EntreContos

Literatura que desafia.

Defeito na Cama Gelada (Renan Bernardo)

Ano 1 – Dia 1

Foi difícil demais para me acostumar. Nos primeiros dias eu achei que estava louco ou sonhando. Desesperado, tentei acordar de todas as formas possíveis. Beliscões, tapas e, em um momento de extremo nervoso, até me joguei de uma pedra alta. Não acordei. Não quebrei nenhum osso também, por sorte. A queda só serviu para me deixar bem roxo. Agora, um ano depois, está tudo mais calmo. Acho que já acostumei, se é que o costume é possível neste lugar. Arranjei papel e caneta e comecei a escrever. Um passatempo agradável.

A pergunta que volta para a minha mente com mais frequência é: será que devo acordar um dos outros? Explicar que o fiz em busca de companhia? Melhor não. Foi complicado para entender o que estava acontecendo. Toda a minha vida e de todas as pessoas que eu conhecia não se passava de uma mentira. Uma simulação. A máquina onde eu fiquei adormecido, sabe-se lá por quanto tempo, tinha estragado. Uma luz vermelha piscante indicava isso. Nunca precisei de muito ensino para aprender que luzes vermelhas indicam problemas. Para corroborar com o meu pensamento, a luz das outras poucas máquinas são de um verde constante.

As outras máquinas pertencem aos outros. Pessoas que eu nunca vi na minha vida, que talvez vivessem bem longe de mim na simulação. Por exemplo, o sujeito de bigode fino na máquina mais próxima da parede. Ele parecia um francês. E se eu o acordasse? A única expressão que sei em francês é “je suis” e sempre falo “Jesus” quando a leio em voz alta. Isso seria absurdamente imoral. Acordar um francês de uma possível vida excelente – e falsa – para aquele mundo onde não havia nada, a não ser uma planície infinita e deserta. Depois, falar em português e não conseguir explicar o que estava acontecendo. Seria imoral. Cruel. Feio. Era melhor permanecer sozinho. Quem sabe outra máquina não fique ruim e eu ganhe um amigo?

Eu fico imaginando o que aconteceu com meu corpo virtual no mundo onde França e Jesus existiam. Eu lembro que estava chegando no trabalho. Dei um efusivo bom dia para meus colegas e sentei na minha cadeira. No minuto seguinte eu estava despertando neste novo mundo, achando que tinha ficado maluco ou que estava sonhando. Será que meu corpo lá simplesmente tinha parado? Será que eu tinha… morrido? Se assim for, é só aguardar uma das outras pessoas morrer para ter uma companhia. É a regra que eu quero que exista, mas não tenho a menor ideia se realmente funciona assim. Mesmo que seja esse o caso, quantos anos eu precisaria esperar?

Pelo menos eu tenho comida. Um quarto com armários de metal cheios de injeções com a palavra “alimento” estampada em diversas línguas. Demorei muito tempo para arriscar uma das seringas, mas quando a fome veio, – lembro até hoje do desespero –  cravei uma delas no meu braço sem dar a mínima para a agulha, objeto que eu odiava com todas as minhas forças na vida simulada. Quanto à água, o riacho ao lado da construção dava conta muito bem.

A meu ver, o que eu presencio hoje é a raça humana original em uma criogenia forçada com um sistema rodando em suas mentes para simular uma vida. Por algum motivo nós destruímos este nosso mundo original – que também tem uma lua e um sol, embora eu desconfie que a lua é ligeiramente maior aqui – e tivemos que escapar para as camas geladas para pelo menos sobreviver de alguma forma. Não entendo muito bem disso, eu era apenas um advogado, mas já enchi minha cabeça com séries de televisão e filmes para saber que isso faz sentido.

Vou parar por aqui para me alimentar. É bem rápido, só uma injeção. Logo volto a escrever.

 

Ano 1 – Dia 13

Certo. Passaram-se doze dias desde que escrevi a parte um. Pouco depois que me alimentei naquele dia, uma outra pessoa acordou. Mais uma vítima da luz vermelha piscante. Não era o francês de bigode fino mas, para minha sorte, uma brasileira. Uma moça de uns quarenta anos que teve bastante dificuldade em entender o que estava acontecendo – como se fosse fácil. No momento que escrevo este texto ela ainda chora e pede que Deus deixe-a voltar para casa. A parte mais difícil foi convencê-la que eu não era nenhum tipo de sequestrador ou lunático.

Confesso para você, leitor que não existe: sinto necessidade de voltar ao mundo falso.

 

Ano 1 – Dia 17

Resolvi me aventurar em um armário com livros enormes. Todos eles manuais para as camas geladas, em muitas línguas diferentes, que eu havia negligenciado por mais de um ano. Não entendo a maior parte do que está escrito, mas estou tentando desvendar a parte da manutenção. Parece que há sim uma forma de resolver problemas e, pelo que li, deveria haver um responsável, chamado de Reparador. O trabalho dele era impedir que as pessoas acordassem e realizar a frequente manutenção das camas geladas – que se chamavam câmaras criogênicas. A existência de um Reparador justifica a existência da comida em seringas mas, para onde foi essa pessoa? Pela ausência de corpos eu julgaria que ela tentou fugir para longe, devastada pelo tédio infinito de viver neste lugar enfadonho.

Com a leitura, descobri funcionalidades interessantes no painel das camas geladas – dane-se, usarei esse nome. Uma delas era o indicador de idade. O meu tinha parado em 31, embora eu já tivesse 32 pelas minhas contas. Joana tinha 42. Além desse, havia uma forma de ver o rosto da pessoa. Foi bem assustador ver um modelo 3D do meu rosto, como se alguém tivesse me criado para um videogame. E, caramba… Eu era feio.

Tentei explicar para a Sra. Joana Solimões que eu estava tentando descobrir uma forma de reparar as máquinas, mas ela estava perdida demais em pensamentos para se importar. Ela passa a maior parte de seu tempo olhando para o terreno desolado. Talvez pensando se deveria se aventurar nele. Talvez além do horizonte exista uma cidade ou alguém para acolhê-la. Se eu fosse ela, não sairia dali, onde tinha alimentação garantida por muitos e muitos anos.

 

Ano 1 – Dia 34

A cama gelada é muito mais complexa do que eu faço parecer quando escrevo sobre ela. Ela vai muito além da minha capacidade. Apesar disso, o manual é bom. Bom, não. Excelente. E um tanto quanto assustador. Ele não explica as motivações de colocarem pessoas em criogênia, mas deixa bem claro que as máquinas são suficientes para possibilitar vidas boas e duradouras a todos os usuários. Repare bem: elas possibilitam, mas não garantem. “O livre-arbítrio permanece no sistema”. Copiei isso da mesma forma que está escrito no manual. Vocês não podem ver, mas continuo boquiaberto.

No mais, consegui diálogos melhores com Joana. Ela leu um pouco do manual e já está aceitando a situação. Ela diz que está vivendo em algum seriado infantil que seu filho assistia, embora eu ache que essa vida nova não tenha nada de infantil. Agora ela me cobra diariamente um reparo das máquinas, como se eu fosse o responsável oficial por isso. Eu não me importo. Eu também me cobro diariamente. Sou o novo Reparador… Até que o nome soa bem.

 

Ano 1 – Dia 55

Descobri uma forma de voltar. A luz vermelha piscante não significa que a máquina esteja inoperável. Significa apenas que necessita ser reiniciada. Assim como o Windows no mundo falso. Fazer a comparação da cama gelada com o Windows é aterrorizante demais, mas pretendo afastar esse pensamento assim que possível.

Obrigado, Senhor, pelas pequenas funcionalidades. A função de reiniciar a cama pode ser ativada de dentro dela, ou seja, não terei um dilema com a Sra. Joana sobre quem fica para trás para ativar a cama do outro. Uma notícia bem confortante. Provavelmente eu não seria o herói a ficar para trás.

Joana me disse que odiaria ficar sozinha neste lugar, então ela aceita ser a primeira a deitar e voltar para o mundo falso. Além disso, a senhora de meia-idade, que vive em uma casa modesta na Bahia, disse que confia em mim para que eu faça tudo voltar a funcionar. “O senhor que leu este livrão aí”.

Espero que dê tudo certo.

 

Ano 1 – Dia 78

Acabo de reiniciar a cama de Joana. Estou chorando até agora, as lágrimas pingando nas folhas e manchando tudo que escrevi anteriormente. Fui ingênuo demais em acreditar que seria possível reiniciar e voltar para onde eu estava antes de acordar aqui. Para a cadeira do trabalho, para uma cama de hospital ou para a porcaria de um parque de diversões. Qualquer lugar valeria, mas o que vi após reiniciar a cama de Joana foi estarrecedor.

Primeiro, uma placa de metal moveu-se para a frente do rosto dela, impedindo que eu a visse através da pequena janela. Depois disso, a cama emitiu um barulho alto e irritante que prolongou-se por cinco dias, durante os quais o painel ficou inativo. Eu achei que tivesse dado tudo errado, mas, eventualmente, o som cessou e o painel voltou a funcionar. A placa de metal sobre o rosto de Joana, no entanto, não se moveu. Nem precisava. A face de Joana exibida no pequeno painel da cama era a de um bebê recém-nascido. A idade dela? Zero.

 

Ano 1 – Dia 79

Indeciso.

O rosto belo de minha namorada. Os pequenos atos de caridade de minha mãe. As conversas longas sobre filmes com meu pai. As piadas no trabalho. As ruas entupidas das cidades ou as praias desertas que tive a oportunidade de conhecer.

O que fazer? Viver deleitando-me nestas memórias falsas enquanto observo a horrível planície deserta deste mundo real e sem sentido? Ou apagar as memórias e recomeçar uma nova vida do zero no mundo falso?

Nunca achei que fosse ter que decidir se desejo ou não reencarnar.

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59 comentários em “Defeito na Cama Gelada (Renan Bernardo)

  1. Marcel Beliene
    11 de agosto de 2015

    Nossa… que dilema esse do final, hein? Seu conto ficou muito bom, deu para o leitor se identificar bem com o personagem. Achei legal você estruturar o texto como um diário, mantendo a coerência com relação aos dias passados. Parabéns 🙂

  2. Luan do Nascimento Corrêa
    11 de agosto de 2015

    → Avaliação Geral: 6/10

    → Criatividade: 5/10 – Ideia não muito criativa, mas foi razoavelmente desenvolvida.

    → Enredo: 6/10 – A ideia é bastante interessante, mas acho que precisaria de mais espaço para ser plenamente desenvolvida. Também senti falta de algo mais estimulante, por vezes me vi sem vontade de continuar a ler.

    → Técnica: 6/10 – Não está tão bem escrito, mas também não são criadas barreiras à compreensão.

    → Adequação ao tema: 10/10 – É um conto de ficção científica.

  3. Fábio Santos Almeida
    11 de agosto de 2015

    Adoro esse tipo de contos tipo diário. Parecem trazer mais relevância aos pensamentos do protagonista do que a mera narração em primeira pessoa. O facto de se centrarem nos medos e nos desejos em detrimento das descrições, atinge um patamar mais pessoal na história. Eu gostar, gostar =P
    Quanto ao conto, todavia, gostaria que o autor desse uma conclusão mais definida. É costume ouvir-se que “o resto da história imagina-a o leitor”, mas eu sou contra. Terminar com perguntas é sempre sinal ou de final abrupto ou de oportunidade perdida. Neste caso, fico-me pela segunda. Numa outra tentativa, se assim quiser, sugiro ao autor que dê um final mais conclusivo ao conto. Que o protagonista opte por uma opção e que viva com ela. Espero ter sido útil =P

    Bem jogado! 8D 7

  4. Wilson Barros Júnior
    11 de agosto de 2015

    O começo remete à Matrix. O conto é de fácil leitura, fluente. A adaptação para o Brasil torna o conto mais interessante ainda.O fim mistura a ciência com o misticismo, tornando o conto uma obra-prima. Parabéns.

  5. Gustavo Castro Araujo
    11 de agosto de 2015

    É evidente a inspiração em Matrix, com os leitos em que as pessoas dormem e têm uma vida imaginária. O conto, porém, inova ao trazer algumas questões existenciais interessantes. Até que ponto é válido ter consciência de que tudo não passa de ilusão? Não seremos mais felizes se estivermos alheios à verdade? Conhecimento é tortura? Apesar dessas indagações filosóficas, achei o texto um tanto travado, culpa, talvez, do limite de 2000 palavras. De todo modo, um bom conto.

    Nota: 7

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Publicado às 1 de julho de 2015 por em Ficção Científica e marcado .