EntreContos

Literatura que desafia.

Jornada na escuridão (Antonio Stegues Batista)

jornada

André de Alencastro Savana nasceu em Porto Alegre no ano de 1809. Com 21 anos transferiu-se para o Rio de Janeiro para estudar na Faculdade de Medicina. Voltou para Porto Alegre em 1840 para exercer a profissão de médico.

A cidade estava circundada por fortificações. Os muros começavam na margem do rio Guaíba, passavam pelo Riacho e iam até a estrada da Azenha. Desse lado havia cerca de dezenove peças de artilharia. Da Azenha o muro seguia até o quartel do Oitavo Batalhão de Caçadores e dali se estendia para o norte e findava na margem do rio, próximo ao porto da Brigadeira, com mais dezessete canhões. O portão principal ficava no início da Rua da Praia, na Praça do Portão.

André voltou a morar na casa dos pais, já falecidos, na Rua De Bragança.  Registrou o seu diploma de médico junto a Câmara Municipal de porto Alegre e foi através da Câmara, que ele foi indicado para atender o seu primeiro cliente, na Rua Formosa esquina com a Rua do Arroio. Por coincidência, o doente era Rita, filha de Manoel Figueiras, sua paixão secreta quando ele ainda fazia o curso secundário em Porto Alegre. Agora depois de dez anos, voltaria a vê-la tão de perto quanto nunca antes tivera oportunidade. Na realidade, André nunca esqueceu a moça e aquele encontro muitas vezes desejado, despertou-lhe o sentimento adormecido.

Apesar da Revolução, o armazém de Manoel Figueiras estava bem sortido. No soalho, encostado ao balcão, havia sacas de feijão, arroz e milho e sobre ele, nas extremidades, fumo em corda, velas, banha, rapadura, farinha de mandioca e sabão. Nas paredes, pendurado em ganchos, tinha martelo, foice, enxada, pá e arame farpado num canto. Nas prateleiras estavam os potes de mel, doce de batata, de abóbora, goiabada e marmelada. Havia ainda, azeite de baleia para lampiões e candeeiros, aguardente, açúcar, café e charque.

Manoel conhecia André desde quando ele ainda criança ia ao seu armazém comprar guloseimas. Ficou contente ao saber que o rapaz era médico e estava ali para tratar de sua filha enferma. Ele chamou a mucama e mandou-a acompanhar o rapaz ao quarto de Rita. A moça estava deitada na cama, atacada por um forte resfriado. Ela reconheceu-o do tempo de colégio. Quando André partiu da cidade para o Rio, ela tinha dezesseis anos, era ingênua, sonhadora. Naquela época, para ela André era apenas um rapaz acanhado que lhe lançava longos olhares. Tudo não passou de olhares e sorrisos. Rita imaginava que o seu futuro noivo seria forte, valente e romântico, como os cavaleiros das novelas medievais. Agora André aparecia ali, na sua frente, adulto, bonito, mas ainda um estranho. André receitou-lhe um xarope, recomendando-lhe que permanecesse em repouso e prometeu-lhe que voltaria no fim de semana para ver se tinha melhorado.

André estava encantado com Rita e decidiu que precisava criar coragem para cortejá-la. Antes, porém, precisava falar com o pai da moça. Passou a semana toda ensaiando as palavras que diria a Manoel. O comerciante era um homem compreensível, educado e com certeza ponderaria com civilidade o seu pedido.

Ao voltar na sexta-feira, André encontrou Rita bem-disposta, ajudando o pai no armazém. Aproveitando um momento em que ela não poderia ouvi-lo, o rapaz conversou com Manoel no outro extremo do balcão.

– É com intenções honestas e respeito ao senhor, que gostaria de falar-lhe sobre Rita.

Manoel assustou-se.

– Alguma coisa grave, doutor?

– Não! Na verdade, eu gosto muito de sua filha e gostaria de pedir-lhe permissão para cortejá-la, isso se ela não tiver pretendente, é claro.

Manoel sacudiu a cabeça.

– Não, não tem pretendente nenhum e acho que já é hora de ela de se casar e constituir família. Sabe, senhor André, eu conheci o vosso pai, um homem honrado e o senhor também é um homem de caráter e será de meu agrado tê-lo como genro. O senhor tem a minha permissão.

– Mas, será que ela vai ficar de acordo?

– Vamos tirar as dúvidas agora mesmo! Fale com ela!

Manoel chamou a filha e depois se afastou. Rita olhou para André, intrigada. O Rosto dele estava vermelho como um tomate maduro.

– Bem, eu queria lhe dizer é que, não é de hoje que sinto uma grande amizade pela senhorinha. Conversei com vosso pai e ele consentiu que eu lhe fizesse a corte. Minha intenção é ficar noivo da senhorinha, assim que isso for de seu agrado. Eu gostaria de saber se posso lhe visitar todos os fins de semana para conversarmos.

Rita ficou surpresa e ao mesmo tempo confusa. Gostava de André, mas não sabia se era amor mesmo. Lembrou-se das palavras da mãe quando lhe dava conselhos. “Procure casar com um homem trabalhador, honesto, educado e de bons sentimentos. Não importa que você não esteja apaixonada, o amor virá com o tempo. E só se case se tiver certeza de que ele a fará feliz. ”

Rita arregalou os olhos como se estivesse assustada.

– Não sei…

– Qual é a sua dúvida?

– É que… bem, não sei se vou querer me casar com o senhor…

– É para isso que vamos conversar, vamos passar algum tempo juntos para nos conhecermos melhor. É assim que os namorados fazem, conversam para se conhecerem e saberem se poderão ser felizes vivendo juntos, unidos pelos sagrados votos do matrimonio.

Rita gostou do argumento. Sorriu. André era simpático e educado.

– Então, assim está bem.

André saiu do armazém satisfeito. Estava tudo correndo como ele desejava. Passou a semana na expectativa de conversar com sua amada e talvez, pegar-lhe na mão.

Na quinta-feira seguinte ele foi ao armazém fazer algumas compras e logo que entrou, viu um rapaz segurando a mão de sua futura noiva. Ao ver André, o rapaz largou a mão da jovem, pegou um pacote, se despediu e foi embora apressado.

– Porque aquele homem estava lhe segurando a mão com tanta intimidade? Perguntou André e acrescentou: – Acho que nós temos um compromisso de noivado!

– Júlio é apenas um amigo. Respondeu Rita.

– Amigos não agem daquela forma! Retrucou André num tom de censura.

– Ora André! Mal estamos namorando e já estás com ciúme? Desse jeito não vai dar certo! Acho melhor não continuarmos!

– Está bem. Respondeu o rapaz, mudando de atitude. – Desculpe, acho que me precipitei.

– O que quer? Nós marcamos encontro para sábado!

– Sim, sei disso. Vim comprar algumas coisas que estou necessitando. Algumas velas, café e charque. E seu pai? Não está?

– Foi entregar uma encomenda e já volta.

Rita deu as compras para André. Ele ia dizer alguma coisa, mas mudou de ideia.

– Até sábado. Disse-lhe a jovem com um sorriso. André despediu-se e foi embora.

No sábado, André vestiu sua melhor roupa e dirigiu-se para o armazém. Quando chegou, encontrou Manoel acabando de fechar o estabelecimento. O vendeiro olhou para ele agitando as mãos.

– Doutor. Preciso sair para procurar Rita. Ela saiu com a mucama para ir à igreja e me disseram que elas estavam indo para as bandas da Praia do Arsenal.

– O que ela foram fazer lá?

– Provavelmente assistir o enforcamento.

– Enforcamento?!

– O senhor não sabe? Vão enforcar um assassino! Preciso procurar Rita! O senhor me acompanha?

– É claro! Vamos.

– Essa menina é sem juízo! Espero que o senhor se case com ela logo e lhe ponha freios! – Disse Manoel começando a andar. Depois mudou de tom. – Não vá pensar que quero me livrar de minha filha como se fosse malquerida, acontece que Rita é rebelde, independente e eu não consigo educá-la como se deve. A mãe dela morreu há cinco anos e nos faz muita falta. Se Januária ainda estivesse viva, talvez Rita não fosse assim tão estouvada. Ela já havia me falado que queria ir ao enforcamento e eu não permiti, é claro!

– Como uma moça como ela pode querer assistir um acontecimento tão chocante como esse?

– É para o senhor ver como Rita é. Acho que não é por gosto e sim curiosidade. No fundo minha filha tem bons sentimentos, é caridosa, gentil e muito religiosa. De qualquer maneira vou lhe dar um corretivo!

Logo depois os dois homens chegaram à Rua Da Praia. De longe avistaram uma aglomeração de pessoas no Largo do Arsenal.  Ali estavam tropas Militares, oficiais de Justiça, padres e curiosos. No centro da praça fora colocado o patíbulo e ao lado dele se postava o carrasco com a cabeça encoberta por um capuz, pronto para puxar a alavanca que abria o alçapão. O condenado, um homem de cerca de 40 anos, permanecia com as mãos amarradas, ladeado por dois soldados.

– Vai ser difícil encontrar sua filha no meio dessa gente. Disse André.

Vamos nos separar. Sugeriu Manoel. – O senhor vai pela direita eu vou pela esquerda. Voltamos a nos encontrar aqui. O murmurinho silenciou quando o oficial de Justiça começou a ler o resumo do processo de acusação contra o condenado. Preso em flagrante, por ter matado uma pessoa para roubar, o homem foi condenado à forca segundo as leis vigentes.  André seguiu rente ao rio. Ele evitou entrar no meio da multidão. Não estava disposto a fazer isso. Não se sentia bem no meio do povo. Certa vez  ainda adolescente, estava assistindo um incêndio na Rua do Ouvidor quando se viu cercado por curiosos. Com os movimentos tolhidos, sentiu-se em pânico, desesperado com falta de ar. Atirando-se contra as pessoas, conseguiu abrir caminho e sair daquele sufoco.

Ele avistou Rita e a mucama de pé sobre uma mureta na margem do rio e foi até onde elas estavam. Quando o viu, Rita mal olhou para ele.

– Senhorinha, seu pai a procura. Ele está muito bravo por teres desobedecido-lhe as ordens.

– Do meu pai eu me preocupo depois. Respondeu a jovem, com desdém. André fez um gesto.

– Como podes gostar de ver uma cena tão trágica como essa?

A mucama murmurou algo ao ouvido de Rita. Ela encolheu os ombros e voltou a encarar André.

– Cuida que sei, ainda não sou casada com o senhor para vires cá me criticar!

– Eu lhe peço como amigo, vamos embora antes que seu pai decida ser menos tolerante com essa sua travessura.

– Travessura? O senhor me considera uma criança, então?

André respirou fundo e procurou não perder a paciência. Rita mostrava ser uma pessoa teimosa.

– Eu lhe considero adulta, e acho que é corajosa, independente e obstinada.

– Obsti…o quê?

– Teimosa.

Rita virou o rosto, olhando para o patíbulo.

– Acho que não vou aceitar o senhor como meu namorado. Vou ficar aqui até o fim.

– Está bem, então diga isso a seu pai, pois ali vem ele.

Rita sobressaltou-se e desceu da mureta. Manoel aproximou-se a passos largos. Com ar severo, disse:

– Vamos embora já! Nesse momento!

Rita enrubesceu e de rosto carrancudo seguiu o pai.

– O senhor vem conosco? Perguntou Manoel para André.

– Até parte do caminho.

Quando eles começaram a se afastar, o murmúrio de vozes cessou e logo se ouviu o ruído do alçapão abrindo-se. Rita tentou olhar para trás, mas Manoel segurou-a pelo braço e obrigou-a a olhar para frente. André acompanhou-os até a esquina da Rua do Ouvidor, despediu-se e continuou caminho pela Rua Da Praia, quando ouviu alguém chamá-lo.  Parou olhando para trás. Era Rodolfo, seu amigo e colega de escola.

– Como vai André?

– Vou bem e tu?

– Cada vez melhor. Eu soube que és médico.

– Exato. Consegui o meu diploma. E tu, o que faz?

– Me formei em advocacia. Estou indo bem. Eu te vi conversando com Rita Figueiras. Tu gostavas dela desde guri, afinal, conseguiu conquistá-la?

– A moça é um potro indomável! Mas, eu vou conseguir domá-la. E, tu, casaste?

– Cuida que não!  Estou aproveitando a vida! Por falar nisso, domingo eu vou a uma carreira na Várzea, não quer me acompanhar? Assim a gente relembra os tempos de guri…

– Esse fim de semana não posso. Talvez no outro…

No sábado, à tarde, André vestiu a sua melhor roupa e saiu para visitar Rita. Seria a primeira vez que conversariam no jardim, sentados num banco, um ao lado do outro. Procuraria conversar com ela sobre o futuro. Indagaria sobre seus gostos e desejos. Havia mil coisas para dizer, principalmente revelar o seu grande amor por ela. André caminhava absorto em seus pensamentos e não percebeu que um homem o seguia furtivamente, segurando ao lado do corpo um sarrafo. Ao passar por um beco, o sujeito desferiu um golpe na cabeça dele. Desfalecendo, o sujeito puxou-o, arrastando-o para as sombras do beco.

.

Quando André recuperou os sentidos, descobriu que estava deitado num lugar úmido e escuro. Não sabia onde estava nem o que havia acontecido. A única coisa de que se lembrava era de estar indo para a casa de Rita. Achou até, que tinha perdido a visão, pois não via coisa alguma.  O ar era pesado, com cheiro de lama. Erguendo-se, estendeu as mãos ao redor. Encontrou uma parede de tijolos cheios de limo. Sentindo que pisava sobre lama, seguiu tateando a parede tentando descobrir onde estava. A parede parecia ser muito comprida. Depois de avançar alguns metros, resolveu mudar de direção. Com os braços estendidos para frente, deu duas passadas largas para o lado, até que encontrou outra parede viscosa.  Uma parede tão perto da outra? Tateando com as mãos acima da cabeça, descobriu um teto baixo e arqueado. Percebeu que estava em algum lugar fechado, talvez um túnel e era por isso que não enxergava nada. Precisava achar uma saída. Continuou caminhando rente a parede, sempre arrastando os pés para encontrar o solo firme. Por fim chegou a uma bifurcação. O túnel terminava num outro transversal. O novo túnel tinha uma inclinação para a direita. André resolveu ir para a esquerda, com esperança de encontrar uma saída. Continuando a sua penosa e apavorante jornada nas trevas, percebeu algum tempo depois que o túnel descia. Esgotado, sentou-se no chão lamacento, encostando-se a parede. Procurou lembrar-se do que tinha acontecido. Não conseguia recordar mais nada. Aquilo estava começando a afetar seus nervos. Sentia uma necessidade urgente de encontrar luz e espaço aberto. Com a nuca ainda latejando, André novamente perdeu a consciência.

Ele desperta, levanta-se e continua a tatear a parede e arrastar os pés. Finalmente depois do que pareciam ser dias, vê uma claridade distante. Aquela luz lhe dá mais animo e ele segue adiante, reunindo suas ultimas forças para alcançar o fim do túnel. Por fim chega a um emaranhado de galhos e raízes e vê do outro lado a luz do dia. Com um esforço desesperado vai abrindo caminho entre aquela vegetação podre até sair ao ar livre. Está amanhecendo. Ele avança, respirando fundo o ar fresco da manhã. A claridade do dia ofusca seus olhos. Pisa num terreno lamacento. Perdendo o equilíbrio, se segura no tronco seco de uma árvore para não cair. Erguendo o rosto, vê diante de si um riacho, um riacho de águas escuras, uma fileira de casas cinzentas na margem. Ele não se lembra do próprio nome, não sabe onde está, quem é, onde mora. Inclinando-se, vê a sua imagem refletida na água estagnada. Não reconhece a si próprio, aquele homem de rosto macilento, de cabelos desgrenhados e sujos, olhos encovados, os cantos da boca caídos com uma expressão de angustia, as roupas imundas sujas de lama. Ergue o tronco, lança um olhar ao redor. O riacho é um obstáculo e ele resolve seguir outro rumo. Atravessa o campo e chega a uma estrada que o leva para a cidade. Entra por uma rua sem calçamento e logo depois chega em frente a uma igreja. Sentando-se nos degraus da escada, recosta-se e adormece. Quando acorda o sol já vai alto. Procura raciocinar, mas as ideias são confusas. Está com fome e sede. Levanta-se e se põe a caminhar sem mesmo saber para onde. Desce um beco e ao passar em frente a uma porta aberta sente cheiro de comida. A fome e a sede o atormentam. Entra. Vê uma cozinha, um fogão com uma panela fumegante, sobre a mesa um prato com restos de comida e uma jarra com água. Ele pega a jarra e bebe. Depois se aproxima do fogão quando tropeça em alguma coisa. Olha para o chão e vê uma mulher caída de bruços sobre uma poça de sangue. Aquilo não o incomoda, a mulher morta não tem nenhum significado. Mas ele ainda tem o instinto de conservação e uma ameaça de agressão é algo que não pode ser ignorado. Um homem surge no aposento, ele vê a mulher caída no chão e ao lado dela um sujeito de mau aspecto, e logo tira suas próprias conclusões. O homem grita alguma coisa, André se assusta e foge, porém pouco depois é capturado e preso.

O chefe de policia mandou tirar o homem maltrapilho da cela para interrogá-lo. Perguntou-lhe o nome, onde morava, se tinha parentes e só o que obteve foi algumas palavras sem nexo.

– Você já viu esse homem? Perguntou o delegado ao escrivão.

– Nunca o vi. Ele não tem documentos, nada que o identifique. Talvez seja um doente mental que veio de fora da cidade para esmolar e na primeira oportunidade entrou numa casa para roubar, e ao ser surpreendido pela dona, golpeou-a com o atiçador de fogão.

Pela segunda vez, Vicentina Ferraz, a mulher que trabalhava como faxineira para André, bateu na porta da casa dele sem resultado. Conversando com o vizinho ao lado, descobriu que varias pessoas já haviam estado na casa do médico à procura de seus serviços e não o encontraram. Naquele mesmo instante Rodolfo chegou também à procura de André. Ao saber que o amigo não aparecia em casa há cinco dias, Rodolfo imaginou que talvez ele tivesse saído da cidade para atender algum doente e foi capturado pelos rebeldes.

– Mas, e se ele passou mal e estiver dentro de casa? Conjeturou, Vicentina.

– Pois é! Então, vamos arrombar a porta e dar uma olhada.

Rodolfo arrombou a porta e entrou. Mas, André não estava. A casa estava em ordem. Rodolfo resolveu ir a delegacia dar parte do desaparecimento do médico.

– Faz exatamente cinco dias que prendemos um homem sem identificação. Disse o delegado. – Vamos descer ao cárcere para que o senhor possa ver se é o seu amigo.   Rodolfo seguiu o delegado até uma cela, no porão. Através das grades, ele olhou para o homem sentado no catre. Estava de olhos fechados, recostado na parede.                                                                                                                

– É ele mesmo! Disse Rodolfo. – André, meu amigo o que aconteceu?                               

André abriu os olhos, olhou ao redor. Inclinou o rosto fincando os dedos crispados na cabeça, soltou um grito de desespero que ecoou lúgubre pela cave.                                                                                                                    

– Parece que ele está perturbado das ideias. Disse o delegado. – Está preso por que matou uma mulher. O marido encontrou-o ainda com a arma na mão, um atiçador de braseiro.                                                                                                                 

Rodolfo ficou chocado.                                                                                                          

– Custo a crer que André possa ter feito isso! Ele sempre foi um rapaz gentil, educado, incapaz de cometer uma insanidade dessas!                                                                

– Parece que perdeu o juízo. Talvez tenha sofrido uma queda, bateu a cabeça e danificou suas faculdades mentais.                                                                                        

– Quanto tempo ele vai ficar preso, doutor?                                                                                  

– Vamos levar o caso ao juiz. Provavelmente vai haver um julgamento e se ele for condenado…                                                                                                                           

O delegado evitou terminar a frase. Nem precisava, Rodolfo sabia que André poderia ser condenado à forca.

Saindo da delegacia, Rodolfo foi direto a casa de Manoel Figueiras contar-lhe o ocorrido. Rita recebeu a noticia com tristeza. Rodolfo tentou defender André como advogado, mas foi recusado. Ele então, contratou um amigo para defender o réu.

Deitado no catre da cela, André tentava fixar o pensamento nas imagens que surgiam e logo desapareciam de sua mente. Não entendia a razão pela qual estava trancado atrás das grades. Por diversas vezes tentou sair e não conseguiu. Gritou, bateu com os punhos nas grades e por fim, desistiu, caindo em apatia. Semanas se passaram até que um dia o levaram para fora da cadeia e colocaram-lhe grilhões nos punhos e tornozelos. Julgado por assassinato, André foi condenado à forca. O advogado entrou com recurso pedindo suspensão da pena por ser o réu demente, mas o pedido foi negado.

No dia da execução, Rodolfo foi à casa de Manoel.

– É hoje o dia. Disse ele consternado. – Nada mais se pode fazer.

Sentado na cadeira, Manoel sacudiu a cabeça, desapontado. Ao lado dele, Rita se mostrava triste e abatida.

– Eu não me preocupava se André gostava ou não de mim. Confesso que não me preocupava com os sentimentos dele. Na realidade eu não acreditava que ele gostava de mim!

– Ele sempre foi apaixonado pela senhorita, e pretendia desposá-la com certeza. Afirmou Rodolfo.

– Eu quero vê-lo.

Manoel ergueu o rosto e olhou para ela, surpreso.

– De jeito nenhum!

– Preciso ver ele, meu pai. Eu deveria ter ido à cadeia para vê-lo, mas não tive coragem. Preciso dizer para ele que o amo!

Manoel, abrindo as mãos, olhou para Rodolfo, perplexo. Rita atirou-se aos pés do pai, chorando.

– Me deixe ir, meu pai!

Quando chegaram na praça, já a encontraram tomada pela população. Rodolfo abriu caminho entre o povo e seguido por Manoel e Rita, postou-se em frente ao cadafalso. Ficou espantado ao ver aquele farrapo humano estático, de olhar perdido sob o laço fatídico. Rita parou ao lado de Rodolfo com uma expressão de horror. O horror se transformou num sentimento de culpa e a culpa deu lugar à decepção. André era um assassino! Mesmo assim, ela sentiu amor e piedade por ele e rezava para que um milagre ocorresse. No patíbulo, André não pensava em nada e tampouco sabia o que estava para acontecer. Via aquelas pessoas olhando para ele, sem saber a causa. Foi então que ele avistou Rita no meio da multidão e naquele momento houve um relâmpago em seu inconsciente, uma explosão de luz quando finalmente a razão rompeu as trevas de sua mente. Ele tentou falar e o que saiu de sua garganta foi um som rouco. O oficial de Justiça leu o termo de acusação e o carrasco preparou-se para colocar o laço no pescoço do condenado. Rodolfo estava espantado, incrédulo com aquela cena. Rita escondeu o rosto com as mãos e chorou no ombro do pai.

André começou a perceber o que estava acontecendo quando o laço foi colocado em seu pescoço, mas não conseguiu reagir. Naquele instante um soldado surgiu correndo e parou ao lado do delegado, sussurrando algo em seu ouvido. O carrasco desceu e postou-se ao lado da alavanca, esperando a ordem para abrir o alçapão. O chefe de Polícia conversou com o oficial de Justiça e este, mandou suspender a execução. Subindo no cadafalso, ele anunciou para a multidão que o condenado era inocente. O verdadeiro culpado pela morte de Ernestina da Silva havia sido descoberto e preso.

André foi solto. A expressão dele tinha mudado, voltou a ser um homem lúcido. Lembrava-se agora o que havia ocorrido. Estava indo para a casa de Rita, quando sentiu uma forte pancada na cabeça. Suas pernas fraquejaram e um pouco antes de perder os sentidos, viu um homem inclinado sobre ele, revistando seus bolsos em busca de dinheiro e joias. Depois disso os acontecimentos eram angustiantes, imagens e situações terríveis, como as de um pesadelo. Livre dos grilhões, ele desceu até onde estava Rita, Rodolfo e Manoel.

– Preciso de um banho. Sinto-me muito cansado.

Foi a única coisa que pensou em dizer.

Rodolfo passou um braço sobre os ombros dele.

– Você está muito debilitado. Depois de se alimentar decentemente e descansar nos conte o que te aconteceu.

Rita olhou para André e segurou-lhe a mão.

– Desculpe André, pelo meu comportamento. Vamos para minha casa, nós vamos cuidar de você…

André olhou para Manoel. O futuro sogro sacudiu a cabeça, concordando.

O rapaz suspirou aliviado, prometendo a si mesmo esquecer o pesadelo e recomeçar a vida agora ao lado de sua amada.

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4 comentários em “Jornada na escuridão (Antonio Stegues Batista)

  1. Davenir Viganon
    16 de novembro de 2015

    Eu gostei da introdução ambientando a Porto Alegre do período imperial, não é estritamente necessário mas dá um charme, não atrapalha. É um toque regional para quem conhece a cidade como eu. Como historiador então, nem se fala….

    Eu gostei da história e achei que poderia ter criado um suspense mais bacana entre a “Rita ou Rodolfo?” como possíveis assassinos se Rodolfo fosse introduzido na história antes de Rita. Mas isto é o mais puro pitaco de botequim, a história já tem dono é boa como está kkkk

    Parabéns. eu curti bastante!

  2. Fabio Baptista
    16 de novembro de 2015

    Fala, Antonio! Tudo bem?

    Eu estava gostando demais do conto, até o médico tomar a paulada na cabeça. Até ali, a história estava muito bem narrada, com personagens legais (por legais entenda-se “bem construídos”, porque a menina é chata pra cacete! kkkkk) e a coisa parecia que iria se encaminhar para uma história de traição e tal.

    Daí entrou o Rodolfo, que não agregou nada, veio o evento do ataque… e tudo desandou, todas as coisas que aconteceram para chegar ao final teatralmente feliz (comentado pelo amigo Miquéias) tornaram o desfecho muito inverossímil.

    Um começo excelente, mas infelizmente apagado pelo rumo inesperado que tomou a história.

    – Cuida que sei
    >>> Não entendi muito bem esse termo

    – Como vai André
    >>> Como vai, André

    – rente a parede
    >>> rente à parede

    – Ele desperta, levanta-se
    >>> Aqui a narrativa veio para o presente, ficou meio estranho. Percebi que as frases também ficaram mais curtas, mudando o ritmo (para pior, na minha opinião). Depois acaba voltando ao normal.

    – animo / ultimas / angustia
    >>> ânimo / últimas / angústia

    – surpreendido pela dona
    >>> “pela dona” forma uma cacofonia engraçada 😀

    – ir a delegacia
    >>> ir à delegacia

    Abraço!

    • Antonio Stegues Batista
      17 de novembro de 2015

      Coloquei a narrativa no presente de propósito, para fazer uma diferenciação na visão do leitor, colocando-o em outro tempo e espaço. “Cuida que sei”, é uma expressão arcaica cuja origem eu não sei, mas que a gente usava nos anos 50. Cuida que sei sei é a mesma coisa que; “Fique sabendo”.

  3. Miquéias Dell'Orti
    15 de novembro de 2015

    E aê Antônio!

    Olha, fazendo um balanço geral, eu gostei da sua história. Teve apenas um lance na narrativa que eu não curti:

    No começo achei um pouco cansativa a descrição dos detalhes sobre a cidade. É legal pelo fato de situar o leitor no local e época da história, mas para esse conto acho que você poderia ter empregado elementos dentro das cenas para que isso ocorresse. Quando terminei fiquei com a impressão de que as informações sobre a cidade e os detalhes sobre as acomodações foram desnecessários.

    Ah, e teve o final. Olha… isso é uma opinião muito pessoal. O conto terminou de uma forma muito “previsível”, por assim dizer. Simplesmente o cara do nada recobra a consciência, é absolvido num piscar de olhos da acusação de assassinato e a mina que o tratava como lixo num dia, no outro descobre que é apaixonada por ele. Daí pra frente, happy end e todos vão felizes para casa.

    Eu normalmente não gosto de finais assim, na verdade acho que boa parte das pessoas que leram devem ter pensado num final hiper-trágico e quando terminaram ficaram com aquela sensação de “não era isso que eu esperava”, e talvez por isso eu tenha achado tão legal =). Esse final aí foi realmente uma surpresa. Eu mesmo, da metade pro final, já estava imaginando Rita como uma psicopata sádica que escolhia moços jovens para serem acusados de assassinato e tinha um cúmplice que sequestrava os coitados e forjava a coisa toda, tudo isso para ela matar a vontade insaciável de assistir a enforcamentos por aí kkkkk.

    Enfim, a natureza humana é estranha rs.

    Parabéns pela história.

    Abrax

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Publicado às 14 de novembro de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .