EntreContos

Detox Literário.

O Ano do Gato (José Geraldo Gouvea)

Amanheceu no filme desbotado de um país exótico. Caía uma chuva fina e lenta, que arrulhava como uma distante fonte e tocava os vidros da pesada janela de madeira. Abriu os olhos bem devagar, tentando fugir daquela luz difusa que ensopava o ar, notou a lâmpada deixada acesa, sentiu-se pequeno em uma cama grande e ao se virar de lado encontrou a janela entreaberta, por onde entrava o sopro fresco da manhã. Todo o ruído da cidade parecia distante, engarrafado, amortecido.

Estava nu em uma cama desarrumada, em um quarto de paredes rústicas, adornado de tapeçaria, cujos cantos repousavam sobre colunas grossas como contrafortes de um palácio oriental antigo. Estava só e tudo se apagava em uma calmaria matinal assustadora. As gotas de chuva ainda tamborilavam na vidraça de caixilhos, parecendo ecoar no apartamento em outro gotejar mais denso e lento. Logo não era mais chuva, era um outro ruído, e a janela não tinha nada a ver com isso.

Seus primeiros pensamentos detestaram a ideia de estar ali. Amargava a boca com o gosto de bebida barata ou de outra coisa e aquela brisa pincelada lhe trazia uma sensação, ou um receio, de suave desespero.

Continuou deitado e sem coragem de escorregar para fora dos lençóis. A manhã cresceu devagar, ralentando a chuva e trazendo um burburinho de gente que passava em outras línguas pelas calçadas, gente que não parecia existir… Tudo aquilo remetia a uma ressaca que a boca seca não deixava mentir… Levantou o braço em busca do relógio, mas ele não estava lá. Foi só então que se deu conta de que estava realmente só e indefeso, metido naquele lugar alheio como um bichano preso num apartamento.

Seu primeiro instinto, então, foi o de precaver-se e fugir. Levantou da cama todo desastrado, procurando pela roupa, tropeçou nos lençóis e caiu pelo chão. O gotejar parou por um momento. Respirou com calma e estendeu o braço até um monturo de tecidos ao pé da cama. Lá achou a roupa, o relógio, a carteira e tudo o mais que pensava que deveria ter sido roubado. Revestiu-se de seu autocontrole, abotoou-se com um cuidado de aluno exemplar e só então deu pelo calendário pendente da parede. Tinha doze meses, como deve ser, mas os nomes estavam em uma língua estranha e se distribuíam em torno da figura estilizada de um gato antropomórfico em traços e trajes orientais.

Levantou-se desastrado, procurando as roupas, tropeçou nos lençóis e caiu pelo chão. Por fim achou roupa, relógio, carteira e tudo o mais que pensava que teriam roubado. Retomou o autocontrole proverbial de seus antepassados, abotoou a gola da camisa, passou o rapidamente um pente no cabelo, amarrou os sapatos e deu o primeiro passo para fora do quarto.

Lembrou do relógio: “Nove horas. Deus, tão tarde!”

                                   ***

O ônibus invadiu na cidade sem pedir licença, como um hóspede que já se acostumou com a casa e busca o próprio chá. A criançada corria em volta em permanente algazarra e a multidão se afastava como as águas do Mar Vermelho diante da buzina. Para a maioria dos transeuntes era só mais uma tarde de incômodo: logo os estranhos iam embora e a vida continuava.

Havia uma pracinha elegante no fim da rua. O ônibus estacionou nela, os turistas desceram fotografando as fachadas antigas, cobertas pela poeira de muitos invernos. Cinco tamareiras emolduravam o cenário, e logo foram convertidas em fundo para auto-retratos trocados. A praça também tinha canteiros onde haviam plantado laranjeiras mirradas que resistiam bravamente ao clima, embora dessem frutas amargas.

Os turistas desceram ressabiados, curiosos de estarem em um país que parecia contar o tempo para trás e onde tudo se parecia tanto com um filme antigo que Humphrey Bogart poderia sair de um bar envergando o sobretudo cáqui, acender o cigarro entre as mãos, numa despedida sem lágrimas, depois tomar o rumo do aeroporto em busca da guerra. Ou se poderia ver 007 derrapar o Aston Martin numa esquina, fugindo para a América com segredos russos.

Em vez disso, o que havia eram só crianças ruidosas, gente vivendo a vida leve e lenta à sombra das tamareiras e dos toldos coloridos que sombreavam as casas. Aquela gente tinha a manha de viver em cores, o turista tirava fotos de tantos sorrisos, mas não entendia. A alegria clara, essa ninguém estuda.

Logo que se viu na Plaza, pedro percebeu alguma coisa diferente, que poderia ser o cheiro de laranjas, a maresia do mar não tão distante, ou algum outro cheiro trancado na memória. Aventurou-se um pouco até a esquina, procurando alguma coisa no ar, sem saber o que era. Tinha a vaga impressão de estar refazendo passos que pisara um dia, e todo aquele burburinho evocava um dia esquecido. Até a língua, rascante e sonora, soava conhecida, uma cantiga de ninar ou barcarola ouvida em uma outra vida.

“Mas que bruxaria é esta?”

Naquele momento ainda não se chamava Pedro, ou não sabia disso. Tudo ainda tinha os nomes certos e ele nem sonhava entender todas aquelas sensações: provavelmente só o fascínio da primeira vez nas terras do meio-dia. Assustava-se, claro, com a sensação de quem reconstitui um crime e com a força de cada nova cor ou forma, cada qual criando seu “dejà vu”, mas repetia racionalmente para si que tudo era apenas uma falha de sua mente em processar tantos dados novos num instante.

Entrou em um bar de duas portas. Atrás de um balcão de madeira negra e diante de prateleiras de bebida que subiam até o teto achava-se um comerciante gordo, com uma boina escura na cabeça e um largo bigode. Pelo menos os preços eram baratos. Tirou do bolso uma nota amassada, entregou ao bigodudo e lhe apontou o anúncio de cerveja irlandesa na parede direita. O pobre cartaz estava desbotado e gasto, parecia ter uns vinte anos de parede. O homem despejou-lhe em cima o que pareceu um engarrafamento de vogais e estalos de língua e não deu indício de que fosse se mexer. Com esforço, Pedro pronunciou “cerveza” entre os dentes e aparentemente se fez entender. Ao menos foi o que o sorriso largo e desdentado lhe sugeriu.

— Una cerveza cualquiera — disse.

O bigodudo curvou-se sobre um refrigerador horizontal e extraiu dele uma lata verde-escura contendo uma pinta de cerveja preta.

— Son tres.

Acrescentou mais uma nota às duas que já repousavam no balcão e logo rompeu o lacre da lata, deliciosamente envolta em uma geada graciosa que prometia prazer.

“Vamos esquecer as bruxarias. Um brinde à velha Inglaterra!”

Virou a lata de cerveja de uma vez, algo fácil que o costume ensina. O líquido gelado já lhe deu uma alegria instantânea, antes até que o álcool surtisse algum efeito. Logo via o sol mais limpo, lembrou sem saudade da lareira crepitando no inverno e quis que o mundo acabasse numa praia, entre tonéis de stout ale e peixe frito.

                                   ***

Ela então apareceu. Não como quem emerge da multidão, e sim como uma figura que nasce do pincel veloz de um estudante. Apareceu como quem subitamente está onde nada havia, ou como quem reduz a nada tudo que houvera antes. Ela navegava pelas sombras sob os toldos segurando as dobras de um vestido branco contemplado com formas floridas e quando atravessava os raios do sol parecia abençoada por uma aura delicada, branca e leve como um véu de cascata. A sua pele tinha a limpidez de uma estátua e o seu cabelo dançava em torno de sua cabeça, com luzes azuis retintas.

Ela dominava as sombras e refulgia ao sol, dona do claro e do escuro naquela manhã. O sol, o chão, o mundo, a praça… Tudo parecia parte de uma vinheta em aquarela derramada sobre um papel em branco, e não um acontecimento. Quando ela se moveu, foi como o escorrer de tinta, que borra a imagem porque o desastroso artista deixou água demais no pincel. Teria sido bastante belo se não se mexesse nunca, se ficasse para sempre imóvel naquela inocente beleza, de seda e sol… Mas ela não saíra à rua para deleitar os olhos de Pedro, mas para comprar os legumes do almoço.

                                   ***

Um amigo o interrompeu: estavam perdendo a visita a alguma catedral. Saiu ao sol apertando os olhos e seguiu a voz familiar. A cabeça lhe ardia, e o ambiente cavernoso por dentro do templo medieval ofereceu conforto provisório para a catacumba dos seus sonhos. Era melhor que relaxasse, esquecesse as impressões e terminar o passeio intacto. Na vida há mesmo esses momentos indecisos em que balançamos ao sabor do vento. Ter caráter é resistir a isso.

Dentro do calabouço sagrado, vazado de pequenas e inúteis janelas, a sensação não o abandonou. A guia pronunciava as indicações usando um sotaque macarrônico, que não ajudava a esquecer o estranhamento que sentira na “plaza”. Faziam um percurso circular em torno das paredes e dos nichos de onde as horrendas imagens, desbotadas e atulhadas de adornos pesados, contemplavam-nos com fisionomias duras. Apenas reis e fantasmas sagrados habitavam aquelas reentrâncias escuras, era até difícil imaginar que um povo tão colorido comparecesse a tal igreja, em luminosas manhãs de domingo, para adorar tais cadáveres.

Pedro examinou a máquina fotográfica, esquecida sobre o peito, mas a megera que os guiava percebeu o movimento de seus dedos e o atalhou, com a sua voz irritantemente cantada. No se permiten fotos, señor. Não? Que horrível a ideia de levar de lembrança os feios postais que vendiam na entrada!

Por fim, enfadou-se de ver alturas escuras, vitrais escurecidos e as faces rijas dos reis e dos santos, com suas barbas de peruca e olhos de vidro. Estavam todos mortos, nenhum deles notaria sua ausência no arremedo de procissão que faziam em torno daquele mausoléu feioso.

— Preciso de ar.

— Está passando bem, Pete?

— Estou, estou, deve ser alguma coisa na água ou um tipo de alergia. Ou talvez seja só a chatice desse lugar.

— Espere-nos no adro. Não devemos demorar.

Sair daquele sepulcro de almas até pareceu um renascimento. Respirou fundo quando pisou os degraus e viu o verão queimar deliciosamente a praça. Outra aquarela toda colorida passou sorrindo, mas não aquela, e nenhuma outra servia.

A luz lhe irritou novamente os olhos, a pele formigou com os raios e o suor começou a se formar na testa. Mesmo assim saiu da sombra onde se sentira seguro e começou a imaginar por onde fora sua musa. Todas as cores de seu vestido ainda estavam marcadas com um odor antigo na memória, as formas dela apareciam como um sabor de frutas na pele, a impressão de seu cheiro lhe causava cores nas ideias.

Entrou no meio da multidão, pedindo licenças cheias de sotaque. Pela rua esquerda ao lado de uma fileira de laranjeiras. O cheiro forte e cor escura das folhas lhe pareciam algo de outro mundo. Catou uma no caminho e começou a descascar enquanto andava. Não a chuparia porque o suco amargo lhe estragaria a boca para o almoço, mas só o odor da casca já lhe atiçava o olfato, ajudava a ter a impressão de que tudo era verdade, e não um sonho depois de ler uma revista de viagens.

                                   ***

Foi por acaso, talvez perversidade do destino, que conseguiu revê-la saindo de uma peixaria, trazendo uma sacola de mariscos e um sorriso de cinema italiano. Apertando o passo para ombrear com ela, passou a imaginar o que dizer. Era uma loucura o que pretendia, e não o teria feito se fosse outro dia, mas aquele sol estrangeiro e aquele sal na brisa marinha lhe afetavam de um jeito oposto ao de Mersault…

Aproximou-se dela cauteloso, como um elefante numa loja de cristais: tropeçando na calçada e trombando nos transeuntes. A custo conseguiu tê-la ao alcance do braço, tentou tocá-la para chamar sua atenção de qualquer jeito. Não soube se conseguira, pois eram tantos corpos num espaço estrito que o braço roçado entre seus dedos poderia ser outro qualquer. Mas ela sentiu algo, talvez pelo sexto sentido feminino, e se voltou assustada, segurando a bolsa contra o peito e fechando-lhe o sorriso. Despejou um destampatório de palavras, vocálicas e cheias de agressividade. Pedro só ergueu os braços, como quem se desculpa, com as palavras ardendo nas orelhas como uma reprimenda de mãe.

A língua lhe saltou à mente com um sabor meridional e conhecido, com a impressão de uma mística antiga. De repente deu-se conta de saber, ou achar saber, algumas palavras, memórias instintivas que brotavam, incertas, tal impressões de outra encarnação em outro século, e logo apareceram em sua própria língua palavras parecidas. Usou-as logo em autodefesa, mantendo as mãos à frente do rosto, como quem se protege do sol. A mulher parou de gritar. Pedro abriu os olhos e a viu, toda imóvel, com o cenho franzido e a boca entreaberta. Um segundo depois ela já lhe dizia alguma outra coisa, agora devagar e polindo na boca cada palavra, de um jeito que ninguém de verdade fala. As impressões de Pedro pareceram ainda mais fortes. A mulher ergueu os dois braços e sorriu, deixando aparecer um dente torto, que não prejudicava nada sua beleza.

— ¡Qué guay! ¿Me entiendes? ¿Qué quieres?

A surpresa dela era tão grande quanto a sua. Mas Pedro acreditou nos poderes do sorriso e a saudou de volta com um seu, enquanto repetia, em movimentos lentos, algum gesto amplo que deveria ser amistoso. Os olhos dela seguiram as palmas de suas mãos.

— ¿Cómo te llamas, cariño?

Era Pedro. Definitivamente Pedro. Nunca se sentira tão Pedro na vida e nem tão certo de que o mundo era mesmo um lugar estranho. Ou era o seu país?

Por fim a mulher soltou os braços, num gesto de desapego, parecendo, enfim, descrer de qualquer ameaça. Não foi preciso ciência e nem uma poesia para que ela sentisse que ele estava confuso e apaixonado. Na verdade ela o sentiu antes que ele tivesse certeza. Bandeira branca, ele se rendeu quando ela lhe estendeu um braço e o puxou por entre a multidão.

Quando viraram a primeira esquina ela a puxou. Ela permitiu. Ficaram face a face pela primeira vez e ele tentou falar de novo, hesitante, duro. Ela despejou um derramamento de versículos de antigas odes, de vocábulos extraídos de odres de vinho e frases vibradas em cordas de alaúdes. Pedro não entendia tudo, mas sentia o pulso da beleza que a voz dela desprendia, perfumando a rua, o mundo, o momento todo, para calar qualquer outro odor, como o de mariscos. Quando tentou dizer o que sentia, ela levou o dedo ao lábio, trouxe o seu corpo para ainda mais perto, fazendo-o sentir nas carnes que estava seguro, e era bom estar vivo.

— No te enfades. Déjate libre, oye! Estamos en el año del gato. Nada de malo o bueno pude hacernos sufrir.

Nada de mau ou bom. Nada de sério. Ofereceu-lhe um braço, ela acatou o convite. Pegou a bolsa de compras, apesar do asco do odor marinho, e a seguiu pela cidade torta, pelas ruas curvas, pelas vielas que se enredavam e partiam como as veias de um labirinto. Foi com ela ate o sentido de orientação desistir. E que boa a sensação de se perder. A vida era bela, e estavam no ano do gato, ora que coisa!

                                   ***

No fim de uma rua de casas antigas, de paredes azulejadas e telhados vermelhos, perdida entre mercados e feiras, havia uma porta estreita que se abriu como por mágica. Dentro havia uma escuridão doce com um perfume de madeira do oriente. Pedro abraçou o escuro em um mergulho cego no oceano, sabendo que havia perigo, mas também a delícia. Deus ao Mar o Perigo e o Abismo deu, mas nele que espelhou o céu.

Ela voltou a falar. Dizia algo sobre mandalas e vidas, que desistira de planejamentos incessantes e que a vida era um rio fluido, que vai em frente entre as pedras e os montes, e que coisa boa era se deixar levar. Então Pedro sentiu no corpo um calor antigo e fechou os olhos para não ter nenhum controle ao penetrar, por fim, pela porta aberta de um delírio, pela manhã do dia primeiro do ano do gato.

— ¿En qué año naciste, cariño?

Pedro pensou um pouco. Já quase não sabia. “1987”. Ela entendeu? Deu para ver que sim. Ela levou as mãos ao rosto, gesto de quase criança surpresa, e disse que era estranho, que ele nascera, como ela, em um ano do gato.

— E isso é bom?

Ela não disse que sim e nem que não. Não existe bem ou mal, existe a vida, lenta ou lépida, e alguns seguem o ritmo do gato.

Ela lhe pediu licença, foi para a cozinha. Provavelmente usaria para uma “paella” todos aqueles mariscos e outras coisas que comprara. Na sala, Pedro se sentiu perdido entre imensas prateleiras de madeira e almofadas coloridas. As janelas estavam cerradas por cortinas densas de tecidos bordados com figuras e padrões complexos, o chão era todo coberto de tapetes grossos, tão bonitos que teve pena de pisar neles com os pés que trouxera da rua. Tirou os sapatos junto à soleira bem antes de se aventurar numa das almofadas, onde se sentou sem jeito e fechou os olhos. O apartamento tinha um cheiro forte de incenso e de patchuli e cada sombra deitada pelas cortinas e paredes era habitada por um luzir místico de cristais.

Logo ela voltou, vestindo um avental longo a ocultar pouca roupa que agora usava. Ainda não passara a sensação. O perfume do lugar tinha, talvez, o efeito de aumentar isso. As pupilas dela nadavam como duas luas novas em um entardecer nublado e ela tinha um olhar difuso como o brilho das gemas que enfeitavam as prateleiras.

— Está en el horno. ¿Has comido ya?

Não. Nunca. Nada parecido. Ela se ajoelhou entre as almofadas. Pedro viu que trocara o vestido por uma camiseta, e só. Abraçou seu corpo, anoitecendo o mundo, e a abriu para ver o que havia dentro. Queria a surpresa. Era o ano do gato, nada de mau aconteceria, e nem de bom.

                                   ***

Nove horas! Que absurdo! O ônibus se fora com os turistas e ele, sem juízo, ainda estava naquele apartamento, que à luz do segundo dia se parecia muito com milhares de outros. A mágica descera, só restava o cheiro doce de essências e a ardência inferior, que ainda amarrava a sua alma. Ainda tinha a passagem em algum lugar, ou não. Só não teve certeza ou escolha. Teria de ficar e se entender com a vida. Encarar a ressaca de um dia de sol e um vestido de seda.

Mas alguma coisa dos tambores noturnos ainda restava no peito, dando um ritmo melhor às cores mortas do dia que nascera. Seria enxaqueca, ou um resto do fascínio que não morrera?

Saiu do quarto ainda envergonhado com alguma coisa que não sabia bem o que poderia ser, ouviu um chiado de chuveiro e adivinhou que havia alguém. Era ela mesma, mas algo tão diferente do sonho parecia mudar suas cores e aromas. Talvez fosse a nudez: sem o vestido não tinha a luz da tarde a lhe servir. Em vez disso, parecia ter doze anos mais, de corpo e alma, mas conservava uma beleza que já falhava, mas ainda encantava.

Não fora impressão: fora memória. Quando ela lhe falou, ele entendeu mesmo a língua que fora sua, nesta mesma infância ou em outra antes. Não a falava, mas ainda sentia. E ela chamava para partilhar da água da banheira, que estava “blanda y tibia.”

No instante se sentiu menos menino, deixou cair as calças e arrancou de si o resto da roupa. Logo estava com ela na água e os dois riam a mesma gargalhada de quem está em casa. Ah, era isso! Ele sabia que a deixaria um dia, ou que ela em breve o faria, mas por enquanto ambos continuavam, e como queriam! Então ficava mais um dia ou dois, com a passagem escondida na carteira, esperando ser usada ou perdida, como a vida preferisse. Esticou as pernas e sentiu-se flutuar com ela. As pernas dela também apareceram fora espuma, as unhas dos pés pintadas de vermelho deram a impressão de um ramalhete murcho atirado ao rio.

— Então estamos no ano do gato…

Ela apenas lhe sorriu, disse que o sotaque era atroz e o vocabulário era o de um avô. Pedro ofendeu-se disso, mas ela calou sua culpa com um beijo depois de lhe dizer:

— Nací también en el año del gato.

……………………………………………………………………………

Inspiração: “Year of the Cat” (Ano do Gato), de Al Stewart (1976).

No horóscopo do Vietnã o gato é um animal cuja personalidade se caracteriza por um misto de indolência e resignação. Os orientais orientais que os anos do gato são de grande tranquilidade e poucas alterações (más ou boas). Os nascidos no ano do gato são pessoas que se estressam pouco, que estão dispostas a aventuras, desde que não envolvam grandes esforços, e são muito volúveis no amor. Não há nada mais frustrante, para quem não compartilha a mesma personalidade, do que se envolver com um “gato”. E não há nada de mais gratificante, para quem também nasceu felino.

O gato corresponde ao coelho do horóscopo chinês (todo ano do gato é também um ano do coelho no zodíaco chinês). A mudança de animal reflete a personalidade mais prática e analítica do povo vietnamita, que não podia aceitar que o coelho e o rato, ambos roedores sem rivalidade na natureza, pudessem ser “opostos” no zodíaco.

Para o caso de você estar curioso, os últimos anos do gato foram 1963, 1975, 1987, 1999 e 2011 (ano em que se passa esta história). O próximo será 2023. Para quem esteja curioso de saber a minha identidade, não, eu não nasci no ano do gato, mas do touro, que, aliás, é o mesmo signo que tenho no horóscopo ocidental. Mas não acredito nisso de astrologia: taurinos como eu são céticos por natureza…

“The Year of the Cat” foi o quinto trabalho de estúdio lançado pelo cantor escocês Al Stewart. Produzido por Alan Parson, teve a participação de vários membros do futuro Alan Parsons Project e é considerado obra-prima de Stewart e um dos melhores discos produzidos por Parsons (que, para fins de comparação, trabalhara antes com os Beatles e o Pink Floyd). A canção título é a que fecha o álbum.

42 comentários em “O Ano do Gato (José Geraldo Gouvea)

  1. José Geraldo Gouvêa
    5 de outubro de 2014

    Obrigado a todos que leram e comentaram. O conto já está agendado para o meu blog, com algumas das correções sugeridas, especialmente da primeira parte (as demais não liguei de fazer porque este, por causa de receios de copyright, não será um conto que eu vou divulgar muito.

  2. Fil Felix
    4 de outubro de 2014

    Gostei muito do conto, é interessante e prende o leitor. Só acho que algumas partes poderia ter sido cortadas, principalmente no início. A partir da metade pra frente que o negocio engrenou. As descrições estão ótimas e fica aquela sensação, depois de ler, de querer se entregar à casualidade, de deixar a vida te levar. De se permitir se perder.

  3. Carolina Soares
    4 de outubro de 2014

    Um conto bem escrito, detalhado e envolvente, porém um tanto longo.

  4. Alana Santiago
    4 de outubro de 2014

    Outro que fui deixando pra depois porque achei muito longo. Ainda bem que temos que comentar todos, assim fui forçada a ler de uma vez por todas… Que bom! Simplesmente gostei demais do conto, da forma como foi narrado e das personagens, apesar de confessar que não entendi muito a questão do “ano do gato”, mas isso não atrapalhou minha leitura, não fez com que eu deixasse de apreciar. Alguns errinhos, já apontados por outros, basta apenas corrigir. Parabéns! 😉

  5. Lucas Almeida
    4 de outubro de 2014

    Parabéns pelo conto, você mostrou um bom trabalho de maneira simples, o que eu admiro. Só achei que ficou muito longo. Boa sorte 😀

  6. Thiago Mendonça
    3 de outubro de 2014

    gostei do conto, mas não achei a história particularmente interessante ou cativante. foi muito bem escrito, mas faltou algo que chamasse minha atenção.

    (esse trecho foi repetido no conto)
    >>> Por fim achou roupa, relógio, carteira e tudo o mais que pensava que teriam roubado.

  7. felipeholloway2
    3 de outubro de 2014

    Muito bom. Já tinha me ganhado nas descrições pormenorizadas, mas em nenhum momento enfadonhas, do primeiro ato (o eco da goteira que produz uma segunda goteira, mais lenta: como eu sou fã desse tipo de observação!). A inserção algo insólita da estrangeira dá um toque de cinema francês à narrativa (não deve ter sido coincidência eu imaginá-la à Julie Delpy, na trilogia Before). O uso do artifício cultural como justificativa da aproximação se mostrou bem fundamentado, e me fez lembrar do primeiro parágrafo de “A loteria da babilônia”, do Borges, em que uma marca gravada na pele submete o protagonista a determinado grupo de pessoas, nas noites de lua cheia, e o torna superior a todos os demais, nessas mesmas noites.

    Gostei tanto que pretendo reler, porque o conto tem aquele aroma peculiar de que reserva nuanças aos que se dispuserem a uma segunda apreciação.

  8. Eduardo Barão
    3 de outubro de 2014

    Achei bem interessante e imersivo.

    Confesso que o começo não funcionou comigo: meus olhos se arrastaram cansados pelas descrições exageradas (penso que algumas foram até desnecessárias, visto que tramas simples geralmente casam mais com narrativas concisas) e eu me enrolei muito até chegar à metade. No entanto, quando cheguei, o conto deslanchou sem maiores problemas.

    Acho que entendi a mudança de Peter para Pedro, mas algumas coisas soaram bem estranhas. Não sei se consegui captar genuinamente toda a postura adotada pelos protagonistas e o real espírito do dito ano do gato.

    No mais, só me resta parabenizar o autor e desejar boa sorte.

  9. Fabio D'Oliveira
    3 de outubro de 2014

    Gostei do conto, em linhas gerais. Está bem escrito e gostei das descrições, mas devo concordar com alguns colegas, o tamanho assustou um pouco. Mas isso não tirou o brilho do texto, que tem uma história bem interessante. Ah, também sou de touro. Não acredito muito em astrologia. Mas esse é um assunto bem estranho, haha haha. Nunca vou me decidir!

  10. Pétrya Bischoff
    3 de outubro de 2014

    Bueno, o tamanho do conto deu-me preguiça, mas fui surpreendida, pois não o vi passar enquanto lia.
    A escrita envolve ao passo que remete uma vertigem no peito como “eu poderia vir a escrever algo assim”. E a narrativa é arrastada como a ressaca descrita, boa… Gostei, também da ambientação. Senti-me em uma cidadela em empoeirada de beira de estrada.
    A estória em si tem seu mérito mais pela maneira que é contada… Um romance vulgar entre seres, um amor vagabundo com a vida.
    Gostei um tanto, parabéns e boa sorte.

  11. Pétrya Bischoff
    3 de outubro de 2014

    Bueno, o tamanho do texto deu-me preguiça, mas fui surpreendida pois “não o vi passar” enquanto lia. A escrita remete àquela vertigem em algum lugar do peito, algo como “eu poderia ter escrito isso, ou poderia vir a escrever…” e a narrativa é arrastada -no melhor sentido-, como uma ressaca.
    Gostei da ambientação e senti-me como em uma cidadela empoeirada de beira de estrada hahah’
    A estória em si possui um fascínio singular, obviamente, pela maneira que é contada. Um romance entre seres e de um ser com o todo, um amor barato e inevitavel.
    Gostei um tanto. Parabéns e boa sorte.

  12. Edivana
    3 de outubro de 2014

    Bem, gostei da trama, gostei da explicação espirituosa sobre os taurinos (rs) e de algumas passagens, bem poéticas, bem construídas, porém (sempre há um porém), vi muitas descrições, e alguns parágrafos me fizeram ficar perdida, e isso me fez voltar a leitura, o que me atrasou um pouco, mas não prejudicou.

  13. Andre Luiz
    1 de outubro de 2014

    O conto é psicodélico mesmo que a intenção não seja esta. E este fator essencial me prendeu no texto até o final, apesar de que a narrativa foi longa demais. Não diria cansativa, porém, com uma leve reduzida, quem sabe em alguns adjetivos e tal, sem perder o rumo da obra, o conjunto se completaria. Entretanto, o conto ficou enraizado em minha mente, fazendo meus neurônios tamborilarem no córtex cerebral. O ano do gato é um período auspicioso, esperançoso, e exige uma descrição à altura. O texto deu conta de fazer isto com maestria. Parabéns!

  14. tamarapadilha
    1 de outubro de 2014

    Olá. Bom, a pontuação em alguns locais me incomodou. Nas frases iniciais podia ter utilizado o ponto final mais vezes ao invés de vírgulas. E no trecho em que você cita duas vezes o tropeçou nos lençóis e caiu no chão não ficou interessante essa repetição. Além disso como vários colegas dizem aqui pelos comentários do desafio, acho que daria para ter enxugado um pouco o seu texto. Além do mais eu não sou ligada nessa coisa de horóscopo, apesar de seu texto não ficar fazendo alusões o tempo inteiro sobre o tema.
    P.s: Sou taurina também.
    Boa sorte

  15. pisciez
    1 de outubro de 2014

    Que escrita bonita de se ver. Li do início ao fim sem me cansar. Excelente redação.

    O conto também é muito bom. As imagens são bem passadas, incluindo as vezes um tom poético que só adiciona ao clima. Gostei do personagem, gostei da narrativa amorosa e gostei do desenvolvimento do enredo. Bem legal! Parabéns!

  16. Gustavo Araujo
    29 de setembro de 2014

    Gostei muito. O amor aqui — se é que podemos chamá-lo assim — é descrito de forma madura, calejada, o que entrega que o autor provavelmente é alguém com certo tempo de rodagem (por favor não me entenda mal).

    O conto está muito bem escrito. Pude me identificar em diversas passagens, até mesmo pelas digressões de Pedro, pelos questionamentos que ele faz a si mesmo ao deparar com uma mulher bonita, uma paixão de ocasião. Não, não há magia, não há um twist, mas sim uma descrição bastante honesta e sincera de sensações que soarão familiares para aqueles que se aproximam dos 40, ou que já ultrapassaram esse marco cabalístico.

    Achei excelente a maneira como nos foi apresentada a cultura hispânica e o senso “perdido” de Pedro. Pude sentir os aromas, ouvir os habitantes praguejando. Isso é raro de acontecer num conto, essa sinestesia. Realmente, uma viagem no melhor sentido da palavra.

    Posso estar errado, mas creio que a maioria aqui não está preparada para absorver tudo o que este texto tem a dizer. A mim agradou muito. Parabéns.

  17. williansmarc
    29 de setembro de 2014

    Olá autor(a), espero que me perdoe, mas não estou preparado pra esse tipo de conto. Achei muito arrastado e com descrições em excesso, me fez divagar várias vezes durante o texto. Enfim, acredito que dependendo do seu publico alvo, o conto pode ser considerado ótimo ou cansativo, tudo depende do leitor.

    Boa sorte.

  18. Camila H.Bragança
    27 de setembro de 2014

    Estimado/a colega

    Vim por meio deste comentário discorrer acerca das impressões causadas pelo seu texto. Em verdade vos digo, vossa forma de expressar as ideias difere dos demais. A imersão onírica Impressiona, do mesmo modo que as impressões que vosso personagem sente acerca do mundo ao redor ocorre em sincronia com ao receptor/leitor. Poderia dizer que a ideia de seguir a música é a mesma do segundo texto deste desafio, no entanto, neste, o fio condutor foi mantido floreando as bordas, mas sem perder o cerne. Não pontuo erros/falhas, embora perceba, mas corroboro com as demais vozes no sentido da repetição de parágrafo –>> Levantou-se desastrado, procurando as roupas…
    Vossa obra agradou a mim.
    Saudações!

  19. José Geraldo Gouvêa
    26 de setembro de 2014

    Tava deixando esse para trás sem perceber, porque o título não me chamou a atenção. Na verdade só o percebi porque hoje, por acaso, li sobre horóscopo chinês na Wikipédia.

    O texto é bem longo, o que vai ser cansativo para muita gente, mas acredito que ele faz honestamente aquilo a que se propõe: transformar em uma narrativa de ficção as alusões da letra da música. Alguns vão achar que é falta de imaginação, outros vão dizer que é uma homenagem à música, eu fico meio sem saber o que dizer.

    Dos comentários feitos, o único com que não concordo de jeito nenhum é que a premissa do conto (um estrangeiro “pegar” a mulher quase sem falar com ela) é inverossímil. Gente, isso acontece toda hora. No mundo inteiro tem mulher oferecida. Nas fan fests da Copa o que mais tinha era mulher catando gringo a laço. Deu até na TV. O resto dos comentários eu concordo pelo menos parcialmente.

    Também achei esquisita a alternância entre Peter e Pedro, mas depois desenvolvi uma interpretação disso. Peter e Pedro são o mesmo nome, em inglês e espanhol. Então deve ter alguma coisa aí. Vou reler amanhã.

  20. Felipe Moreira
    24 de setembro de 2014

    Um bom texto. Muito bem escrito e muito bem descrito. A narrativa tem o seu próprio curso, consciente do desfecho, sem medo ou pressa do que está por vir. O conto não é longo, apenas denso o bastante como se demandasse mais tempo de leitura.

    Achei seu conto acima da média. Parabéns e boa sorte.

  21. Swylmar Ferreira
    24 de setembro de 2014

    A Narrativa é boa, mas demorei a visualizar a trama e os dois personagens. Achei muito descritivo e introspectivo. O final foi o esperado.
    Boa sorte!

  22. rsollberg
    22 de setembro de 2014

    Um ótimo texto, mas que demanda muita paciência do leitor.
    É um conto para se ler com calma e refletir bastante sobre cada parágrafo.
    Tem um estilo próprio e construções de frase fantásticas.

    Para ser sincero, li em voz alta, pois isso facilita minha concentração e ajuda na minha compreensão.

    Sem sombra de dúvidas é um trabalho muito bem feito.
    Apreciei bastante a nota de rodapé, que me poupou de algumas pesquisas no Google. rs

    Parabéns e boa sorte no desafio.

  23. Thata Pereira
    22 de setembro de 2014

    Conto curioso. Não acho os acontecimentos dele improváveis, mas ele mostrava, durante a minha leitura, ser algo além do que parecia. Eu me indagava qual seria a música e realmente não conheço. Achei o conto interessante, inclusive as falas estrangeiras que me fizeram aceitar a história como algo “real”. Curioso. O final explicativo não me incomodou e até achei interessante. Realmente, havia algo além da música.

    Boa sorte!!

  24. Davi Mayer
    21 de setembro de 2014

    O que gostei:
    Das narrativas, da literalidade do conto, das construções das frases, numa misturas de sensações com descrições.

    O que não gostei:
    Não foi bem o fato de ser um texto longo, mas uma história sem muito sentido. Como um cara consegue agarrar uma estrangeira sem mal trocarem um papo? Ela acaba de conhecer o cara e já a leva para casa e cama? Ficou sem sentido isso.

    Outra coisa que não gostei foi muita descrição, poucos diálogos, muitas descrições e sensações, e pouca ação, fatos narrados.

    O que pode ser melhorado:
    A parte literária é boa, mas a questão da história deixou a desejar. No primeiro parágrafo, poderia ter separado em pontos, e não em virgulas. Existem alguns deslizes quanto a virgula, ponto, uma hora o nome do cara é pedro, outra Pedro, e uma outra Peter… não sei se foi intenção do autor, mas ficou estranho.

  25. Angélica Vianna
    20 de setembro de 2014

    Apesar do conto ser bem longo, não vi nenhum problema no decorrer da leitura, gostei da descrição dos locais mesmo a narração sendo muito lenta.Sua descrição ao final ajudou bastante. Boa sorte!

  26. José Leonardo
    20 de setembro de 2014

    Olá, autor(a).

    É um texto muito bem escrito; o autor tem imenso domínio da palavra. Este e “As velhas opiniões” estão quase no mesmo nível de excelência quanto à carga de qualidade, de belas construções frasais, das comparações bem boladas. Não achei o texto extenso ou curto — é do tamanho certo e a narrativa não deixa pontas soltas. Creio que há muito profissionalismo aqui, alguém que não é o que nós chamamos (às vezes equivocadamente) de escritor amador. Mais: dos textos de qualidade deste certame, é o que mais se encaixa na definição de “conto” a meu ver.

    No entanto, não me vi capturado pelo enredo. O texto é tão bem escrito que achei a temática simples, trivial demais (gostaria de ler essa grande escrita em algo mais “elevado”, impactante ou inovador). Os pincéis estão aqui, a qualidade do pintor também, mas o tema da pintura está aquém (mera opinião minha).
    A visita à catedral demonstrou certo “desprezo” do narrador-onisciente pelo “Sagrado” (nem cito o termo num viés religioso — uma catedral unicamente como monumento histórico, para mim, pode ser sagrada no sentido de inviolabilidade e respeito). Não gostei nem um pouco disso. Tal desdém caberia, sim, mas partindo dos personagens; isso destoa num narrador não-participante do enredo (mais uma vez, opinião minha).
    Para finalizar: se alguém gosta de criar imagens na mente enquanto lê, não aconselho pesquisar a letra da música antes da leitura do conto (eu não a conhecia, e sei que, para fins avaliativos deste desafio, alguns gostam de ver a música antes do texto). Ainda que a música só tenha sido revelada ao final, percebo aqui uma quase transcrição (logo, literal) da canção. Creio que o autor poderia ter se baseado ou se inspirado, e não ter “recontado” a música (a criatividade sobrou na escrita em si e faltou à elaboração do enredo, penso, por ele ter ficado muito preso a “Year of the cat”).

    Boa sorte.

  27. mhs1971
    18 de setembro de 2014

    Este é um dos poucos textos de qualidade literária elevada que vejo por aqui, com uma pretensão própria que não nos chateia em empurrar algo literário de difícil digestão. Foi de leitura de fluidez boa, talvez ligeiramente longo que o habitual dos participantes daqui. Não encontrei nenhum erro que o desabonasse gramaticamente. A leitura dele fez remeter a um filme de Fellini, carregado de poética rara. Achei interessante a explicação sobre o ano do gato, que aliou ao fato de que é baseado em uma música que simplesmente adoro. Parabéns.

  28. Rogério Moraes Sikora
    18 de setembro de 2014

    O texto está bem escrito. A descrição das cenas é muito bem realizada. Narrativa densa e muito inteligente. Por outro lado, me parece que o texto é muito longo, o que torna a leitura um pouco cansativa. Mas, é um belo trabalho. Parabéns!

  29. fmoline
    16 de setembro de 2014

    Olá,

    Antes de tudo, parabén pelo texto.
    Autor(a), você escreve muito bem e ilustra as cenas melhor ainda. Contudo, alguma coisa me desagradou, não sei, acho que ficou meio longo e, por isso, cansativo. Acho que o motivo disso foi eu não conhecer a música. (Tentar pesquisa-la e reler…)

    Boa sorte.

  30. Claudia Roberta Angst
    15 de setembro de 2014

    Não sei porque, mas fui deixando a leitura deste conto para depois. Pois bem, o depois chegou e pude apreciar a narrativa densa e cadenciada. Ao contrário do colega FB, eu aprecio e adoto o estilo. Boa escolha de palavras e sensações. um pouco longo, o que pode cansar alguns leitores. Não sou do ano do gato, mas do dragão, então talvez não tenha compreendido todas as sutilezas do texto. Imagens bonitas, poucos erros e uma vontade enorme de marcar suas iniciais em cada sílaba. Boa sorte!

  31. Andréa Berger
    14 de setembro de 2014

    Mais um bom conto. Imersivo, não me dei conta de que estava tão dentro da história até o final, parabéns por isso. Acho que teve uma repetição de parágrafos no início, e isso me confundiu um pouco no começo. Aliás, seu texto me deixou um pouco com aquela sensação de cabeça zonza depois de umas taças de vinho, mas nesse caso foi uma ótima sensação. Gostei do cenário e das personagens nessa vibe “venha o que vier”. Enfim, é uma ótima história.
    Um abraço e boa sorte.

  32. Leandro Cefali
    14 de setembro de 2014

    O conto ficou bom, rico de detalhes, mas achei um pouco cansativo…

  33. Anorkinda Neide
    14 de setembro de 2014

    uau! essa música é show! clássica, linda!

    vc trabalhou bem a letra, acrescendo a ela os detalhes, fechando uma história.. mas.. lá vem o mas…
    ficou cansativo.
    não consegui saber onde estavam pensei em algum lugar do oriente, como a índia.. e qd começaram a falar espanhol, foi uma sensação estranha! srsrs

    achei a moça pouco desenvolvida, meio nonsense as atitudes dela.. percebi q isto assim, está na letra da musica, mas ficou ainda alguma coisa no ar.. embora o texto seja tao detalhista que chega a cansar, ainda assim, parece q ficou muita coisa por dizer.
    lembrei agora de meu ex-marido… fala muito mas ao final percebe-se que ele não disse nada.

    bem, é isso.
    Boa sorte!

  34. Brian Oliveira Lancaster
    12 de setembro de 2014

    Gostei do tom, mas achei um tanto estranha a troca de estilo depois da primeira parte. O jogo de palavras é ótimo, junto com o lúdico. E o mundo sempre se dividiu em dois: os que gostam de cães e os que gostam de gatos – suas personalidades são bem distintas, faça o teste. A história me passou certo ar de anime com gatos falantes, garotos estúpidos e mulheres inalcançáveis – essa sensação descreve bem o que senti lendo. As imagens fluíram muito bem.

  35. Fabio Baptista
    11 de setembro de 2014

    ====== ANÁLISE TÉCNICA

    A escrita é muito boa, tem um estilo bem marcante, com algumas passagens realmente belas.
    Mas o ritmo cadenciado não me conquistou totalmente.

    – passou o rapidamente um pente no cabelo
    >>> Sobrou um “o”

    – O ônibus invadiu na cidade sem pedir licença
    >>> Invadiu “a” cidade

    – Por fim a mulher (…)
    >>> Tem muitos “ele” e “ela” nesse parágrafo

    – esquina ela a puxou
    >>> ele a puxou

    – ela tinha
    >>> cacofonia

    ====== ANÁLISE DA TRAMA

    Por algumas vezes me senti um pouco perdido nas mudanças de “capítulo”.

    Foi uma história bastante simples, porém contada com muitos floreios que tornaram a leitura um pouco cansativa em alguns pontos.

    ====== SUGESTÕES

    Tentaria enxugar um pouco o texto.

    ====== AVALIAÇÃO

    Técnica: ****
    Trama: ***
    Impacto: ***

  36. Lucimar Simon
    11 de setembro de 2014

    Muito bem elaborado, amarradinho do começo ao fim. Vejo uma disputa acirrada entre ótimos contos. Sua construção teve grande êxito. bem explorado o tema, coerência, desenvolvimento perfeito. Como apontei no anterior, outro conto longo, mas também o tamanho não prejudicou sua narrativa. Poderíamos propor para o próximo uma redução no número de palavras. Para mim não me importo com as construções e correções gramaticais, gosto dos temas, das reflexões que os textos propõem. Esse deixa claro o seu objetivo. Parabéns. Boa sorte.

  37. Gabriela Correa
    11 de setembro de 2014

    De fato, sua escrita é sensível, bem trabalhada no sentido poético. Com esse foco, seu texto tende (naturalmente) à pouca ação, o que pode incomodar alguns leitores. A mim, particularmente, não incomoda. Acho bem fluido, tocante até. “Ela não disse que sim e nem que não. Não existe bem ou mal, existe a vida, lenta ou lépida, e alguns seguem o ritmo do gato.” Achei uma frase tão bonita, delicada… Seu trabalho com a ambientação também foi muito bom.
    Parabéns e boa sorte! 🙂

  38. Rubem Cabral
    11 de setembro de 2014

    Olá.

    Olha, poucas vezes li algo tão imersivo, tão recheado de sensações, parabéns por sua capacidade de descrever tão bem!

    Senti-me meio de ressaca, passeando por uma paisagem difusa ao ler, com sentimento de estar perdido.

    Pequenos erros: vi um trecho aparentemente repetido (ou foi dejà vu?) quando o Pedro se levanta, há uma troca de “ele” por “ela” em “Quando viraram a primeira esquina ela a puxou. Ela permitiu.”, na frase em espanhol, o verbo ficaria melhor no presente: “Nada de malo o bueno puede hacernos sufrir.”, há um “pedro” escrito em minúsculas também.

    A trama é estranha, mas inebria. Não me localizei bem geograficamente também: tive a impressão que era o Marrocos, depois ao ver as pessoas falando em espanhol, julguei (pelas tamareiras e laranjeiras), que fosse sul da Espanha.

    Enfim, achei muito diferente, e gostei bastante. Foi uma boa viagem sem sair da cadeira, rs.

  39. mariasantino1
    11 de setembro de 2014

    “cauteloso, como um elefante numa loja de cristais” Insólito! Muito bom!

    Gostei bastante desse conto e das informações no final (ainda com senso de humor e tals). Me vi sentada e vendo as cenas, pois achei seu texto bem visual (isso pra mim também é bom). Os dois personagens centrais me cativaram, gostei tanto da mulher quanto do narrador e adorei a narrativa. Só o uso do espanhol é que me foi estranho, não digo ruim, pois gostei deveras, mas soou estranho. A passagem do fim: Nasci no ano do gato. É boa, haha! Eu ri disso.

    Parabéns pelo conto e boa ambientação. Boa sorte 😀

  40. JC Lemos
    10 de setembro de 2014

    Hey, beleza?

    Um bom conto, que me cansou em alguns momentos, mas em outros me manteve bem ligado. Fiquei tentando imaginar o local. Muitos passaram pela cabeça, menos o certo. haha

    É só impressão minha, ou houve repetição do parágrafo onde ele levanta, se abotoa e tudo mais?

    Sobre o texto; ele é rápido, tem umas belas descrições, como a primeira vez em que ele vê a mulher, por exemplo. Achei que ficou um pouco morno por falta da ação, mas inserir uma “ação” sem pé nem cabeça não acrescentaria nada no texto. O risco mesmo é questão do gosto. Vi umas palavrinhas trocadas por ali, mas não creio que prejudique o foco da história.

    É um bom conto(mais um afinado), e gostei da explicação final, deixou tudo mais claro.

    Parabéns e boa sorte! 😀

  41. Lucas Rezende
    10 de setembro de 2014

    Vamos lá,
    A história está bem escrita, descrições detalhadas e vivas. Mas ficou longo demais, me cansei cedo, ficou massante. Esta é uma opinião própria, gosto de mais ação, acontecimentos. No mais, é uma bela história apesar de não fazer o meu estilo.
    Boa sorte 😉

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Informação

Publicado às 10 de setembro de 2014 por em Música e marcado .