EntreContos

Literatura que desafia.

Peste de uma Nova Era (Leonardo Jardim)

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Com certeza existiam lixões menos fedorentos que aquele local. Pessoas aglomerando-se umas sobre as outras em algum estado catatônico de pseudo-vida. Realizavam movimentos aleatórios, reflexos de uma vida existente apenas em seus cérebros defeituosos. E fediam, pois não tomavam banho — nem limpavam os excrementos — desde que entraram naquele transe. Vinham para cá voluntariamente e conectavam-se em um dos cordões umbilicais que se projetavam das diversas colunas. Eram esses tubos que os mantinham vivos e alimentados, mas em contrapartida, injetavam uma droga que os colocava em estado vegetativo — em um modo de economia de energia. Era isso ou morrer de fome. Existia uma forte campanha virtual visando fechar essas Colônias de Manutenção da Vida depois que fotos impactantes circularam pela hypernet, mas os políticos e tecnocratas defendiam-nas como a melhor forma de evitar morte em massa dos desamparados.

Marianne entrou na colônia escondendo o nariz com uma mecha de cabelo azul-turquesa para evitar o cheiro, mas era inútil. Procurou, observando um a um àqueles que ali se amontoavam, o único homem que poderia salvar a vida de sua irmã caçula. Nenhum obstáculo, por mais malcheiroso que fosse, ficaria entre ela e esse pequeno fio de esperança. Não era fácil reconhecer alguém naquele antro. Percorreu os vários pavimentos por horas. A iluminação fraca ajudava muito pouco e os rostos pareciam todos iguais. Para piorar, conhecia o químico que procurava apenas por fotos encontradas na undernet, uma versão ilícita da rede oficial. Mas o reconheceu assim que passou por ele no vigésimo andar: era o único naquela colônia que usava jaleco. Correu até o homem moribundo e analisou seu aspecto: estava um pouco mais limpo que a média, com uma espessa barba e sujo de suor e outras coisas piores. Um tubo reluzente de dez centímetros de diâmetro imergia por sua goela e os olhos abertos de pupilas dilatadas fitavam algum lugar desconhecido no espaço-tempo.

Analisou por alguns segundos o cordão umbilical, mas não avistou nenhum controle no tubo nem na coluna de onde ele era projetado. Por fim, decidiu puxá-lo à força. Encontrou uma resistência maior que a esperada, mas conseguiu retirar o tubo ensanguentado. Na ponta, pequenas garras de metal moviam-se em busca de um novo hospedeiro. Ela arremessou o cordão longe e agachou-se para observar o cientista, que ainda permanecia em estado vegetativo.

Arrastou o homem, desviando dos demais fetos da colônia, até a escada de emergência no exterior do edifício. Não tinha condições de arrastá-lo até o térreo — tampouco previa fazê-lo. Observou o céu encoberto e poluído da cidade e os milhares de pontos luminosos que voavam de um lado a outro a dezenas de metros acima. Acionou um comando em seu smartwatch e viu, projetada no ar à sua frente, a lista de aerotáxis próximos. Escolheu, com um gesto da mão, um modelo com piloto robótico e cabine privativa e confirmou o pagamento adiantado utilizando impressão digital. Poucos minutos mais tarde, o farol de um veículo voador os retirou da escuridão. O químico acordou e sua primeira imagem foi de Marianne envolta de luz.

— Vo-você é um an-anjo? —perguntou, com a voz rouca e afetada.

— Não, Dr. Edmundo — ela respondeu. — O anjo aqui é o senhor.

***

Marianne aguardou pacientemente o seu convidado tomar um banho quente de mais de uma hora. Uma pequena parte de sua consciência lembrou-a do racionamento de água, gás e energia que a cidade estava passando, mas ela tinha ido longe o suficiente para voltar atrás. Aquele pobre homem merecia e precisava de um ciclo completo de limpeza.

Quando saiu do smartshower, parecia outro homem. A máquina ainda se encarregou de queimar os pelos de sua barba e cortar o cabelo em estilo clássico. O aroma de lavanda contrastava com o de suor e fezes que ainda insistia em preencher o pequeno apartamento de classe média: uma sala e um banheiro acomodados em trinta metros quadrados. Sentada em uma cama de metal embutida na parede, a moça o observava com um belo sorriso no rosto. Alguns metros acima, outra cama acomodava uma criança dormindo, que gemia de dor em momentos esporádicos.

— É e-essa a su-sua irmã? – gaguejou.

— Sim, essa é a Muriel.  Ela contraiu a siliciopatia há dois anos… — A voz ficou presa em algum ponto de sua garganta. Uma gota de lágrima pingou no piso metálico.

— Vo-vocês fi-fizeram o tra-trata-mento? — perguntou. O cordão umbilical certamente havia afetado sistema nervoso do químico. O olho piscava, a boca contorcia enquanto falava e o braço movimentava-se involuntariamente.

— Sim, até semana passada. — Secou as lágrimas. — Mas não tive mais como continuar pagando. Trabalho como professora primária.

— Na-não sei se po-posso aju-ajudar.

— Claro que pode! — Ela aproximou-se alguns metros, mas ele recuou, como um animal assustado. — Você desenvolveu a cura.

Cada era tem sua própria peste, Marianne pensava. Alguns diziam que é uma forma que a natureza encontra de controle populacional, mas ela preferia acreditar que o modo leviano que os humanos costumam viver acabava por criar essas síndromes. Poucos anos após a boa notícia da cura definitiva do câncer, uma nova epidemia assolou todo o planeta. Uma doença mortal e incurável. A medicina descobriu um tratamento utilizando nanorobôs que aumentava a expectativa de vida, mas era abusivamente caro. Não existia explicação para a causa, apenas a confirmação de que, sem o tratamento, os doentes tinham poucos dias de vida — um final sofrido e extremamente doloroso.

Dr. Edmundo Góes, renomado químico da UFRJ, descobriu a causa e a cura da doença. Divulgou um artigo acadêmico na hypernet, mas nunca mais foi visto depois disso. Especulava-se que a HYPERTECH, uma colossal organização envolvida em diversas áreas de atuação, dona da patente do tratamento com nanorobôs — e da própria hypernet —, tivesse assassinado o cientista e excluído qualquer referência ao artigo na rede oficial. A história permaneceu viva apenas no submundo, mas a fórmula perdeu-se desde então. Quando percebeu que não conseguiria arcar com o tratamento de Muriel, sob seus cuidados desde a morte dos pais, Marianne recorreu à undernet. Conseguiu contatos —incertos e perigosos — e descobriu a localização do salvador de sua irmã. E agora estava com ele diante de si.

— Você ainda lembra a fórmula, doutor?

— Fo-fórmula? Ah si-sim. Le-lembro. — Contorceu a face numa careta. — Pre-preciso de um labo-laboratório.

— Para nossa sorte, — ela sorriu — eu sou tenho um bem aqui. — Estava aguardando aquela pergunta ansiosamente.

Caminhou até a parede oposta e pressionou alguns comandos em uma bancada com os mecanismos de cozinha. O mecanismo começou a girar no eixo da parede, escondendo os talheres e a máquina de cozinhar e trazendo um conjunto de vidros, tubos e maquinários de laboratório.

— Vai precisar de mais alguma coisa? — perguntou, satisfeita.

— Na-não, ‘tá tu-tudo aqui — ele respondeu, exibindo um largo sorriso torto.

***

—Terminei! — Dr. Edmundo gritou.

Marianne, que havia caído no sono enquanto o químico trabalhava, saltou da cama e observou o resultado: um vidro cônico com um líquido leitoso.

— Agora é só injetar nela um pouco disso. — Ela percebeu que os tiques nervosos tinham praticamente desaparecido.

— Como funciona, doutor?

— A siliciopatia é uma disfunção que faz com que as células acumulem silício. Normalmente o corpo processa o silício para suas atividades rotineiras, mas com essa doença, passa a juntá-lo. Pequenos fragmentos deste material começam a correr na corrente sanguínea. Em estado terminal, as esferas sílicas entopem as veias, matando o paciente. — Ele não gaguejou nenhuma vez durante a explicação didática.

— Eu li a respeito — ela comentou. — Tem gente que diz até que as corporações criaram essa doença com finalidade de obter silício de graça para os chips das máquinas. O tratamento serviria, inclusive, para colher o material com o doente ainda vivo.

— Não duvido nada. Não depois do que eu passei — ele disse, enchendo uma seringa com o líquido. — Esse composto atua na dissolução do silício, de forma que o corpo possa absorvê-lo normalmente ou expelir o excesso.

— Espera. Vou filmar, como prova de que a cura funciona — ela disse, acionando um comando do smartwatch. — Escreva a fórmula naquela parede para ficar registrado.

Ele pegou uma caneta permanente começou a desenhar a fórmula e a composição química da cura.

— Como eu ia dizendo, a siliciopatia… ahhhhh — Então torceu a face em uma careta de dor e levou as mãos à cabeça. — NÃO! Droga! Me encontraram!

— Como assim? Quem? A HYPERTECH?

— Ahhhh! — Segurava com força os ouvidos. — Precisamos sair daqui!

— Não estou entendendo, doutor. — Ela subiu na cama da irmã, que gemia de dor.

— A droga do cordão umbilical estava inibindo o localizador. Devem ter instalado quando me pegaram…

— Eles colocaram um localizador na sua cabeça!?

— Colocaram! — Entregou a injeção com a cura para a mulher e guardou um tubo de ensaio com o material no bolso.

— Por que não o pegaram na colônia? — Ela pegou a irmã no colo.

— Achavam que eu ficaria lá para sempre. Não sei há quanto tempo nos localizaram.

E naquele momento, a porta de entrada do apartamento explodiu.

— Vocês estão cercados — disse um vulto visível por baixo da fumaça. — Dr. Edmundo Góes, se entregue e ninguém será ferido.

— Vocês podem me levar, mas não toquem nelas — o químico disse, erguendo as mãos sobre a cabeça.

Quando a fumaça baixou, eles puderam observar um homem de terno verde com a marca da HYPERTECH no peito. Tinha cabelo loiro exageradamente amarelo, era baixinho e franzino. Ao seu lado, dois androides metálicos de cerca de dois metros de altura serviam de guarda-costas e portavam pistolas de grosso-calibre.

— Dessa vez não o deixaremos fugir, doutor. — Apontou um robô com o queixo. — Não vou mais te subestimar. Já estamos cansados da sua rebeldia.

— Ok, Hilton. Irei com vocês e farei o que me pedirem. — Olhou Marianne e percebeu um pequeno led vermelho piscando em seu relógio. — Vou aperfeiçoar a siliciopatia para a HYPERTECH.

— Muito bem, Dr. Góes, muito bem. Sabe que dessa vez, se não cooperar, será morto, ‘né?

Um dos androides segurou o químico pelo braço e o levou ao corredor. O tecnocrata os acompanhou.

— Destrua o apartamento e todas as possíveis provas da cura — ordenou para outro autômato. — Isso inclui essas duas mulheres.

— NÃO! — Edmundo gritou, tentando escapar inutilmente da pegada do brutamonte de aço que o conduzia pelo corredor. Hilton caminhava calmamente ao seu lado.

Enquanto aguardavam o elevador, ouviram um tiro. O tecnocrata sorriu e Edmundo chorou. Se tivesse no domínio completo de sua consciência quando saíram da colônia, nunca teria envolvido Marianne e a irmã. Ele devia ter se matado, como planejou, mas não teve coragem. Preferiu vegetar com o cordão umbilical na garganta até o fim dos tempos.

Não ouviram o segundo tiro. Hilton olhou com estranheza para o androide que segurava o cientista. Aguardaram mais alguns instantes e perceberam um baque surdo, de alguma coisa grande caindo no chão. Hilton correu de volta ao apartamento e…

BAM! Caiu sem a cabeça no chão. O androide soltou Edmundo e, de arma em punho, caminhou lentamente até a porta. O químico saltou no ombro da máquina e derramou o líquido do tubo de ensaio sobre a cabeça do robô, que parou imediatamente e tombou com os circuitos em colapso. O cientista por pouco não ficou preso em baixo do gigante robótico.

— Doutor, doutor! — Marianne surgiu com a seringa vazia em uma mão e pistola do androide na outra e abraçou Edmundo. — Seu remédio é milagroso. Ele é mortal para robôs!

— Sim, ele dissolve o silício. A gente queimou o circuito desses caras! Que bom que também teve essa ideia. — Eles gargalharam por alguns segundos. — Você filmou tudo?

— Ainda está filmando.

— Então, continue. Vamos encerrar o trabalho. — Ele correu em direção à parede e terminou de escrever a fórmula. Encheu outra seringa com a cura e injetou na pequena Muriel. Poucas horas depois, ela já se sentia bem mais disposta e sem dor.

O vídeo viralizou na undernet em segundos e as ações da HYPERTECH despencaram. Em pouco tempo, até mesmo as principais comunidades da hypernet divulgavam a boa notícia: a peste daquela era estava finalmente curada.

Pelo menos, até que outra mais terrível e mortal surgisse.

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105 comentários em “Peste de uma Nova Era (Leonardo Jardim)

  1. Karina Queiroz
    24 de setembro de 2015

    Nossa! amei a história e muito interessante!, voce é um escritor muito criativo e merece todo o reconhecimento pelo seu trabalho maravilhoso!, parabéns pelo seu trabalho!.
    ps: considere a ideia de escrever um livro!, tenho certeza que muitas pessoas iriam gostar rs

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Publicado às 8 de julho de 2015 por em Ficção Científica e marcado .