidro sendo moldado do jeito que faziam os velhos artesãos; forjado por esses monólitos brancos, quando Deus toca a ciência. Mas não há Deus, nem ciência de verdade, não há mistérios. Eu devia consultar o Tratado.

Nascem. Frutos da Ciência que se infundiu na religião e se elevou além da religiosidade, tornando-se espiritual. Sinto eles como… reminiscências do sono… estão Estamos onde não queríamos estar E eu, não Eu e meus gêmeos… mas vocês…

Um pouco após a abertura das cápsulas, os comentais passam a sofrer estranha interferência. É difícil evidenciar essa interferência na escrita e mesmo na consciência ela se apresenta de forma bastante confusa. As identidades se fundem e somem nos comentais.

Eles estão saindo das cápsulas, bolhas com asas. Beleza é verdade, verdade é beleza. Oh, tão próximos que Camellia se assusta, tão reais. E agora no alto, mais claros que a Ilha. São a coisa bonita que já vi na vida, mais bonita que meu neném, mais bonita que meu neném, mas, mas eles… sofrem? Eles Eu e meus gêmeos repousávamos num estado de perfeição que vocês nunca chegarão perto de conhecer.

Cada consciência expira, içada de repente para uma escuridão desconhecida ou esquecida. E por vezes me deixei içar com cada uma delas, arrebatado num zumbido de morte e nulificado em um forte apagão. É como um coral que se torna muito agudo e então se cala. Retornei todas as vezes com espasmos violentos e uma sensação de embriaguez. Creio que alguma anomalia elétrica resultante dessas experiências já tenha afetado meu sistema nervoso de uma forma preocupante.

Os comentais são automaticamente desativados quando seus usuários morrem. Na verdade, eles pifam. Por sorte, a memória é armazenada num compartimento que não é afetado. E quando as gravações comentais chegam ao fim, restam poucos dados.

Há vários relatos anônimos que contam sobre a ida dos servidores para a costa e os estragos posteriores. Pelo o que vejo hoje, todo um lado do planeta foi devastado. Devastado de maneira tão profunda que a deformação quase transcende o material para adentrar o anímico.

Detenho, entre outras anotações, as de certa Petúnia Violácea, sobrevivente do lado ocidental e, ao que parece, integrante do malfadado diretório pós-catástrofe. Eis uma de suas memórias:

“Data desconhecida.

Começamos a produzir documentos e isso é muito bom, embora a maioria das pessoas ainda precise reaprender os mecanismos da escrita. Por outro lado, algumas coisas caóticas têm acontecido e o alcance de nosso governo ainda é muito restrito. A situação adquire um tom cada vez mais anárquico.

Felizmente, para aliviar um pouco meu estresse durantes estes dias, encontrei uma adorável velha com quem conversar num dos hospitais ambulantes. Ela se lembra de cada coisa, e com tantos detalhes! Ontem conversamos sobre os servidores. Confesso que não posso afirmar se a velha é mentalmente sã ou não, só posso registrar aqui que confio em sua história. Ela me contou como os servidores partiram, abandonando a superfície. Parece que foi logo após arrasarem o continente. De fato, se tivessem permanecido mais do que algumas horas, não estaríamos aqui.

Ela disse que todos puderam ver o ovo de almas brancas suspenso no céu enegrecido. Depois, foram para baixo num único fluxo, penetrando a terra. A julgar pelos fortes tremores, devem ter penetrado até o núcleo.

Em seguida, ela disse, houve uma liberação de energia, algo como um sopro ou um suspiro. E nada mais. Preciso questionar o Syagrus – ou como se chama agora, Mateus – sobre isso. Por ser físico, talvez tenha algum pensamento interessante sobre a partida dos servidores.”

Assim Petúnia escreveu a respeito dos anjos da ciência. Tudo me leva a pensar que essa versão é a mais próxima da verdade. Os servidores arrasaram o ocidente, depois mergulharam para o núcleo. E como o mundo era uma coisa só, aincineração do lado ocidental levou à lenta ruína do oriente. Não se sabe o que atraiu os servidores para o centro da Terra. Eu… gosto de pensar que foi um impulso de auto-aniquilação.

Espero não ter cometido grandes erros. É exaustivo revisar textos e os ferimentos em meus olhos estão piores a cada dia; ficarei cego em breve. Isso não é de todo ruim: meu trabalho já está feito e será guardado pela minha lindinha.

Minha lindinha, meu anjinho… Temo tanto por sua vida neste mundo doente. Nos últimos dias, minha boca, cravada no lobo frontal, tem falado mais do que de costume, sussurrando mentiras terríveis sobre eu e minha neta.

Pensei que, ao término deste trabalho para as gerações futuras, eu teria me esquecido completamente daquele homem que me vendeu os comentais. Mas não esqueci. Ainda me lembro claramente de seus olhos parecendo dois pecados…

O que me consola é que, ficando cego, não terei aqueles olhos.

Não terei.

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2 comentários em “As Palavras do Poeta (Raione Pedrosa)

  1. Anorkinda Neide
    23 de novembro de 2015

    Raione! Você esteve sem escrever? Este texto é quase que uma confissão sobre essa volta às letras? Viajei? hahaha
    Vc faz falta, rapaz!
    .
    Bem, gostei muito do texto, a leitura fluiu com prazer pelas palavras, todas belas escolhas… Um texto belo, é isso que ele é!
    Claro que não compreendi profundamente… hahaha
    Mas esta fluidez, como poesia é o teu diferencial.
    Abraço!

  2. Brian Oliveira Lancaster
    17 de novembro de 2015

    Uma ficção especulativa quase cyberpunk. De fácil leitura, com termos inventados, mas fácil de compreender. Recomendo apenas revisar certas partes que insistem em rimar, e como o gênero escolhido foi outro, creio que não combinem tão bem. No geral, lembrou-me de ficções antigas da era de ouro, onde o desconhecido se aproximava do bizarro, quase sem sentido. Resgatou aquela sensação e ganha pontos por isso.

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Publicado às 15 de novembro de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .